21 dezembro 2007

Feliz Natal, ou...

Traduzido e adaptado livremente por mim de um texto postado no blog do autor conservador Roger Kimball. Pode reproduzir por aí à vontade, mas não se esqueça de pôr a fonte.


Aos meus amigos politicamente corretos:

Recebam meus votos apartidários, inclusivos e totalmente desinteressados de boas festas – não somente boas, mas socialmente responsáveis, ecologicamente conscientes, multiculturais, sem estresse, sem gorduras, sem aditivos artificiais e sem dependência química, comemoradas segundo as melhores tradições do segmento religioso de sua escolha, ou as melhores tradições do segmento secular de sua escolha, com todo o respeito pela escolha de não optar por nenhum tipo de tradição, seja ela religiosa ou secular. Também desejo a vocês um maravilhoso período de doze meses que se convencionou chamar, em nossa cultura, ano de 2008, sem esquecer todas as culturas de calendário diverso que contribuíram igualmente para a formação de nosso continente latino-americano e nosso querido país. Não que os outros países não sejam igualmente queridos e valorizados, é sempre bom deixar claro. Lembrando também que meus votos destinam-se a pessoas de todos os credos, raças, cores, gêneros, preferências sexuais e demais manifestações de pluralidade.

Aos meus amigos conservadores:

Um Feliz Natal e um Próspero Ano-Novo!

14 dezembro 2007

Duas cenas

Cena 1: Estou para entrar em uma loja. Da porta vêm saindo, primeiro, uma mulher, que eu espero passar, e alguns segundos depois um homem, que se encontra comigo no limiar da entrada. Ficamos os dois num duro impasse físico, feito de pequenos avanços e recuos, antes que ele, um pouco a contragosto, resolva se posicionar de lado e permitir que eu entre. Ainda perto da porta, ouço a mulher dizendo:

— Mas que incrível, hein?

Arregalo os olhos. Estaria ela falando de mim?

— É mesmo incrível!

— Está falando comigo? — dirijo-me a ela, reabrindo a porta em vez de me esgueirar para dentro da loja. Meu tom não é arrogante, quero apenas saber qual foi meu erro. Ela esboça algumas palavras sobre falta de educação, mas o homem, preocupado com uma possibilidade de barraco na galeria, puxa-a pelo braço. Restam-me duas frases sinceras e frias: “Desculpe, não vi que ele estava com você” e “Além disso, ele é homem”.

Cena 2: Vejo o táxi do outro lado da rua, mas o motorista não me vê. Aliviada porque, àquela hora, não costuma haver táxi naquele ponto, encaminho-me para ele ao mesmo tempo em que um homem de terno, gravata e pastinha vem pela calçada do outro lado. O homem chega alguns segundos primeiro e abre a porta do carro, enquanto eu tento falar com o motorista: “Você pode usar o rádio para chamar outro para mim?” Estou desolada: chove muito, a rua está escura, são mais de onze horas da noite e eu carrego um saco plástico pesado. O passageiro então propõe:

— Para onde você vai? Se você for para o mesmo lado que eu, é até bom, porque a gente pode dividir o táxi e eu economizo — ri ele.

Esperançosa, digo o nome da minha rua.

— Vou para o lado oposto, que pena — responde ele, dando de ombros e sumindo para dentro do veículo.

Em vez de esperar o outro táxi que o motorista poderia chamar — já me aconteceu de esperar em vão — , vou andando em direção a um lugar mais iluminado. Não estou irritada, mas pasma: além de não me ceder a vez, o homem ainda queria dividir a conta comigo! Lembrava que naquele dia, também debaixo de chuva, eu havia pego carona de manhã com uma moradora do meu prédio, alguém que nunca havia me visto. Ofereci-me para pagar metade da corrida, mas ela foi cavalheira o suficiente para negar — como eu mesma teria sido. Que sina: nós, mulheres, temos sido mais gentis umas com as outras que muitos homens!

Não posso deixar de compreender as duas cenas como parte de um mesmo fenômeno. Na Cena 1, a mulher defende o marido porque outra mulher não o havia deixado passar primeiro. Lamentei por ela. Aquele casal era muito provavelmente mais um (entre tantos) em que a contraparte feminina assume o controle. Lamentei também pelo homem da Cena 2, que àquela altura teria ainda que aprender muito sobre a fragilidade feminina e sua própria capacidade de doação. Não os condenava: eu mesma havia passado por relacionamentos parecidos. Meu impulso sempre fora o de cuidar e acalentar, enquanto o outro deixava em banho-maria sua masculinidade. Por isso havia decidido repousar em Deus todo impulso para o sexo oposto, enquanto Ele gentilmente me transformava. Agradeço-Lhe porque creio nessa transformação — se não fosse assim, em nada essas cenas teriam me chamado a atenção. Agradeço-Lhe também, e sobretudo, por ter me livrado de um casamento nesses termos.

É por isso que hoje, mais que nunca, não podemos deixar de admirar a sabedoria bíblica quando lemos que o homem é o cabeça do casal: quando tomamos a frente, nós mulheres deixamos de exercer nossa plenitude feminina e tudo o que decorre dessa plenitude — a receptividade, a vida interior, a busca da harmonia, a elaboração das emoções, os sonhos, as intuições. Além disso, aprendi algo muito grave: quando a mulher assume o papel mais forte da relação, está sendo não uma mulher forte, “mulher-macho”, mas uma menina brincando de casinha, já que a recusa a seu papel feminino nada mais é que o refúgio em uma fantasia de maternidade. Como não sabe ser mulher, será mãe do macho, valendo-se de uma preponderância não real, mas imitada, para ocultar de si mesma sua imaturidade. E, claro, o homem que aceita esse acordo inconsciente também oculta sua meninice.

Nesses tempos de confusão, em que os papéis sexuais invertem-se como em um jogo de espelhos, nada mais saudável que lembrar-se daquilo que Deus instituiu. O mundo moderno tem reforçado nosso profundo medo de viver plenamente nossa sexualidade. Mas “o verdadeiro amor lança fora todo medo”. Que esse também seja o aprendizado dos casais cristãos nesses dias difíceis!

12 dezembro 2007

Recolhimento

Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.

Eclesiastes 3:1


Preciso me recolher, hibernar, contemplar, sonhar. Gestar tanta coisa que pede materialização. Diante desse computador, tantas são as vezes em que busco a quietude. Os grupos de discussão me chamam para o areópago, recuso. Os comentários me chamam para a briga, suspiro. Estou disposta a dar gargalhadas, orar por dificuldades, compreender disposições de espírito. Argumentar também, mas a passos cadenciados e calmos, sem a necessidade de voltar sempre a pontos pacíficos, tão didaticamente. Ainda há paciência, mas essa paciência - infinita - quer se voltar para outras plagas. Quero seguir adiante.

Por isso, amigos, leitores, concordantes ou discordantes: perdoem-me. Vou fechar o espaço de comentários, pelo menos por enquanto. Preciso. Sei que os que vêm aqui de espírito aberto (há muitos) entenderão o que me move. Sei que outros poderão me acusar de "censura". Pena, mas temos visões diferentes. Para mim, o blog não é arena pública, mas sim a casa do blogueiro, o sofá em que nos sentamos, eu e o leitor, para uma conversa gostosa. Como não perceber isso? O desejo de dizer e o desejo de ouvir suplantam o espírito de caixote no meio da praça.

Por isso, o silêncio em torno. Quero festa lá fora (preciso de festa), mas tranqüilidade para dizer o novo comigo mesma. E o novo não se beneficia de tanto falatório. Simples assim.

Se o silêncio se estender aos posts, sei que também irão me compreender. Mas quem gosta de me ler não ficará na ausência por muito tempo. Deus sabe de todas as coisas.

09 dezembro 2007

Homossexualismo é pecado...

...assim como o sexo antes do casamento, a masturbação e tantas outras práticas aceitas como naturais e bem-vindas pela maioria das pessoas no mundo ocidental hoje. Moças de família do século XX e XXI praticam essas coisas. Mas nós, cristãos bíblicos, cremos que são pecado.

Pois é, nós cristãos somos assim mesmo. Impopulares. Retrógrados. Com nossa postura, atravancamos o progresso de tantas causas que parecem boas e justas aos olhos dos homens. Mas não vamos pedir desculpas ao mundo por isso. Temos uma regra de vida e prática, expressa na Bíblia Sagrada, e não abriremos mão dela.

O que não significa odiar gays, insultar gays, espancar gays, matar gays. Assim como não odiamos, não insultamos, não espancamos nem matamos a grande maioria que faz sexo antes do casamento e se masturba. Apenas nos posicionamos quando pregamos ou alguém nos pergunta sobre o assunto. Nem por isso essa maioria se sente especialmente atingida pelo que cremos. Eles não estão nem aí. E, acreditem, temos grande afeto por muitas pessoas assim e convivemos com elas. Sem feri-las, mesmo quando procuramos partilhar nossa fé. Se elas se sentem atingidas, a gente resolve a coisa como deve ser: de um modo pessoal, na base da conversa.

Os ativistas, porém, do lobby gay, querem institucionalizar a aceitação, engarrafar as boas relações, automatizar o carinho, mecanizar a simpatia. E usam o Direito para isso: a coação, a sanção.

Será isso certo? Pensem bem. É bom esse tipo de aceitação, conquistada na marra, na força da lei? Com o atentado à liberdade de expressão, que é prerrogativa de todos os totalitarismos?

Quanto a nós, queremos ter a liberdade de continuar pregando e dizendo a nossos amigos e conhecidos: homossexualismo é pecado, assim como o sexo antes do casamento e a masturbação. Quem quiser, que nos ouça e se converta. Quem não quiser pode nos dar as costas, sair de nossas igrejas, escrever artigos contra. Não nos importamos. Mas que não queiram calar nossa voz. Não são palavras de violência, mas de amor.

Que Deus abençoe os líderes deste país para um pouco mais de sã racionalidade - e, por que não dizer, da verdadeira democracia.
Meu amigo Julio Severo chama a atenção para a Jornada Nacional Evangélica em Defesa da Vida e da Família, lançada no Congresso em 18 de setembro deste ano, com a participação de lideranças evangélicas. O evento discutiu infanticídio, aborto, homossexualismo, pedofilia, além de mencionar os perseguidos - mesmo antes da aprovação do projeto de lei sobre a homofobia! - que desagradam os lobistas: Márcia Suzuki, Olavo de Carvalho, Pr. Ademir Kreutzfeld, Cardeal Dom Eugênio Sales, Dep. Henrique Afonso, Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz, Dr. Humberto L. Vieira, Dra. Rozangela Justino, Silas Malafaia e Julio Severo. Imaginem como não será a perseguição aos cristãos quando a lei for aprovada! Precisamos nos mobilizar o quanto antes.
Veja o pecado do homossexualismo conforme a Bíblia:

Gênesis 1:27 – "Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."
Marcos 10:6 – Palavras de Jesus – "...porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher ."
Levítico 18:22 – "Com homem não te deitarás, como se fosse mulher: é abominação."
1 Coríntios 6:9 – "Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas... herdarão o reino de Deus."
Romanos 1:18-32 – "...por causa disso os entregou Deus a paixões infames... os homens também, deixando o contato natural da mulher , se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo em si mesmos a merecida punição do seu erro."

28 novembro 2007

Textos escolhidos

A sua cabeça é como o ouro mais apurado, os seus cabelos,
cachos de palmeira, são pretos como o corvo.
Cântico dos Cânticos, 5:11
As comparações falham em descrever o Senhor Jesus, mas a esposa utilizou a melhor expressão que estava a seu alcance. A cabeça de Jesus pode ser entendida como uma referência à sua divindade, pois a cabeça de Cristo é Deus (1Co 11:3). O lingote de ouro mais apurado é a melhor metáfora concebível, porém é muito pobre para descrever Aquele que é infinitamente precioso, puro, querido e glorioso. Jesus não é uma pepita de ouro; Ele é um vasto universo de ouro, um tesouro tão precioso que os céus e a terra não podem exceder. As criaturas são apenas ferro e barro; todas elas perecem como a madeira, a palha e o feno. Mas o eterno Cabeça da criação de Deus brilhará para sempre.
Os cachos de palmeira retratam o vigor varonil de Jesus. O Senhor Jesus é o mais varonil dos homens. Ele é corajoso como um leão, laborioso como um boi e rápido como uma águia. Toda beleza concebível e inconcebível tem de ser encontrada em Jesus, embora Ele tenha sido o mais desprezado e rejeitado pelos homens. Agora, o Senhor Jesus está coroado eternamente com majestade incomparável.
Os cabelos pretos indicam frescor de juventude, pois Jesus tem sobre Si o orvalho de Sua juventude. Outros se tornam velhos com o passar dos anos. Jesus, porém, é um Sacerdote eterno. Outros nascem e morrem, mas Ele permanece como Deus, em seu trono, para sempre. Nós O contemplamos e O adoramos neste momento. Os anjos estão com seus olhos fitos nEle, e seus redimidos não podem retirar seus olhos dEle. Onde mais encontraremos um amado como esse? Senhor Jesus, atrai-me, eu tenho de ir ao seu encontro.
C.H. Spurgeon
Leituras diárias vol. I
Editora Fiel

13 novembro 2007

Diálogos (imoralmente) Irrelevantes V

Se um interlocutor se imiscuísse no artigo de um autodenominado filosófo do qual não quero dar o link – quanto menos divulgado, melhor – , qual seria o diálogo resultante? Confira.


- Eu acho um absurdo essa recente "caça às bruxas" de nossa sociedade ocidental contra o que chamam de "pedofilia".

- Ah é? Por quê?

- Ora, para começar, a nossa história está repleta de exemplos de uniões com êxito entre pessoas de idades diferentes.

- Ah, por favor, que conceito fluido de "pedofilia" é esse? Você não vai comparar "uniões entre pessoas de idades diferentes" com pedofilia, vai?

- Espera aí. Relações entre adultos e crianças não precisam ser traumáticas. Existem casos em que as relações sexuais, até mesmo com certa violência, não deixam marcas físicas e psicológicas nas crianças. Você se lembra da sua infância?

- Minha infância? Cara... Acho que até mesmo o mais leve olhar sexualizado de um adulto deixa marcas. As crianças são muito sensíveis e eu me lembro de cada momento de minha infância. Não se brinca com isso. O fato é que a criança tem mecanismos adaptativos muito fortes, pois ainda não desenvolveu proteções psicológicas adequadas. O adulto pode conseguir os pactos mais esdrúxulos com uma criança, se conseguir ganhar a confiança dela. Se esse pacto for o abuso sexual, ela vai se tornar alguém problemático com relação ao sexo, perpetuando o abuso por sua vez.

- Não é bem assim. Existem muitas crianças que até fantasiam experiências com adultos e que, uma vez perguntadas se foram "abusadas" sexualmente, dizem "sim" com orgulho, de acordo com a expectativa dos que perguntam.

- Não acredito que isso seja tão constante assim. (Aliás, como é que você sabe?) Mesmo assim, é o que eu disse: o fato de a criança ter se adaptado a isso, inventando ou não, não é prova de que a pedofilia pode ser algo "normal". Assim como o fato da existência de uma boa quantidade de assassinos no mundo não prova que a morte provocada seja normal e desejável! Que argumento é esse para um filósofo?

- Mas, no caso do sexo, é diferente. Os relacionamentos são convenções da sociedade, que sempre busca punir quem não se enquadra nos padrões considerados corretos. No final das contas, todo mundo vai querer punir quem não fizer sexo no estilo "papai e mamãe", isto é, de pijama, só depois da novela, com parceiros heterossexuais e de mesma idade.

- Que absurdo você está dizendo. Há muito tempo ninguém pune ninguém por aquilo que é feito no quarto, entre adultos. Mas com criança é outra história. Você está comparando o incomparável. Quer dizer que a proibição à pedofilia é só uma "convenção"? Você acha então a pedofilia normal e aceitável?

- [Absorto no que diz] Isso não é só hipocrisia. Isso não é só cegueira ideológica e, quem sabe, religiosa. Isso é nazismo! É a Inquisição! Aí as pessoas começam a fazer "denúncias anônimas", o que é um perigo. Pegam o telefone para denunciar o comunista de hoje em dia, ou seja, o "pedófilo". Junto com o pai que não paga pensão, com o ladrão de galinha, o pedófilo é agora o inimigo número 1 da nação. Pobre nação! [Segue-se um longo monólogo sobre a excessiva criminalização praticada nas sociedades atuais.]

- Escute, você está mudando de assunto. Além disso, usou o exemplo mais errado possível: as sociedades comunistas são as que mais incentivam a criminalização. E o pior, não por crimes enquadrados no código penal, mas sim por crimes de opinião, como o que os homossexuais querem fazer com a tal lei da homofobia...

- (...)

- Mas ok, responda à minha pergunta, por favor. Você acha a pedofilia normal e aceitável?

- Não! Imagina. Estou longe fazer a defesa de algo como a pedofilia. Mas não concordo que nossa sociedade teça julgamentos sem levar em conta nossa tradição cultural, sem considerar o que de fato consideramos correto no Ocidente, e o que é e o que não é "abuso sexual" com crianças e jovens.

- Mas o que você está querendo dizer exatamente? Existe algum tipo de relação sexual com crianças que não seja abuso? Não percebe que com esse discurso você está indiretamente relativizando a noção de "pedofilia"? E que isso acaba sendo, sim, uma defesa da pedofilia?

- Não. Acredito que nisso tudo há uma falta completa de reflexão filosófica. E quem busca coibir a pedofilia nem sempre está preparado para entender situações que só com mais esclarecimento intelectual e mais vivência podemos entender. Não leva em conta que crescer e se tornar adulto não é uma tarefa fácil. É um processo social e histórico.

- Claro. Mas, antes de tratar o problema de adultos abusadores que continuam com sua sexualidade infantilizada – ou seja lá qual for a motivação de quem sente atração por crianças, não sei, não sou psicólogo – , é preciso tirar esses adultos de circulação, para que seja interrompido o ciclo do abuso sexual. As pesquisas dizem que quem é abusado se torna quase invariavelmente um abusador por sua vez. Primeiro, é um caso de polícia; depois o psicólogo intervém. Mas a coisa tem que parar. É crime. As "reflexões filosóficas", nesse caso, só serviriam para deixar os pedófilos mais livres...

- [Com o olhar suspenso] Você tem razão quanto à imaturidade sexual na idade adulta. Há um filme chamado "Pecados íntimos" em que todos os personagens continuam vivenciando sua infância. São adultos e tentam cumprir, como nós, suas obrigações sociais, mas são um pouco... infantis. Cada um de nós, de algum modo, é um daqueles personagens...

- Opa, peraí. Lá vem você relativizando de novo. Tá certo que a maturidade plena é difícil, mas esse tipo de imaturidade que leva ao abuso infantil, você há de convir, é algo muito mais sério... Podemos até nos identificar com a imaturidade dessas pessoas, mas não podemos, com base nessa identificação, promover um tipo de relativismo "compreensivo" que contibuirá, no final das contas, para a criação de um maldito NAMBLA, uma associação de pedófilos, no Brasil.

- Mas cada caso tem que ser analisado, para entender a diferença entre alguém que precisa de um tratamento por ser pedófilo e alguém que está propondo certas práticas — que no limite não serão malévolas — , práticas possíveis de serem propostas segundo uma série de fatores culturais.

- [Arregalando os olhos] Como assim? Que práticas???

- Tá vendo? Quando se fala de sexo, as pessoas ficam de cabelo em pé, igual você, agora. Os crimes sexuais, mais do que o assassinato, inspiram o fascismo...

- Oh, pare de se desviar do assunto! Responda, que práticas podem ser "pouco malévolas" em se tratando de tentativas sexuais entre um adulto e uma criança?! A criança está evidentemente em posição de inferioridade com relação ao adulto...

- Veja como você ficou nervoso! Isso é sintomático. Esse furor, esse desejo coletivo de castração do criminoso sexual, torna as pessoas tão ou mais perigosas do que os chamados pedófilos. A coletividade castradora é a direita, o fascismo, atacando coletivamente, enquanto o pedófilo, se quer abusar de crianças à força, ataca só individualmente...

- Agora você extrapolou tudo, meu caro. Não tenho visto nenhuma coletividade por aí, de facas na mão, correndo atrás dos pênis dos criminosos sexuais. Por outro lado, a pedofilia é algo que as mesmas sociedades ocidentais que você condena estão doidinhas para legalizar, porque estamos em uma época em que ninguém mais aceita freios para o desejo humano. E tem mais uma coisa: quando menciona "abusar de crianças à força", você parece querer defender que não é pedofilia o assédio adulto "consentido" pela criança. Esse é o mesmo argumento dos pedófilos do NAMBLA. Dizem que, se a criança aceita, por que não fazer...?

- Olha, nós não vamos chegar a bom termo criminalizando várias práticas sociais que até bem pouco tempo havíamos elogiado. O amor entre pessoas de idades diferentes foi e, em alguns lugares ainda é, uma prática incentivada no Brasil. Muitas de nossas avós casaram com homens bem mais velhos, quando ainda eram meninas. Não foram infelizes. Muitas meninas atraem propositalmente homens mais velhos, e isso não é o fim do mundo.

- Você está comparando o casamento das nossas avozinhas com a pedofilia? Você tem idéia do que está dizendo??? O adulto que se interessa sexualmente por uma criança logo abandonará essa mesma criança quando ela estiver com mais idade, porque terá perdido o interesse nela. É tão óbvio que a pedofilia é uma relação que degrada a criança, que é vista apenas como objeto sexual! Você está comparando isso com o relacionamento compromissado que é um casamento feliz? Sua visão está totalmente distorcida. Eu sabia que essa conversa não ia chegar a lugar algum.

- [Fechando a cara.] Regras rígidas e sem uma base de estudo podem nos conduzir a um Brasil como prisão coletiva, uma sociedade infeliz, meu amigo.

- Não me chame de amigo, por favor. É preciso uma prisão coletiva para pessoas como você, que sob a capa de "filósofo" contribuem para que mais e mais crianças sejam empurradas para o abismo sem fim que é a dor do abuso sexual. Você precisa se tratar!

31 outubro 2007

Hoje é dia da Reforma!

Leia também: post do Tempora

Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus.
Jesus Cristo em Mt 22:29
Examinai as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas
a vida eterna,
e são elas que de mim testificam.
Jesus Cristo em Jo 5:39
O muro da cidade tinha doze fundamentos, e neles estavam
os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.

Apóstolo João em Ap 21:14


Quando pensamos nas inúmeras igrejas evangélicas que continuam se formando das mínimas dissidências através das últimas décadas; quando verificamos a falta de consistência bíblica e de preparo intelectual e/ou espiritual de muitos líderes dessas igrejas; quando lembramos as denominações e os pastores que aderem ao aborto e à causa gay... nada disso nos deixa propícios a comemorar o Dia da Reforma.

Porém, os primeiros líderes da igreja primitiva já tinham seus problemas, e eles não eram leves. Gente que mentia ao Espírito Santo, que pervertia a fé dos outros ao anunciar que a ressurreição já havia ocorrido, que se fingia de pregador fiel para tirar dinheiro do povo, que forçava a barra para que os procedimentos judaicos continuassem a ser praticados... e nenhum desses desvios era suficiente para apagar a grande alegria que os cristãos sentiam em ser discípulos de Cristo, depositários de Sua maravilhosa Palavra (que limpa a alma) e do penhor do Espírito (que nos permitirá estar com Deus naquele dia).

Olhamos para trás e a nossa volta, e somos capazes de reconhecer os inúmeros erros da igreja cristã. No entanto, também podemos atestar os imensos cuidados de Deus para que a fé continuasse viva e atuante em todos esses séculos. O princípio da Sola Scriptura, ao contrário do que católicos e ortodoxos afirmam, não é um espécie de idolatria ao Livro; é, ao contrário, mostra do infinito amor de Deus para conosco, não deixando que ficássemos vulneráveis às inconstâncias dos homens através dos tempos. O princípio da Sola Scriptura é a razão de ser da própria Bíblia: balizador de nossa fé, porto seguro para onde nos voltamos quando as falas sobre Deus ao redor nos parecem desconexas demais.

Li hoje no Orkut: "Não existe a noção de Sola Scriptura nos quinze primeiros séculos do cristianismo. O Cristianismo nunca foi uma religião do livro, pois a Palavra de Deus é Cristo encarnado, ressucitado e vivo entre nós. Tinta sobre papel, nesse caso, é secundário. E pode ser letra que mata."

O problema com essas afirmações é que elas não podem ser enunciadas sem que seja introduzido um grande princípio relativista na relação do cristão com a Bíblia. Elas contradizem as palavras e o comportamento do próprio Jesus. Vejamos.

No Novo Testamento, Cristo menciona aqueles que viriam a crer Nele não por um encontro direto com o Deus encarnado, como tinha acontecido com os discípulos, mas sim por Suas palavras. Ora, as palavras de Jesus não podem mais nos ser passadas boca-a-boca - suas testemunhas diretas não mais circulam entre nós - , mas sim pelo Livro (e, ainda indiretamente, por quem lesse o Livro e reproduzisse oralmente o que lá achasse escrito). Nesse sentido, quando as palavras de Jesus não estavam escritas, eram autoridade a partir da boca de Seus discípulos sinceros. Mas, como estão escritas, são autoridade a partir do Livro. Isso parece óbvio, mas não é. O registro detalhado da fé e sua organização em forma de um Livro espantosamente coerente é a prova de que Deus providenciou meios para que o conteúdo do que cremos não fosse facilmente alterado através dos séculos.

Além disso, há outro fator muito importante. Conforme lemos no Novo Testamento, quando Jesus começou a exercer Seu ministério, como é que Ele demonstrou que a religião judaica daquele tempo - que deveria testificar Dele como o Messias - havia se desviado grandemente de seus propósitos originais? Pelo Livro, ainda incompleto, da época: o que chamamos hoje Antigo Testamento. Como é que Ele corrigia os desacertos de seus contemporâneos acerca Daquele que havia de vir? Com a interpretação adequada do Livro.

Quando interpelado por autoridades judaicas, Jesus sempre respondia com palavras do Livro, deixando claro que o erro de seus questionadores era desconhecer as Escrituras. No encontro com a mulher samaritana, Jesus corrige sua cosmovisão dizendo-lhe algo que só o Livro pode atestar: a salvação que Ele representava vem dos judeus. E é com a autoridade desse Livro que Jesus vai à sinagoga, abre-o em Isaías e começa a ler sobre o Messias que viria, anunciando em seguida: "Sou eu este de quem o Livro fala." Se o próprio Jesus tratou o Livro como autoridade, por que deixaríamos de agir como Ele?

Há inúmeros exemplos em todo o Novo Testamento. Depois que Jesus ressuscita, os discípulos não O reconhecem de imediato. Ele então começa a narrar longamente os fatos do Livro - novamente, do Livro - para mostrar como era necessário que o Messias padecesse. Jesus conhecia o Livro e sabia que a reação correta de Seus discípulos a Sua presença depois de ressurreto dependia da correta interpretação das palavras ali registradas. Ele tinha o Livro em proeminência e não admitia que os líderes seus contemporâneos falseassem o que estava nas Escrituras, como demonstrou, por exemplo, no Sermão do Monte. Diante disso, não podemos agir diferente.

Os discípulos de Jesus compreenderam isto. Em Atos, os judeus de Beréia são louvados porque confirmaram as palavras pregadas pelos apóstolos da seguinte maneira: abriam o Livro e verificavam se estava correto o que ouviam. Não há dúvida de que seu louvor nos convida a fazer o mesmo, hoje, mais de dois mil anos depois da vinda do Senhor. Se fosse diferente, os judeus de Beréia não seriam elogiados, mas sim repreendidos, por submeterem as palavras dos próprios discípulos de Cristo ao Antigo Testamento - palavras que se verificaram verdadeiras e coerentes com os primeiros escritos, e que, por esse mesmo exame, foram acrescentadas ao Livro, ganhando o mesmo status que as anteriores. Se o AT era utilizado por Jesus para atestar a veracidade de Suas afirmações, não podemos fugir do fato de que o NT é repleto de recomendações para que os cristãos se ativessem aos conteúdos enunciados pelos apóstolos, colocando-os em evidente proeminência a qualquer outro ensino posterior. Assim, por que o procedimento seria outro, se hoje, no mundo ocidental, temos o privilégio de possuir em mãos o mesmo Livro, acrescido das palavras de Jesus e dos apóstolos comissionados diretamente por Ele para pregar Sua palavra? Por que Jesus exigiria de nós algo diverso do exame que Ele próprio realizou nas Escrituras, as quais conhecia e amava?

É verdade que o protestantismo causou muitas turbulências na cristandade. Guerras e ódios marcaram e ainda marcam a rivalidade que começou com Lutero, e a divisão entre os cristãos cobra imensos tributos. Além disso, católicos e ortodoxos, talvez beneficiados por sua maior antiguidade histórica, continuam a ser especialmente brilhantes na filosofia e na literatura. Porém, o exame da Bíblia para confirmar fatos verdadeiramente cristãos - ou seja, o tratamento das Escrituras como autoridade para os conteúdos da fé - é algo que Cristo praticou e que serviu de exemplo para seus discípulos. A preocupação com a pureza da fé e com a permanência naquilo que Jesus e os discípulos ensinaram é parte constitutiva desse Livro, que começa com a criação do mundo e termina com o fim, algo que marca sua inviolabilidade depois da vinda do Messias. Palavras de homens não podem contradizer o registro bíblico - nem as posteriores à Septuaginta, nem as posteriores aos escritos dos apóstolos - , sob o risco de ir além das palavras de Jesus e daqueles comissionados diretamente por Deus para a autoria inspirada do Livro. Não podemos contradizer esse princípio sem relativizar a Bíblia. E muitos cristãos só mantêm esse cuidado, hoje, por causa da Reforma. Por isso, principalmente por isso, posso louvar a Deus pela forma com que nos conduziu até aqui e agradecer a Ele, de coração, pelo dia 31 de outubro. Aleluia!

24 outubro 2007

Abortem-se os pobres

Uma falácia leva a outra. Primeiro, começaram a dizer que a maior causa da violência é a pobreza. Ou seja, colocaram todos os pobres no mesmo saco, honesto com bandido, e insultaram os honestos. (Isso é coisa de quem não anda com moradores de favela. Quem tem amigos na favela sabe o quanto Deus é democrático em distribuir beleza, coração generoso, dons e talentos em todos os meios sociais.)

- Não julguem as pessoas com base em seu meio social! - tenho vontade de gritar.

Agora, valendo-se de uma tese ridícula dos autores de Freakonomics, andam dizendo que uma das medidas urgentes contra a violência é a legalização do aborto. Declarações tão absurdas como essa começam a pulular por aí com a carinha lisa da sonsice. Depois nós, conservadores, é que somos nazistas e fascistas... O determinismo implícito nessa tese “nasceu pobre, vira bandido” é tão ultrajante que nem tenho vontade de comentar.

Apenas imagino a seguinte cena: uma moradora de favela, grávida, encontra um político famoso. Segue-se o diálogo.

- Ih, minha filha, você está grávida, é?

- Estou... - responde ela, olhando para a barriga.

- E agora? Não se precaveu, né.

- É verdade. Mas eu quero ter ele.

- Você vai deixar nascer???

- Vou!

- Não acredito. Minha filha, pensa bem! Você é pobre!

- Sou pobre, mas vou lutar para cuidar do meu filho.

- Não, você não está entendendo. Você é pobre. Pooooooobre! Você mora na faveeeeeeela! Você já olhou em volta? Já percebeu quantas mulheres à sua volta estão tendo filhos sem parar? Esse monte de crianças poooooooobres, depois, vão crescer e descer para assaltar o povo do asfalto, que tem pouco filho – um, dois, no máximo – e não precisa roubar para sobreviver. Está entendendo, minha filha?

- Mas que absurdo! Como é que você tem tanta certeza de que meu filho vai virar bandido?

- (Olha para cima, perdendo a paciência.) Como eu posso ter certeza? Ora, minha filha! O homem é produto do meio! Onde você mora é uma fábrica de produzir marginal!

Ela arregala os olhos, incrédula. Antes de ir embora, o político famoso aponta dramaticamente para a barriga e vocifera:

- Livre-se desse monstro o quanto antes!!!

19 outubro 2007

A arte moderna e o mundo como idéia


Hoje está em voga nas galerias o tipo de exposição que se chama “instalação” – um gênero artístico esquisito, inspirado no famoso urinol assinado por Marcel Duchamp (foto), em que as idéias substituem as obras de arte: objetos cotidianos são arranjados de modo a representar uma determinada idéia do artista, e a idéia se torna a verdadeira vedete do acontecimento. A idéia tem de tal modo substituído a arte que já se viu um pouco de tudo. Listo aqui todas as manifestações sobre as quais já li ou presenciei:

- Artista vendendo as próprias fezes em saquinhos;

- Artista expondo uma reprodução de seu próprio quarto após uma noite de sexo: uma cama desarrumada, louças sujas, camisinhas pelo chão;

- Artista pintando quadros com o próprio vômito, depois de ingerir tinta;

- Artista trazendo cadáveres para exposição ou esculpindo estátuas com matéria-prima de corpos mortos;

- Artista se jogando em cima de uma tela gigantesca para que, de sua morte, nasça sua última “obra”, hoje exposta em um museu de Tóquio.

É no mínimo intrigante perceber um fio comum que une essas manifestações: a insistência na escatologia, um fenômeno complexo que tenho tentado compreender, que me parece caracterizar mais uma manifestação daquilo que René Girard chamou “transcendência desviada”. Nesse caso, desviada para a arte: as instalações tentariam atravessar o tabu da morte, dessacralizá-lo, exorcizá-lo. Aquilo que, sabemos, apenas Jesus pôde fazer – a vitória sobre a morte (At 2:24) – se vê falsamente representado em um grotesco desfile de dejetos do corpo e cadáveres, em nome da tão elástica noção atual de “arte”.

O que pode ser mais tabu que a morte? O artista que o atravessa simbolicamente parece ganhar contornos de semideus. Só isso explica a popularização absurda da instalação, mas sobretudo das instalações “escatológicas”. E só isso explica as justificativas que recebeu um artista costa-riquenho, Guillermo Habacuc Vargas, por expor e deixar morrer de fome na galeria um cão doente recolhido nas ruas de Manágua, com a cruel ironia de um letreiro, acima dele, com a frase “Você é o que você lê” escrita com rodelinhas de ração coladas na parede. Justificativas como essa: “Pessoas morrem todos os dias de fome, drogadas, por xenofobia [sic] ou por estúpidos burgueses que ignoram e não se responsabilizam pela putrefação da vida atual. Bravos pelo prêmio, agora o cão está no céu, e o melhor é que morreu como uma obra de arte e não no silêncio das ruas.”

Morreu como uma obra de arte e não no silêncio das ruas. Sim, mas poderia ter sido recolhido para tratamento e adoção, como fazem tantas queridas amigas minhas, dedicando-se à causa dos animais abandonados. Poderia ter tido anos de vida feliz. Em vez disso, foi sacrificado em público para ser divinizado em nome da religião “arte moderna”, e para que seu sacerdote, esse “artista” Habacuc, seja alçado à categoria de profeta da modernidade.

E por que profeta da modernidade? Porque sua história resume a maior tragédia do nosso tempo: ele estava preocupado com o cão “como idéia”, e não com o cão real, faminto e doente, a seu alcance. É a preocupação com o ser humano genérico que substitui a ação real e eficaz nos regimes comunistas; senão, como explicar que, em nome do amor e de “um mundo melhor”, tenham sido feitas tantas vítimas, na casa dos milhões? Da mesma forma, é a preocupação com a idéia dos oprimidos - pobres, mulheres, negros, gays - que caracteriza a ação dos militantes politicamente corretos hoje; senão, como compreender que sua militância se concentre no Ocidente, e não no Oriente, onde não só mulheres e gays são assassinados e mutilados, mas também milhares de cristãos sofrem e morrem diariamente por causa de sua fé?

No totalitarismo vitimário moderno, desloca-se ou inventa-se uma vítima somente para que, em seu nome, sejam justificados os sacrifícios de incontáveis outras vítimas - essas, tão reais quanto o animal deixado para morrer como “obra de arte” no canto de uma galeria em Manágua. Confrontado sobre sua “arte”, Habacuc explicou que a presença do cão foi uma homenagem a Natividad Canda, morto por um rottweiler. Suas sentenças são reveladoras: “Me reservo o direito de decidir se é certo ou não que o cachorro morra”, desafiou, refletindo a atual inversão que submete até a vida a desígnios íntimos. E completou: “O importante para mim é a hipocrisia das pessoas: um animal assim se converte em foco de atenção quando o coloco em um lugar onde as pessoas vão ver arte, mas não quando está envolvido na morte de um homem, como aconteceu com Canda.” Além de mentirosa - pessoas mortas por animais são sempre assunto de destaque na mídia -, sua desculpa apenas evidencia o caráter expiatório, substitutivo, do sacrifício do cão. Arvorando-se em juiz, Habacuc achou justo que morresse um cachorro para expiar o ato de outro, apresentando essa morte em público, orgulhosamente, como arte, como idéia digna de ser chamada de arte. É sempre o mesmo processo: os sacrifícios arbitrários da modernidade precisam se escorar em uma vítima qualquer para que o sacrificado se torne merecedor da morte que lhe foi destinada. O pobre cãozinho, tão inofensivo que tinha sido capturado por crianças, sem nada compreender do que lhe acontecia, foi oferecido em libação simbólica à ânsia vingativa que parece ter tomado conta da humanidade com força especial nesses últimos dias - ânsia que se absolutiza como Idéia desencarnada, acima do bem e do mal, travestindo-se de justiça e roubando a forma da arte para se positivar.

Na figura de um pobre cachorrinho batizado Natividad, a quem foram negadas comida e água para que, reificado, continuasse servindo como objeto à causa Idéia, cumpriram-se mais uma vez os propósitos macabros de nossa época: a idéia substituiu não só a arte, mas a vida.
Veja as fotos da exposição e acompanhe os comentários assustadores que os defensores do artista postaram lá.

Assine a petição para que Habacuc seja confrontado com o justo limite para sua "arte": o limite sagrado da vida. Eu assinei: sou o número 21792.

E não deixe de ler:

Obras de René Girard;
O mundo como idéia, Bruno Tolentino, poemas
Desconstruir Duchamp, Affonso Romano de Sant'Anna, crônicas sobre a arte moderna

11 outubro 2007

Diálogo Filosófico I: Teoria e vida, um falso dualismo

Dois personagens intergalácticos de C.S. Lewis, nascidos em um planeta já redimido por Deus, resolvem visitar escondido no meio da noite, sem fazer alarde, a maior biblioteca do planeta Terra. Depois de uma rápida olhada pelos livros ali presentes - afinal, sua velocidade de leitura e compreensão é muito maior que a nossa - , o mais novo, indignado, comenta com o mais velho:

- Quem foi que inventou neste planeta o texto teórico sem conexão com a vida?

- Hummmm... Boa pergunta. Só pode ter sido o próprio diabo. Com o reforço dos seres humanos que têm especial dificuldade com suas emoções.

- E quem foi que inventou que não existe teoria pessoal? Isso parece ser dominante a partir do século XX...

- O mesmo diabo. Para confundir as mentes. Agindo assim, força o ser humano a escolher entre teoria e vida, um falso dualismo. No primeiro caso, o homem se torna um racionalista, refugiando-se na exposição lógica sem conexão com a experiência. Não consegue revelar sentimentos nem se relacionar profundamente com ninguém. Tem medo de viver e se encastela nas tautologias da linguagem, nas complexidades fúteis da filosofia ou nos meandros de um idealismo missionário, como se fosse alguém puro demais para se misturar com os demais homens. No segundo caso, é um cínico, um destruidor em série de toda possibilidade de argumentação objetiva. Não vê quase nada em comum entre os homens. Perde-se nas diversidades da vida e se recusa a elaborar explicações para a variedade de fenômenos a que assiste, tornando-se um experimentador que nada consegue aprender, alheio às incoerências de sua própria cosmovisão...

- Parece-me que os dois extremos se encontram na esterilidade...

- Sim, todo dualismo produz efeitos semelhantes, ainda que pareçam opostos.

- Mas o racionalista não pode ser, ao mesmo tempo, um cínico?

- Sim, principalmente nesses tempos bicudos que o planeta Terra vive! Hoje, o ser humano se acostumou a tal ponto com a setorização mental que consegue, por exemplo, ser um racionalista em seu emprego e um cínico em sua vida pessoal. Ou vice-versa. As combinações são incontáveis... Em todas elas, está presente o mesmo muro que impede a conexão profunda entre ser, crer, pensar, agir.

- E o diabo se aproveita para pulverizar ainda mais a mente dos habitantes do planeta!

- É. A cultura dominante reforça tanto a fragmentação quanto a inconsciência e consegue até confundir os próprios crentes...

- [Arregala os olhos.] Os próprios crentes?!

- Sim, infelizmente. Há muitos crentes que lêem a Bíblia e “sabem” a história da salvação, mas não conhecem Cristo, não são transformados para a santidade. E há muitos crentes que escolhem só o aspecto relacional da fé, o amor cristão, mas negam-lhe o caráter universal, moral e transcendente, justificando a si mesmos para não ser transformados. Nesses casos, só o poder revelador e unificador do Espírito Santo pode intervir para a verdadeira comunhão com Deus.

- [Revoltado] Que cruel estratégia a do diabo!

- Sim. Mas Deus é poderoso para desfazer esse emaranhado e mitigar suas conseqüências.

- Amém!

- Amém!

Os dois seres deixam então a biblioteca e o planeta, concordando silenciosamente em oração sobre o desfecho da conversa.

01 outubro 2007

O Brasil não é o Irã: o projeto anti-homofobia

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, declarou recentemente que no país "não há homossexuais". Não digo que não haja, mas com certeza eles não se mostram à luz do dia: no Irã, como na maior parte do Oriente Médio, homossexualismo é crime.

Em 2005, Arsham Parsi fugiu do Irã para preservar a própria vida. Há quatro anos mantinha uma organização de defesa dos direitos dos homossexuais por uma rede de e-mails, foi descoberto e começou a ser ameaçado. Quando percebeu que a polícia tinha rastreado seu telefone, decidiu pedir asilo no Ocidente e hoje mora no Canadá, onde se sente livre para continuar seu trabalho. "A vida para um gay iraniano é muito dura, por falta de informação sobre o assunto e falta de segurança também", lamenta. "Ele tem que usar uma máscara 24 horas por dia." Parsi explica que a cultura iraniana pune o homossexualismo com a morte. "Muitos não chegam a ser presos ou perseguidos pela polícia, mas são executados pela própria família. Em geral, a sociedade apóia a perseguição aos gays. No ano passado, por exemplo, soubemos do caso de um pai que ateou fogo e matou o próprio filho, de 18 anos, quando descobriu que ele era gay, para manter a honra da família." Acrescenta que é impossível saber os números de execuções por homossexualismo: "Não são divulgados pelo Ministério da Justiça", afirma. Isso dá um novo significado à frase de Ahmadinejad: no Irã, os homossexuais são os invisíveis da cultura.

Da mesma forma que o Irã, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Iêmen decretam pena de morte para o homossexual, enquanto Iraque, Kuwait, Líbano, Omã, Qatar e Síria o colocam na prisão por um período que pode ir de um a dez anos. Na África, a maioria dos países prevê prisão e multa, e alguns ainda aplicam pena de morte. Na Ásia, países como Afeganistão, Sri Lanka, Bangladesh, Singapura e Malásia aplicam detenção e multa, enquanto a Chechênia prevê pena de morte. A situação muda radicalmente no Ocidente cristianizado. Na Europa inteira não se acha um só país que preveja sanção de qualquer espécie para o homossexualismo. Nas três Américas, apenas a Nicarágua pune com prisão e multa, e a Guiana com prisão perpétua. Nada de pena de morte. São exceções das exceções. E o país mais ocidentalizado do Oriente Médio, Israel, é o único a garantir liberdade e proteção para os gays. Mesmo em países orientais onde não há pena de morte para o homossexual, como Palestina e Jordânia, a população fica impune quando mata um gay, o que ainda é comum. Assim, os gays se refugiam em Israel ou no mundo ocidental, porque sabem que lá estarão seguros. Diante de todos esses dados, é incrível que tantas ideologias continuem culpabilizando o Ocidente cristianizado por boa parte dos males do mundo, enquanto em regiões que não sofreram influência do cristianismo as mulheres, os gays e os dissidentes religiosos são continuamente mortos, mutilados e presos por culturas que não reconhecem a liberdade individual - um dos frutos da graça comum dispensada por Deus com o advento de Cristo.

Quais são, portanto, as semelhanças entre a cultura iraniana e a cultura brasileira? Em relação aos gays, nenhuma. Com a exceção de alguns loucos que assassinam gays assim como o Maníaco do Parque matava e enterrava mulheres indefesas, o Brasil ama o homossexual, que é bem recebido hoje em praticamente todos os ambientes - desde o meio da moda até a sala de aula. Ninguém mais tem de disfarçar seu "jeitinho", a não ser se preferir se manter no armário, por motivos pessoais. A homofobia brasileira não é regra, mas exceção. Pouquíssimos brasileiros, hoje, olharão para um gay na rua com ódio. No máximo, com uma atitude zombeteira. E nossa cultura tem se apressado a condenar cada vez mais o sujeito que manifesta algum desconforto com relação ao gay ou se recusa a ter contato com ele.

Sendo assim, por que o discurso ativista, no Brasil, ainda insiste em se referir a nossa cultura como se fôssemos matadores contumazes e incorrigíveis de homossexuais? Onde estão esses números gigantescos de gays assassinados? Serão eles maiores que os números de mulheres jovens, por exemplo? Serão esses números capazes de nos convencer de que odiamos os gays? Mas olhe em volta: seu professor de literatura é gay, seu poeta preferido é gay, seu cabeleireiro é gay, seu decorador é gay, seu ator preferido é gay. Isso realmente o incomoda? Isso incomoda o brasileiro? Não é preciso muito para reconhecer a verdade: o argumento de que o brasileiro odeia o gay está sendo utilizado como arma política. Impossível não concluir: militância politicamente correta é simples luta de poder. Não tem nada a ver com liberdade. Se tivesse, lobistas gays e feministas concentrariam seus esforços onde realmente se precisa deles. Aqui, os assassinos de gays, assim como espancadores e estupradores de mulheres, devem ser responsabilizados individualmente por seus crimes, algo de que a lei disponível já dá conta. Afirmar que os homossexuais não são livres em uma cultura como a nossa é zombar dos gays enforcados, apedrejados e esfaqueados, com o consentimento das leis e da população, nos países que não têm tradição de liberdade individual.

É um contra-senso, portanto, que o lobby gay queira aprovar um projeto de lei que, por causa de suas imprecisões, poderá ser utilizado justamente contra os cristãos, para impedir até mesmo a mais singela leitura da Bíblia em voz alta, a mais indefesa opinião de que o comportamento gay não é "normal" ou "natural". Como boa cristã ocidental, sou a favor da livre expressão - tanto dos gays quanto dos religiosos. No Brasil, os gays já têm a sua. Não tirem a nossa.

Fontes: Wikipédia e Bonde News

21 setembro 2007

Girard e o politicamente correto

Estou lendo um livro chamado Quand ces choses commenceront, transcrição de uma longa entrevista de René Girard. Traduzi aqui alguns trechos sobre o politically correct e o "totalitarismo da vítima", termo de Girard que expliquei algumas vezes aqui no blog. Traduzi também o que ele afirma sobre "os crentes fundamentalistas" americanos - algo que se estende perfeitamente a nós, crentes brasileiros, que somos criacionistas, não cedemos ao politicamente correto e não abrimos mão da nossa fé por uma pretensa rivalidade entre fé e ciência, fé e filosofia, fé e intelectualismo.

Se você quiser estender a mão para além do alcance dos livros evangélicos e continuar nos arraiais bíblicos, não perca tempo com os Bettos e Boffs da vida; leia Girard. Tem me abençoado muitíssimo. Minhas observações estão entre colchetes e em itálico.
Hoje, as perseguições são todas em nome da vítima. (...) Veja, por exemplo, o verdadeiro terror que paira atualmente sobre as áreas de letras e de ciências humanas, chamadas antigamente de setores mais vulneráveis da universidade americana. É a união dos "single-issue lobbies", ou seja, os grupos de pressão étnicos, feministas, neomarxistas, gay and lesbian liberation etc. A partir do momento em que a preocupação vitimária se universaliza de modo abstrato e se transforma em um imperativo absoluto, torna-se por sua vez um instrumento de injustiça. Através de uma espécie de mecanismo de compensação, existe hoje a tendência de considerar um privilégio o simples fato de pertencer a um grupo minoritário, algo que dá direito, por exemplo, a títulos nas universidades. A cada vez em que talento pedagógico e qualidade de publicações são substituídos por critérios de seleção puramente étnicos e sociais, a universidade americana perde em eficácia ao abrir mão das regras que regem a concorrência, com base em méritos. [Estamos caminhando para isso no Brasil...] O meio universitário se transforma em uma burocracia autocrática, em um sistema hierárquico alheio a critérios como a pesquisa bem-sucedida ou os bons resultados na transmissão de saberes. Essa nova hierarquia que vemos suplantar a antiga não representa progresso algum. No plano social, um Nietzsche ao contrário não é melhor que o original, que pregava o aniquilamento dos fracos e dos vencidos.

No final das contas, o poder da vítima se torna tão grande em nosso universo que acaba se transformando em um novo totalitarismo. (...) Os textos cristãos o previram! (...) O Apocalipse de João é todo constituído dessas predições. O que significa Anticristo? Significa que haverá uma imitação de Cristo, como uma paródia. Descreve-se um mundo exatamente como o nosso, no qual aqueles que mais perseguem o fazem em nome da luta contra a perseguição. [Incrível como vivemos em um mundo que se parece como uma sala de espelhos: as inversões se sucedem, até se tornarem inversões das inversões das inversões...] O comunismo soviético foi exatamente assim.

Os nazistas diziam: "Nós vamos mudar a vocação do mundo ocidental, anular o ideal de um universo sem vítimas. Vamos fazer tantas vítimas que será reinstaurado o paganismo." Mas hoje, nos Estados Unidos [no Brasil também], o que nos ameaça é o politically correct... que eu defino como a religião da vítima, isenta de toda transcendência, com a obrigação social do uso de uma verdadeira "língua de pau vitimária" que vem do cristianismo, mas que o subverte mais insidiosamente que um anticristianismo escancarado. [Costumo dizer que a forma cultural do esquerdismo, que é o politicamente correto, sobrevive como um parasita do cristianismo: mantém a casca, mas "come" por dentro todo o aspecto principal, transcendente, da fé cristã. E o mecanismo da "língua de pau" nos manda dizer "afrodescendente", "homossexualidade", "direitos reprodutivos da mulher", enquanto joga negros, gays e feministas contra brancos, heteros e homens, multiplicando a violência sob a máscara de uma linguagem neutralizada por pressão.]

É preciso sobretudo não se fixar em uma posição "revolucionária" ou "tradicional". Eu sou um moderado, na verdade... As pessoas me vêem como uma obsessivo, só porque não mantenho ilusões à la Rousseau, que acreditava na bondade inata do homem. A teoria do pecado original ensina como nenhuma outra a moderação, ao contrário do que dizem seus críticos. Crer na bondade inata do homem, fonte perpétua de desilusões, leva sempre à caça do bode expiatório. [Quando o homem não vê o mal dentro de si, ou seja, não se reconhece como pecador, ele procurará extirpar o mal fora de si - fazendo-o encarnar-se em outros homens. Por isso, também, o cristianismo é um poderoso inibidor de violências.] Sobre isso, aliás, são exemplos a própria história de Rousseau e o desenvolvimento de sua paranóia.

[Os criacionistas e os fundamentalistas em geral] são hoje o bode expiatório da cultura americana. [Da brasileira também!] A mídia distorce tudo o que eles dizem e os trata como os últimos dos últimos. (...) São verdadeiros banidos da sociedade. É fato que os americanos não conseguem resistir a pressões sociais. Veja a Universidade: essa tropa imensa de carneirinhos que se crêem perseguidos, enquanto não são. Os criacionistas são, mas resistem à pressão social. Para eles, tiro meu chapéu!

Nos EUA e em outras partes do mundo, o fundamentalismo é resultado da ruptura do acordo diplomático entre a religião e o humanismo anti-religioso. Foi o humanismo anti-religioso que efetuou tal ruptura, defendendo causas como o aborto e manipulações genéticas, e que ainda culminarão na adoção de formas de eutanásia em perfeita conformidade com regras sociais. Em poucas décadas, o homem terá se transformado em uma repugnante máquina de gozo, liberta das dores e até mesmo da morte, ou seja, de tudo o que o estimula paradoxalmente não só à transcendência religiosa, mas a tudo que há de mais nobremente humano.

Os fundamentalistas até defendem teses que eu rejeito, mas existe neles um resíduo de sanidade espiritual que os faz pressentir o horrível campo de concentração que as burocracias benevolentes estão preparando para todos nós. A revolta deles me parece mais respeitável que nossa sonolência. Estamos numa época em que todo mundo abre a boca para se vangloriar de ser um pária, um marginal, ao mesmo tempo em que demonstra uma espantosa docilidade mimética. [É de fato o que vivemos: todo mundo clama ser diferente e original, mas todos afirmam as mesmas coisas, partilham os mesmos valores, cultivam as mesmas reações. O crente, não.] Os fundamentalistas são dissidentes verdadeiros.

03 setembro 2007

Os dois infinitos

Romanos 7:14-25

Compreender a altura imensurável da santidade de Deus, longe como o céu, e aprofundar o alcance de minha própria condição de pecadora. Sim: infinito para cima, infinito para baixo. Olho para cima e toda aquela distância é demais para mim, jamais chegarei. Olho para onde estou e o fosso é enorme, jamais sairei dele. Quanto mais contato tenho com Tua Palavra, Senhor, mais entendo os dois infinitos. Quanto mais entendo a extensão da Tua santidade, mais suja me vejo, mais indigna sou.

Quando penso ter vencido um pecado, mil outros se afiguram diante de mim, aparentemente intransponíveis. Salva-me!

Quando me alegro com alguma atitude amorosa, mil outros pensamentos abomináveis se apossam de mim, em uma sucessão e força insuportáveis. Salva-me, Senhor!

Quando minhas motivações me parecem razoavelmente boas, mil sentimentos contraditórios e perversos apenas aguardam a vez de mostrar seus rostos terríveis. Oh, Senhor...

Este corpo de morte é pesado demais, não o consigo carregar.

Mas, se me sento e choro, é a Tua mão que rompe toda barreira entre os dois infinitos e me ergue no ar, pecadora como sou. Se me reviro em horror diante de mim mesma e encolho-me diante de Tua perfeição, é o sorriso de Jesus que me convida a entrar nesse vácuo aberto por Ele: “Eu te apresento limpa diante do Pai, não temas.”

Jesus é o ponto de intercessão entre os dois infinitos que, sem Ele, jamais se cruzariam. Irrompe no tempo e restabelece a relação com o Pai, para sempre. Enquanto eu me lembrar disso, jamais errarei o caminho. Mas, se esqueço meu infinito e o infinito de Deus, meu coração se acostuma à sujeira de minha alma e não vê a pureza do Pai. Perco meus dois referenciais máximos e me destruo ao inventar um padrão estreito para mim mesma.

A vida cristã é a tensão entre o infinito mal do homem e o infinito bem de Deus, tensão que só se resolve em Jesus. Meu mal só não é infinito porque eu O tenho. Mas, se não O tenho, renuncio a sair do fosso em que estou, também para sempre.

Querido Jesus, livra-nos do mal eterno. Amém.
Ó eterna verdade, verdadeiro amor, querida eternidade! Tu és o meu Deus e eu suspiro por ti dia e noite. Quando comecei a conhecer-te, elevaste-me para ti para me mostrares que eu tinha ainda muitas coisas a compreender e como era ainda incapaz de o fazer. Fizeste-me ver a fraqueza do meu olhar, lançando sobre mim o teu esplendor, e eu estremeci de amor e de espanto. Descobri que estava longe de ti, na região da dissemelhança, e a tua voz vinha a mim como que das alturas : “Eu sou o pão dos grandes; cresce e comer-me-ás. E não serás tu que me transformarás em ti, como acontece com o alimento do teu corpo; mas tu é que serás transformado em mim.” Agostinho (354-430), Confissões, VII, 10

27 agosto 2007

O socialismo petista


Esse VÍDEO sofisticado foi produzido especialmente para um dos congressos do PT. Nele, fala-se sem rodeios da ambição petista: implantar o socialismo no Brasil.

Reparem na linguagem. A palavra "socialismo" jamais é definida adequadamente. Não é dito, por exemplo, que os governos socialistas se apropriam da riqueza com o pretexto de melhor distribuição - uma óbvia falácia. Na prática, o que ocorre é a criação de uma superclasse governista mais poderosa e mais rica, enquanto o povo se nivela em uma escassez inimaginável, que supera em muito a pobreza presente em nossas favelas urbanas; para ter certeza disso, basta ler sobre Cuba, China, a antiga URSS. (Enquanto os lares dos morros cariocas têm uma profusão de antenas de tv, por exemplo, o cubano não pode comprar itens básicos como pasta de dente e papel higiênico, e come absurdamente pouco e mal. Cuba é um grande sertão nordestino sem seca.) Bom, o PT já está poderosíssimo, com os impostos absurdos que continuamos pagando e um potente aparelhamento estatal na educação e na mídia. O que falta? Ah, falta substituir totalmente o conceito corrente de democracia - aquela em que o povo é livre para escolher o que quer estudar, o que quer escrever, o que quer financiar, em que quer trabalhar, se quer votar - pela falsa, a petista: aquela em que "governo do povo" significa "governo do PT". O governo petista reformula o conceito de democracia para erigir à vontade verdadeiros sacerdotes com todos os poderes representativos, acima do bem e do mal.

Fala-se o tempo todo tanto de "democracia" quanto de "quebra de poder dos grupos dominantes", mas não é revelado como isso se dará. Imagino que a resposta é: por vias sutis e/ou por vias autoritárias, o que der certo. Aqui, de novo, há uma torção conceitual. "Grupo dominante", não se enganem, não segue um critério econômico. Se fosse assim, toda a classe política e artística seria considerada elite. A questão é: o rico pode ser rico à vontade, desde que seja socialista ou comunista. Os ricos e influentes Fidel Castro, Chico Buarque, Luís Fernando Verissimo e Zé Dirceu estão com os oprimidos e não com os opressores, pois adotaram o discurso de esquerda. "Grupo dominante", portanto, é simplesmente sinônimo de oposição: serve para caracterizar todo e qualquer sujeito que se oponha ao projeto de poder petista. O conservador que repudia o governo totalitário dos regimes comunistas é tachado de "membro de grupos dominantes", mesmo que seja pobre e sem relevância política alguma (e geralmente é).

Mas o que mais me chamou a atenção no vídeo foi esse trecho: "A reflexão [no congresso do PT] segue afirmando o socialismo como alternativa ao capitalismo e negando as experiências do socialismo real." É uma confissão, equivalente a dizer: o socialismo real não dá certo. É preciso uma tremenda imprecisão na linguagem - com a balela adicional "o PT opta por não ter uma definição única sobre socialismo" - para criar uma cisão entre uma bela idéia de socialismo e uma realização espúria, em todos os países em que foi implantado.

Bom, eu não apostaria tanto assim na negação do "socialismo real" - pelo menos, não enquanto o governo petista estiver apoiando inequivocamente a ditadura cubana e a ascensão da ditadura venezuelana. Além disso, as ocorrências e as decisões autoritárias desse governo apontam para uma definição bem mais precisa do tipo de socialismo que querem os petistas:

- Corrupção generalizada nos altos escalões do governo e absolvição constante dos culpados: uma "classe" impugnável, um verdadeiro panteão de ídolos a quem não pode se atribuir dolo algum.


- Abolição da propriedade privada (quebra do mandamento "Não furtarás") através da mesma estratégia usada na antiga URSS com os "sovietes": tomada de terras à força pelo MST sob o pretexto de "justiça social".

- Leniência para com a violência do crime organizado nas grandes cidades: o desespero do povo fomenta o desejo por um governo autoritário. É mais fácil governar no caos.

- Desarmamento da população com vistas à impotência dos cidadãos honestos diante de uma futura coerção mais agressiva do governo. Os criminosos continuam fortemente armados.

- Tentativas sucessivas de criação de órgãos públicos para submeter a pequena parcela da mídia que ainda resiste à ideologização e ao aparelhamento.

- Educação pública cada vez menos qualificada e cada vez mais ideologizada; quer-se dos alunos a filiação ao projeto socialista, não a proficiência nas matérias escolares.

- Fomento dos ditames do politicamente correto e repressão aos grupos religiosos que se opõem a eles: promoção governamental do aborto, do homossexualismo, das drogas, do sexo nas escolas.

- Perseguição generalizada aos opositores: demonização de manifestações populares e espontâneas como o Cansei (o próprio presidente da república gosta de usar o termo "golpistas"); processos sem fim contra Diogo Mainardi; ameaças de morte e abaixo-assinados contra Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo; processo jurídico contra o Pr. Ademir Kreutzfeld por "crime de homofobia" antes mesmo da implantação do famigerado projeto de lei.

Diante disso tudo, mui sinceramente, se o Brasil não tiver mais jeito e quando tudo estiver sob controle dos socialistas, eu espero que os meus amigos de esquerda (os que permaneceram meus amigos) se lembrem de mim quando eu for presa ou sofrer algum processo jurídico injusto. (Ok, piada sem graça. Não percam as esperanças: vamos continuar denunciando esse governo e pedindo a Deus que nosso país não afunde de vez nessa ideologia idolátrica e destrutiva.)

25 agosto 2007

Se eu não publicar seu comentário...

Mensagem aos leitores

Se eu não publicar seu comentário, caro leitor, saiba que foi por um dos motivos seguintes:

1 - Grosseria e/ou zombaria: infelizmente, o mais comum. Publico às vezes, quando o texto grosseiro ou escarnecedor pode servir de amostra didática da falta de compostura de algum comentador que, dizendo-se irmão, é "devasso, ou idólatra, ou maldizente" (1Co5:11).
2- Chantagem emocional: infelizmente, o segundo mais comum. Em vez de argumentar contra as idéias que apresento, o comentador tenta me convencer de que estou pecando ao escrever que tal coisa é heresia ou tal líder precisa se arrepender. Meu conselho: leia a Bíblia.
3 - Comentário longo demais e falta de tempo para responder, principalmente quando (a) as idéias do comentador já foram refutadas muitas vezes por mim ao longo deste blog ou (b) o texto é confuso e mal argumentado.
4 - Erro do Blogger. Às vezes perco comentários e não sei onde foram parar.

Conselhos:

A quem cai no caso número 1 - Desista. Se vier, venha em paz e com argumentos.
A quem cai no caso número 2 - Desista. Se vier, venha com maturidade emocional e espiritual.
A quem cai no caso número 3 - Não desista, pesquise o assunto no blog todo e reescreva.
A quem cai no caso número 4 - Poste novamente!

13 agosto 2007

A menina sem estrela

A Revista Veja veicula essa semana uma matéria sobre Marcela, a menina anencéfala que está completando nove meses, contra todas as predições médicas. O texto se chama "A Menina sem Estrela", título feliz emprestado de uma crônica de Nelson Rodrigues. A menina sem estrela é a filha de Nelson, Daniela, que nasceu com um problema cerebral. Eu a conheci. É uma mulher linda, de uma brancura diáfana, traços fortes e perfeitos. Fica paradinha, olhos cerrados, cabeça ligeiramente inclinada. A mãe, Lúcia, diz que ela gosta de ouvir rádio. Daniela é linda, e mesmo com vida vegetativa possui uma dignidade de ser humano que nenhum eugenista irá tirar dela.

Leitores desaprovam Reinaldo Azevedo por defender a vida de Marcela. O lugar-comum sobre o caso fecha a matéria de Veja na espantosa frase de um pediatra: "É como se ela fosse um computador sem processador." Computador? A lógica do aborto é sempre reificadora. Pronunciar sentença de morte sobre um feto ou um idoso por doença é condenar a humanidade inteira ao aniquilamento. Assim é que, todos os dias, somos postos fora displicentemente, como aparelhos danificados que não prestam mais.

No entanto, apesar de sua anomalia congênita, Marcela não foi
jogada na vala comum dos objetos inúteis ou das sobras orgânicas de hospital. Teve direito a um nome, a uma certidão de nascimento e ao amor paterno. Tem seu lugar garantido na história, modificou a vida das pessoas à sua volta, deixou sua marca pessoal. Será sepultada como todo ser humano deve ser, mesmo os que não têm cérebro: com sua dignidade intacta. Deus seja louvado por isso!

09 agosto 2007

O Pastor e o Filósofo

Era uma vez um Pastor muito comunicativo e sorridente que tinha uma igreja enorme e era benquisto por toda a comunidade evangélica de seu país. Preocupado com a pureza teológica da doutrina cristã, adquirira excelente fama ao escrever livros contra o perigo das heresias da Nova Era. Mas havia algumas dúvidas profundas em seu coração, dúvidas difíceis de serem reconhecidas e esclarecidas. O Pastor acreditava que, se desse voz a essas dúvidas, poderia comprometer todo o seu ministério. A essa altura ele não sabia, mas identificava-se cada vez mais com o pensador francês Voltaire, que não conseguia harmonizar soberania de Deus e existência do mal.

Um dia, o Pastor encontrou o Filósofo, alguém com quem compartilhar suas perplexidades. Começou não só a ler avidamente autores que negavam o cristianismo, como Sartre e Nietzsche, mas também passou a ter gosto por uma estranha teologia, que considerava Deus menor que Ele é. Essa teologia havia sido construída sobre as mesmas preocupações de Voltaire: Como dizer que Deus é bom e soberano ao mesmo tempo? Deus não pode ser responsável pelo mal que há no mundo. O que se depreendia disso era estarrecedor: em vez de ecoar Jesus nas palavras “nenhum fio de cabelo cai de vossas cabeças sem que o Pai tenha permitido”, ou ecoar Davi no salmo 139 “todos os meus dias estavam escritos”, os adeptos de tal teologia preferiram afirmar que Deus não sabe do mal que advirá. Ele não sabe e não é responsável. E se regozijaram com isso.

Assim, o que é invenção desesperadora, para alguns, torna-se fato aliviador, para outros. O Pastor e o Filósofo começaram aos poucos, juntos, a disseminar na igreja que Deus é “aberto” e nada está determinado. Alegraram-se nessa indeterminação e na liberdade que parecia advir dessa doutrina. Não atinaram, ou não pareceram atinar, para as horríveis conclusões:

Se Deus não sabe o futuro, Deus não habita totalmente na Eternidade. Há “partes” de Deus sujeitas ao tempo, tal como nós somos sujeitos ao tempo. Assim, se em parte Deus é finito, Deus não é todo-poderoso e o mundo não está sobre Suas mãos. Deus, portanto, não é Deus, mas Semi-Deus. Há fatos que estão abandonados ao acaso e ao poder decisório dos homens, unicamente. O homem que sofre jamais poderá encontrar alívio na soberania de Deus, mas terá de se conformar com o fato inequívoco do acaso. Deus não protege o tempo todo, Deus não guia, Deus não ensina. Sujeito ao tempo, Ele é passível de aperfeiçoamento, sendo portanto imperfeito, "aberto". Mesmo em momentos cruciais – morte de um parente, pobreza, fome, dor existencial – Deus pode “piscar os olhos”. Ele não vela por nós, não interrompe o curso da destruição deste mundo nem faz com que a destruição tenha uma finalidade. Ele não tem uma vontade soberana à qual o homem deve obedecer. Por outro lado,se Deus diminui, o homem cresce. A autonomia humana está preservada. O homem passa a ser senhor de seu destino.

Para o Pastor e o Filósofo, portanto, o Deus da Bíblia, o Pai de Jesus Cristo, não passava de ficção. Como poderia ser, um Deus soberano (Rm 9, At 4:24, 1Tm 6:15, Jd 1:4, Ap 6:10, Sl 139, Mt 7:21, Mt 23:10, Mt 10:30, 2Pe 2:1) que preside todo o universo, passado e futuro, cada um de nós? Um Deus totalmente fora do tempo, Deus criador, que submete a si mesmo Sua criação? Sim, porque, do ponto de vista temporal, o homem toma decisões importantes; mas só o homem submisso à vontade de Deus – o homem que abdica de sua autonomia, “morto para o mundo e vivo para Deus”, controlado pelo Espírito Santo – toma as decisões corretas, com poder de vida eterna, para conversão e obediência. É quando a eternidade irrompe no tempo e dá vida ao que estava morto. É quando Cristo encarna, morre e ressurge, evidenciando em sua própria carne a soberania de Deus e a vitória final de Sua vontade contra todos os desvarios humanos.

Negar a soberania de Deus é negar o próprio Deus.

Ao fim de suas investigações filosóficas, Voltaire não suportou crer em um Deus que permite o mal no mundo e terminou seus dias como ateu. Já o Pastor e o Filósofo adotaram para si um outro deus, um falso deus, em um ateísmo disfarçado de cristianismo. Esta história tem um final mais ou menos feliz. Grande parte da igreja em que serviam o Pastor e o Filósofo terminou por rejeitar seus ensinamentos. Houve dor e dilaceramento nessa separação, mas a certeza de permanência na verdade acompanha os que se foram. Os cristãos leais e sinceros certamente oram pelo arrependimento do Pastor e do Filósofo, na esperança de que se convertam de seus pecados e voltem a crer no Deus da Bíblia, soberano e infinito.

Para entender melhor a história
Para entender melhor 2
Resenha sobre um livro de Piper et alii sobre a TR

06 agosto 2007

Atualidades e, mais importante, John Piper


Estou aqui em um ritmo intenso de trabalho. Enquanto isso, escolhi alguns textos importantes:

- Sobre os dois boxeadores que fugiram e algumas informações recentes sobre Cuba: Fuga do Paraíso, Ipojuca Pontes;

- Sobre a manifestação contra o governo Lula na Avenida Paulista: Resistam ao peso..., Reinaldo Azevedo;

- Uma recente descoberta teológica, graças a meus queridos amigos Juliana Portella e Franklin Ferreira: digite John Piper na seção de busca do site Monergismo, opção "autor", e escolha pelo menos um entre os 61 textos que aparecem na tela.

Tenho assistido a alguns vídeos de Piper, da série Battling Unbelief (Enfrentando a Descrença), que está para sair no Brasil com legenda em português (os meus estão com legendagem em inglês e espanhol). Fique de olho!

A primeira coisa que me chamou a atenção nessas pregações de John Piper foi o modo tão pessoal com que ele se expressa no púlpito. Você tem a nítida impressão, oposta à de tantos pregadores expostos e incensados na mídia televisiva, de que ele não adotou nenhuma persona - ou segunda personalidade - para estar ali. Seu vocabulário não é padronizado, seu jeito de falar não é teatralizado, a expressão de suas emoções não segue nenhum tipo de linguagem televisiva especialmente concebida para tocar o público. Além dessa imagem de autenticidade que ele passa, algo por si só extraordinário se pensarmos nos cansativos espetáculos e micagens oferecidos por tantas igrejas de nossa época, Piper pontua tudo o que diz com extensas citações bíblicas, mostrando solidez teológica sem parecer impessoal ou distante. Essas duas características são, de fato, conscientemente adotadas por ele, que ainda as aconselha a todo crente que deseja "ensinar e pregar o calvinismo":

- Regozije-se por causa das críticas. Aquele que conhece e descansa na soberana graça de Deus deve ser o santo mais feliz. Não seja um anunciador amargo, melancólico, hostil ou falso para a glória da graça de Deus. Louve-a. Regozije-se nela. E não deixe que se torne um espetáculo. Faça isto no seu quarto secreto até que isto seja derramado sobre o púlpito e áreas públicas.

- Não cavalgue sobre o que não está no texto. Pregue exegeticamente, explanando e aplicando o que está no texto. Se isto soar Arminianismo, que soe Arminianismo. Confie no texto e o povo confiará em você por ser fiel ao texto.

Que Deus abençoe essa nova geração de pastores para que compreendam que tudo o que é pedido deles no púlpito é a pregação fiel da Palavra aliada à singeleza de um coração genuinamente convertido. Para isso, não é preciso nenhum brilho adicional, nenhuma artimanha a mais. Basta preparar-se em estudo e viver pela fé, até que a pregação seja conseqüência de um inteligir e um experenciar que se harmonizam e se aproximam cada vez mais da plenitude de uma vida com Deus.

Mais sobre Piper (em inglês): http://www.desiringgod.org

27 julho 2007

Delicadeza masculina

Harpo Marx tocando seu instrumento


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Poema de Miguel Torga

25 julho 2007

Os cheiros da França

Há muito o que falar sobre minha primeira viagem à França. Esse post é, de certa forma, emblemático de tudo o que experimentei lá, pois trata das ricas e necessárias correlações entre teoria e prática, forma e conteúdo, imagem e sentido - porque precisamos nos lembrar sempre de juntar as pontas daquilo que nunca deveria ter sido separado.

Agradeço imensamente a Deus por ter me presenteado com essa viagem, e ainda estou procurando perceber as sutilezas das lições aprendidas e as transformações interiores provocadas pelo impacto de muitos momentos. É o que tentarei fazer no blog a partir de então, começando pelos Cheiros da França - "cheiros" que nunca são simples odores, mas marcas vivas do país.

Cheguei à França no dia 11 de julho para um estágio de quinze dias que incluía turismo puro, em Paris, e formação pedagógica, em Vichy. Éramos um grupo de quase cem professores de francês, vindos de três países: Brasil, África do Sul e México. Apesar de ensinar o idioma há mais de quinze anos, eu ainda não conhecia a pátria do idioma. O programa Profs en France, patrocinado pela Embaixada, foi inaugurado especialmente para esse fim: levar professores de francês à França, para que, por sua vez, eles pudessem mais eficazmente levar a França a seus alunos.

Sendo uma aficcionada por perfumes franceses, minha idéia fixa perfumística era experimentar o L'Heure Bleue e o Après L'Ondée, da Guerlain, perfumes do início do século com uma bela história para contar, pré e pós-guerra. Ainda queria dar uma boa olhada nos chamados perfumes de nicho, mais intimistas, de Serge Lutens. Era uma grande oportunidade, já que nenhum deles é vendido no Brasil. Em uma das inúmeras lojas Sephora de Paris, vibrei com um pequeno letreiro do lado de fora que dizia "800 m2 de diâmetro": um verdadeiro paraíso perfumístico de quase um quilômetro quadrado!

Percorrendo a loja, foi com um frêmito de alegria que me deparei com uma prateleira inteira só de Lutens, os papeizinhos embaixo e nenhuma vendedora pressurosa por perto, sentindo-me livre para experimentar à vontade. Preferi, no entanto, procurar primeiro pelo L'Heure Bleue. Afastei-me dele com horror na primeira borrifada, sem conseguir ultrapassar as fronteiras do tempo para apreciar suas qualidades - o oposto do que sinto com relação ao Chanel n.5, um de meus preferidos. Voltei aos Lutens, e o primeiro que espirrei no papel, Douce Amère, teve um efeito instantâneo de maravilhamento sobre mim. Bem colorido e vivo, uma flor delicada sobre uma base amarga mas nem tanto, o suficiente para equilibrar a doçura silvestre da flor. O segundo, Un Bois Vanille, pareceu-me baunilha pura, assim como Miel de Bois, mel puro. Saí de lá com Douce Amère em um braço e Un Bois Vanille no outro, cheirando-os de tempos em tempos, deixando-os misturarem-se com as ruas de Paris. Mesmo assim, não consegui decidir. E foi apenas alguns dias depois, já em Vichy, que consegui provar o Après L'Ondée e confirmar sua semelhança com o novíssimo Insolence, da mesma maison: o cheiro rosado de frutas vermelhas e violeta está presente em ambos, mas o Après L'Ondée é infinitamente melhor, mais natural e pluricromático. Não consegui me ver usando-o hoje, talvez em outra época mais adiante. Porém, em compensação, trouxe um saco de balas sabor violeta, que são como o Après L'Ondée em versão feita para o paladar. Gosto muito da idéia de doces de flores, e eles são muitos em Auvergne, região de Vichy.

Acabei trazendo na mala apenas um perfume, um antigo amor de adolescência, Tocade de Rochas, também só vendido na França. É um atalcado bem confortável, bom de usar até mesmo em casa, mas perigoso no calor do Rio de Janeiro. E foi na França que percebi algo de que tinha apenas ouvido em teoria: perfumes mudam segundo o local e o clima. Tinha levado para lá o Chance de Chanel, que no ar seco de Paris e de Vichy se tornou um aroma fresco de flores contido por uma madeira suave. No Rio, chegou a me enjoar por causa de um fundo que lembrava pipoca doce, mas na França usei-o quase todos os dias, com prazer.

Depois de muitos anos sem sair do Brasil, entendi que uma das experiências mais fortes a partir do contato com um país estrangeiro são os odores que sentimos nas ruas. O cheiro do metrô, do Sena, dos museus, das boulangeries e pâtisseries, das cercas vivas e dos canteiros de lavanda cuja visão me emocionou... Cada esquina era uma surpresa olfativa. Indissociáveis aos cheiros, os gostos não-cultivados no Brasil: o vinho rosé que acompanhava cada jantar leve servido pela nossa calorosa famille d'accueil, o pão mais consistente junto à variedade de queijos e geléias, o mil folhas de morangos e framboesa cuja doçura o creme discreto deixava generosamente sobressair... Agucei muito o olfato e o paladar na França, incorporando, além de idéias e impressões novas, também cheiros e sabores diferentes ao meu "dicionário de mortal", imagem que Charles Baudelaire aplica não só a viagens, mas principalmente à literatura, que compõe as viagens que fazemos sem sair de casa – para muitos, as melhores.

Em Vichy, bela cidade-calmaria de águas termais fundada por Napoleão III, o grupo se recuperou com alívio do estresse de Paris. Tivemos uma semana de formação intensiva no Cavilam, centro de formação lingüística que nos impressionou muito pela qualidade tanto dos cursos quanto dos contatos pessoais travados entre os professores (ou "formadores") e os alunos-professores que éramos. Para quem quer aprender francês na França, recomendo entusiasticamente o Cavilam. Além disso, Paris é boa para passear por alguns dias, enquanto Vichy é um encanto para se conhecer aos poucos e devagar, com suas construções antigas, suas praças e confeitarias chiques mas acessíveis. E, se você passear pela região de Auvergne, alegrará os olhos com aquelas visões magníficas que o brasileiro só conhece através de reproduções de quadros famosos: campos de trigo e plantações enormes de girassóis, como nos quadros de Van Gogh, além dos montes cheios de casinhas antigas rodeadas de pinheiros e, às vezes, pequenos caminhos que se ondeiam até se perder no horizonte. Impossível não se impressionar com a vivificação de tantas imagens do museu imaginário, expressão cunhada por André Malraux para a coleção de obras que trazemos dentro de nós.

Nossa formação pedagógica foi inaugurada com uma conferência do diretor do Cavilam, Michel Boiron, que começou distribuindo a todos os professores presentes as famosas pastilhas de Vichy. Com gosto de menta, e em versões de limão e anis, são feitas com as águas termais, conhecidas por suas propriedades digestivas. Pensamos todos: "Que simpático." Mas era muito mais que pura cortesia. Durante a conferência, além de nos fazer rir quase o tempo todo, Boiron pôs para tocar algumas músicas francesas e falou das flores de Vichy, mostrando-as na tela, explicando com isso tudo que a língua era muito mais que estruturas gramaticais e listas de vocabulário – era também sons, gostos, perfumes, paisagens. Foi de fato emocionante: ele nos falou do ensino do francês através do estímulo a nossos sentidos diante de fatos cheios de significado, ampliando as percepções sobre nosso trabalho, bem como suas possibilidades, para muito além dos limites das salas de aula. Ele não apenas falou sobre, mas mostrou, que língua é vida. E todo o resto da formação apenas confirmou isso. É algo que só poderia acontecer na França, onde tínhamos pela primeira vez todo o entorno mergulhado naquela língua e naquela cultura que até então conhecíamos apenas de longe. Como profissional do idioma (tanto português quanto francês), jamais esquecerei a vívida impressão dessa convergência.

04 julho 2007

Maternidade

Essa é uma análise do Segundo movimento da Sinfonia número 3, Lamentações, do compositor polonês Górecki. Não deixe de ouvir antes de ler: aqui. Basta rolar o cursor até a soprano Dawn Upshaw e clicar em "escuchar".


A peça se inicia com uma introdução instrumental leve e de curta duração, para logo dar ensejo a acordes bastante graves em ritmo lento, cuja cadência sugere o badalar de sinos fúnebres. Logo o canto da soprano se inicia bem grave também, acompanhando os acordes com poucas variações, como em uma linha horizontal. Em seguida, os acordes começam a realizar uma subida rápida (se comparada ao andamento), com a voz da soprano se destacando cada vez mais, descendo apenas em poucos e breves momentos – como quem pára para descansar em uma escada muito extensa, ou como quem recua em uma dança apenas para ganhar um impuso maior. Finalmente, a voz atinge o ápice – ou vários momentos de ápice, sempre recuando brevemente – , e é nesses momentos mais agudos que o acorde dominante passa a maior, em vez de menor. Para quem se entrega a uma escuta atenta, ainda que não compreenda o que se canta, é notável o ambiente de profunda tristeza e dor que a peça evoca. Pois são justamente esses momentos agudos, de acordes maiores, que configuram uma espécie de alívio em meio à lamentação: quando a dor parece chegar a um ponto insuportável, evocado pelos acordes ainda menores, a subida da voz e a mudança para acordes maiores parecem insuflar uma grande lufada de consolo em meio à dor. Em todo o movimento, a dor é grande, mas não é o fim. Há esperança.


Quando li o que inspirou as Lamentações, fiquei impressionada com as associações entre a música e o que se canta. Embora cada uma das três lamentações tenha uma letra já pronta vinda de lugares e épocas diferentes – a primeira é de um monastério do século XV, de uma coleção chamada “Canções de Lysagóra”; a segunda, uma inscrição encontrada em um dos porões da Gestapo em Zadopane, de uma jovem de 18 anos presa em setembro de 1944; e a terceira, uma canção folclórica em dialeto Opole – , há um tema comum entre as três: uma mãe perde o filho assassinado. Isso ocorre em uma situação de injustiça, como foi o caso de Jesus Cristo (primeiro movimento), da jovem aprisionada que escreve a sua mãe (segundo movimento) e de um filho morto por inimigos (terceiro movimento). No segundo movimento, analisado aqui, a letra é o texto da jovem encarcerada pela Gestapo à sua mãe, pedindo-lhe que não chore, seguido de uma oração a Maria (Gorécki era católico).

Encontramos assim na letra do canto dessa lamentação a mesma atmosfera de dor evocada pela música, mas uma dor que tem escapatória na certeza de um amparo celestial: consolo que, em meio à dor expressa pelas “linhas horizontais” das notas graves e dos acordes menores quase sem variação, surge nos pontos fortes da peça – os agudos e os acordes maiores que os acompanham.

C
reio que, ainda que se trate de uma peça com marcada conotação católica, o cristão protestante poderá apreciá-la pela profunda dor filial que ela evoca (a perda de um filho é talvez uma das dores mais lancinantes que existem), bem como pela conotação geral que infunde no ouvinte: a certeza de socorro do Alto como única solução possível para a dor irreparável da morte, intuitivamente percebida para quem não sabe polonês. Apenas isto já basta para que a peça seja uma obra de arte singular em meio à reiterada negação de qualquer instância transcendente, vício constitutivo de nossos tempos, fundo comum a quase toda produção artística atual.

Desde que a descobri, não posso ouvi-la sem cair em prantos convulsivos. Já bem pequena era muito sensível a questões da maternidade perdida: passava um sofrimento semelhante à audição de uma música cantada por Zizi Possi, “Pedaço de mim”, imaginando logicamente um filho pranteado. Para a análise da peça de Gorécki – que seria parte de minha tese de doutorado, mas acabou sendo descartada – , ouvi a composição três vezes, mas não houve “distanciamento crítico” algum: chorei da mesma maneira nas três. (Por isso, também, meu horror absoluto, e igualmente bem antigo, ao aborto.) Que Deus tenha recompensado a Gorécki por isto.


Em tempo: talvez eu nunca tenha filhos biológicos. Mas sei que Deus olha para esse impulso de amor maternal em mim e prepara filhos adotados – sejam bebês rejeitados, sejam discípulos, saberei apenas quando vierem. Não importa o que aconteça, Deus seja louvado!