26 junho 2017

Decadência cultural

É interessante como a gente se acostuma com algumas formas culturais. A primeira vez em que vi Friends, na casa dos meus pais, achei os personagens tão apalermados quando abriam a boca que me espantei. Que diálogos eram aqueles, de gente que parecia lobotomizada? Décadas depois, ao assistir à série com o André, nos envolvemos com as tramas e lamentamos quando acabou. Do mesmo modo, "Sonífera Ilha", dos Titãs, soou amadora e grosseira quando ouvi, assim que lançada, mas hoje é uma sinfonia se comparada a Weslley Safadão e outros inferninhos musicais. Será que estamos nos rendendo à decadência da cultura e nem estamos percebendo? Em parte, creio que sim. Mesmo que vivamos em um bunker particular, somos modificados pelas ênfases do tempo, por essa simplificação excessiva, essa brutalidade formal, em suma, esse deslocamento do intelectual refinado para a crueza emocional. Nosso bunker (meu e do André) é recheado de música clássica, jazz, rock e MPB antiga, além de boa literatura e bons livros teóricos, mas não está imune aos seriados da Marvel (alguns são bons pra valer!) nem a livros mais bobinhos, daqueles que se leem de uma sentada numa viagem de avião (não consigo ler nada teórico em avião e fico dispersa demais para um Dostoievski com seus inúmeros personagens). E é para isso que servem textos como este abaixo - não para condenar a cultura popular, como espero ter ficado claro até aqui, mas sobretudo para nos lembrar de que é absolutamente impossível não participar da decadência cultural da nossa época em alguma medida. Somos seres culturais. Mesmo crentes em Cristo, somos seres culturais. Bem mais permeáveis do que imaginamos. E isso não é para lamentar (às vezes sim, mas não de modo absoluto), mas para, de modo sábio e consciente, buscar equilibrar o novo com o velho, o atual com a tradição, o fácil com o difícil, o superficial com o profundo, sempre submetendo tudo ao senhorio da Palavra que sai da boca de Deus.
Quanto aos nerds: amigos como Joey e Chandler podem ser preciosos, mas a vida fica mais agradável quando estamos cercados de gente que consegue nos ouvir até o final.
Ainda uma obs: no texto, os palavrões também indicam capitulação à época. Existe coisa mais atual, decadente e emocionalmente carregada que escrever, dar palestra, dar aula etc. com um monte de palavrão?

10 maio 2017

A maledicência não vale a pena

Eu tenho dois ou três excelentes amigos que são alvo costumeiro de campanhas de difamação, daquelas que, seja em público, seja em privado, nunca param. A Bíblia está recheada de advertências contra os assassinos de reputação, mas largar o vício pressupõe um autoexame que o viciado muitas vezes não está disposto a fazer. Ele precisaria compreender que age como se estivesse em uma gangorra, elevando sua autoimagem por meio do rebaixamento da imagem do outro. Ou seja, arrasta o outro na lama para sentir-se limpo. Mas, se o maledicente é cristão de verdade, um dia perceberá que não precisa lançar mão desse artifício. Cristo já o tornou limpo e já começou a restaurar sua imagem - e essa imagem é muito mais bela do que em seus melhores sonhos.

06 novembro 2016

Palestra em São Paulo

Estarei em São Paulo participando do I Congresso Internacional de Ciência da Religião da Universidade Mackenzie, com a palestra: Considerações sobre idolatria à luz da teoria mimética de René Girard". ESerá na terça-feira às 16h10. Veja a programação completa aqui.

UPDATE: Não poderei mais participar do congresso. Fiquei doente. :-( Não é nada sério, mas vai me impossibilitar sair de casa por alguns dias!

05 maio 2016

Diálogos (revolucionariamente) irrelevantes VII

Ou: Como inventar um terrorismo evangélico e depois lavar as mãos


A ira do homem não produz a justiça de Deus (Tg 1.20).

Depois da reunião dos jovens, alguns se juntam para conversar. Um deles sempre começa suas frases com “mas peraí”...

– As igrejas são opressoras. A maioria delas trai o chamamento de Jesus. Em vez da fragilidade da sensibilidade que evoca o amor, a igreja virou uma comunidade institucionalizada. Precisamos de novas narrativas libertadoras, ao invés de encontros e retiros improdutivos, individualistas*.
– Sim! 
– Então… Vamos ocupar as igrejas?
– Vamos ocupar as igrejas!
– Afinal, o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos também ocupou!
– Éééééé!
– Mas peraí, o movimento ocupou locais públicos em que os negros não eram permitidos…
– Sim! Mas as igrejas são nossas! Tudo é nosso.
– As igrejas deveriam ser comunidades abertas, coletivas e acolhedoras, não as instituições controladoras que são!
– Sim! Abaixo o controle!
– Abaixo o controle!!!
– Mas peraí, ocupar também não é controlar?
– Claro que é, mas do lado certo!
– Na ocupação, os controlados viram controladores!
– Sim! É a revanche dos controlados!
– A revanche dos controlados!
– A gente junta o máximo de pessoas que conseguir, chega lá e confronta a liderança!
– Enfia o dedo na cara dela e diz: Abaixo o controle! Abaixo o conservadorismo moralista! Queremos transformação social!
– Transformação social!
– A gente senta no chão e fica até o pastor fazer o que a gente exige!
– É!
– Não vai ser lindo? Todos aqueles pastores sendo obrigados a negociar com a galera da ocupação…
– Mas peraí. A gente vai obrigar os caras?
– Claro que vai! Ocupação é isso: a gente reivindica com a força um lugar que é nosso. A gente diz que só sai de lá se aceitarem nossas ideias.
– Tipo um sequestro?
– É, tipo um sequestro: o sequestro do lugar.
– E se estiver rolando um estudo bíblico na hora?
– Quem liga pra estudo bíblico? O que queremos é transformação social!
– Transformação social!
– Imagine a cara dos pastores, desesperados?
– Vai ser lindo! Viva o desespero!
– Viva o desespero!
– E se chamarem a polícia?
– Aí vai ser uma pena. 
– Mas vale correr o risco!
– E se alguém sair no braço? E se alguém se ferir?
– Vale correr o risco! 
– E se alguém ficar nervoso? Tiver um ataque cardíaco?
– Vale correr o risco!
– Mas peraí. Mesmo que esses riscos não existissem… Não seria melhor a gente conversar amigavelmente com os caras? Tipo, a gente envia convites para apresentar nosso ministério a cada igreja. E eles voluntariamente nos receberiam se se identificassem com nossa proposta. Chegar chegando assim, um monte de gente enfiando o pé na porta, interrompendo a reunião, entrando e falando... Não é um troço agressivo, antipático? Não é uso de força bruta?
– Força bruta sim, mas do lado certo! Não viu que Jesus expulsou os vendedores do templo?
– Sim, mas ele é o dono da igreja…
– Nós também somos! A igreja é nossa!
– A igreja é nossa!
– Mas peraí! Isso não fere o vínculo do amor? O próprio amor que vocês disseram que está faltando nas igrejas?
– Cara, você é muito retrógrado mesmo, viu? Sai daqui. Vamos ocupar!
– Vamos ocupar!!! Vou já já postar um texto no Facebook.
– E se alguém reclamar dizendo que é incitação ao crime? Afinal, não se pode interromper culto…
– Aí a gente diz que as pessoas não sabem ler, que era tudo simbólico! 
– Ah! Genial! Assim, o primeiro que ocupar, se der tudo errado, nem vai poder culpar a gente!
– Exato! Vejo que você já pensa como um verdadeiro revolucionário.
– Ocupação real ou simbólica já!
– Real ou simbólica já!



E todos saem felizes, crentes de que vão mudar a igreja e o mundo.

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* Curioso sobre a fonte das ideias revolucionárias? É só dar uma olhada no Facebook de Ronilso Pacheco.