20 novembro 2014

Rosa e as pirâmides

Guimarães Rosa aconselhava jovens escritores: "Façam pirâmides, não biscoitos." Ainda era vivo quando Nelson Rodrigues colocou na boca de um personagem o seguinte comentário: "O que é a obra de Guimarães Rosa, senão uma pirâmide de confeitaria?" Tremendamente injusto, mas muito engraçado.

Lembrei-me disso agora, ao comprar para Kindle dois livros do Rosa: Tutameia e Estas estórias. Estão por um preço ótimo na Amazon! "Meu tio o Iauaretê", em Estas estórias, é um dos melhores textos literários que já li na vida. Mas fiz essa avaliação aos vinte e poucos anos. Quero ver o que vou achar agora (algo me diz que continuará sendo um dos melhores textos literários que já li na vida).




11 novembro 2014

Reminiscência

Organizando meu iTunes, fui criar uma lista com músicas de Paul McCartney, quando me deparei com um leve mal estar: não combinava misturar as músicas que eu ouvia quando menor (Another Day, Pipes of Peace, Coming Up) com as músicas que passei a conhecer mais recentemente (Ram On, The Back Seat of my Car), mesmo que fossem da mesma época.

Por quê? Pensei melhor e construí rapidamente uma pequena teoria - que, na pior das hipóteses, só se aplica a mim mesma. Quando somos menores (infância e parte da adolescência), o contato com a cultura é também uma busca identitária. Nós nos projetamos para nos encontrar no outro. No caso específico de Paul ou dos Beatles, quando ouço aquelas músicas marcadas pelo tempo, sinto bastante prazer ainda, mas preciso estar em uma certa "onda" nostálgica. Ou narcísica: é como se a música estivesse se entranhado tão profundamente em mim que eu a ouço vinda do meu próprio corpo, não das caixas de som. Como quem revisita antigos cadernos e lembra de certos sentimentos, certos cheiros, detalhes esquecidos de certos ambientes.

É um processo totalmente diferente da escuta atual, que não me parece tanto uma projeção, mas o movimento inverso: de acolhimento de um outro que se agrega em mim, mas permanece outro. E esse processo coincidiu, no meu caso, com a entrada na fase adulta. Por exemplo, ouço Dave Brubeck desde os meus dezoito anos, e ainda ouço do mesmo jeito. Mas a maioria das músicas dos Beatles, que comecei a ouvir aos nove anos (e era beatlemaníaca aos quatorze), talvez sejam para sempre reminiscência.

 

03 novembro 2014

Reeleição e lições de Downton Abbey

Fiquei em silêncio durante a maior parte da fase de propaganda eleitoral. Não acompanhei debates, nem dos candidatos, nem dos formadores de opinião. Considerei que já havia falado tudo o que se havia para falar, em todos esses anos de blog. Munidos dos princípios expostos ali, meus leitores saberiam o que fazer; eu não precisaria ser explícita. E assim procedi. Cuidando das necessidades mais concretas de minha casa, permaneci calada, aguardando qual seria a vontade de Deus para o país.

E, nos momentos de descanso, comecei a assistir à série britânica Downton Abbey. Justo no dia das eleições, terminei a primeira temporada e vi o primeiro episódio da segunda, em que se inicia a Primeira Guerra Mundial. Emblemático. [Atenção: segue SPOILER do final da primeira temporada] Na casa de Lady Grantham, um dos personagens que se mostram mais vis, o volante Thomas, alegra-se porque vê no caos uma oportunidade de mudança. Sua visão pragmática e egoísta combina com seu comportamento até ali: valia tudo para conseguir alguma ascensão social. Tentara chantagear o amante aristocrata e derrubar com mentiras o colega que o vira roubando vinho. Sem sucesso, sente-se atraído pelo trabalho no corpo médico do exército. Não dá mostras de patriotismo nem solidariedade: sua esperança é deixar de ser criado. O sofrimento que advém do conflito não parece comovê-lo - assim como não o comovem minimamente as mortes da criança que nasceria na casa, nem da mãe de outro dos criados.

Mais matizadas são as personagens Mary e Edith, filhas do casal Grantham. São moças com seus caprichos, mas capazes de atos desinteressados. Porém, a rivalidade que nutrem entre si é tão grande (Mary é a preferida e provoca a desdenhada Edith) que as leva a decisões odiosas. Antes de deflagrada a guerra, Edith havia conseguido estragar a reputação de Mary espalhando um segredo; em retaliação, Mary conta uma mentira ao pretendente da irmã que o faz desistir da proposta. Quando vem a grande guerra, ambas estão sozinhas e sem perspectivas - a guerra menor entre elas havia promovido destruição. 

Nesses tempos de coletivismo e acirramento de conflitos, eu queria que não esquecêssemos que, para Deus, todas as guerras têm a mesma importância. Ou melhor: que todas as guerras derivam daquela fundamental, inaugurada na Queda e travada no coração contra o próprio Deus. Sim, precisamos nos engajar, de modo honesto e sem pecado, na "guerra" da oposição a este mundo, e isto inclui lutar contra as cosmovisões que mentem sobre Deus e os homens - a mais poderosa delas, hoje, insiste que o Estado deve ter o poder sobre tudo, inclusive a consciência, ideia encarnada, infelizmente, pelo partido que venceu esta eleição. Por outro lado, nada nos fará mais infelizes e nos deixará mais longe da vontade de Deus que enxergar somente as guerras exteriores, fantasiando-nos de soldados enquanto permanecemos alheios à inimizade que faz cama dentro de nós, solapando crescimento espiritual, relacionamentos e atos de bondade.

Um dos primeiros atos da presidente reeleita foi retirar símbolos cristãos de seu gabinete - um sinal inequívoco de que a cordialidade forçada com católicos e protestantes logo cederia a declarações de guerra. Visto que boa parte dos evangélicos se opôs ao partido governista, podemos esperar vislumbres da face irada de Leviatã. Na série, Matthew diz a Thomas: "A guerra tem um jeito de separar as coisas que importam daquelas que não importam." Grande pensamento para nós, cristãos, diante da perspectiva de mais quatro anos de PT no governo.

Acima de tudo, lembrar-se disso a partir deste fatídico outubro de 2014 - "aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor" (1Jo) - será um antídoto poderoso contra o esfacelamento social e moral promovido pelas convicções socialistas do governo reeleito. Nada de ecoar as inimizades entre ricos e pobres, brancos e negros, heterossexuais e homossexuais, paulistas e nordestinos, mas sim repudiar com todo conhecimento de causa o "politicamente correto", produtor de bodes expiatórios e violência. Se não queremos sucumbir em uma atmosfera de perpetuação de conflitos e fortalecimento estatal, devemos orar e buscar que toda ação, toda palavra, todo desejo e todo pensamento brotem de um interior renovado por Deus. Só assim nossa oposição terá chances de êxito.


* * *

Em um blog petista, as coisas são ditas às claras: o Estado se apresenta como o deus mais poderoso, que deve controlar as instituições religiões de um país. Isso você não vai ouvir tão cedo da presidente, nem do líder do partido, mas quem estuda de fato o socialismo sabe que é assim. Veja:
Precisamos salvar o Brasil do atraso, e fazer a defesa enfática de um Estado laico, que só será possível com a eleição de Dilma Rousseff. A Igreja é que deve se submeter ao Estado, e não o contrário. Este caminho já foi traçado pelo companheiro Hugo Chávez na Venezuela: depois de sofrer uma campanha sórdida como a que estamos sofrendo agora, decretou a laicidade do Estado, e agora é o governo venezuelano que controla sua própria Igreja.
Tempos difíceis se delineiam à frente. É hora de apegar-se à Rocha com todas as nossas forças.

02 outubro 2014

"Olhos coloridos", Sandra de Sá





Lutar contra o racismo pregando o orgulho racial é um tiro no pé: só aprofunda a dicotomia. Essa música é de uma época em que os manifestos antirracistas não passavam obrigatoriamente pelo ódio desagregador do politicamente correto. Afirma a nossa humanidade em comum. E é linda!



A verdade é que você
Tem sangue crioulo
Tem cabelo duro
Sarará crioulo

15 setembro 2014

Facebook fast food

Quando você lê - Coisa boa, coisa ruim, coisa engraçada: há uma absurdamente veloz alternância de assuntos na Timeline. Você fica no máximo 10 segundos lendo cada publicação e suas emoções seguem o fluxo. Resultado: você nunca pensa nem reage profundamente. Perceba qual o seu estado mental descendo o mouse: em menos de um minuto você lê "Ufa, cheguei cedo hoje!", "Olha que lindo esse vídeo do gatinho!" e "Comunico a todos que nossa irmã faleceu de madrugada". Por estarem sempre na montanha russa, as emoções suscitadas pelo FB acabam buscando um modo mais estável, e esse modo é a insensibilidade.

Quando você escreve - No Facebook, tudo o que passa pela sua cabeça durante o dia é passível de publicação: desde torcer para o seu time até reflexões filosóficas sobre um tema preferido. Escrever pensando em publicar no Face significa que você vai ajustar o que pensa para o modo "fast food" - não só pelo pouco espaço disponível, mas porque tem todo tipo de gente na sua Timeline e você quer que todos leiam e reajam imediatamente, se não, escreveria em outro lugar. Percebe o automatismo? Preparar "comida" para todo mundo, a todo momento, gera banalização. E, quanto mais você passa seu tempo no Facebook, mais você desenvolve a mania de exteriorizar para esse faceless public tudo o que você pensa. Logo você começa a pensar exclusivamente no "modo Facebook", e todos os seus pensamentos viram fast food. Sua vida interior, em vez de Estação Gourmet, vira barraquinha de hambúrguer. 

E o lado positivo? - Por sua própria estrutura, o Facebook acaba treinando você para a insensibilidade e a banalização das relações. Isso é o contrário do que ele se propõe a fazer. Mas, é claro, há aspectos positivos na rede social: encontrar gente que não se vê há muito tempo, manter contato com leitores (no meu caso), centralizar conversas em torno de temas de interesse etc. O problema é que é muito fácil cair na armadilha da compulsão, quando todos os aspectos negativos superam os positivos.

Então eu tenho que sair do Face? - Não acho que necessariamente você deva sair do Face. Mas, se você já consegue identificar insensibilidade e superficialidade nas suas interações facebookianas, é urgente o movimento inverso: o Facebook precisa sair de dentro de você.

Mas o que eu faço? - Dedique menos tempo ao Facebook. Não esqueça da vida rolando o mouse para baixo, nem pense em publicar toda hora. Perca a compulsão pelas reações imediatas dos leitores: os melhores pratos precisam de tempo para ser preparados e degustados. Se você gosta de escrever, mantenha um caderno só para você e busque registrar reflexões mais longas e pausadas. Preserve sua vida interior e dedique-se mais a quem você pode encontrar pessoalmente. Se está em casa com a família ou amigos, evite o Facebook e dê-lhes a máxima atenção. Ao sair com alguém, não fique consultando o celular a cada minuto; de preferência, coloque no silencioso e esqueça-o. Sempre que sobrar um tempinho de lazer, não corra para o Facebook, mas leia um livro. E, se der vontade de compartilhar tudo o que você está lendo no Facebook, anote no próprio livro seus pensamentos e depois, se achar pertinente, publique - mas depois de já ter lido um bom pedaço. Assim como ir ao McDonald's, o Facebook deve ser exceção na sua vida, não regra.

Para ler mais (em inglês): até o Steve Jobs controlava o uso da internet em casa. Ele conhecia de perto os danos do vício em computadores. Artigo inspirador!

05 setembro 2014

Contra-revolução

Nancy Pearcey postou hoje em seu Facebook um texto impressionante. Trata-se do testemunho de Mallory Millet, irmã da ativista Kate Millett, que escreveu Sexual Politics e lançou as bases do movimento feminista. Vejam o que ela conta:
"Estávamos em 1969. Kate me chamou para a casa de Lila Karp, sua amiga, para uma reunião que elas chamavam de 'consciousness-raising-group' (conscientização em grupo), um típico exercício comunista, algo praticado na China maoísta. A gente se sentava a uma mesa enorme e a líder começava uma recitação, como uma litania, tipo de oração feita na Igreja Católica. Mas aquilo era marxismo, a igreja da esquerda, imitando práticas religiosas: 
'Por que estamos aqui hoje?', ela perguntava.
'Para fazer a revolução',  o grupo respondia.
'Que revolução?'
'A revolução cultural!'
'E como nós fazemos a revolução cultural?'
'Destruindo a família americana!'
'E como destruímos a família americana?'
'Destruindo o patriarcado americano!'
'E como destruímos o patriarcado americano?'
'Tirando o poder dele!'
'E fazemos isso como?'
'Destruindo a monogamia!'
'E como destruímos a monogamia?'
A resposta do grupo me deixou pasma, sem fôlego, com dificuldade de acreditar no que eu estava ouvindo. Que planeta era aquele? Elas bradaram: 
'Promovendo a promiscuidade, o erotismo, a prostituição e a homossexualidade!'
Então, iniciaram uma longa discussão sobre como implantar esses objetivos com o estabelecimento de uma Organização Nacional da Mulher. Ficou claro que elas desejavam nada menos que a completa desconstrução da sociedade ocidental. Concluíram que a única maneira de realizar essa ambição era 'invadir e permear cada uma das instituições americanas com a revolução: mídia, educação em todos os níveis, conselhos escolares; e em seguida, o judiciário, os legisladores, os poderes executivos e até mesmo as bibliotecas."
Texto completo (em inglês) aqui.

A descrição assusta: mais de 40 anos depois, parece que a "revolução" foi bem-sucedida. Estamos de fato em uma época que exalta a promiscuidade, o erotismo, a prostituição e a homossexualidade. Mas, nessa cultura cada vez mais mórbida de desvalorização do casamento, supervalorização da carreira profissional, divórcios, adultérios, filhos abortados ou abandonados, só há UM MODO de fazer a diferença: ser discípulo de Jesus Cristo e ser cada vez mais conforme à Sua imagem. Note que eu escrevi ser: de nada adiantará focar todas as suas energias em crítica cultural e ativismo político, se você mal luta contra as tendências pecaminosas que herdamos de Adão e Eva e que nos fazem, no íntimo, desejar corresponder aos padrões deste mundo. Coloque seu conservadorismo sob a santidade que Deus requer de Seus filhos e efetua em nós segundo a Sua graça. É essa santidade que vai resplandecer neste panorama sombrio e possibilitar a eficácia de todas as suas ações externas abençoadoras, inclusive a crítica cultural. Se você sente que está vivendo uma vida cristã muito exteriorizada, ou seja, que está mais preocupado com os pecados dos outros do que com os seus, confesse isso ao Pai e peça para tornar-se mais sensível à voz do Espírito Santo. Essa é a verdadeira revolução; as demais vão passar, mas essa tem peso de eternidade.

Às minhas leitoras: desconformar-se com o mundo e adotar os padrões de Deus (Rm 12.1-2) significa conhecer muito bem a Palavra para saber o que Deus pensa sobre o que é ser mulher e o que é o casamento, aplicando-a ao seu coração. Desconfie da obsessão moderna com o currículo, os cursos acadêmicos, o salário de todo mês - essas coisas são importantes e têm seu lugar, mas não devem ocupar o coração mais do que o cuidado (exterior e interior, paciente e amoroso) com as pessoas mais importantes da sua vida.

01 setembro 2014

Caricatura

Quer a sua? Fale com Armando Marcos! (Obs. Essa postagem não é patrocinada, mas sim uma expressão de agradecimento pelo desenho tão bonito e expressivo!)