21 novembro 2009

Dê uma olhada: Kaspar Hauser

Terminei de ler o romance Kaspar Hauser, de Jacob Wassermann. Minhas impressões sobre o livro acabam de ser publicadas no Tamos Lendo. Boa leitura!

20 novembro 2009

Adendo ao post anterior

Muita gente (que não entende o conservadorismo, diga-se) pode ter estranhado meu último post. “Ela defende o capitalismo e está dizendo que a segurança financeira não tem tanta importância?” Pois é, meus amados leitores. Para mim, não tem mesmo. Defendo, sim, o capitalismo como o melhor sistema inventado pelo homem até hoje, o único que garante a liberdade individual. É o melhor possível em um mundo caído, acredito. Porém, jamais endossarei o espírito materialista que se apropriou do presente século. A diferença fundamental é a seguinte: o pecado, no capitalismo, está circunscrito à escolha individual; no socialismo, todo mundo é forçado a pecar os mesmos pecados. Assim, no capitalismo, o materialismo é opcional; no socialismo, é obrigatório, religião do Estado (logo, de todos). Podemos nos abster da cobiça no capitalismo; no socialismo, ela é o motor de quem faz a revolução. E daí por diante.

16 novembro 2009

Segurança

Alguns anos atrás, sempre que eu lia Mateus 6.25-34, não podia esconder de mim mesma uma certa indignação. Sem ousar confessá-la diretamente, sentia que, contrariada, questionava a Deus: Como deixar de me preocupar com os bens mais básicos, comida e roupa? Como simplesmente dar de ombros em relação à sobrevivência no dia-a-dia?

Quando me mudei do Rio para Niterói (sim, faz tempo que queria sair de lá, e fui saindo aos poucos), lembro-me de ter pedido a Deus por um emprego. Há anos como autônoma, queria sentir o gostinho do salário fixo. Deus me atendeu, certamente com o fim de transmutar meu pedido em um período de grandes lições para mim. Pois, fiada na certeza da soma mensal, os cinco anos que passei no último emprego foram a época em que mais estraguei minha vida financeira, consumindo além do que devia e depois roendo os dedos de terror a cada virada de mês. Finalmente tive de reconhecer que O desobedecia, desrespeitando os limites do que ganhava e revoltando-me com uma situação que eu mesma havia criado ao tomar decisões ruins: morar longe da família, dos amigos e do trabalho, gastar demais no cotidiano e submeter-me, por tudo isso, a constantes preocupações com dinheiro.

Ainda fico espantada ao constatar como Deus me trouxe devagarinho para a segurança Nele.

Hoje, por minha escolha, sou só autônoma. Faço meu tempo, atenta ao fluxo de meus trabalhos. Ainda não consigo guardar uma parte significativa do que ganho, mas – graças a Deus – sobra um pouquinho a cada mês. E, mais importante de tudo, sempre que me ocorrem considerações sobre se poderei ou não ficar tranquila antes na virada do prazo para as contas, é como se Deus logo me mostrasse em letras vermelhas o significado dos versículos que antes me incomodavam tanto, assinalando com força o quanto Ele não quer que eu me preocupe com isso. Obedeço então, abandonando esse sentimento, e Ele tem sido sempre fiel.

Não estou dizendo que todo cristão deveria se abster de um emprego fixo. Longe de mim! Apenas isto: saiba que a real segurança está no Senhor. Saiba de verdade, e não abra mão dessa certeza. Assim, se em nome da segurança que o mundo oferece você está infeliz no trabalho, passa pouco tempo com a família e sente que não está utilizando todo o potencial e os dons recebidos de Deus, coloque todo medo de mudanças nas mãos Daquele que quer um cotidiano bom para seus filhos, feito de liberdade. Às vezes serão necessários alguns sacrifícios – uma vida mais simples, sem grandes luxos, ou uma fase mais “apertada”. Porém, nenhum desse sacrifícios será tão custoso para a alma quanto os que fazemos, muitas vezes sem pensar, no altar de Mamom.

05 novembro 2009

Indicações quentinhas e vale a pena ler de novo

Enquanto estou às voltas com minha tradução e algumas outras tarefas que tomam tempo (mas preparando um post quentinho para ir à mesa semana que vem, não se preocupe), não deixe de conferir o último post do blog do meu namorado, André Venâncio, e o nosso blog Tamos Lendo. Tem muita coisa boa lá!

E aproveite para dar um não bem redondo ao Projeto de Lei 122/2006 da Homofobia (que deveria se chamar Heterofobia), clicando na página do Senado Federal aqui e respondendo à enquete na barra lateral direita. A dica é do precioso Tempora. Se tiver dúvidas sobre esse não, dê uma olhada no que escrevi sobre isso aqui, aqui e aqui. Pois é, o blog já está velho, né? :-)

Ah, imprescindível dizer que nem todo gay aprova esse projeto maluco. Dê uma olhadinha também aqui, onde há informações importantes sobre os países onde realmente os homossexuais são perseguidos, como Irã e, sim, Cuba, o querido paraíso dos esquerdistas brasileiros... Cuidado ao rolar o blog, há fotos um pouco fortes - que aliás dizem o que interessa: aquilo, sim, é perseguição, não essa bobagem light que temos no Brasil.

Prometo que semana que vem volto com a corda toda. Abraços!

22 outubro 2009

Orem pela Venezuela

Se eu não fosse cristã, e se ainda por cima cultivasse o hábito das superstições, certamente veria algum laço nefasto entre a aparição simbólica de Fidel Castro no post anterior e a aterrorizante notícia dada por Graça Salgueiro no blog Notalatina hoje, e que pode ser resumida na seguinte frase: Chávez desfere poderoso golpe na propriedade privada venezuelana.

O jornal El Caraboleño deu a "versão oficial" (leia-se: em novilíngua) da resolução. O resumo da coisa é o seguinte: sob o pretexto de "preservação", Chávez declarou patrimônio cultural um número gigantesco de construções em Caracas. Casas particulares também! Veja a lista:

Autopistas, avenidas, ríos, árboles, sitios arqueológicos, parques, haciendas, edificios públicos y privados, casas, colegios, plazas, museos, iglesias, teatros, estaciones de metro, cementerios, entre otros.
 
E o que significa isto? Significa que o pobre coitado do venezuelano proprietário de qualquer uma dessas construções NÃO PODERÁ vender, doar, herdar ou fazer QUALQUER COISA com seus bens sem uma AUTORIZAÇÃO do Instituto do Patrimônio Cultural.

Que golpe de mestre na propriedade privada! Resta saber o que o povo venezuelano fará para deter essa marcha inexorável para o comunismo.

Leiam toda a matéria no Notalatina, orem pelos venezuelanos e não deixem de lamentar publicamente a postura de alguns líderes evangélicos do Brasil que deram seu apoio ao tirano. Minha indignação se exprimirá aqui por meio de uma sofrida interrogação:  

Até quando grande parte dos cristãos protestantes brasileiros estará do lado da monstruosa e sangrenta utopia comunista, em vez de tomar o partido da liberdade?

18 outubro 2009

O que é bom para Fidel...

Apesar de carioca — ou justamente por isso, hehe — , não fiquei muito comovida com a escolha do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016. Li pela web as opiniões de alguns eternos esperançosos, que vislumbram na decisão uma oportunidade incrível de progressos para a cidade, mas eu vejo o que sempre vi nos meus trinta anos de moradora do Rio: maquiagens sem fim no panorama das favelas maiores, ocupação militar nas ruas para coibir os marginais e quase que só isso. Depois, volta tudo ao “normal”. Claro, uma parcela da população vai investir ou trabalhar no evento, e com isso um certo up no seu rico dinheirinho será inevitável. Mas isso se verificará significativamente bom para a cidade como um todo e por um tempo razoável? Sem que se mexa no principal, a criminalidade envolvida no tráfico de drogas? No creo, no creo... Comemorar o fato me soa, mais ou menos, como alegrar-se pelo novo show de fogos de artifício em um navio que já começou a afundar (do qual me evadi antes que fosse tarde demais).

A notícia de ontem — bandidos derrubam helicóptero da polícia militar, caramba! — parece apenas reforçar que é preciso passar da miopia otimista para um plano de ação efetivo e duradouro.

E, como se não bastasse, li no ótimo blog Traduzindo para o juridiquês mais uma razão para torcer o nariz para o otimismo olímpico (nos dois sentidos) dos cariocas:

Fidel Castro escreveu no Granma - aquele jornal oficial apropriadamente utilizado pelos cubanos como substituto do papel higiênico - que a escolha do Rio para os jogos olímpicos de 2016 significou o "triunfo do Terceiro Mundo".

Definitivamente, o que é bom para Fidel é ruim para o Brasil, não é? Só isso já me tira a vontade de participar da euforia geral por esse duvidoso triunfo do Terceiro Mundo! Porém, não custa sonhar um pouquinho. Quem sabe os frutos dessas Olimpíadas não se limitarão às conhecidas macaquices plásticas em alguns cartões postais do Rio. Se o dinheiro aplicado na cidade puder ajudar para reabilitá-la do crime, maravilha! Mas eu penso mesmo é em outra coisa: apesar do que aconteceu àqueles pobres pugilistas deportados em 2007, desejo do fundo da alma que alguns atletas cubanos consigam escapar para sempre da ilha-cárcere durante os jogos — sem deportação!

15 outubro 2009

Não quero apagar da memória...

Não quero apagar da memória o lugar de onde eu vim. Apesar de saber que Deus já se esqueceu de todos os meus pecados antigos e recentes, quero de vez em quando recordar aquela outra criatura, que não sou mais, apenas para afirmar ainda uma vez que meu novo eu não foi uma escalada, um construto, um desprendimento, um aprendizado, uma sensatez súbita e definitiva – mas sim o débil objeto da misericórdia do Senhor.

12 outubro 2009

Tamos lendo!

Eu e André Venâncio criamos um blog chamado Tamos lendo! - assim mesmo, bem informal - para escrever especialmente sobre nossas leituras. Vai ter de tudo: teologia, conservadorismo, física, romance policial, poesia... enfim, tudo o que tamos lendo! Fique de olho! ;-)

10 outubro 2009

Resposta a um comentário não publicado II

Diante do que foi dito no post anterior, vejamos o que a Bíblia afirma sobre os pecados que você, Deborah, deixou de mencionar em sua mensagem: “Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia” (Gl 5.19). Outra versão (Almeida Corrigida e Revisada Fiel) divide o primeiro termo grego, porneia, em adultério e prostituição. Consultando mais alguns comentários e o Catecismo Maior de Westminster, descubro que a linguagem da Bíblia (logo, a mentalidade da época de Jesus) não faz diferença entre adultério e prostituição, ou fornicação, segundo demais versões. Enquanto você condena o adultério apenas quando não consentido pelos cônjuges, a Bíblia é muito mais abrangente.

Consultei pelo menos nove bíblias em linguagens diversas, incluindo mais dois idiomas que domino (inglês e francês), e as traduções diferem muito pouco entre si. Os termos são intercambiáveis: o primeiro, porneia, pode ser prostituição, fornicação, adultério, perversão, libertinagem; o segundo, akatharsia, foi traduzido por impureza (definido por John Stott como comportamento sexual anormal); e o terceiro é aselgeia, lascívia, dissolução, desregramento. Em suma, é justo o “sexo solto” que é condenado como obra da carne, portanto, um dos maus frutos do pecado que habita em nós. Seja em atos, em palavras ou em pensamentos.

Quanto à masturbação, torna-se evidente que é um dos aspectos da lascívia. Dificilmente há masturbação sem a ajuda de imagens mentais lascivas; ainda que houvesse, a dissociação entre o prazer e o amor é própria à impureza. Você se refere à manipulação inconsciente do feto ou do bebê, mas entenda que nenhum adulto se masturba assim, não é? Quando recorremos a imagens mentais para nos satisfazer sexualmente, estamos dizendo a nós mesmos que não podemos alcançar essa satisfação sozinhos, mas preferimos companhias imaginárias que simbolizam relações superficiais, apenas para um prazer físico imediato. E esse procedimento cava dentro de nós um abismo sem fim, pois não podemos distanciar nossa alma do hábito de nossos pensamentos. Posso dizer portanto sem medo de errar que a masturbação é uma espécie de preparação da alma para as relações sexuais sem amor.

Compreendo que afirmar isto é loucura em nossa época fragmentada, em que não só perdemos toda noção do quanto pensamentos, palavras e ações são um todo em cada um de nós, mas sobretudo deixamos de enxergar os pecados sexuais como fragmentadores (nisso, o termo “dissolução” fala por si) – algo que alguns séculos atrás, em sociedades profundamente influenciadas pelo cristianismo, era tão óbvio que não demandava explicações copiosas. Calvino, por exemplo, sempre tão prolixo em tudo o que escreve, não dedica mais de poucas linhas descritivas a esses pecados em seu comentário sobre Gálatas, adicionando-lhes porém uma valiosa observação: “São pecados proibidos pelo sétimo mandamento.”

Qual o sétimo mandamento? “Não adulterarás”, justamente! Ao compreender a Bíblia dessa forma, Calvino imita o procedimento do próprio Cristo, que em seu Sermão do Monte mostrou aos discípulos que a Lei de Deus está muito além de preceitos exteriores.

Diante da enumeração desses quatro pecados como “obras da carne” (“carne”, aqui, não em sentido literal, mas em oposição aos “frutos do Espírito”), é impossível deixar de notar que o sexo sem amor é condenado na Bíblia. Mas esse “amor” não é o laço frouxo do “namoro” (algo que sequer existia nos tempos bíblicos), e sim o amor verdadeiro, profundo e indissolúvel, apenas presente no compromisso matrimonial. Deus criou o sexo para, além da procriação, aprofundar o amor conjugal – amor que não abandona (Jesus o proíbe), mas cuida do outro por inteiro, corpo e espírito, até a morte.

Adão reconheceu em Eva “carne de sua carne”, um só corpo. Nessa monstruosidade que o pecado inventou, o “sexo casual”, não há como reconhecer o outro como si mesmo. Não há como reconhecer nada além do próprio prazer físico. Os corpos no sexo casual são desconectados e fragmentados. Longe de serem apenas pura busca de prazer sem maiores consequências, cada um dos pecados sexuais mencionados nas Escrituras aponta para a mesma atitude interior: o afrouxamento dos laços do amor. É por isso que eles são elencados junto com os demais na lista do apóstolo Paulo: “...idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gl 5.20-21).

Como você, Deborah, disse em sua mensagem, “o sexo é uma energia muito poderosa”. Concordo: por isso, é destrutivo sem as amarras do amor profundo e responsável. Aprendi tanto na Bíblia quanto na vida (porque me converti aos 24 anos) que sexo entre solteiros é desgosto (ainda que oculto ou inconsciente) pelo amor verdadeiro. Ter sexo com alguém a quem não se ama (e quem ama casa!) é algo que machuca a alma. Entendo hoje que essa “energia poderosa” funciona como um cimento: não dá para “colar e descolar” à vontade, a não ser que consintamos em uma boa dose de desmanche do que somos. Nem a criatura mais romântica do mundo escapa disso, se não passar pela mudança de mente operada pela conversão cristã. No início da vida sexual, os rompimentos de namoros que incluem sexo machucam muito (seja sincera com você mesma e você vai se lembrar), literalmente arrancando partes de nós; mas depois de muito tempo, em nome do prazer sem compromisso fomentado pela cultura, começamos a nos forçar a nos acostumar com o processo. O resultado é que nos tornamos cada vez menos propícios a permanecer em um relacionamento. Casamos já pensando em descasar... porque aprendemos a “colar e descolar” em uma roda sem fim. Hoje é Fulano, amanhã é Sicrano... Todos sabemos que o resultado desse “sexo solto” equivale a divórcios em série (e mágoas, crianças feridas, descrença quanto ao amor...). Culpa da “revolução sexual” dos anos 60? Certamente, mas sobretudo culpa do pecado que jaz em nós.

Que Deus a ajude a compreender e vivenciar o verdadeiro amor conjugal Nele.

Abraços.

04 outubro 2009

Resposta a um comentário não publicado


Cara Deborah,

Precisei deixar de fora a totalidade de seus comentários, pois alguns termos que você usa podem ferir a sensibilidade de meus irmãos leitores. Aliás, eu duvido de que você se dirigisse a mim pessoalmente usando esses termos: o conforto que as barreiras tecnológicas oferecem costuma deixar as pessoas menos pudicas. No entanto, algo nos seus comentários me fez pensar que, sem esse conforto, você é uma mulher bem educada com estranhos. Então vamos lá.

Na sua mensagem, você declara: “Sou a favor do homossexualismo, da masturbação, do sexo antes, durante e fora do casamento, contanto que haja respeito mútuo aos cônjuges, pois abomino traição.” Compreendo o conteúdo da sua integridade quanto ao sexo consentido. Eu mesma, embora nunca tenha partilhado dessa opinião, já tive amigos que pensavam assim. Quando eu não era cristã, concordava com o princípio geral que subjaz a essa ideia, tendendo a crer que tudo era permitido, desde que não ferisse a vontade alheia. Porém, essa é a justiça dos seres humanos: falha e limitada. Jesus apontou para esse fato no conhecido Sermão do Monte:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5.20).

Ao longo das Escrituras, entendemos que a justiça dos fariseus (e a justiça humana em geral) é superficial e submetida a subjetividades muitas vezes mesquinhas. Somos pecadores e, mesmo quando queremos acertar, erramos miseravelmente. Acreditar que podemos divorciar ato e pensamento, ato e vontade, ato e emoção etc. é uma das formas desse erro. Assim, é fácil dizer “não pratico o adultério”; mas e quanto ao que ocorre dentro de nós? Jesus sabia que nós pecamos sobretudo interiormente, e que tendemos a nos aprovar se não praticamos aquilo que nos comprazemos em alimentar em secreto. É por isso que, no mesmo Sermão do Monte, Jesus nos lega essa palavra terrível: “Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28). Ampliando o princípio, não deixamos de ser culpados diante de Deus apenas por nos abstermos da prática de determinado pecado. Conforme nos mostra Jesus em todo o sermão, também sobre “não matar” e “não jurar falso”, somos pecadores por inteiro: não só em atos ou palavras, mas em motivações, desejos e impulsos ocultos. E não há pecado que não cometamos em oculto...


A justiça dos fariseus – e de todos nós – é exterior; nossas boas ações são lixo diante de Deus, pois contaminadas por toda sorte de maldades que ninguém vê. Só Deus pode nos tornar de fato justos em Cristo, para que dependamos Dele e de sua graça contínua, sendo aos poucos transformados profundamente. Deus gera vida a partir do interior; leis e restrições exteriores são úteis, mas apenas servem para nos indicar o que está errado e nos condenar quando transgredimos. É isso que distingue o cristianismo bíblico de todas as demais religiões: nelas, há um antropocentrismo que torna possível a progressão da bondade humana através do cumprimento de certos preceitos morais; em Cristo, que morreu em nosso lugar para que tivéssemos vida, encontramos a morte do nosso ser pecador e o renascimento Nele. Portanto, toda justiça parte de Deus, e não de nós.

Assim, seja sincera consigo: os erros que você condena exteriormente não são os mesmos que você comete interiormente?

(Continua no próximo post)




02 setembro 2009

Enxaqueca*

Na minha pré-adolescência, sempre às voltas com doces e chocolates, descobri algo importante: bastava abusar – comendo uma caixa de bombons inteira ou tomando sorvete demais – que me sobrevinha uma forte crise de dor de cabeça. Nesses episódios, eu tinha de ficar deitada, imóvel, em um quarto escuro, enquanto alguém cuidava de mim (na época, minha mãe ou minha melhor amiga) preparando algo bem inofensivo na cozinha, como canja ou sopa. Meu pai dizia a mesma frase, “isso é fígado”, e nunca ninguém cogitou a hipótese da enxaqueca.

Já adulta, quando meu médico descobriu em meus exames uma deficiência de estrógeno, sugeriu-me reposição hormonal por meio de pílula ou injeção. Topei a primeira, claro. Não lembro se ele me perguntou sobre dores de cabeça, mas o certo é que na bula do remédio estava escrito algo como: “Não é recomendável a portadores de enxaqueca.” Como eu não sabia que tinha enxaqueca, não teria feito diferença alguma.

Cinco anos depois, a constatação da tragédia: crises como aquela, ou até mais fortes, mesmo sem abusar de doce algum, em média três vezes por semana. Algumas duravam cinco dias ininterruptos. Caixas e caixas de analgésico. Medo de andar ao sol, de dormir tarde, de acordar cedo, de fazer muito esforço. Virtualmente tudo era capaz de provocar dores de cabeça.

Tive de sofrer esses anos todos de crises incapacitantes cada vez mais frequentes para enfim ser levada a concluir, através da preciosa ajuda do dr. Alexandre Feldman e de sua esposa Pat Feldman (nos sites indicados e em seus dois livros Enxaqueca: só tem quem quer e A dor de cabeça morre pela boca), que um conjunto de variáveis era responsável pelas dores: em primeiro lugar, a bomba hormonal que eu estava tomando; em seguida, a má alimentação, a falta de exercícios e o sono irregular. Estou aos poucos acertando esses pontos, com o fim da reposição e uma dieta rigorosa (mas libertadora!) o mais isenta possível de produtos industrializados e porcarias químicas. Quando os resultados se tornarem mais consistentes (completei anteontem o primeiro mês do tratamento) eu os posto aqui.

Coragem: se você tem enxaqueca, o fim das dores pode ser uma decisão sua!

* Porque o Blog da Norma Braga também é de utilidade pública. :-)

29 agosto 2009

Mulheres que Não Têm Tempo

Eu já fui uma Mulher que Não Tem Tempo. Quantos fins-de-semana perdi completando revisões em casa! Recebia telefonemas de amigos para sair e respondia sempre com a invariável e desalentadora frase: “Não dá, tenho trabalho.” Aos poucos foram parando de me ligar.

E tudo isso, para quê? Eu morava com meus pais, não precisava de tanto. Mas queria gastar em roupas e sapatos. Livros, também, embora os mais caros nunca fossem eles. Curioso é que, apesar de tanto trabalho, não conseguia guardar o que ganhava. Excedia-me nas atividades, excedia-me ainda mais nos gastos. Mesmo depois de convertida, a mania por cheques pré-datados me perseguiu. Chegava a passar tantos que ficava sem dinheiro para as coisas mais simples do mês: pegar um ônibus, fazer um lanche na rua. Não me programava e nem queria – cálculos significavam limites.

Ao longo dos anos, e com muito choro diante de Deus, fui me endireitando. Compreendi a equação que bastante gente se recusa a efetuar: não a clássica, pragmática e perversa “tempo é dinheiro”, mas sim sua inversão, “dinheiro é tempo”. O que eu estava perdendo – camaradagens, passeios, leituras preferidas – equivalia às roupas que muitas vezes sequer chegava a usar, sapatos que no fim me machucavam, excessos que não apenas me entupiam o armário, mas me roubavam vida? Certamente que não.

Hoje, com a graça de Deus, tenho ajustado cuidadosamente meu orçamento para não ser forçada a trabalhar demais. Não se trata somente de ganhar tempo para prazeres: aos poucos, quero me recolher da frenética sucessão de atividades profissionais para abrir em minha vida o lugar de esposa e mãe no futuro. Esse lugar não é feito somente de lavagens de roupa e trocas de fralda, de acordo com distorções modernas; inclui, sobretudo, sondagens emocionais infinitas, de si e dos amados, acompanhadas da orientação, da compreensão e do acolhimento de que somente a mulher é capaz. Quando o frenesi lá fora parece esmagar a subjetividade, é a mulher que percebe o olhar perdido dos seus e os traz para casa, para o ambiente íntimo em que o valor intrínseco do ser é reafirmado.

Mas, se não tem tempo, a mulher está tão perdida quanto todos à sua volta. Sua função se esvai. E quem a substituirá? Essa é uma das tragédias mais pungentes do nosso tempo: a preferência pelo viver exteriorizado, sob o pretexto de uma igualdade de funções sociais entre homem e mulher, está matando a todos nós. Sem que a igreja se manifeste substancialmente sobre a questão ou aja de modo a ser melhor modelo, só vejo deriva com relação a esse assunto. Quanto a mim, estou em um dos níveis mais baixos de aprendizado, se é que de fato estou aprendendo alguma coisa (a prática o dirá). Que Deus me ajude a ser diferente e a abordar de forma apropriada o tema nos próximos posts.

P.S. Gostaria de agradecer a todos os leitores que oraram por mim sobre trabalhar menos. Depois de um período difícil em que praticamente todas as minhas horas de vigília estavam tomadas por aulas e revisões, Deus nos ouviu: neste mês, passei a atuar somente como autônoma. Precisei de coragem para sair de onde estava e Deus deu graça: não apenas estou conseguindo gerenciar melhor meu tempo e minhas finanças, mas nunca estive tão feliz!

11 agosto 2009

Uma relativista emocional em remissão

No blog, falo aqui e ali do amorrrrr, neologismo que criei para designar essa tão popular forma de pseudo-amor que nos torna coniventes com os pecados alheios. Mas nunca contei como tive de reconhecer em mim mesma uma imensa dificuldade de posicionar-me com firmeza em situações delicadas. Bom, na verdade é mais que isso. Sempre fui uma espécie de Zelig de saias, personagem de Woody Allen que adquiria a forma e os trejeitos de todos aqueles com quem travava contato. Quando pessoas queridas se abriam comigo, eu tendia a adotar a atitude de uma compaixão derramada e informe, amalgamando-me a suas dores e vendo a vida com seus olhos. Parece bonito? Não é não: como ajudar, se não conseguia confrontar? Resultado: tempos depois, sempre me dava conta de que poderia ter ajudado aquela pessoa se tivesse norteado minhas palavras pela visão correta, biblicamente orientada. Isso acontecia tanto – e ainda acontece, infelizmente – que até já perdi a conta. Sempre me faz sofrer; porque, na maioria das vezes, um ouvido amigo é bom, mas as pessoas precisam de muito mais que isso. (Por essa razão, também, nunca fui uma boa evangelista!)


Então, confesso aqui: sou uma relativista emocional em remissão. Minha identificação sem limites com o outro me proporcionou uma capacidade de esponja: absorvo o que recebo quase sem triagem alguma, caso haja algum elo afetivo na comunicação. Isso não acontece de modo invariável, mas foi verdade em um número suficiente de vezes para que eu finalmente tivesse que reconhecer um padrão. Também acontece em leituras, motivo pelo qual sofri tanto com certos livros.

O relativismo emocional me custou muito. Foi a porta de entrada para pecados, manipulações alheias, confusões mentais. Foi o motivo de meu silêncio bovino quando falavam mal ou de modo enviesado da fé cristã em boa parte das aulas da pós-graduação. Foi a parte mais importante do pretexto para que eu quase me desviasse para sempre, enquanto cursava o mestrado na universidade e enxergava cristianismo nas obras de certos autores da modernidade francesa. Quando "voltei" pela mão misericordiosa de Deus e vislumbrei o abismo para o qual me dirigia, declarei uma definitiva guerra ao relativismo pós-moderno. Declarei guerra ao esquerdismo também, quando percebi que era o terreno comum de onde o relativismo brotava. No início, era uma guerra silenciosa, travada em meu interior na companhia de autores conservadores. E foi na amistosa companhia de amigos também conservadores que, em uma lista de discussão, aprendi a falar pública e livremente da minha fé e das reflexões bíblicas que sempre me ocuparam. Devo muito a eles, a essa lista, ao encorajamento que recebi, para que pudesse começar a me expor com mais segurança.

Poucos meses depois, fundei o blog e, mais fortalecida, transferi minha guerra para cá. As duas pontas se confirmavam mutuamente: no blog eu falava de minhas experiências sem contá-las, ou seja, apresentava ao leitor apenas o resultado do que tinha vivido tão dolorosamente; ao mesmo tempo, essa apresentação esclarecia melhor esses conteúdos para mim mesma, deixando mais "assentado" o que eu havia aprendido. Como afirmava Sócrates: "Uma vida não-examinada não vale a pena ser vivida." O blog passou a ser o espaço do meu reexame, em que cada preciosidade cunhada por Deus a mim, e entregue ao leitor, tinha uma longa história de busca, tristeza e quedas por trás. Um reexame que eu fazia e faço publicamente para ajudar outros, mas, em primeiro lugar, para combater todos os dias a terrível relativista que sou. É meu jugo e meu fardo, parte de minha luta cristã, que resulta nessa bênção miraculosa: ao expor minha transformação, transformo-me mais profundamente e ainda dou ensejo a que outros se transformem também, de acordo com o que tenho recebido e julgo ser da parte de Deus. Um dia eu me deterei mais longamente sobre cada uma dessas histórias. De fato, vislumbro esse encaminhamento, na medida em que tomo por voz narrativa um eu mais confessional, mais próximo ao que sou. Por enquanto, contento-me em deixar, aqui, o acabamento lisinho do que vivi. Os bastidores terão que esperar por enquanto, mas virão, porque sei que podem ser a coisa mais edificante a fazer para a igreja brasileira hoje. Não por meus próprios méritos, mas porque, como cristã convicta, eu sei o que Deus tem feito em mim, e é isso que quero contar. Para Seu louvor somente.

01 julho 2009

À Cristianismo Hoje

Publicado no site da revista.

Caros editores,

Como a maioria dos comentadores desta página, venho manifestar meu repúdio pelo tratamento dispensado a Julio Severo nessa reportagem. Está bastante claro que Cristianismo Hoje quis entrevistar Severo ao mesmo tempo em que se mostrava abertamente antipática às posturas do entrevistado. No entanto, o título, a apresentação e o tom das perguntas mostram que isso foi feito de modo desrespeitoso - o que fala não só da inabilidade do jornalista (é possível evidenciar discordância sem desrespeito), mas sobretudo do descaso de um veículo midiático que traz Cristianismo no nome para com a luta e as perseguições de alguém que deveria ter sido tratado como irmão. O resultado final é não apenas ridículo (nunca vi um entrevistado ser tratado dessa forma no próprio veículo que o entrevista), mas contraria fortemente os ideais de fraternidade cristã, sendo indigno do nome da revista. Porém, ainda há tempo para um saudável arrependimento bíblico, expresso na forma de uma retratação, útil também para corrigir os excessos do jornalista responsável pela matéria. Fica aqui minha sugestão.

Cordialmente,

Norma Braga

04 junho 2009

Enquanto isso...

Há artistas que não se preocupam com grandes multidões: estão igualmente felizes se mostram sua arte a grupos pequenos ou a platéias a perder de vista. Ou, ainda, sentem-se mais felizes en petit comité, talvez por um temperamento de tendências introspectivas, intimistas.

Identifico-me com eles. Vi ao vivo John Pizzarelli em uma livraria no Leblon, tocando sua guitarra para as quarenta pessoas que se espremiam no chão do lugar. Era evidente sua alegria ao olhar para cada um dos rostos ali presentes, tão pertinho, cantando junto com ele. E vi no You Tube os dois rapazes do Kings of Convenience na praia de Ipanema (digite "Ipanema Beach"), tranquilos e satisfeitos sentados à sombra de um quiosque, dedilhando seus violões sem nenhuma pose de "artista importante", enquanto à volta as pessoas conversavam, cantavam ou estalavam os dedos no ritmo da música.

Há algo disso em mim. Não me preocupo com imagem, com pose alguma, quando dou aula ou quando me exponho escrevendo. Meus alunos se sentem muito à vontade comigo, tanto que eu não poderia jamais dar aulas para crianças: não saberia estabelecer os limites de que elas precisam.

Drummond parou de escrever durante alguns anos porque não tinha o que dizer. Schaeffer deixou o ministério por certo tempo para mergulhar em um profundo questionamento com Deus. Admiro-os por isso. Nenhuma das duas situações é meu caso - tenho o que dizer e não estou em crise de fé - , mas tenho reformulado comigo mesma algumas ênfases e buscado respostas de um modo quieto. Enquanto isso, o maior espaço entre as postagens tem se imposto naturalmente. Se o leitor ficar impaciente, é o momento de fazer como Cristiano Silva, ler os textos antigos. E, por que não, de ouvir John Pizzarelli e Kings of Convenience no You Tube.

Aos poucos retomo a regularidade. Não vos deixarei órfãos, prometo. :-)

24 maio 2009

Mudança(s)


Tenho uma excelente desculpa para a grande distância entre este post e o último: mudei-me de cidade. Atravessei dez horas de estrada com todos os meus móveis e mandei meus dois gatos por avião. Foi uma boa mudança, mas trabalhosa, deixando-me praticamente sem tempo de postar.

Não que tudo tenha sido rápido demais. Tive tempo de sobra até a decisão final. Porém, sei que há mudanças que a gente não planeja. Mesmo reconhecendo Deus como o Senhor do tempo e do universo, muitos cristãos costumam se deixar abater por mudanças inesperadas.

Pensei nisso quando enviei meus gatos de avião para a nova cidade. É sabido que os gatos odeiam mudanças; são seres de rotina. (Não confundir com a falsa ideia de que os gatos se apegam mais à casa que aos donos: gatos se apegam tanto quanto cachorros, apenas têm um jeitinho mais discreto de expressar amor. Não abanam o rabo, por exemplo. Mas o geralmente guloso Mel fica quase sem comer quando eu viajo, e o espevitado Chantilly pula de alegria quando chego em casa depois de um dia de trabalho.) Por respeito a essa característica e sobretudo aos preceitos da Posse Responsável, não permito que meus gatos saiam para nada, nem para ir ao veterinário, que os examinava e aplicava as vacinas em casa.

Assim, quando eu os coloquei em suas caixas de transporte para levá-los de táxi até o aeroporto, ambos choraram como eu nunca tinha visto. Os olhares arregalados e os miados lamentosos me partiram o coração; não havia nada que eu pudesse fazer para tranquilizá-los de que eu jamais os abandonaria. Não adiantava falar manso ou fazer carinho através das grades das caixas. Na visão limitada deles, seu destino era incerto e o mundo lá fora parecia perigoso demais. Estavam deixando uma rotina que amavam e não sabiam o que os aguardava. A agitação em torno os fez esquecer por completo minha presença. Foi triste vê-los assim, mas tudo o que me restava a fazer era esperar até que o processo fosse concluído, quando eles saberiam enfim que a mudança era para melhor.

Hoje eles estão felizes na nova casa, que é maior. Brincam com mais liberdade pela sala e ainda recebem o carinho supervisionado dos vizinhos de condomínio através das telas de proteção. Rememorando suas reações e compreendendo o terror por que haviam passado, julguei irresistível comparar isso tudo a nossa relação com Deus. As revoluções que Ele efetua nas vidas de Seus amados são muitas vezes incompreensíveis e apavorantes; mas, se somos filhos, sabemos que são para melhor, sempre, ainda que não pareçam melhores em um primeiro momento. É quando precisamos desviar os olhos do desmoronamento do nosso mundo conhecido para ouvi-Lo sussurrar mais uma vez: “Nunca te deixarei, nem te abandonarei.”

13 janeiro 2009

Elomar

Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos. Isaías 55:9

Ainda na graduação, fui a um congresso em outra cidade. Conferência após conferência, a palavra de ordem era “A verdade não existe”, repetida ad nauseam, não importava o tema proposto. No auditório lotado, as cabeças se inclinavam docilmente em assentimento.

Aquele mantra foi gerando tal angústia dentro de mim que não pude mais: corri para o banheiro e desatei a chorar. Por que um congresso em Letras precisava ser tão dogmático quanto a uma questão filosófica? Teria a linguagem se tornado uma espécie de instância última da realidade? O que eu estava fazendo ali, tomando parte, sem querer, de um mal disfarçado culto ao relativismo? Por que, raios, os cursos modernos de humanas tinham de se parecer mais com a repetitiva pregação de uma teologia negativa? Eu não poderia tomar outro caminho e permanecer na academia? Eram perguntas não formuladas com clareza (só seriam visíveis de fato depois), mas que me causavam uma dolorida perplexidade.

Enquanto durou o congresso, perambulei por aqueles professores como se fosse a última das criaturas. Era óbvio demais que eu não pertencia à “nata” – sentia-o quase como quem detecta em si não apenas uma diferença incontornável e definitiva, mas um defeito grave. Uma inferioridade fatal me atravessava e me entristecia, mantendo-me calada ali. Eles eram a luz, eu era o obscurantismo. Eles encarnavam a própria Inteligência Acadêmica, enquanto eu não passava de um esforço tímido e provavelmente ineficaz de reconciliação entre conhecimento científico e fé cristã.

À noite, na casa de meus parentes daquela cidade, fiquei quietinha na cama, luzes apagadas, ouvindo Elomar no walkman antes de dormir. Quando tocou Cantiga do Estradar eu vi, como em um travelling de cinema, todos aqueles professores do congresso sentados um ao lado do outro em uma grande tribuna. A letra dizia: “Legião de condenados/ nos grilhões acorrentados/ nas trevas da ignorância/ sem a luz do grande Rei.”

Bastou para que Deus restabelecesse em minhas emoções cansadas a ordem correta das coisas. Desde então, aquele velho sentimento de inferioridade diante da sapiência acadêmica nunca mais me atingiu.

30 novembro 2008

Solidariedade para Santa Catarina

As enchentes em Santa Catarina têm deixado a muitos desabrigados. Este blog dá sua contribuição divulgando os sites da Defesa Civil e de ONGs de ajuda aos animais (que na maioria das vezes não são priorizados no resgate). Qualquer gesto para ajudar a mitigar o sofrimento de seres humanos e bichos com fome e frio será recebido com alegria. Confira os links com as informações: Defesa Civil de Santa Catarina e Prefeitura de Florianópolis. Vamos fazer nossa parte como cristãos.

12 novembro 2008

O testemunho do mundo

Desde adolescente, de vez em quando eu ouvia na rádio uma música muito triste de Carly Simon, chamada That's the Way I Always Heard it Should Be. Nunca conseguia prestar atenção na letra, mas apenas pescava o refrão: “You want to marry me; we'll marry.” Não entendia como uma música que falava de casamento podia ser tão triste; no entanto, mesmo de modo inconsciente, percebia o recado: a infelicidade no casamento é algo inevitável. De fato, a letra fala dos vários modos que essa infelicidade pode assumir, com a concordância conformada da mulher que, depois de enumerá-los, parece dar de ombros: “Mas, se você quer casar mesmo assim, a gente casa.” Deprimente!

Um dia, ouvindo essa música mais uma vez na minha rádio da internet, resolvi pesquisar a vida de Carly Simon. A única coisa que eu sabia é que ela havia sido muito infeliz com James Taylor. Pois sua vida foi uma sucessão de relacionamentos malsucedidos. Casou-se duas vezes. No fim, ela já estava compondo canções com letras do tipo “que o amor seja eterno enquanto dure”. Li que é conhecida por um gênio difícil e que topa relações com mulheres. Está sozinha. A música é de 1975, mas Carly Simon continua fiel a seu triste testemunho.

Esse é o testemunho que o mundo tem a proclamar, hoje, sobre o casamento: é ruim, não dá certo, ambos serão infelizes e terminarão se separando. A culpa? Do destino; ninguém sabe muito bem onde está a culpa; ninguém a assume. É engraçado como, proclamando-se muito “científico”, o homem moderno consegue pensar e se comportar como um pagão de tempos idos. Ninguém pensa nas motivações que levaram à escolha do outro. Ninguém pensa que deixou de dedicar tempo e cuidados ao outro. Ninguém pensa na intimidade que se negou a permitir ao outro, por medo de destruir uma imagem positiva demais de si mesmo... e que casamento sem intimidade é como a nudez através de um vidro fosco: como amar profundamente a quem não se conhece? Enfim, pressupõe-se que um casamento infeliz é algo que simplesmente “acontece”, tão inexplicável e imprevisível como seriam os acidentes naturais para os antigos.

Se você é cristão e está solteiro, não creia nessa mentira diabólica. Espere em Deus. O casamento entre dois cristãos sinceros, que amam a Deus e procuram viver em santidade, cuidando para não reproduzir dentro da relação os modos mundanos de ser e agir, tem um destino certo: revelar ao mundo sedento o profundo amor de Deus através de um homem e uma mulher que se amam incondicionalmente. E esse talvez seja o testemunho mais belo que um cristão pode deixar nesta terra. Não desista. Guarde-se com esperança; se você não tiver o dom do celibato (algo muito mais raro que se pensa), ele (ou ela) virá. E, se permanecerem em Cristo, vocês serão felizes!

25 outubro 2008

Seis primeiras notas sobre Ortodoxia, Chesterton


1 Fiz a besteira de tomar açaí lendo Ortodoxia em uma lanchonete. Descobri que são duas coisas a serem evitadas em público: açaí deixa a boca e os dentes pretos, enquanto Ortodoxia provoca gargalhadas. As duas, juntas, são um verdadeiro fiasco.

2 Mas nada, no livro, é humor puro. Ler essa obra de Chesterton é como estar na companhia de um divertidíssimo amigo que alterna brincadeira com coisa séria, sem muitas firulas na passagem de uma à outra. Logo nas primeiras páginas, depois de rir bastante, posso sentir como libertadora a crítica chestertoniana ao materialista, bem como ao subjetivista, como dois lados da mesma prisão do pensamento moderno: um fechamento digno de hospício. Além de deliciosamente ilustrada, tal crítica tem o poder de prevenir muitos nós mentais fatalmente adquiridos durante a graduação de qualquer curso de ciências humanas. E isso, só para começar.

3 A condição humana, Hannah Arendt, também ajuda no mesmo sentido preventivo, embora, filosófico e doído em vez de divertido, seja muito mais teórico e pontual, concentrando-se na origem do trambolhão reducionista que desembocou tanto no materialismo quanto no subjetivismo: René Descartes. Ainda pretendo estudá-lo direito, lendo as Meditações e tudo o mais.

4 Percebo-me um tanto penalizada com relação aos católicos que leram Calvino via Chesterton. Não me entendam mal, Chesterton é um gênio; embora eu esteja apenas no início de Ortodoxia, já o considero um dos livros da minha vida. Mas é indiscutível que Chesterton leu mal Calvino, confundindo predestinação com determinismo. Tsc-tsc.

Já busquei contribuir para com o desembaraço dos mal-entendidos tentando mais de uma vez explicar calvinismo a católicos sinceros, sem sucesso. Verdade é que uma força bem maior que a ideologia - a fidelidade à Igreja-Mãe - os impede de sequer considerar-me com a atenção devida. No entanto, bastaria apenas que compreendessem o esforço doutrinário de Calvino dentro do que o próprio Chesterton chamou "mistério sagrado do livre-arbítrio" e um dos paradoxos no centro do cristianismo (assim como os dois braços da cruz se encontram). Algo que me permito agora desenvolver em pouquíssimas palavras dessa maneira: o Deus criador do tempo e pai de todo o futuro é, também, o inventor da liberdade humana. Durmam com esse lindo paradoxo; eu o adoro e vivo muito bem com ele. E, se quiserem um resumo menor ainda, lá vai: nele reside todo o calvinismo. Pelo menos, para esta leitora que vos fala. Calvino apenas reforçou em sua teoria o lado menos compreensível para nós, qual seja, o de Deus - a gestação do futuro em Suas mãos.

5 Não deixa de ser curioso que, assim como Calvino hoje, Chesterton continua sendo mal compreendido. Ora é acusado de um superficial frasismo, ora de um dogmatismo mal argumentado, ora de um subjetivismo leviano. Não se trata de nada disso. Leiam, leiam.

6 As observações injustas de Chesterton sobre Calvino não me impedem de gargalhar, até mesmo em público e tomando açaí, ao ler o grande e gordo galhofeiro católico sobre um poeta inglês: "He was damned by John Calvin." Sim, porque o reformado que não sabe rir de si mesmo é um reformado, no mínimo, sem imaginação.
P.S.1 Ao leitor que lamenta uma atualização mais freqüente do blog, um pedido: quando vier aqui e encontrar o mesmo texto lido anteriormente, faça por favor uma pequena e singela oração, assim - "Senhor, permita que a Norma consiga um emprego em que ganhe mais trabalhando menos". Serei muito grata a você se fizer isso! :-)

P.S.2 Este blog ainda não aderiu à reforma ortográfica. Ainda é apegado aos acentos que foram suprimidos e espera fazer o devido luto para, um dia, incorporar tais mudanças a seu idioleto.

05 outubro 2008

Os Beatles e a Perestroika


Comprei um dvd de um show recente do Paul McCartney na Rússia. Comprei e deixei guardadinho para ver quando me desse muita vontade. Gosto de comprar e guardar livros, cds, filmes, para depois redescobri-los com alegria.

Bom, eu não esperava nem de longe o que vi. Para mim, seria um show de Paul McCartney na Rússia, como em qualquer lugar; podia ser na China, na Índia, na Argentina. Mas não. Essa era simplesmente a primeira vez em que um dos Beatles pisava lá, em maio de 2003, com mais de cem mil espectadores na Praça Vermelha. E eu não sabia.

O show é todo entrecortado por testemunhos emocionantes de antigos fãs e impressões de Paul sobre o país. Na época em que os Beatles estouraram em todo o mundo, a Rússia, então União Soviética, vivia no auge do comunismo, de portas trancadas para o Ocidente, considerado portador dos “valores decadentes do capitalismo”. Os discos eram proibidos, ouvidos na clandestinidade. As letras da canções, o comportamento irreverente dos quatro, as opiniões que emitiam diante das câmeras, tudo isso era um “mau modelo para a juventude” segundo o regime. Tudo isso falava de liberdade. Gostar de Beatles tornava-se então um tabu acalentado peles jovens russos com fome de uma vida livre. No vídeo, quem era jovem na época conta que sua geração gastava até o que não tinha para comprar os discos no mercado paralelo, reunia-se em festas, aprendia inglês com as canções, perguntava-se sobre quem era quem nas capas (pois não havia como descobrir), sonhava com aquele universo. E lamentava: o que o mundo todo podia abraçar como um bem comum era algo exterior, inatingível e alienígena, naquele país fechado à força de poderes abusivos que não visavam apenas a ordem exterior, mas sobretudo a subjetividade.

Quando Paul McCartney vai à Rússia livre, com um presidente eleito pelo povo na platéia, torna-se patente o fato como um símbolo. O governo não é mais o censor do prazer, da liberdade, da espontaneidade. Na platéia, jovens de todas as gerações cantam e choram ao ouvir The Fool On The Hill, Maybe I'm Amazed, Let it Be, Hey Jude. O ex-presidente Gorbachev recebe Paul McCartney e reconhece: as canções dos Beatles contribuíram para a Perestroika, preparando o povo russo para a abertura de suas fronteiras. E McCartney se emociona ao cantar “the fool on the hill sees the sun going down” enquanto o sol se põe entre as belíssimas construções em torno da Praça Vermelha.

Enquanto isso, no Brasil, o comunismo ainda é sinônimo de juventude e liberdade. Onde, meu Deus, onde? Se a cada post eu pudesse realizar um desejo, o meu neste aqui seria: que pelo menos os fãs brasileiros dos Beatles pudessem abandonar qualquer pretensão comunista. Que fosse, apenas, por causa da história da Rússia. Já seria um motivo mais que suficiente.
Nesse trecho do dvd, um dos membros daquela geração conta: “Sintonizar Beatles no rádio podia prejudicar você no emprego, na escola, na faculdade; tentar conseguir discos no mercado negro podia dar em prisão; ir a shows onde tocassem músicas dos Beatles, então, gerava conseqüências que nem dava pra imaginar. Vivendo numa situação dessas, você acaba desenvolvendo uma relação muito mais intensa com a música.” Paul McCartney completa: “Era impossível tocar lá. Nossos discos não estavam à venda. Bom, um jeito garantido de tornar algo popular é simplesmente proibir.” Um antigo fã, hoje Ministro da Defesa, comenta: “Não havia discos dos Beatles à venda na Rússia. Só algumas canções em compactos (uma música em cada lado).” E outro mostra o primeiro disco de Paul McCartney liberado para comercialização no país. Era para ser Band On The Run, mas, em vez disso, numa significativa sobreposição, o selo do meio vinha com o logo do Ministério da Cultura. O motivo: Band On The Run havia sido retirada do álbum porque não era "bom" que o ouvinte soviético ouvisse falar de bando, prisão e fuga. Todo contente, o Ministro da Defesa conta que satisfez um de seus grandes desejos – comprar a discografia completa dos Beatles – somente em 1984. Um ano antes da Perestroika.

28 setembro 2008

Como eu era: pequeno dossiê Conversão

Alguns anos antes de me converter, em 1992, um rapaz no ônibus pregou para mim a caminho da faculdade, provocando-me a uma ira intensa. (Posso compreender hoje a ira que algumas pessoas sentem quando prego para elas.) No mesmo dia fiz um relato raivoso das palavras trocadas com ele, que começava assim:

Há muito tempo eu já havia deixado para trás essa história da existência de Deus – se ele existe, ótimo, mas isso não muda em nada a minha vida. Pois eu estava desenvolvendo uma crença forte em mim, em meu deus interno, cansada de querer acreditar em algo ou alguém mais poderoso que eu capaz de me salvar e de fazer tudo por mim.

Esse parágrafo é revelador de como eu era, de como eu estava: sufocando uma sempre presente ânsia por Deus debaixo de uma penca de conteúdos espíritas e esotéricos, todos destinados a camuflar com um disfarçado humanismo uma insegurança infinita. Eu me queria forte a todo custo, um inadmitido falseamento de mim mesma, e a incoerência dos textos esotéricos que me chegavam às mãos se encarregava do falseamento de tudo o mais. Ao mesmo tempo em que tentavam solapar o desejo pelo transcendente ao persuadir o leitor de que o homem era sua própria divindade e deveria se satisfazer com isso, essas estranhas e ilógicas construções textuais eram imbuídas de conteúdos que atribuíam a tudo no mundo uma pessoalidade roubada do ser de Deus. Enquanto o mundo se afigurava mais que humano, doador de múltiplos sentidos, Deus não passava de uma força perfeitamente moldável pelo homem. Uma árvore era mais pessoal que Deus e podia ser fonte de vida e transformação, como qualquer outro ser. O mundo esotérico é cheio de uma adoração difusa a todo e qualquer objeto, concomitante à negação da pessoalidade e do poder de Deus. Poderoso fator de inversão, o esoterismo faz transbordar nossa subjetividade, sobrepondo-a ao real – um perigosíssimo alheamento que eu não podia perceber na época, mas que me custara experiências muito penosas.

Quando me converti, lia a Bíblia com bastante dificuldade, pois ainda estava me desintoxicando da indistinção mental esotérica, responsável por atribuir sentidos até contraditórios ao mesmo texto. Quase decorei o trecho de Hebreus que desfaz a crença na reencarnação, porque precisava ter certeza de seu significado. Lia os evangelhos e as passagens jogavam minha mente para várias direções, deixando-me louca, fazendo com que eu orasse de modo bem dolorido para que Deus firmasse minha mente na interpretação correta.

E tudo retornou aos poucos a seu lugar. Minha visão tomava foco: nada mais pedia para ser adorado, mas tudo no mundo apontava para o criador. E eu "ganhei" um Pai amoroso, que me presenteava com o fardo leve da fé: não precisava mais ser forte, bastava ser fraca Nele. Compreendendo a cegueira anterior, eu era como uma criança novamente, agradecida por receber partes de um verdadeiro conhecimento – do mundo, de mim, de Deus. Lembro que ouvia uma música de John Lennon, Oh my love, e partilhava dos mesmos sentimentos expressos ali. Bastava trocar my love por "My Lord", e a letra descrevia com exatidão o maravilhamento que eu experimentava ao enxergar pela primeira vez.

Oh my Lord for the first time in my life,
My eyes are wide open

Oh my Lord for the first time in my life,

My eyes can see

I see the wind, I see the trees,

Everything is clear in my heart,

I see the clouds, I see the sky,
Everything is clear in our world,
Oh my Lord for the first time in my life,
My mind is wide open,
Oh my Lord for the first time in my life,
My mind can feel
I feel the sorrow, I feel dreams,
Everything is clear in my heart
I feel life, I feel love
Everything is clear in our world

11 setembro 2008

Diálogos (medicamente) irrelevantes VI

- E aí, já foi participar da campanha do Temporão? Foi tomar a vacina da rubéola?

- Não. Eu não vou me vacinar.

- Como assim, “eu não vou me vacinar”? Tá maluco?

- Ué, eu tive rubéola quando era criança.

- Mas você não viu o aviso do governo? Homens e mulheres de 20 a 39 anos devem tomar a vacina mesmo já tendo contraído a doença.

- E qual o sentido lógico de tomar uma vacina se todos os médicos dizem que, tendo tido a doença, estou imunizado para sempre?

- O site da campanha explica que os sintomas da rubéola podem ser confundidos com os da gripe...

- Aquele site da campanha é horrível, os textos são superficiais e cheio de erros de português. Você confiaria num profissional que nem sabe falar direito?

- Mas...

- Além disso, eu tive rubéola, e não gripe. Lembro muito bem. Eu tinha uns sete anos. Não conseguia dormir porque meu corpo estava quente demais. De repente começou uma coceira horrível nas mãos e nos pés. Quando olhei, estavam vermelhos. No hospital falaram que era rubéola.

- Mas, e se erraram no diagnóstico?

-Se erraram, qual a garantia de que uma vacina do governo vai consertar o erro? Você confia tanto assim no governo? Prefiro confiar nos médicos que me atenderam quando eu era criança.

- Cara, não custa nada...

- Ah, custa sim. Você já se vacinou?

- Ainda não.

- Na internet tem gente reclamando de efeitos colaterais, alergias. Tem gente de cama por causa da vacina.

- Não vi.

- Também tem gente que não teve nada. Mesmo assim, para que tomar uma vacina se os efeitos da vacina podem ser piores que os da própria rubéola?

- Ah, você acredita nessas histórias de internet?

- E você acredita no governo?

[Pausa]

- Se você acredita em tudo que sai na internet, você também deve ter visto aquela história ridícula de que a vacina pode causar infertilidade...

- Não há nada provado. Mas não desconsidero.

- Caramba. Você está mesmo sendo irracional.

- Irracional? Vamos lá. Número um: eu já tive rubéola. O governo diz que eu tenho que me vacinar e não me explica por quê. Bom, se eu estivesse sendo irracional é que eu iria me vacinar. Justamente por ser racional é que não vou. Ninguém me convenceu de que eu preciso dessa vacina. E olha que pesquisei.

- Certo. Número dois?

- Número dois: a vacina está causando efeitos colaterais. A vacina é do governo. Se os serviços do governo fossem bons, ninguém reclamava tanto.

- Tá bom. Tem um número três?

- Tem.

- [Suspirando] Qual é?

- O ministro Temporão.

- Que é que tem?

- Ele defende o aborto declarando que é uma questão de saúde pública. Pois bem: quem confunde feto com doença não sabe o que é doença. Não acha?

- ...

- Foi o que pensei.

03 setembro 2008

Discussões lingüísticas

Gustavo Nagel veio hoje todo faceiro me indicar um post do novo blog de... Caetano Veloso! Pois é, o post trata justamente do assunto da recente discussão que tive com Raquel Nery sobre algumas implicações da lingüística moderna (ou nem tão moderna, já que essas idéias têm pelo menos quarenta anos). O fato é que o post é bom demais e eu não resisti: comentei. Minha felicidade é que, com esse comentário, consegui algo que não tinha conseguido até então com Raquel: resumi praticamente tudo o que penso sobre o assunto. Sintam-se à vontade para continuar debatendo aqui! Abaixo, o comentário, com o link para o post do blog de Caetano.
Olá, Caetano,

Que coincidência receber agora a notícia deste post: estava justamente conversando sobre isso em público, via blogs, com uma professora de lingüística (sou professora de francês e literatura). Em resposta a meus lamentos sobre algumas mudanças no português brasileiro que atentam contra a ossatura do idioma (ou seja, a sintaxe - como "é o carro que você precisa"), ela me acusava de elitismo. Ora, cito você -

"as pessoas que dizem “grobo” são as mesmas que têm vocabulário menor, menos acesso aos conhecimentos, menos poder"

- para afirmar que, se há no estudo do idioma a função descritiva e a normativa, não entendo por que os profissionais de Letras envolvidos na primeira função (os lingüistas) insistem em menosprezar a segunda, negando a necessidade de padrões para os idiomas e transformando a norma culta numa espécie de instrumento de opressão próprio das "classes dominantes" - um marxismo barato transposto para estudos lingüísticos. Além do mais, embora sejam duas funções igualmente importantes, há uma diferença significativa entre elas: a primeira é eminentemente acadêmica (descreve-se para compreender melhor o idioma e produzir teoria), enquanto a segunda gera resultados fora das portas da universidade, na medida em que, através do ensino para um maior domínio da modalidade culta, há um real aumento não só de possibilidades de ascensão social, mas de desenvolvimento pessoal. Quem domina o padrão culto não só angaria mais oportunidades profissionais, mas lê melhor, escreve melhor e, acredito, até pensa melhor. Assim, o resumo de meu argumento é: enquanto os lingüistas pretendem criar para essas pessoas de "menos poder" uma ilha de falso consolo, são os professores de português (os Pasquale da vida) que de fato lhes estendem a mão e as puxam para cima.

Que os lingüistas continuem portanto naquilo que é de sua especialidade - descrever o uso do idioma - enquanto os professores de português fazem o que é de sua competência: ensinar a variante culta da língua. Descrever e normatizar são duas funções diversas, mas ambas possuem relevância. Não é preciso que uma diminua para que a outra cresça.

Seu blog e esse post foram uma agradável surpresa. Parabéns!

Abraços,

Norma

P.S. Manuel Bandeira confessou achar bonitinho quando os cariocas dizem "para mim fazer". Particularmente não gosto, mas tenho especial simpatia pelo fenômeno que você citou na linguagem oral de Minas Gerais: a ausência dos pronomes em determinados verbos ("Ele assustou!"). Ora, podemos de fato apreciar alguns desvios da norma culta (orais ou escritos) sem, com isso, adotar esse discurso populista de nivelamento. Aliás, saber apreciar desvios é uma das condições para a fruição da literatura. Senão, professores de português jamais leriam ou recomendariam Guimarães Rosa! ;-)

02 setembro 2008

Por que eu ainda gosto de Girard

Essa entrevista (em inglês) está sensacional. Trechos:

We are losing every contact between language and the regions of being. Today we believe only in language. We love fairy tales more than in any other era. But Christianity is a linguistic truth, the logos.

I filled my head with the farcical, with the stupid, simple mediocrity of the avant-garde. I know well how the postmodern denial of reality can lead to the discrediting of the moral questions about man. The avant-garde, at one time relegated to the artistic field, today extends to the scientific, which thinks about the origin of man. In a certain sense, science has become the new mythology: man has created life.

The Christian religion, the greatest revolution in human history, is the only one to remind us of the correct use of reason. It is a challenge that carries with it the concept of guilt. For a long time, Europe had decided that the Germans had to be the scapegoats for World War II; it was impossible to attack communism or nazism. Once the death of God was declared, along with the end of the possibility for the word ‘enlightenment’ to have any religious meaning, there had to arise an ‘anti-God,’ a counter-divinity: communism. I agree with Ernst Nolte’s thesis on the affinity between Nazism and communism. Every totalitarian regime begins with the suppression of religious liberty. Today, this anti-life counter-divinity is revived in scientism.

From here, there is born a culture shipwrecked in the present. From here, there originates even a hatred for a vibrant culture that affirms universal truth. Today, it is widely believed that sexuality is the solution to everything; instead, it is the origin of the problem. We are continually being seduced by a suggestive ideology of allurement. Yet deconstruction does not contemplate the sexuality at the core of human folly. Our insanity thus lies in our willing efforts to make sexuality a banal, frivolous matter. I hope Christians don’t follow this direction of deconstruction. For violence and sexuality are inseparable. This is why sexuality contains both the most beautiful and the darkest elements that we carry within.

The twentieth century was the century of classical nihilism. The twenty-first century will be the century of alluring nihilism. C. S. Lewis was right when he talked about the abolition of man. Michel Foucault added that the abolition of man was becoming a philosophical concept. Today, one can no longer speak of ‘man.’ When Friedrich Nietzsche announced the death of God, in fact he was announcing the death of man. Eugenics is the negation of human rationality. If one considers man as the outcome of mere chance and as crude material for the laboratory, a malleable object to be manipulated, one reaches the point of being able to do anything to man. That ends with the destruction of the fundamental rationality that belongs to the human being. But man cannot be reorganized thus and still remain man.

25 agosto 2008

Julgar e discernir

Dois cristãos que se conhecem pouco estão conversando. Um deles conta algo que havia se tornado público: os recentes pecados em que caíra um líder famoso. No meio da conversa, o outro dá uma gargalhada. O primeiro pensa com horror: “Que absurdo, rir de uma coisa dessas. Pelo jeito o Fulano não se importa com os pecados dos outros.” O que riu percebe de súbito o estranhamento do primeiro e, um pouco constrangido, tenta justificar “Eu achei engraçado porque...”, como quem se desculpa depois de rir em velório.

Mas o primeiro permanece com suas impressões. “O Fulano não se importa com os pecados dos outros.” Isso é julgar.

Outra situação. Dois cristãos que se conhecem pouco possuem blogs. Querem se linkar, por amizade, mas um obstáculo se apresenta a um deles: o blog do outro é pouco edificante e, de quebra, está cheio de linguagem duvidosa e fotos obscenas. Ao mesmo tempo, experimenta certa angústia: “Estaria eu julgando?” O conteúdo, porém, fala por si: há algo errado na vida cristã de quem posta tais coisas despreocupadamente, sem pensar na possibilidade de escândalo. Cabe descobrir o que é.

Diante de um fato desses, quem se cala com o argumento “devo estar julgando” abstém-se de justas admoestações, impedindo que o pecado alheio seja reconhecido e coberto.

É assim que tem se comportado a igreja hoje: incapaz de fazer a diferença entre julgar e discernir, o cristão se vê de boca atada e não ajuda o irmão em erro. O pecado se multiplica em nome de um “amor” muito pouco bíblico, falso amor, mascarado sob os imperativos modernos da tolerância. Essa tem sido uma das maiores fraquezas da igreja hoje.

Que Deus nos ajude.
Post Scriptum - De fato, este post veio no momento certo: acabo de receber notícia sobre a matéria de capa da revista Eclésia deste mês. Ali, Brennan Manning e Philip Yancey são citados como apoiadores do movimento homossexual nas igrejas. Manning chega a dizer abertamente que é possível conciliar homossexualismo e cristianismo. (Só se for com o amorrrrrrrr politicamente correto, não o amor cristão, que confronta o pecador e salva sua alma da morte.) Em janeiro deste ano, escrevi que Yancey estaria "entre muros" por se render ao secularismo nesse aspecto. Não foi um ato de julgamento de minha parte, mas sim de discernimento; afinal, as palavras de Yancey não deixam muitas dúvidas sobre sua flexibilidade em relação ao homossexualismo. Repito aqui o mesmo desejo que expressei naquele post: não só que a ambigüidade em Yancey seja submetida em definitivo à Palavra, mas que a já tão confusa igreja brasileira saiba abandonar toda devoção idolátrica (há quem se refira a esses dois autores como "intocáveis") e se posicione firme em uma fé saudável e bíblica.

18 agosto 2008

Quintana é emo

Mario Quintana, para mim, é o poeta Hello Kitty, amado por nove entre dez adolescentes do sexo feminino que gostam de ler, bem, poesia. (Como só passei a gostar de cor-de-rosa depois de adulta, não era fã de Quintana nessa fase.) Tinha até um amigo que comprava todos os anos a Agenda Quintana só para escrever adendos humorísticos a cada poemeto.

Esses dias, para nossas boas risadas, outro amigo, Edson Camargo (do Profeta Urbano), sentenciou comigo por chat: “Quintana é emo!” Por exemplo, nada mais emo do que aquele famoso Poeminha do Contra, escrito sobre (ou para) seus desafetos que não o deixavam entrar para a Academia Brasileira de Letras:

“Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!”

É preciso reconhecer: o último verso clama por paródias! Foi o que começamos a fazer, frenética e gargalhadamente:


Versão Pit-Boy: “Eles passarão, eu passarei o pé na sua fuça”
Versão Louco para Imigrar: “Eles passarão, eu passaporte para os EUA”
Versão do Aproveitador: “Eles passarão, eu passo a mão na bolsa”
Versão Pasma: “Eles passarão, eu, tô passado!”
Versão Dadá: “Eles passarão, eu passo-ão”
Versão Dadá Internacional:
“Eles passarão, eu pussy cat
”
V
ersão Burro Assumido: “Eles passarão, eu pastarei”
Versão do Teimoso: “Eles passarão, eu passo não”
Versão Toca do Coelho: “Eles passarão, eu, paçoquinha”
Versão Centro Cultural: “Eles passarão, eu Paço Imperial”

E as bíblicas:


Versão Crente Educado: “Eles passarão, eu, paz do Senhor, irmão”
Versão Moisés no Egito: “Eles passarão, nós, sejamos cautelosos, soldados egípcios”
Versão Evangelista Avivado: “Eles passarão, nós iremos por todo o mundo e pregaremos o Evangelho a toda criatura!”

A brincadeira não tem fim. Aguardo novas versões na caixa de comentários!

17 agosto 2008

Travada

Estou travada. As idéias continuam pululando mas, se não aparecem aqui, a culpa é toda sua, leitor. Ah, sim. Porque, se vou desenvolver um texto sério, careço de tempo para árduas pesquisas bibliográficas e extensas notas de pé de post (você sabe, leitor, que trabalho demais - sou profissional de Letras), e não quero ser acusada de leviandade; se vou escrever uma bobagem divertida, bate o receio de ler reclamações mais compenetradas ("seu blog já foi melhor", "seu blog não abençoa como antes" etc.); se vou simplesmente postar uma música, lá vem um comentário para me convencer a largar o vício da pirataria.

Enfim, idéias há, mas me sinto como cachorro novo nas mãos de donos ignorantes: os comentários negativos têm me treinado negativamente. O resultado é que guardo tudo para mim. E minhas leituras correntes - Notes towards a definition of culture, T.S. Eliot; The Good of Afluence, John R. Schneider; Os irmãos Karamazov, Dostoiévski; As origens do totalitarismo, Hannah Arendt - só abençoam a mim mesma, porque não mais ouso falar despreocupadamente, na amizade, sobre as coisas que ocupam minha cabeça.

Ok, ok, eu sei, a culpa é minha. Mas Deus ainda há de me ensinar a confrontar, a ser contracultura direito, a não receber um comentário pesado como um tapa na cara ou um pisão no pé.

30 julho 2008

O Senhor dos Anéis

Não participei da euforia geral nas salas de cinema, mas deixei para ver os DVDs em casa. Assisti a todos quase de uma vez só. Fiquei emocionada até nas cenas do making of. O que mais me tocou foi a grande amizade que os personagens demonstravam uns pelos outros, corroborando aquela frase de Jesus: "Não há amor maior do que este: dar a vida por seus amigos." No grupo que se arriscou para ajudar Frodo, todos colocaram o amor pelo hobbit acima de suas próprias vidas. Não pôde deixar de me ocorrer que faltava ao homem moderno essa ousadia de aventuras em nome de um bem maior.

Comprei então uma edição completa em inglês de Senhor dos Anéis. Fiquei feliz por conseguir ler de modo fluido, quase sem recorrer ao dicionário. E, em um diálogo singular que tive com uma amiga esses dias, tentei explicar minhas reações à leitura de The Hobbit:

- Parei naquela cena em que o mago Gandalf visita Frodo. É estranho mas, junto com o prazer da leitura, eu sinto o tempo inteiro uma dor profunda, como se fosse infinita.

- Isso é como ele descreve a dor que sente antes de morrer - respondeu ela. - Uma dor infinita, que não sara nunca.

Eu não me lembrava mais dessa passagem no filme. Na verdade, nem sei se está lá. De qualquer modo, acho tão impressionante ter percebido a história do anel como algo implicado a minha própria vida, ao ponto de expressar com as mesmas palavras a maior dor do personagem, que corri para registrar isso em post. Ainda escreverei mais sobre o romance.

20 julho 2008

O bode marxista e o bode nazista

Pequena explicação prévia: O mecanismo do bode expiatório permite enxergar o mal unicamente no outro, visando sua destruição. É uma espécie de "teatro purgativo". Quando ocorre no nível da linguagem, usa-se a metáfora como um processo facilitador: a (des)razão coletiva escolhe certas figuras malignas como “mais más que outras”, e quem se vale do mecanismo só precisa escolher essa figura e aplicá-la indiscriminadamente ao outro odiado.

O melhor exemplo disso é Hitler. Sim, ele era de fato mau, muito mau, mas hoje sua figura é utilizada para absolver outros tiranos tão maus quanto ele. Erros históricos crassos opuseram o nazismo ao comunismo (enquanto, para o historiador Alain Besançon, ambos não passam de gêmeos heterozigotos) e o abusivo uso comunista do mecanismo estendeu-se à mentalidade de nossa época. Hoje, Hitler é o mal absoluto, não tem para ninguém. (Alguns gostam de citar Bush, mas não o fazem com a mesma força.) E, quando toda a caracterização do mal é despejada em alguém – uma espécie de imitação parasitária da ira divina – , muitos saem absolvidos do outro lado. Geralmente, Lênin, Stálin, Che Guevara, Mao etc. etc. Assim, é fácil perceber por que os conservadores costumam ser insultados o tempo todo de “fascistas”, quando o próprio comunismo deveria receber a denominação comum a ambos os sistemas, segundo Hannah Arendt: totalitário.

Saiu hoje no Estadão: “Amorim diz que ricos mentem como Goebbels”.

O título é perfeito. Mas, antes de explicar por quê, deixem-me resumir a matéria.

Indignado com o que julgou injustiça nas negociações da Rodada Doha sobre a liberalização comercial dos mercados agrícolas, o chanceler brasileiro Celso Amorim afirmou que a estratégia dos países ricos era semelhante à do ministro Goebbels, responsável pela desinformação no regime nazista. “Goebbels sempre dizia que, quando se repete uma mentira muitas vezes, ela se torna verdade”, citou. E completa: “Quando eu vejo o que é dito sobre a liberalização no setor agrícola e no setor industrial, não tenho como não me lembrar de Goebbels. Isso precisa ser desmascarado e não podemos ter um acordo baseado na desinformação.”

A recepção dessas palavras foi a pior possível, causando um acidente diplomático. Nos EUA, a representante de Comércio da Casa Branca Susan Schwab, filha de sobreviventes do Holocausto, desabafou: “É um ataque pessoal e baixo”. O Itamaraty chegou a enviar pedidos de desculpas, mas os ânimos ainda estão longe de se acalmar.

Agora, volto à minha análise. Por que o título da matéria do Estadão é perfeito? Pelo seguinte: ali estão expressos os dois lados do mal-entendido. Trata-se de um flagrante exemplo de conflito calcado no mecanismo do bode expiatório. Explico. De um lado, Amorim desenvolve um argumento sustentado pelo bode marxista (os bons são os pobres oprimidos, os maus são os ricos opressores) para enfatizar o que julga uma injustiça. Seu grande erro foi recorrer a um exemplo histórico associado ao bode expiatório supremo, o nazista, para firmar posição. Ele se sairia bem se, com tato, escolhesse palavras que sugerissem apenas o bode marxista – porque os “maus” representados por esse bode ainda costumam aceitar o papel com culpa assumida. Ou seja, o bode marxista “cola”. Porém, ao colocar um bode na pele do outro, o chanceler escandalizou os representantes dos “países ricos” e meteu-se em uma enrascada, porque entre eles havia uma vítima verdadeira do totalitarismo nazista. Apenas sua presença foi suficiente para desacreditar a estratégia.

Enfim, entendi que Amorim não quis trazer o nazismo para a discussão. Mas, ao levantar esse que é o bode mais pesado, feriu susceptibilidades bastante reais. Vai ser difícil sair dessa.

18 julho 2008

Billy Joel - To make you feel my love

"The winds of change are blowing wild and free." Uma das composições mais lindas de Bob Dylan gravada por Billy Joel. Enjoy!

13 julho 2008

Minha pequeníssima história da arte moderna


No poema de abertura de seu livro sobre o mal - e não por acaso meu preferido - , Charles Baudelaire já vai logo avisando: se você acha que esses males todos aqui não lhe dizem respeito, está enganado, hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão. Mas a poderosa assertiva de depravação total se desvia de promessas de salvação ao longo de cada poema seguinte, rumo à construção de uma outra (e bastante particular) teologia: se não podemos evitar o mal, façamos arte com ele. Não há salvação, mas uma espécie de alquimia: “Você me dá lama, eu lhe devolvo ouro”, declararia mais tarde o poeta, enquanto, depois de baixada a poeira dos processos jurídicos, críticos subseqüentes seriam quase unânimes ao declarar que, a partir de Baudelaire, a beleza estava enfim independente da moralidade.

Quando chega Duchamp com sua privada ridiculamente assinada, seu chinelo sujo de sêmen, sua Monalisa de bigode, essa primeira dissociação entre o belo e o bem se desdobra em várias. A arte é declarada independente não só da moral, mas da técnica, da autoria e sabe-se lá de que mais. Torna-se questão de espaço e contexto: afinal, é algo inteiramente arbitrário que desloca a roda da bicicleta para o campo da exposição. A força motriz dsse “algo” (os autodeclarados artistas, os marchands, os donos de galerias) detém o supremo poder de decisão sobre o que será digno do olhar apreciativo (ou depreciativo) do outro. O objeto da estética se pulveriza cada vez mais.

Hoje, não causa espanto a redução desse objeto a uma idéia. Por isso, nunca foi tão difícil, para os espíritos minimamente teoréticos, falar dele de modo ao menos razoável. Sua singularidade, afirma-se, é sempre o que escapa: o “plural”, o “difuso”, o “desconhecido”. Essa vaguidão, ou vaguidade, ou vagueza, pode cansar de morte os estudiosos finos, mas animar em definitivo os prolixos divagadores (algo bastante francês, reconheço – mas não para mim, que busco deles outra coisa) e os carnavalescos (algo mais brasileiro: a mescla dos dois é o que se encontra a rodo nas faculdades de letras). Affonso Romano de Sant'Anna cita muitos exemplos impressionantes dessa arte como idéia (Desconstruir Duchamp), e então vem Bruno Tolentino, que quase conheci em 2003, e publica nesse mesmo ano os poemas de O mundo como idéia. Não pude perguntar-lhe pessoalmente se esse livro não era, em alguma medida, uma resposta ao pontapé inicial dado (ou inspirado) pelo velho Baud.

Se não serve para instruir nem enlevar ninguém, pelo menos essa minha pequeníssima história da arte moderna explica por que, ainda em plena ressaca pós-tese, ultimamente eu me vejo pouco interessada por pesquisas estéticas e me volto para outros assuntos. Mas que o leitor (meu semelhante, meu irmão) não se engane: ainda que eu não trate quase nunca do tema neste blog (viu, Guilherme Carvalho – demorei mas respondi, hein?), a literatura é desde a infância, e continua a ser, minha paixão primeira.

08 julho 2008

Dois antídotos

Jesus Cristo personifica o único real e válido esforço de reintegração do ser humano consigo mesmo, com seu próximo e com Deus. Todos os demais são idolatria – e, dentre eles, a idolatria mais mortífera é aquela que nos faz tirar os olhos de nossas divisões internas para enxergá-las apenas externamente, como fruto de uma cosmovisão esquemática dualista-moralista totalmente arbitrária, composta de uma dicotomia rígida que se distancia da realidade. No cristianismo, o mal está no interior e é intrínseco à natureza humana desde a queda. No esquema dicotômico idólatra, o mal é apenas exterior, encarnando-se e cristalizando-se em todo aquele que não adere à cosmovisão. No cristianismo, todos nós somos opressores ou oprimidos dependendo de cada situação, mas sobretudo pecadores, porque o mal toma múltiplas formas. No esquema idólatra, o opressor tem sempre o mesmo endereço; é culpado por recusar-se à adesão e por toda forma de expressão pública dessa recusa.

O cristão se reintegra em Jesus, confessando-se pecador e recebendo perdão. O idólatra comunista, socialista e/ou politicamente correto jamais reconhece seu próprio mal, mas se sente reintegrado na doutrina que prega: acabem-se os opressores e o mundo será transformado. O cristão morre e ressuscita em Cristo; o comunista mata ou neutraliza o outro. Não há síntese possível entre esses dois antídotos para as divisões humanas. Se você se sente à vontade como cristão comunista, algo está errado. Das duas, uma: ou seu comunismo se resume a sentimentos legítimos mas mal direcionados de preocupação e solicitude com relação aos menos favorecidos – e você precisa compreender que comunismo não é isso – , ou você está usando as instituições cristãs como uma casca religiosa para embelezar aquilo em que crê de fato. No primeiro caso, alguém o enganou; busque informação. No segundo caso, você é um enganador, e terá de prestar contas a Deus naquele dia.

23 junho 2008

O erro de Girard, ou: a profundidade do mal

A Bíblia diz que "não há um justo, um sequer" e que "o salário do pecado é a morte". Diz, também, que a convicção de que somos pecadores só pode vir da parte do Espírito Santo. Isso significa que o homem não-convertido sempre irá se achar melhor do que realmente é. Enquanto o cristão verdadeiro é sempre lembrado de seus pecados pelo Espírito, o não-convertido morrerá sem saber o quanto foi mau.

Embora seja um gênio no que se refere a encontrar e analisar pontes antropológicas entre o mal humano e a cultura evangélica, René Girard erra redondamente na teologia. É impressionante como a verdade bíblica se revela mais uma vez: sem a convicção de pecado impressa pelo Espírito, ainda que mergulhe no fenômeno do mal e revele seus mecanismos - o desejo mimético e o bode expiatório são fatos reais e perceptíveis universalmente - , nenhum autor entenderá o que Cristo veio fazer se não perceber o quanto foi necessário morrer para nos dar vida. Ou seja: nosso mal é tão profundo que apenas a morte do próprio Deus nos faria reviver.

Mas Girard não vê assim, e é por isso que posso indicar sua leitura, mas não como a de um autor cristão: ainda que reconheça a superioridade do cristianismo sobre as demais religiões, Girard pensa que o sentido dos Evangelhos e o próprio mérito de Cristo repousam sobre o desvelamento do mecanismo do bode expiatório - e que a conversão consiste no abandono desse mecanismo. Para Girard, Deus se opõe a todo mecanismo sacrificial (uma compreensão errônea de Isaías 1:11), inclusive o de Cristo. O acontecimento apenas serviu para evidenciar em plenitude a maldade humana, isto é, o mal que mata um inocente.

Por isso Girard costuma ser um autor preferido entre os teólogos liberais. Se o sacrifício de Cristo não foi algo necessário e deliberado, da parte de Deus, para nos livrar de nossos pecados, mas apenas a exposição máxima do mal humano para que nós mesmos pudéssemos nos despojar dele, isso significa que nosso mal não é tão grande: o processo de conversão se limitaria à transformação advinda da contemplação de nosso próprio mal, uma experiência interior, tal como o maravilhamento diante de uma obra de arte. Isso torna a conversão algo puramente humano: se compreendo meu mal, posso abandoná-lo. E, ao situar a questão do mal tão na superfície, tornando o "novo nascimento" algo mais mental e simbólico que espiritual, Girard erra o alvo (uma das definições da palavra grega para pecado, hamartia): nascer de novo passa a ser um fenômeno gnóstico, abstrato, ligado sobretudo à mente e às impressões, e não um verdadeiro novo nascimento, completo, definitivo. Esse é um entendimento que deixa de lado o aspecto fundamentalmente relacional e transcendente da conversão, que não ocorre em um sistema humano fechado, entre as paredes de uma subjetividade soberana, mas sim na entrega sem restrições de um corpo morto para que renasça em Cristo. Assim, reconheço o tamanho e a profundidade do meu mal na medida em que aceito que, para que eu reviva, um justo precisa morrer em meu lugar, e que, sim, esse justo é o próprio Deus em um sacrifício voluntário. Essa é a gigantesca dimensão do meu mal - e os cristãos verdadeiros não adoçam sua situação; não a negociam jamais.

09 junho 2008

Um sonho de conversão


Sonhei uma vez, há pouco mais de dez anos, que estava com minha família em uma autêntica “farofa” na praia, ou seja, um almoço em frente ao que me pareceu o mar plácido e convidativo de Araruama. Mesas postas, comida pronta, o único elemento destoante sob o sol era uma assustadora carcaça de ônibus levada de lá para cá pelas ondas, ameaçando invadir o local onde estávamos. O que de fato acabou acontecendo: tomado por uma onda mais forte, o ônibus ganhou impulso e esmagou um homem, que corremos para resgatar e levar ao hospital. Lembro-me de ter sido poupada por um triz do esmagamento, porque corri em direção a meu pai que estava em um lugar mais alto na areia. A cena seguinte e última do sonho era a do hospital, onde o homem era internado e nós íamos para casa.

Quando me converti, alguns meses depois, impressionei-me muito com o significado cristalino dos elementos do sonho: a carcaça de ônibus simbolizava os caminhos humanos errantes, que terminavam por nos esmagar, dos quais eu só havia escapado por ter corrido para Deus – “meu pai em um lugar mais alto”.

Impressionou-me mais ainda, porém, descobrir justamente na igreja em que me batizei um canto com semelhanças muito evidentes com o que, no meu sonho, havia sido o hospital. O conjunto não poderia ser mais auto-explicativo. Assim, embora não dê importância demais à grande maioria de meus sonhos, recebi esse em particular como um presente de Deus.