06 setembro 2017

É com o amor de Deus que nos vemos melhor

Para algumas pessoas, amar-se em um sentido pecaminoso às vezes significará uma série de atitudes que ninguém em sã consciência chamaria de amor próprio: encolher-se num canto, adiar tarefas, xingar-se secretamente, lamber feridas e sentir-se sempre o último da fila. Não é agradável, não é lisonjeiro, não é produtivo. Mas é mais um jeito que o pecado arrumou para nos manter longe de Deus: autodestruição com máscara de autopreservação. Nesses casos, a tendência é tão arraigada que o esforço precisa ser diário para não fugir da verdade que o próprio Deus nos comunicou: Ele nos ama; Ele perdoou nossas faltas; Ele nos olha através de Jesus e nos santifica dia a dia. Não está mais irado conosco, sem se impacienta por nossos recorrentes pecados, mas nos leva pela mão e com ternura contempla o estágio em que estamos, como um Pai. O olhar Dele é infinitamente melhor que o nosso, e nos dignifica ao mesmo tempo em que preserva nossa realidade como criaturas. Por isso, até para nos amar - ou seja, para pensar em nós mesmos devidamente (Rm 12.3) - precisamos do amor de Deus.

22 agosto 2017

A maledicência não vale a pena (II)

A primeira vítima de character assassination da história foi o próprio Deus. Em Gênesis 2, Deus proibiu Adão e Eva de comerem da árvore do conhecimento do bem e do mal, dizendo-lhes que, se comessem, morreriam. A Serpente, ou o velho Diabo, “homicida desde o princípio” segundo Jesus (Jo 8.44), sabia que precisava cortar os laços entre Deus e o homem para provocar sua morte. Ele se aproxima de Eva e diz:

- É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. (Gn 3.4-5)

Nas minhas palestras, sempre digo que, com muita sutileza, essas duas frases curtas conseguiram destruir totalmente a imagem do Criador no espírito do casal. Na fala do Diabo estavam implícitas as seguintes ideias:

  1. “É certo que não morrereis” - Deus não falou a verdade. Isso significa que Ele pode mentir. Ele não é todo verdade e perfeição. Quando Ele fala sobre o que vai acontecer, não devemos confiar.
  2. “Porque Deus sabe…” - O que motivou a proibição não foi explicitado por Deus. Ele agiu ocultando sua própria agenda. Logo, Ele é dissimulado. Não há integridade Nele. Quando Ele fala de si mesmo, não devemos confiar.
  3.  “…que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” - Deus quer permanecer o único que conhece o bem e o mal. Não quer competição, mas teme que o homem fique igual a Ele e, quem sabe, tome o lugar Dele. Assim, seus desejos para o homem não são todos bons nem confiáveis.
Em resumo, o Diabo imprimiu nos corações de Adão e Eva as seguintes distorções: Deus é mentiroso; Deus tem motivações ocultas; Deus teme a competição do homem, portanto, embora seja o Criador do homem, não é tão diferente nem tão distante assim de sua criação. Toda a pretensa autonomia do homem está fundada nessas mentiras.



Sabemos que Deus nos redime para sermos semelhantes a Cristo. Quando o primeiro casal trocou a Palavra de Deus pela palavra do Diabo, estabeleceu para si um outro modelo. Em vez de refletir primariamente o caráter de Deus - que não mente, mas é todo bondade e amor, todo onipotência e onisciência -, o homem passou a refletir todas as mentiras que o Diabo contou sobre Deus. Nós é que passamos a ser, a partir do pecado, mentirosos, dúbios, hipócritas, pouco confiáveis e temerosos da competição. Um retrato muito fiel do ser humano após o pecado está em Tiago 4, que também fala da maledicência (v. 11-12):
Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal do irmão ou julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; ora, se julgas a lei, não és observador da lei, mas juiz. Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és, que julga o próximo?
Essas palavras são profundas. Quando as correlacionamos com Gênesis 3 e João 8.44, observamos o seguinte: sempre que alguém fala mal de outra pessoa - espalhando mentiras, denegrindo, zombando, ainda que com sutileza - , está invocando o exemplo não de Cristo, mas do Diabo. Quando lembrou os fariseus de que o Diabo era homicida desde o princípio, Jesus estava explicitando a intenção deles: seu objetivo, ao "fazer a vontade do Diabo", era destruir o amado de Deus. O objetivo de todo maledicente é o assassinato da reputação, que mata a imagem da pessoa no coração dos ouvintes. Exatamente como o Diabo fez no Éden em relação a Deus.

E quem é o Diabo? Aquele que ousou competir com Deus, desafiando diretamente sua autoridade e soberania. Por isso, Tiago oferece outro ângulo para examinarmos a maledicência: colocou-se no lugar de Deus quem se apresenta diante do outro como alguém que, além de saber tudo o que está acontecendo, desfere o golpe fatal: Fulano é assim, portanto, não é alguém digno. O maledicente se senta na cadeira do juiz e condena à morte simbólica.

Se a Bíblia fala tão repetida e veementemente sobre a maledicência, é porque se trata de um pecado muito grave. Espero ter mostrado um pouco disso aqui. Se Jesus é seu modelo, e não o Diabo, não condene pessoas à morte com a sua língua. Afinal, Deus não lhe deu palavras de morte, mas de vida.

O fim do Diabo é a destruição. Sua maledicência valeu a pena? Assim será também o fim dos que o imitam (1 Coríntios 6.9-10). Deus conhece nosso coração e sabe que a maledicência "agrada" nosso ego (Pv 18.8). Por isso, recomenda deixar o maledicente falando sozinho (1Co 5.11) para não começar a viver a atmosfera da maledicência como se fosse algo normal e aceitável diante de Deus.

06 agosto 2017

Sobre as diferenças periféricas

Ninguém peca por pensar o que pensa sobre questões periféricas - ou seja, que não dizem respeito ao principal da doutrina cristã - , mas peca ao se ver mais crente que o outro, seja por aferrar-se a regras inócuas, seja por se achar livre de farisaísmo. Nesses casos, ambos os lados estarão automaticamente errados ao se verem superiores ao outro (Fp 2.3).

Por isso, os crentes precisam tomar muito cuidado quando abordam questões periféricas que não são consenso na igreja, porque a maior e mais perigosa tentação sempre será romper a unidade. Nisso cabe o conselho de Paulo em Fp 3.15: o ideal é que pensemos igual, mas, quando isto não ocorrer e nenhuma exegese for suficiente para resolver a diferença, tenhamos calma, pois em seu devido tempo Deus esclarecerá.

Devo a explicitação desse aprendizado precioso a Davi Charles Gomes.

01 agosto 2017

Bodas de lã

Ontem eu e André comemoramos sete anos de casamento, e eu ganhei o melhor presente do mundo: um poema!

Bodas de lã - André Venâncio
Por sete anos Jacó se sujeitou
a um sogro mau, que na lua de mel
o enganou, lhe dando a filha errada,
segundo, após Moisés, cantou Camões.
Eu mais feliz que o patriarca sou,
pois teu Pai é melhor que o de Raquel
e deu-te a mim sem Lia acrescentada,
que já nos bastam nossas confusões.
Começo a servir outros sete anos;
depois de ti, tu mesma, novamente:
mesma mulher; contudo, já mudada,
mais firme, mais serena frente aos danos,
mais bela, mais alegre e diligente,
mais forte em Cristo, mais por mim amada.

Sinatra e Jobim

Há um excelente documentário na Netflix, All or Nothing at All, com duração de quatro horas, sobre a vida de Frank Sinatra. Achei irretocável, e direi por quê. É situado historicamente: expostos a muitas fotos e filmagens de época, vemos como Sinatra passou pela depressão americana, acompanhou as duas grandes guerras, lutou contra o racismo, apoiou a candidatura Kennedy e assustou-se com a nova geração hippie. É situado culturalmente, afinal, Sinatra continuou ativo, desde o jazz antigo de Tommy Dorsey, passando pelo advento do rock (e há um dueto seu impagável com Elvis Presley) até o pop de Michael Jackson, sobrevivendo impávido com pouquíssimas (e hilariantes) concessões. Não tem narrações desnecessárias de atores novos e famosinhos, nem takes infinitos de paisagens atuais, mas somente imagens de época, junto com gravações (ou simulações de gravação) das personalidades que viveram cada momento. E há música, muita música, tocada inteira ou em grandes pedaços, para o deleite de quem amava ouvir Sinatra. Esteticamente, não há nada acessório no filme, assim como não é tendencioso o conteúdo: Sinatra é retratado em suas qualidades e defeitos, brilhando em sua generosidade, sua dedicação aos amigos, sua personalidade sedutora e seu perfeccionismo, mas também não ficam de fora o temperamento explosivo, os casos extraconjugais e a ligação com a Máfia italiana. É primoroso, enfim, sem recair na vulgaridade das fofocas. Uma verdadeira homenagem ao artista e a sua música.

Quando penso no documentário que foi feito no Brasil sobre Tom Jobim, que indubitavelmente ocupou em nossa cena artística um papel tão central como o de Sinatra nos EUA, não me contenho de indignação. Tínhamos um especial que passava na Globo, com quase todos os problemas que o de Sinatra não tem - muitas imagens supérfluas e pouco material biográfico sobre Jobim, por exemplo -, mas que era redimido (e o quanto!) pelas músicas inteiras que ele tocava e cantava com Gal Costa, Marina, Chico Buarque e Edu Lobo. Esse filme foi posteriormente editado - eu diria, esquartejado - e os encontros emocionantes foram reduzidos a trechos sem importância, cosidos pela irritante e anacrônica narração de uma jovem atriz global.

Diante disso, eu pergunto: quando produzirão um documentário à altura do gênio que foi Tom Jobim? Já passou da hora. E seria maravilhoso se tomassem All or Nothing at All como inspiração - em que, aliás, Tom aparece, em seu famoso dueto com Sinatra em Garota de Ipanema.

18 julho 2017

Conferência Fiel para Mulheres 2017

Por estar na reta final da redação de minha dissertação de mestrado em teologia para o Andrew Jumper, evitei ao máximo aceitar convites este ano para palestras fora de Natal. Mas a Conferência Fiel para Mulheres foi um desses impossíveis de recusar! Será em Águas de Lindoia, SP, nos dias 18 a 20 de agosto.

O tema da conferência não poderia ser melhor: "Jesus, nosso maior tesouro". De fato, Jesus é a resposta suprema que encerra todas as nossas idolatrias - tema de meu trabalho acadêmico e objeto de meus pensamentos há alguns anos. Em nossa época de autoempoderamento e construções de autoimagem tão estratosféricas que ocultam toda fragilidade feminina, falar de como somos ao mesmo tempo frágeis e fortes em Cristo será um privilégio e um prazer gigantescos.

Estarei lá junto a Gloria Furman e seu marido Dave, que são missionários em Dubai. Além das qualidades que demonstra como cristã, Gloria é uma escritora talentosa e divertida, que manteve um toque deliciosamente pessoal em seu texto. Estou lendo Vislumbres da graça e gostando bastante. Tomara que haja oportunidade para conversarmos! Também vou rever Heber Campos Jr., Sillas Campos e, espero, sua esposa Wanger, que sempre me alegra muito nessas ocasiões. Todos eles - Dave, Gloria, Heber e Sillas - serão palestrantes nessa conferência, além de mim.

Se você ainda não decidiu se vai ou não, não só espero ter lhe dado excelentes motivos para isso, mas trago aqui um estímulo a mais: um código de desconto para a sua inscrição. Aproveite!


28 junho 2017

Uma palavra sobre submissão feminina e igualdade

Um texto do Renato Vargens veiculado no Facebook, junto com outro do Pedro Pamplona compartilhado pelo Yago Martins - sobre os congressos femininos que sempre batem nas mesmas teclas - formam um quadro que quer nos dizer alguma coisa muito importante.

É crucial reintroduzirmos na igreja o ensino sobre submissão feminina (que não tem nada, nada a ver, com todo o sentido negativo que a palavra ganhou em nossos dias). Ao mesmo tempo, é crucial diferenciar muito bem a submissão bíblica da submissão que caracterizou determinadas épocas e que, por exemplo, gerou a imagem tão estereotipada (e detestada hoje) da mulher dos anos 1950 para trás, que deveria só cuidar do lar e não participar da vida pública de modo algum.

Nos tempos idos, como ideal, a mulher não votava, tinha pouca expressão intelectual e a vida pública lhe era vedada. Havia uma separação radical entre o mundo lá fora e a esfera familiar. A "rainha do lar" existia para comunicar beleza e ordem ao marido e aos filhos, e o resto era o resto. A feminilidade foi cortada de dimensões mais amplas e a masculinidade foi deturpada, confundida com uma força absoluta em comparação à fragilidade da mulher, também considerada absoluta.

Não é difícil entender por que esse ambiente tóxico, ao ser rejeitado, levou-nos a outro ambiente tóxico. Hoje, a mulher participa plenamente da vida pública, mas opondo-a radicalmente à esfera familiar - como se tivesse caído no conto daquela masculinidade deturpada e aceitado viver no outro extremo. Nunca a vida interior, a intimidade conjugal e a criação de filhos foram tão desprezadas como em nossos dias. Vivemos de exterioridade em exterioridade; só beleza física, carreira profissional e status social importam.

A Bíblia apresenta uma ideia muito mais bela e equilibrada da complementaridade dos sexos. A mulher não é o sexo frágil, e sim o MAIS frágil (1 Pe 3.7). Isso significa que a dimensão da fragilidade humana, universal, é expressada por ela de um modo mais íntimo e particular. Essa é uma missão muito necessária em um mundo que perdeu de vista a importância da humildade diante de Deus e da vulnerabilidade nos relacionamentos. Da mesma forma, a prioridade dada à família é para ambos, não só para a mulher - se assim não fosse, Paulo jamais teria dito a Timóteo que os candidatos a cargos na igreja deveriam antes ser bons cuidadores do lar (1 Tm 3.4). Quem inverte a prioridade, abandonando a família para cuidar da igreja, já está desclassificado. E, sempre que trata de liderança, em todos os níveis, a Bíblia deixa claro que somente Deus tem a prerrogativa da liderança absoluta: em Cristo todos nós somos iguais (Gl 3.28). A submissão feminina bíblica, portanto, é funcional e não absoluta, pois não nega essa igualdade: homens e mulheres são "co-herdeiros da mesma graça de vida" (1 Pe 3.7).

Só a cosmovisão bíblica nos faz escapar, ao mesmo tempo, da opressão machista e da deturpação do feminino - que no final são dois lados da mesmíssima moeda, uma moeda que muitas vezes não tem sido reconhecida como um instrumento duplo. Ao clamar contra o feminismo, faça-o de modo bíblico: não tire do homem a prioridade da família nem a vida pública das mãos da mulher. Na prática, isso significa que congressos femininos devem tratar de teologia e todos os assuntos correlatos - não só modéstia no vestir, submissão e criação de filhos. Significa igualmente que homens precisam se interessar tanto quanto as mulheres pela questão da feminilidade e da criação de filhos.

Complementaridade não significa separação nem oposição, mas cooperação em amor.

(Quando eu terminar o Jumper, escreverei mais sobre esse assunto, se Deus assim permitir.)

26 junho 2017

Decadência cultural

É interessante como a gente se acostuma com algumas formas culturais. A primeira vez em que vi Friends, na casa dos meus pais, achei os personagens tão apalermados quando abriam a boca que me espantei. Que diálogos eram aqueles, de gente que parecia lobotomizada? Décadas depois, ao assistir à série com o André, nos envolvemos com as tramas e lamentamos quando acabou. Do mesmo modo, "Sonífera Ilha", dos Titãs, soou amadora e grosseira quando ouvi, assim que lançada, mas hoje é uma sinfonia se comparada a Weslley Safadão e outros inferninhos musicais. Será que estamos nos rendendo à decadência da cultura e nem estamos percebendo? Em parte, creio que sim. Mesmo que vivamos em um bunker particular, somos modificados pelas ênfases do tempo, por essa simplificação excessiva, essa brutalidade formal, em suma, esse deslocamento do intelectual refinado para a crueza emocional. Nosso bunker (meu e do André) é recheado de música clássica, jazz, rock e MPB antiga, além de boa literatura e bons livros teóricos, mas não está imune aos seriados da Marvel (alguns são bons pra valer!) nem a livros mais bobinhos, daqueles que se leem de uma sentada numa viagem de avião (não consigo ler nada teórico em avião e fico dispersa demais para um Dostoievski com seus inúmeros personagens). E é para isso que servem textos como este abaixo - não para condenar a cultura popular, como espero ter ficado claro até aqui, mas sobretudo para nos lembrar de que é absolutamente impossível não participar da decadência cultural da nossa época em alguma medida. Somos seres culturais. Mesmo crentes em Cristo, somos seres culturais. Bem mais permeáveis do que imaginamos. E isso não é para lamentar (às vezes sim, mas não de modo absoluto), mas para, de modo sábio e consciente, buscar equilibrar o novo com o velho, o atual com a tradição, o fácil com o difícil, o superficial com o profundo, sempre submetendo tudo ao senhorio da Palavra que sai da boca de Deus.
Quanto aos nerds: amigos como Joey e Chandler podem ser preciosos, mas a vida fica mais agradável quando estamos cercados de gente que consegue nos ouvir até o final.
Ainda uma obs: no texto, os palavrões também indicam capitulação à época. Existe coisa mais atual, decadente e emocionalmente carregada que escrever, dar palestra, dar aula etc. com um monte de palavrão?