03 setembro 2007

Os dois infinitos

Romanos 7:14-25

Compreender a altura imensurável da santidade de Deus, longe como o céu, e aprofundar o alcance de minha própria condição de pecadora. Sim: infinito para cima, infinito para baixo. Olho para cima e toda aquela distância é demais para mim, jamais chegarei. Olho para onde estou e o fosso é enorme, jamais sairei dele. Quanto mais contato tenho com Tua Palavra, Senhor, mais entendo os dois infinitos. Quanto mais entendo a extensão da Tua santidade, mais suja me vejo, mais indigna sou.

Quando penso ter vencido um pecado, mil outros se afiguram diante de mim, aparentemente intransponíveis. Salva-me!

Quando me alegro com alguma atitude amorosa, mil outros pensamentos abomináveis se apossam de mim, em uma sucessão e força insuportáveis. Salva-me, Senhor!

Quando minhas motivações me parecem razoavelmente boas, mil sentimentos contraditórios e perversos apenas aguardam a vez de mostrar seus rostos terríveis. Oh, Senhor...

Este corpo de morte é pesado demais, não o consigo carregar.

Mas, se me sento e choro, é a Tua mão que rompe toda barreira entre os dois infinitos e me ergue no ar, pecadora como sou. Se me reviro em horror diante de mim mesma e encolho-me diante de Tua perfeição, é o sorriso de Jesus que me convida a entrar nesse vácuo aberto por Ele: “Eu te apresento limpa diante do Pai, não temas.”

Jesus é o ponto de intercessão entre os dois infinitos que, sem Ele, jamais se cruzariam. Irrompe no tempo e restabelece a relação com o Pai, para sempre. Enquanto eu me lembrar disso, jamais errarei o caminho. Mas, se esqueço meu infinito e o infinito de Deus, meu coração se acostuma à sujeira de minha alma e não vê a pureza do Pai. Perco meus dois referenciais máximos e me destruo ao inventar um padrão estreito para mim mesma.

A vida cristã é a tensão entre o infinito mal do homem e o infinito bem de Deus, tensão que só se resolve em Jesus. Meu mal só não é infinito porque eu O tenho. Mas, se não O tenho, renuncio a sair do fosso em que estou, também para sempre.

Querido Jesus, livra-nos do mal eterno. Amém.
Ó eterna verdade, verdadeiro amor, querida eternidade! Tu és o meu Deus e eu suspiro por ti dia e noite. Quando comecei a conhecer-te, elevaste-me para ti para me mostrares que eu tinha ainda muitas coisas a compreender e como era ainda incapaz de o fazer. Fizeste-me ver a fraqueza do meu olhar, lançando sobre mim o teu esplendor, e eu estremeci de amor e de espanto. Descobri que estava longe de ti, na região da dissemelhança, e a tua voz vinha a mim como que das alturas : “Eu sou o pão dos grandes; cresce e comer-me-ás. E não serás tu que me transformarás em ti, como acontece com o alimento do teu corpo; mas tu é que serás transformado em mim.” Agostinho (354-430), Confissões, VII, 10

30 comentários:

Anônimo disse...

Que a Paz esteja nesse blog:

Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?

Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.Rm 7(24:25).

Abraços NOM!

simone quaresma disse...

" Os homens são incapazes de de sentir seus pecados a menos que sejam levados PELA FORÇA a conhecer-se por si mesmos. Por isso, vendo que a prosperidade nos embriaga de tal maneira, e que quando estamos em paz cada um se adula em seus pecados, temos que sofrer pacientemente as aflições de Deus..." João Calvino - El uso adecuado de la afliccion

""... como somos por demais inclinados por natureza a nos exaltar e a atribuir tudo a nós mesmos, se a nossa fraqueza não for demonstrada de maneira patente, depressa avaliaremos exageradamenteo nosso poder e virtude e não duvidaremos de que vamos permanecer invencíveis frente a todas as dificuldades que se nos anteponham. Daí sucede que nos elevamos firmados numa vã e estulta confiança na carne, o que nos incita a orgulhar-nos contra Deus, como se a nossa capacidade fosse suficiente para nós, sem sua graça. Não há melhor meio pelo qual ele põe abaixo a nossa arrogância do que mostrar-nos experimentalmente como somos fracos e frágeis....até os mais santos, embora reconheçam que sua firmeza se funda na graça do Senhor e não em seu próprio poder, ainda assim tenderiam a confiar demais em sua força e em sua constância, se o Senhor não os conduzisse a um conhecimento mais correto sobre si mesmos, provando-os pela cruz." João Calvino - As Institutas, vol 4

Que Deus se compadeça de nós, dando-nos todos os dias a noção EXATA de quem nós somos e de quem ELE É!!!!!
Que delícia começar o dia sendo edificada assim!!! Beijão!

Marcos Rangel disse...

Norma querida,

Escritos como estes fazem toda a diferença. O tema e a profundidade do assunto encerram inúmeras implicações e tocam em questões que se mostram as mais dignas com as quais o ser humano pode se deparar. Invariavelmente, de alguma forma e em algum momento, cada um de nós terá de encarar tais questões, quando chega esse momento podemos tomar duas atitudes: a de covardia e a de coragem. Buscar compreender é uma atitude corajosa.

Roberto disse...

Ótimo, Norma. Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!

Augustus Nicodemus disse...

Norma,

Quem não lhe conhece vai pensar que você escreveu isso após fumar maconha, tomar cocaína, assaltar um banco, e usar a grana toda numa noite de orgia em Paris!

Ou então, que voce num lapso imperdoável, deu uma contribuição financeira para o PT.

Quem não nasceu de novo, e portanto não tem uma nova natureza, não pode entender a que você se refere. O fato é que quanto mais próximo de Deus alguém chegue, mais intenso será o conflito com a sua natureza pecaminosa.

Um abraço!

Marcos Rangel disse...

Não sei se eu subscreveria todos os possíveis desdobramentos dessas afirmações do filósofo Blaise Pascal (até porque penso não ter noção de todos - os intencionados e os não intencionados), mas acho que há positividades nelas, por isso envio a citação:

“A religião cristã ensina, portanto, aos homens estas duas verdades a um tempo: que há um Deus que os homens são capazes de atingir e que há uma corrupção na natureza que os torna indignos. Importa igualmente aos homens conhecer ambos os pontos; e é igualmente perigoso aos homens conhecer Deus sem conhecer a própria miséria, e conhecer a própria miséria sem conhecer o redentor que pode curá-la. Um só desses conhecimentos causa, ou a soberba dos filósofos que conheceram Deus e não a sua própria miséria, ou o desespero dos ateus, que conheceram a própria miséria sem redentor.

E assim com é também necessário ao homem conhecer esses dois pontos, pertence igualmente à misericórdia de Deus no-los ter feito conhecer. A religião cristã o faz e nisso consiste.

Se examinarmos a ordem do mundo sob esse aspecto, veremos se todas as coisas não tendem ao estabelecimento dos dois princípios dessa religião: Jesus Cristo é o objeto de tudo e o centro para onde tudo converge. Quem o conhece, conhece a razão de todas as coisas.

Os que se extraviam, só o fazem por deixarem de ver uma dessas duas coisas. Podemos, pois, conhecer bem Deus sem a própria miséria e a própria miséria sem Deus; mas não podemos conhecer Jesus Cristo sem conhecer, ao mesmo tempo, Deus e a própria miséria.

E, por isso, não procurarei provar aqui por meio de razões naturais, ou a existência de Deus, ou a Trindade, ou a imortalidade da alma, nem qualquer coisa dessa natureza; não só porque não me sentiria bastante forte para encontrar na natureza com que convencer ateus emperdenidos, mas ainda porque esse conhecimento, sem Jesus Cristo, é inútil e estéril. Mesmo se um homem estivesse persuadido de que as proporções dos números são verdades imateriais, eternas e dependentes de uma primeira verdade em que subsistem, e que se chama Deus, eu não o julgaria ainda muito adiantado em sua salvação. O Deus dos cristãos não consiste num Deus simplesmente autor de verdades geométricas e da ordem dos elementos; essa é a porção dos pagãos e dos epicuristas.

Não consiste somente num Deus que exerce a sua providência sobre a vida e os bens dos homens, para dar uma seqüência de anos felizes aos que o adoram: essa é a porção dos judeus. Mas o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, o Deus dos cristãos, é um Deus de amor e consolação; é um Deus que enche a alma e o coração daqueles que o possuem; é um Deus que lhes faz sentir interiormente a própria miséria e a sua infinita misericórdia; que se une ao fundo de suas almas; que as enche de humildade, alegria, confiança e amor; que os torna incapazes de outra finalidade exceto ele mesmo.”

Norma disse...

Simone querida, obrigada pelos textos postados! Você certamente reconheceu nesse post os eflúvios das últimas pregações do Orebe, não? Hehehehe!

Augustus, que horror, hahahahaha! Pois é, desvarios à parte, esse é mais um lindo paradoxo da fé cristã. O mesmo que me faz exclamar: ver-me pecadora dói, mas é uma dor boa! :-) A dor de Deus é uma dor que nos joga para cima. Só sabe quem já experimentou.

Abração, amo vocês!

Luiz Di Dio disse...

Norma, escreve mais, vai!

Anônimo disse...

Hereticus online:

Arthur Miller: the baby isn't right

Mark Stein: "Ele nao era gentil o suficiente para ser um pateta gentil, mas era o mais util dos idiotas uteis."

sim, esta e' a opiniao de Mark Stein publicada em The Spectator sobre Arthur Miller, um escritor cansativo e sem imaginacao, mas com uma pitada de genio: ele sabia que santimonia era chique se oferecida ao servico da Esquerda. Seu anti-anticomunismo (veja "As bruxas de Salem", no original "The Crucible",1953) tornou-o o queridinho dos Stalinistas de todos os quadrantes. O New York Times obedientemente eulogizou Miller no obituario de 2005 dando-lhe o titulo de "a Voz Moral do Cenario Americano" ("the Moral Voice of the American Stage").

Santidade, na definicao dos admiradores de Miller, e' sinonimo de desprezo aos conservadores, e neste departamento Miller nunca esteve em falta. Um aspecto sombrio do seu caracter veio a foco num artigo da revista Vanity Fair, escrito por Suzanna Andrews.
Em 1966 nascia seu filho Daniel Miller,com sindrome de Down, mas a Voz Moral do Cenario Americano rejeitou-o, thank you. No dia seguinte ao seu nascimento, Miller ao telefone com um amigo diria "the baby isn't right",e usou o termo "mongoloide" para descrever o problema.E a seguir acrescentou "I'm going to have to put the baby away". Em poucos dias Daniel foi despachado para um asilo para deficientes mentais, e o mundo do teatro nunca mais ouviu falar dele. Pelo menos ao fazer o seu testamento, corroido pelo remorso, Miller tentou corrigir a negligencia com que em vida tratara seu filho, e determinou que sua heranca fosse igualmente repartida entre seus 4 filhos. Mas o ser humano que ele engendrou foi uma pessoa com quem ele jamais conseguiu se relacionar. Todo o drama que Daniel teve que superar, com o auxilio de um casal que se interessou por ele e que conseguiu sua saida do asilo onde fora neglicenciado, esta' narrado no artido de Andrews na Vanity Fair.

O Dr. Jerome Lejeune nunca foi vitima do McCarthysmo, e portanto nunca foi elogiado pelo New York Times como uma Voz Moral, tinha uma amargura insanavel. Quando fez a descoberta que o sindrome de Down era uma anomalia genetica, a saber a trissomia-21, ele pensou que essa descoberta levaria a uma cura do sindrome. Para seu horror o que aconteceu foi sua descoberta tornar possivel um diagnostico pre-natal com o consequente aborto de milhares de fetos identificados com a trissomia-21. Uma monstruosidade da Medicina Moderna: para curar a enfermidade, mata-se o paciente!

Aqui os links pertinentes:

a)para o excelente artigo de Suzanna Andrews :

www.vanityfair.com/fame/features/2007/09/miller200709

b)para a critica de Mark Stein:

www.spectator.co.uk/archive/features/13256/death-of-a-salesman.thtml


"I'm going to have to put the baby away."

He did. Mas agora foi disparado um tiro mortal na sua figura de "Moral Voice", a menos que a Esquerda consiga escamotear, mais uma vez, a Verdade.

Norma disse...

Obrigada, Luiz!

Hereticus, que triste história. Obrigada por tê-la postado. Rousseau também botou o filho fora, apesar de ser considerado hoje uma figura de proa na pedagogia moderna. É incrível a capacidade humana de incensar e tomar por modelos os homens errados.

Abraços!

João Pedro disse...

A paz do Senhor!

Sou um Aspirante ao Sagrado Ministério (da IPB!) e também um assíduo frequentador do blog Tempora-Mores, mas vejo que encontrei mais um "point" na internet no qual posso ver artigos que edificam profundamente aqueles que os lêem e, por que não dizer, aqueles que os escrevem também.

Estarei sempre por aqui!

Deus continue abençoando!

Norma disse...

Obrigada, João Pedro! Deus o abençoe tremendamente no ministério!

Marcos Rangel disse...

Norma,
Ao reler alguns dos ‘Pensamentos’ de Pascal, várias belas passagens me remeteram a este post... um fragmento de texto em particular me remeteu à ótima proposta ou objetivo que você deu ao blog. Penso também que o trecho guarda certa proximidade com a maneira autêntica que você encara e vive o cristianismo (se eu estiver redondamente enganado é só me corrigir). Transcrevo tal fragmento:

“É preciso saber duvidar quando necessário, afirmar quando necessário, submeter-se quando necessário. Quem assim não faz não entende a força da razão. Há os que pecam contra esses três princípios, ou afirmando tudo como demonstrativo, por falta de conhecimentos em demonstrações; ou duvidando de tudo, por não saberem quando é preciso submeter-se; ou submetendo-se a tudo, por ignorarem quando é preciso julgar.

Submissão e uso da razão, eis em que consiste o cristianismo.

Santo Agostinho: a razão nunca se submeteria, se não julgasse que há ocasiões em que deve submeter-se. É, pois, justo que se submeta quando julga que deve submeter-se.

Não há nada tão conforme à razão como a retratação da razão.

Se se submete tudo à razão, a nossa religião nada terá de misterioso nem de sobrenatural. Se se contrariam os princípios da razão, a nossa religião será absurda e ridícula.”

Norma disse...

Muito bom! Cabe não esquecer que hoje perdemos esse antigo sentido de "razão". A "razão" de que falam Pascal e Santo Agostinho não é a razão científica, materialista, desenvolvida a partir de Descartes, mas sim a própria faculdade de pensamento, a capacidade humana de ver sentido na vida. O cristianismo tem uma lógica própria que não fere a razão humana, mas fere, sim, a razão científica, por falar do transcendente, de milagres e de paradoxos.

A razão científica é uma redução útil para os procedimentos da ciência, mas inútil para todo o resto. Muitos crêem que se trata de toda a razão, mas precisam ver além. Hannah Arendt fala dessa redução em A Condição Humana, um livro maravilhoso.

Abração!

Marcos Rangel disse...

Bem lembrado Norma, não se trata simplesmente de uma razão instrumental.

Abraço,

Marcos Rangel.

Vinícius disse...

Essa convivência entre estes dois infinitos é o que chamo de angústia na minha vida.

Aliás, por falar em razão instrumental, o C.S Lewis tem uma abordagem leve, bem-humorada e replata de ironias em "A Abolição do Homem".

Abraços!!

Edemir Antunes Filho disse...

Irmã Norma,
graça, paz e bem!

Gostei do blog e dos comentários fervorosos.

Felicidades!

Marcos Rangel disse...

Uma observação: a expressão "razão instrumental", se não me engano, foi muito utilizada pelos frankfurtianos e acho que se trata de um termo técnico característico dessa escola. Não sei exatamente qual o alcance e o teor que esse conceito possuía entre os adeptos da Escola de Frankfurt, mas esclareço que aqui não utilizei essa expressão para me referir a tal conceito, com essa expressão quis apenas apontar a estreiteza com que a palavra "razão" é normalmente hoje utilizada.

Marcos Rangel.

Cfe disse...

Norma,

Estive de férias e só vi seu post agora.

Bendita seja sua escrita que alegra o nosso espírito. A questão da intercessão dos infinitos, que eu já explorava há tempos, tão bem explicada!

Louvado seja Deus!

Insonix disse...

ZZZZZZZZZZZ! Ah! Bom dia! Escreve algo novo para debatermos vai! ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ :=( ZZZZZZZZZZZZZZZ

Nagel disse...

Marcos Rangel,

esse foi um dos primeiro comentários que fiz à Norma quando ela me mostrou o texto: que me lembrava Pascal. O engraçado é que ele usa -- em outro conceito, é verdade -- a expressão "os dois infinitos" utilizada por ela.

Abraço aos amigos.

Anônimo disse...

Norma, veja a apresentação de 11/09/2007. É dinamite pura:

http://www.blogtalkradio.com/olavo

Roger disse...

Oi Norma,

fiquei bobo lendo o seu texto... psamado e surpreso. Que coisa bela, feminina, humana, pra não falar divina.
Confesso que me assustei, porque antes de ler o texto, já fui direto nos comentários que é o que mais gosto!!! Achei ali o Augustos dentre outros e pensei, opa, pera lá preciso ler isso.
Acho que essa é a segunda vez que entro no seu Blog, na primeira pensei que a coisa era puro intelectualismo (já basta nós homens tapados com as nossas pretenções caxias e arrogantes).
Pensei ironicamente comigo o nome passa bem na Blogista: norma, lei, regulamento, princípios...
Hoje, porém saio com outra idéia: Norma, forma, contorno, padrão, modelo, exemplo...humildade.

PS: Tenho que dizer que no comentário do Augustos também conheci espantado uma outra faceta dele!

Saudações dessa Europa que já começa a esfriar denovo,

Beijos,

Rogério

Oliveira disse...

Lindo texto.
Parabéns.
Parece um salmo.

Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá Norma, é a primeira vez que comento em seu blog, parabéns que Deus lhe abençoe mais e mais nesta caminhada cristã.
Realmente é impressionante como é o homem em sua luta contra a mortificação do pecado. Que Deus nos dê graça, força, fibra e alegria na sua salvação.
Abraços.
Victor Leonardo,
gqlgeracaoquelamba.blogspot.com

Roger disse...

Gostei mesmo do seu texto.
Acho estranho que pessoas afirmem que Paulo escreveu esta passagem se referindo à fase antes da conversão. Seria dizer que depois de convertido Paulo passou a fazer o bem que ele quer e não fazer o mal que não quer.
Achei sua postura mais coerente. Afinal qual de nós que está totalmente livre de pensamentos ou sentimentos pecaminosos?
O simples vislumbrar da santidade perfeita de Deus faz-nos tremer.
Mas a graça de Jesus apazigua a alma.
Fraternalmente,
Rogério

Marcos Rangel disse...

Pois é Nagel,

Parece que “estamos em um mesmo espírito” - :)
Pascal que vivia na época Moderna nadava contra a maré Moderna, em vários aspectos relativos à fé cristã. Santo Agostinho é uma fonte que ele (Pascal) bebeu bastante.

Um abraço.

Marcos Rangel disse...

[Plotino mudou o modo de pensar de Agostinho, oferecendo-lhe as novas categorias que romperiam os esquemas de seu materialismo e de sua concepção maniqueísta da realidade substancial do mal. Então, todo o universo e o homem apareceram-lhe sob nova luz. Mas a conversão e a fé em Cristo e em sua Igreja ‘mudaram também o modo de viver’ de Agostinho, ‘abrindo-lhe novos horizontes para o seu próprio pensar’. A fé tornou-se substância de vida e de pensamento e, assim, tornou-se não só o horizonte de sua vida, mas também de seu pensamento. E, estimulado e comprovado pela fé, o seu pensamento ‘adquiriu uma nova estatura e uma nova essência’.]

[A conversão, com a conseqüente conquista da fé, foi, portanto, o eixo em torno do qual passou a girar todo o pensamento de Agostinho – e, portanto, constitui o caminho de acesso para a sua compreensão. Em sua obra ‘Os grandes filósofos’, K. Jaspers destacou muito bem esse ponto, escrevendo: “A conversão é o pressuposto do pensamento agostiniano. Somente na conversão é que se torna certa a fé, que não é necessitada por nada e não pode ser transmitida através de nenhuma doutrina, mas lhe é dada em dom por Deus. ‘Quem não experimentou por si mesmo a conversão sempre encontrará algo de estranho em todo pensamento que nela se fundamenta’. O que significa essa conversão? Ela não é o despertar uma vez provocado por Cícero, nem a transfiguração bem-aventurada do pensamento na espiritualidade operada por Plotino, ‘mas sim um acontecimento único’, que, por sua essência, é diferente no seu sentido e na sua eficácia: consciente de ter sido atingido imediatamente pelo próprio Deus, o homem se transforma até na sua corporeidade do seu ser e nos objetivos que se propõe. (...) Juntamente com o modo de pensar, muda também o modo de viver. (...) Tal conversão não é mudança de rota filosófica, que precisa ser renovada a cada dia (...), mas ‘um momento biograficamente datável, que irrompe na vida e lhe dá uma nova base’.” E ainda: “No movimento de filosofar, do autônomo ao crente-cristão, parece tratar-se do mesmo filosofar. E, no entanto, cada coisa é perpassada como que por uma linfa diferente e estranha (...). Agora, as antigas idéias filosóficas, por si mesmas já impotentes, tornavam-se meios para pensar, em movimento que não acaba mais.” E, por fim, Jasperes destaca: “Acima de qualquer outra coisa (depois da conversão), o que mudou foi a avaliação da filosofia. Para o jovem Agostinho, o pensamento racional mantinha expressamente um valor preponderante. A dialética é a disciplina das disciplinas, ensina a aprender e a ensinar. Ela demonstra e destaca o que é, o que eu quero: ela sabe o saber. Só ela quer e pode nos tornar sábios. Agora, porém, passava a ser avaliada negativamente: ‘a luz interior está mais no alto’ (...). Agostinho reconhece que a sua admiração anterior pela filosofia (como dialética) era absolutamente exagerada. A bem-aventurança encontra-se somente no anseio de Deus; mas essa bem-aventurança pertence somente à vida futura e o ‘único caminho para chegar a ela é Cristo’. Desse modo, reduziu-se o valor da filosofia (como simples dialética). O pensamento bíblico-teológico torna-se a única coisa essencial.

Tratar-se-á de uma forma de fideísmo? Não, Agostinho está bem distante do fideísmo, que não deixa de ser uma forma de irracionalismo. A fé não substitui nem elimina a inteligência; pelo contrário, como já acenamos, a fé estimula e promove a inteligência. A fé é “cogitare cum assensione”, modo de pensar assentindo; por isso, sem pensamento não haveria fé. E analogamente, por seu turno, a inteligência não elimina a fé, mas fortalece e, de certo modo, a clarifica. Em suma: fé e razão são ‘complementares’. O “credo quia absurdum” é posição espiritual inteiramente estranha a Agostinho.]


[Trechos transcritos de “História da filosofia: Antigüidade e Idade Média” / Giovanni Reale, Dario Antiseri; - São Paulo: Paulus, 1990. – (Coleção filosofia)]

Anônimo disse...

Norma,
vou buscar na lingua inglesa como expressar o que senti ao ler o seu texto. Nao vou traduzi-lo para o Portugues, nem para nenhuma outra lingua estas palavras inglesas, sua harmonia e equilibrio, em nenhuma lingua vc encontraria a simplicidade de:

Glimpses that should make me less forlorn

Isto foi o que senti, less forlorn.

O mesmo sentimento de Agostinho foi provado por aquele gigante do Renascimento frances, Pierre de Ronsard, em seu leito de morte, apos ter se dirigido longamente aos frades que o rodeavam, ele terminou assim seu discurso:

"De todas as vaidades, a mais amavel e digna de louvor e' a Gloria - a Fama. Ninguem em meu tempo, a teve mais do que eu: vivi nela, e amei-a no passado, e agora deixo-a para que a minha Patria possa reuni-la e possuir depois que eu morrer. Portanto, saio do meu lar tao saciado da gloria deste mundo, quanto estou faminto e esperancoso daquela de Deus."

Fraternalmente, Hereticus.

Nagel disse...

Marcos Rangel,

Sabe o que é engraçado? O autor que você citou termina do seguinte modo: O “credo quia absurdum” é posição espiritual inteiramente estranha a Agostinho. Eu concordo, mas é muito comum, inclusive na internet, a atribuição desse pensamento, que seria uma corrupção do pensamento de Tertuliano, a Agostinho. Tem idéia do porquê?

Abraços.