16 novembro 2009

Segurança

Alguns anos atrás, sempre que eu lia Mateus 6.25-34, não podia esconder de mim mesma uma certa indignação. Sem ousar confessá-la diretamente, sentia que, contrariada, questionava a Deus: Como deixar de me preocupar com os bens mais básicos, comida e roupa? Como simplesmente dar de ombros em relação à sobrevivência no dia-a-dia?

Quando me mudei do Rio para Niterói (sim, faz tempo que queria sair de lá, e fui saindo aos poucos), lembro-me de ter pedido a Deus por um emprego. Há anos como autônoma, queria sentir o gostinho do salário fixo. Deus me atendeu, certamente com o fim de transmutar meu pedido em um período de grandes lições para mim. Pois, fiada na certeza da soma mensal, os cinco anos que passei no último emprego foram a época em que mais estraguei minha vida financeira, consumindo além do que devia e depois roendo os dedos de terror a cada virada de mês. Finalmente tive de reconhecer que O desobedecia, desrespeitando os limites do que ganhava e revoltando-me com uma situação que eu mesma havia criado ao tomar decisões ruins: morar longe da família, dos amigos e do trabalho, gastar demais no cotidiano e submeter-me, por tudo isso, a constantes preocupações com dinheiro.

Ainda fico espantada ao constatar como Deus me trouxe devagarinho para a segurança Nele.

Hoje, por minha escolha, sou só autônoma. Faço meu tempo, atenta ao fluxo de meus trabalhos. Ainda não consigo guardar uma parte significativa do que ganho, mas – graças a Deus – sobra um pouquinho a cada mês. E, mais importante de tudo, sempre que me ocorrem considerações sobre se poderei ou não ficar tranquila antes na virada do prazo para as contas, é como se Deus logo me mostrasse em letras vermelhas o significado dos versículos que antes me incomodavam tanto, assinalando com força o quanto Ele não quer que eu me preocupe com isso. Obedeço então, abandonando esse sentimento, e Ele tem sido sempre fiel.

Não estou dizendo que todo cristão deveria se abster de um emprego fixo. Longe de mim! Apenas isto: saiba que a real segurança está no Senhor. Saiba de verdade, e não abra mão dessa certeza. Assim, se em nome da segurança que o mundo oferece você está infeliz no trabalho, passa pouco tempo com a família e sente que não está utilizando todo o potencial e os dons recebidos de Deus, coloque todo medo de mudanças nas mãos Daquele que quer um cotidiano bom para seus filhos, feito de liberdade. Às vezes serão necessários alguns sacrifícios – uma vida mais simples, sem grandes luxos, ou uma fase mais “apertada”. Porém, nenhum desse sacrifícios será tão custoso para a alma quanto os que fazemos, muitas vezes sem pensar, no altar de Mamom.

13 comentários:

Roberto Vargas Jr. disse...

Olá, Norma.
Isso bem tem algo a me dizer!
Há anos venho lutando com um ardente desejo de ler, aprender e ensinar refreado tanto por um certo comodismo pelo emprego atual quanto por um horror à academia.
Há uma sensação de mal uso de mim mesmo e, ao mesmo tempo, um terrível medo de não saber ser usado. Um enorme desejo de seguir os estudos e um paralisador temor de incapacidade...
Há outros fatores "externos" (o sustento da família, o padrão que nos acostumamos, etc.), sem dúvida. Mas estes sentimentos contraditórios é que me fazem postergar os planos que, espero, ainda hei de colocar em prática.
Oro para que seja esta a vontade de Deus. E oro para que Ele me permita dar o passo que ainda temo dar!
Obrigado por mais esta oportunidade de confissão.
Que nossas vidas sejam sempre para Sua glória!
No amor do Senhor,
Roberto

Norma disse...

Amém, Roberto!

De fato, é uma luta constante contra vários elementos: os valores do mundo que teimam em nos cooptar, nossa própria necessidade de nos sentirmos seguros com coisas que podemos ver, nosso medo do desconhecido... Que Deus nos ajude a vencer todas elas!

O horror à academia é algo que também me paralisa. Acho que precisávamos de mais "unidades de inteligência autônomas" que fossem cristãs protestantes, independentes do MEC et alii. Não seminários (formação de pastores é o que há), mas "think tanks" brasileiros (preocupados com a formação de leigos e sua atuação combativa na sociedade). Sinto falta disso! Mas o Brasil ainda não aprendeu a agir no microcosmo, tal como os EUA se constituíram...

Abração!

bee disse...

normitcha! a "acadimia" (dos apenas 11 professores que temos na ufpr, uma alta porcentagem é carioca) tá me consumindo... mas como disse você: "Deus me atendeu certamente com o fim de transmutar meu pedido em um período de grandes lições para mim".
amém! agora so me resta ir até o fim.

Norma disse...

Querida! Vá até o fim sim, está tudo debaixo do propósito Dele.

Ah, o carioca não fala "acadimia" não! Pelo menos, eu não falo! ;-) Mas ok, falo "tá chuvendo" e outras coisinhas em que o povo aqui não cansa de reparar. :-)

Beijão!

Roberto Vargas Jr. disse...

rsrsrs
Essa é boa!
Morei um tempo no ES e puxava o "r" como os cariocas. Minha esposa até hoje tira uma comigo porque pergunto: "purrr que?"! Se bem que "u" continue, acho (rs), o "rrr" já foi para o espaço faz tempo. Hoje é "mano", "desencana" e outros paulistanismos! rsrsrs
E olha que sou paranaense! rssrsr
No Senhor,
Roberto

PalmaE disse...

Este livro é bom, e radical: Sur Le Devoir D'imprévoyance, Petit Traité D'économie Pratique - Isabelle Riviere. Eu o li em tradução, é claro.

Gresder Sil disse...

Ou o coração depende da provisão que está e vem dos “céus”, ou se assegura no tesouro que brota da terra. A fé é a certeza do coração de que Aquele que doou a vida, também a mantém com incansável fidelidade. Agora! Estar com o coração na Terra, é confiar que a fortuna ajuntada ha de manter o homem enquanto viver. Deus nem sempre dá para ajuntar, mas geralmente no concede o maná “racionado” para viver. Dele vem o pão diário. mas trabalho só, não é o suficiente, mas a sua graça de boa vontade concedida aos homens é a motriz da saúde, energia e oportunidades que põe comida na mesa e alegria de viver.

André Tavares disse...

Curioso: Deus nos pede fidelidade e confiança no exercícios dos dons que nos deu, confiando-nos a cidadania do Reino (e sua presentificação). Na Cidade dos Homens, todos querem segurança e o mínimo de esforço: emprego público, ou seja, uma vaga na empreiteira encarregado da construção de Babel - sem espaço para a criatividade e iniciativa, sem responsabilidades, e com a satisfação das necessidades como quem estoca e constrói celeiros.

Belo texto e reflexão, Norma. Abraço.

Norma disse...

Hahahaha, Roberto, esse R será meu até morrerrrrrrrr... :-D

PalmaE, preciso disto! Obrigada!

Gresder, adorei o comentário.

E sim, André, essa mania dos concursos públicos como finalidade última na vida mostra também o quanto o brasileiro está disposto a entregar a vida ao Papai Estado...

Cristiano Silva disse...

Confesso que fiquei um pouco incomodado com esta frase: "emprego público, ou seja, uma vaga na empreiteira encarregado da construção de Babel - sem espaço para a criatividade e iniciativa, sem responsabilidades, e com a satisfação das necessidades como quem estoca e constrói celeiros..."

Não serei ingênuo em dizer que isso não é verdade; acontece sim, mas também já vi acontecer na iniciativa privada, onde sempre trabalhei; pode ser mais difícil, mas também acontece.

Como filho de funcionária pública cristã, que teve que se virar para pular os obstáculos de sua vida pobre e que sempre lutou honestamente para trazer o sustento para sua casa, posso dizer que isso não vale para todos. Dizer que vale é uma generalização apressada.

Sei que todos que frequentam este blog são pessoas inteligentes o suficiente para não incorrerem neste erro, apesar do meu incômodo. Só queria deixar o meu testemunho de que não sou umas das pessoas que considera o funcionalismo público automaticamente como algo negativo, de gente que só quer "vida boa e ser sustentado pelo Estado". Existe muitas formas que o ser humano encontra para detratar os outros sem conhecimento de causa, e infelizmente, esta também é uma delas.

Norma disse...

Oi, Cristiano,

Tenho certeza de que o André Tavares não estava falando do emprego público em si, mas sim da mentalidade do brasileiro que vê no emprego público a finalidade última da vida, dirigindo toda uma vida de estudos e aspirações apenas para a realização desse sonho de estabilidade e bom salário. Não acredito que isso seja a vontade de Deus para o cristão, mas sim que estamos nesta terra para muito mais que segurança financeira. Mas eis que estou já chovendo no molhado de novo...

Também sou cria de uma geração de funcionários públicos: meu avô, por exemplo, trabalhando na Caixa Econômica, era empreendedor de várias outras maneiras. Tocava violão e órgão, escreveu livros, praticamente fundou o movimento espírita em Brasília (pois é, minha família é toda espírita, sou "ovelha negra", hehe). Ele certamente não poderia ser visto como uma pessoa acomodada.

Não se sinta destratado, tenho certeza de que a observação acima já nasceu de uma concepção nuançada.

Abraços!

Cristiano Silva disse...

Olá Norma,

Na verdade, não foi isso o que entendi com o "todos querem... emprego público... sem espaço para a criatividade e iniciativa, sem responsabilidades..." e etc. Até porque, como desenvolvedor/programador, vejo alguns colegas que pensam em uma carreira na área pública, não buscando falta de trabalho, mas por motivos bem diferentes.

Mas tudo bem, não vou mais continuar com isso, e você deu o seu parecer, que julgo correto. Talvez eu trate mais do assunto no meu blog mesmo, caso sinta que devo fazer isso no meu coração.

Boa reflexão de como devemos colocar a nossa confiança última apenas em Deus... e não nos instrumentos que Ele usa para nos abençoar (um bom governo, um bom emprego, etc).

Abraços.

Joel e Lu disse...

Norma

Também trabalhei vários anos como autônoma, e depois também como autonoma mas vinculada a empresas onde tinha rendimentos digamos "mais fixos" e aprendi algumas coisas - não importa qual seja a forma do nosso sustento, ela sempre vem de Deus.

Se temos um salário fixo, corremos o risco de confiarmos em nós mesmos, e esquecermos que é Ele quem nos sustenta. O coração ensoberbece, começamos a "nos achar" e a ruína vem rapidinho...

Se não temos o fixo, corremos o risco de nos desesperarmos, ou ficarmos excessivamente avarentos, andando ansiosos e nervosos, perdendo sono, paz...

O importante mesmo é manter a humildade, sabendo que se somos abençoados todos os dias com nosso sustento, seja fixo, seja de servidor público, seja pingadinho dia a dia, não é porque somos melhores que os outros e merecemos e sim porque Deus está sendo bom para conosco.

Abraços