23 novembro 2005

O Manifesto do Partido Comunista

A estrutura argumentativa de O Manifesto do Partido Comunista é relativamente simples, consistindo de forma geral do seguinte arrazoado:

(a) A sociedade é dividida em classes que estão em luta entre si: classe dominante (burguesia) e classe oprimida (proletariado);
(b) Para acabar com a opressão dos proletários, a solução é acabar com a classe dominante, portanto, com a burguesia;
(c) Em um primeiro momento, o proletariado se une ao Estado para compor uma "classe dominante" só para expropriar e acabar com a burguesia;
(d) Em um segundo momento, não há mais classe dominante - ou, melhor dizendo, o Estado passa a ser a única classe dominante, controladora dos bens e dos modos de produção;
(e) Isto se fará de forma autoritária e/ou violenta.

É simples percebê-lo. Leiam esse trecho:


O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante e para aumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas. Isto naturalmente só poderá realizar-se, em princípio, por uma violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesas (...)

Ou seja: a tal "justiça social", do ponto de vista do comunismo, nada mais é que uma violenta reversão da relação de poder. No trecho acima, em um primeiro momento a conjunção proletariado + Estado passa a ser a nova classe dominante, mas apenas para fins estratégicos: para tirar da burguesia e dar ao Estado. Qual a nobreza disso, se (a) o processo prima pela violência, no melhor estilo "os fins justificam os meios" e (b) o Estado é o beneficiário do processo? Promove-se uma convulsão social (com perdas terríveis para a sociedade) apenas para fortalecer o Estado.


Mais adiante, veja como fica claro que, num segundo momento, o proletariado perde seu status de classe dominante, e o Estado passa a ser o senhor absoluto sobre tudo:

Uma vez desaparecidos os antagonismos de classes no curso do desenvolvimento e sendo concentrada toda a produção propriamente falando nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe; se converte-se, por uma revolução, em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói juntamente com essas relações de produção, as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.

O resultado: ex-burgueses empobrecidos e uma fé absurda em que "o aumento das forças produtivas" nas mãos do Estado produza por magia um enriquecimento igualitário da população sob um governo comunista. Em que países comunistas houve esse enriquecimento? Nenhum. Ao empobrecimento geral do povo só se seguiu o enriquecimento do Estado - além do aumento de seu despotismo. Confira abaixo as medidas comunistas para acabar com a classe burguesa e seja sincero: são justas? A grande maioria delas, não. E fique atento: a número 1 e a número 2 já estão em andamento no Brasil, com, respectivamente, o MST (que é exatamente isso: o proletariado expropriando as terras, que passarão ao Estado) e os mais de 30% de impostos sobre o salário em vigor.

1. Expropriação da propriedade latifundiária e emprego da renda da terra em proveito do Estado;
2. Imposto fortemente progressivo;
3. Abolição do direito de herança;
4. Confiscação da propriedade de todos os emigrados e sediciosos;
5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio exclusivo;
6. Centralização, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte;
7. Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento das terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral;
8. Trabalho obrigatório para todos, organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura;
9. Combinação do trabalho agrícola e industrial, medidas tendentes a fazer desaparecer gradualmente a distinção entre a cidade e o campo;
10. Educação pública e gratuita de todas as crianças, abolição do trabalho das crianças nas fábricas, tal como é praticado hoje. Combinação da educação com a produção material etc.

Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos.


Eu diria: em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge um Estado superpoderoso que sufoca os indivíduos e se perpetua no poder através da ideologia (pois teme sempre que o povo possa se revoltar a ponto de derrubá-lo, assim como foi derrubada a burguesia), mantendo a todos em uma magnífica pobreza igualitária, financeira e mental. Enquanto os cubanos não têm o direito mais básico de ir e vir nem condições para comprar um simples rolo de papel higiênico - eles se limpam com jornal, todos eles - , Fidel Castro, o representante do Estado cubano, é apontado na revista Forbes como um dos mais ricos do planeta.

Isto é o comunismo, da própria boca dos comunistas: tirar dos mais ricos para dar ao Estado, reduzir a população inteira à pobreza, concentrar todo o poder e a riqueza no Estado. Tudo para o Estado, nada para o povo. Idolatria, em suma: o Estado é o deus do comunismo.

Não fui eu que inventei: está no Manifesto do Partido Comunista. Ainda é aplicado em muitos países no mundo todo. E é ideologia preferencial dos partidos políticos brasileiros, incluindo o que está no poder.

9 comentários:

César Miranda disse...

Perfeita análise. O pior é que não é só a ideologia dos que estão no poder. É também a ideologia do que entrarão em breve. Que Deus nos ajude. Great post.;-)

Norma disse...

Vamos orando, querido amigo, vamos orando...

williansmoreira47@gmail.com disse...

Sem dúvida que é uma boa análise, esta feita por Norma Braga.

Gostaria de saber qual seria a sua proposta de organização de sociedade, já que a organização socialista não é recomendável.

nardim almenara disse...

Norma,
Mais uma vez, uma bela análise, sem forçações e/ou parcialidade ideológica como base de sutentação. Careço, como outros tantos, de alternativas para organização da sociedade. "Elevo os meus olhos para os montes..." E descanso. Abraços.
Nardim Almenara

Joel e Lu disse...

Norma

Infelizmente, a luta de classes, conforme você descreveu aqui, já está dentro de nossas igrejas. Basta observar que os movimentos que pregam "coisas novas", o fazem justamente revoltando-se contra os mais tradicionais, demonstrando total falta de amor, e um fidelidade ridicula às teorias marxistas, ajudando este regime nefasto a infiltrar-se ainda mais.
Gosto muito de seu blog, da visão equilibrada e ao mesmo tempo perspicaz dos nossos tempos. Parabéns!

anjonocoliseu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
anjonocoliseu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Norma disse...

Anjo no Coliseu,

Você precisa ler menos a propaganda enganosa e se ater aos fatos. Se acha que o comunismo é antiestatal, verifique-o nos fatos, não com dados da língua-de-pau comunista. E se sua implicância é com o termo "Estado", troque-o por "Partido", e é isso que se torna evidente no sistema comunista: tudo o que ameaça a unidade do Partido é aniquilado.

Mas você não precisa acreditar em mim. Tenha por favor a pachorra de ler o artigo do historiador Carlos Azambuja para ver se compreender os FATOS além de qualquer bobagem propagandística que pode ter saído da boca de Lênin para a implantação do regime:

A liquidação da Oposição Operária na Rússia
por Carlos I. S. Azambuja

Você não se interessa pelas ideologias, mas as ideologias se interessam por você.

A política que a partir de 1918 foi implantada na Rússia pela Revolução Bolchevique praticamente colocou na ilegalidade todas as organizações de massa dos trabalhadores que não fossem os sindicatos oficiais – chapa branca -, aboliu o direito de greve, admitiu a implantação de normas que permitiram cassar as entidades sindicais, restringiu e depois retirou dos sindicatos o direito de eleger livremente os seus dirigentes e, finalmente, permitiu a demissão por decreto das diretorias sindicais, inaugurando a prática de nomeação de seus dirigentes. A política que serviu de suporte para tais desdobramentos não surgiu do nada.

Ela foi apenas a evolução de uma mesma matriz original que concebia o partido como hierarquia não só das organizações de revolucionários mas também da massa das organizações operárias, conforme escreveu Lênin em 1904.

Em setembro de 1920, na IX Conferência do Partido Bolchevique, o recém-formado grupo de Oposição Operária fez sua primeira aparição pública na Rússia. Meses mais tarde, esse grupo viria a constituir-se na mais numerosa corrente que, dentro do partido, se opunha aos encaminhamentos políticos da direção bolchevique: 124 delegados contra os 154 favoráveis ao Comitê Central.

Além de combater o sistema de nomeações e cooptações feitas pela cúpula do partido, propondo a volta das eleições internas, a Oposição Operária discordava do intervencionismo do Comitê Central nos sindicatos e nos sovietes (organizações de massa).

Esse debate, que antecedeu o X Congresso do partido, teve seu ponto alto em janeiro de 1921. Então, o grande combate não era mais entre Lênin e Trotsky. Embora defendendo plataformas diferentes, ambos estavam, então, tacitamente unidos contra o inimigo principal, a Oposição Operária, que era o grupo bolchevique de oposição com base proletária mais numerosa e mais influente junto à classe operária, em especial junto aos metalúrgicos e, de certa forma, exprimia a reação da maioria do proletariado russo à política de militarizar os sindicatos e convertê-los, de fato, em organismos a serviço do Estado, com dirigentes não-eleitos, mas cooptados, nomeados pelo Estado a partir de indicações do partido.

Lênin pressentiu o perigo e articulou medidas visando cortar o mal pela raiz, esmagando, enquanto era tempo, o agrupamento dissidente, proibindo sua existência e tentando dissociar-se da antipática posição de Trotsky favorável à estatização dos sindicatos.

Adotando a posição meramente teórica da não-vinculação formal dos sindicatos nem ao partido e nem ao Estado, Lênin conquistou em Trotsky um aliado tático para a tarefa de extermínio da Oposição Operária. Essa aliança tática resultou em que, no X Congresso, realizado em março de 1921, dentre os quase 700 delegados com direito a voto, a Oposição Operária só tenha conseguido 18 delegados! Foram vários os procedimentos utilizados, desde a pressão sobre os Comitês do partido, ao boicote e até à fraude pura e simples.

A direção do partido, utilizando a máquina partidária para preparar o Congresso, pôs em ação os departamentos políticos criados no Congresso anterior com a finalidade de controlar os diversos comitês e organismos do partido. Onde encontrava algum obstáculo ou resistência, o CC substituía os militantes por appratchiks fiéis à sua orientação. Foi o caso, por exemplo, da Comissão de Controle do CC, da qual, um mês antes do Congresso, Yevgeni Alekseyevich Preobrazhensky e Felix Dzerzhinsky foram demitidos sob a alegação de serem demasiado complacentes com a Oposição Operária, sendo substituídos por burocratas.

Em janeiro de 1921, Lênin, em um artigo publicado pelo Pravda, assinalou: “Temos que combater a confusão ideológica dos elementos nocivos da oposição, que chegam ao ponto de repudiar toda a militarização da economia, de repudiar não só os métodos de nomeação, que têm sido os métodos predominantes até agora, mas inclusive todas as nomeações. Isso significa repudiar o papel dirigente do partido em relação às massas sem-partido. Temos que combater o desvio anarco-sindicalista que matará o partido se este não o eliminar completamente”.

A queimação das teses da Oposição Operária, tachadas de anarco-sindicalistas, a caracterização dos grupos divergentes como tendências anti-partido e a implantação de encaminhamentos anti-democráticos na preparação do X Congresso, eram justificados pela necessidade de salvar a revolução, de consolidar a unidade ante os grandes perigos internos que, após a guerra civil, o novo Estado ainda tinha que enfrentar.

Tais concessões ao autoritarismo, no entanto, como a História demonstrou, salvaram, na realidade, o país da democracia proletária, se é que isso existe.

Finalmente, chegamos ao histórico X Congresso do Partido Bolchevique, em março de 1921. Lênin abriu o Congresso com um discurso dirigido aos delegados da Oposição Operária que, como já vimos, estava em minoria: “Neste Congresso devemos dizer claramente que não permitiremos debates sobre desvios. Temos que acabar com isso (...) O ambiente de discussões está se tornando extremamente perigoso e se convertendo em uma ameaça direta à ditadura do proletariado”.

Fiel a essa orientação, o Congresso foi mais longe, não apenas rejeitando as teses da Oposição Operária, como também proibindo sua existência, iniciando um processo de perseguição aos seus membros até o total aniquilamento, um ano mais tarde.

As tais teses da Oposição Operária, rejeitadas pelo Congresso, propunham, basicamente, a adoção de quatro medidas: a volta à democracia interna, com a abolição dos métodos militaristas que exigiam a subordinação cega às ordens superiores; a transformação do partido em um partido mais operário, eliminando de seu seio os elementos não-proletários e estabelecendo novas condições de ingresso para todos os que quisessem voltar às suas fileiras; garantia de que os operários estreitamente ligados às massas trabalhadoras detivessem a maioria nos postos administrativos; volta ao princípio da elegibilidade dos responsáveis e à ampla discussão nas bases de todas as questões importantes sobre a atividade do partido e a política soviética, antes que a direção se pronunciasse.

Para a Oposição Operária – isso em 1921 – as nomeações não poderiam ser toleradas e constituíam uma das características da burocracia. Somente as conferências e congressos deveriam eleger candidatos capazes de ocupar postos administrativos de responsabilidade. Eliminar a burocracia já então enquistada no partido e no Estado, era para a Oposição Operária uma necessidade para a construção da nova sociedade.

A Oposição Operária argumentava que as medidas que propunha não faziam mais do que reafirmar o caminho que Marx e Engels esboçaram no Manifesto Comunista. Ou seja, que “a libertação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”.

Nesse mesmo X Congresso, Trotsky usou da palavra para denunciar que os membros da Oposição Operária haviam proposto palavras-de-ordem perigosas, transformaram os princípios democráticos em fetiche e colocaram acima do partido o direito dos trabalhadores de elegerem os seus representantes, como se o partido não tivesse o direito de exercer a sua ditadura, mesmo se essa ditadura entrasse em conflito com o humor variável da democracia operária.

Entretanto, foi Lênin quem desfechou o golpe de misericórdia, propondo ao Congresso a aprovação de duas resoluções políticas: uma, condenando a plataforma da Oposição Operaria como desvio anarco-sindicalista (expressão até hoje empregada pelos comunistas de todo o mundo para caracterizar aqueles que lhes são contrários no movimento sindical), e outra proibindo definitivamente a sua existência legal e o seu funcionamento. Tudo isso em nome da... unidade do partido.

Na Resolução aprovada pelos delegados, o Congresso concedeu ao Comitê Central plenos poderes para aplicar as sanções ao alcance do partido no sentido de que fosse aniquilado todo o fracionismo.

Estabelecida a condenação, teve início a perseguição que prossegue até hoje a todos os tipos de oposição operária. Tudo em nome da... unidade do partido.

Dois meses depois, em maio de 1921, surgiria a primeira oportunidade de o Comitê Central colocar em prática os “plenos poderes” que lhes foram delegados pelo Congresso: no Congresso Nacional do Sindicato dos Metalúrgicos, o CC apresentou uma lista de candidatos para preencher os cargos de direção desse sindicato, onde a Oposição Operária mantinha a sua principal base de apoio, a fim de eleger uma diretoria fiel à linha oficial. Essa chapa, no entanto, foi derrubada pelos delegados, por 120 a 40 votos, fazendo com que a direção do partido da classe operária, ignorando solenemente a decisão do Congresso, simplesmente nomeasse os seus próprios candidatos.

Finalmente, no XI Congresso do partido, em março de 1922, a Oposição Operária já havia sido aniquilada, como queriam Lênin e Trotsky.

Somente para não esquecer: nesse XI Congresso, Stalin foi nomeado Secretário-Geral do partido e, nesse mês e ano, foi fundado o Partido Comunista do Brasil.

O caso do Partido Bolchevique, que constituiu uma experiência localizada e condicionada por fatores peculiares da situação na Rússia do inicio do século passado, acabou por tornar-se modelo universal de organização revolucionária, reproduzindo, assim, tanto as limitações impostas pelas condições concretas do meio social onde se desenvolveu, quanto a concepção que orientou a sua construção e atuação nesse meio, impondo um padrão único e passando a ser um carimbo para reproduzir, em série, os partidos comunistas de todo o mundo, autenticados pelo cartório do Komintern.

www.midiasemmascara.org

Norma disse...

Anjo,

Há esse também, do mesmo autor, que fala precisamente dessa contradição marxista: ao mesmo tempo em que Marx diz que o socialismo é uma condição inevitável após o auge do capitalismo, concita os cidadãos a fazerem a revolução por eles mesmos.

As contradições do marxismo
Carlos I. S. Azambuja

As ações dos partidos comunistas que se apoderaram do poder são coerentes com as teorias de Marx? Essa é uma pergunta que exige reflexão, embora a teoria marxista seja contraditória: diz que na sociedade capitalista quando as forças produtivas tiverem alcançado o pleno desenvolvimento, produzir-se-á um choque violento de classes que conduzirá à revolução socialista. É necessário que o capitalismo se desenvolva plenamente, pois o socialismo exige a industrialização plena e uma forte classe proletária, capaz de desempenhar o papel de redentora das massas.

Por outro lado, porém, já em 1848, antes portanto do capitalismo se desenvolver, Marx e Engels convocaram, no Manifesto do Partido Comunista, a união dos proletários de todos os países para fazerem a revolução – “proletários de todos os países, uni-vos”.

Enquanto a teoria previa o advento do socialismo somente após o natural desenvolvimento das forças produtivas na sociedade capitalista, a prática concitava à unidade dos proletários de todo o mundo para a revolução socialista, abstraindo o estado em que se encontravam as forças produtivas na Europa de então.

Para apoderar-se do poder político, diz a teoria, é necessário que um grupo de revolucionários profissionais organize um partido – que necessariamente receberá a denominação de comunista – e que, sob o centralismo democrático, assumirá o papel de vanguarda do proletariado.

Segundo Marx, “a transformação das relações sociais” não surge de “mudanças tecnológicas”, mas da “luta de classes”. “Na base dessas relações modificadas desenvolve-se um modo de produção especificamente diferente, que cria novas forças produtivas materiais”.

Portanto, o que muda primeiro, como resultado da luta de classes, não são as forças produtivas ou os instrumentos de produção, e sim a mentalidade das pessoas, as relações sociais.

Lênin em seu relatório apresentado ao X Congresso do partido (8 a 16 de março de 1921) sublinhou, por sua vez, que “o que é decisivo é a transformação da mentalidade e dos hábitos”.

Cerca de 8 anos depois, Stalin em um discurso abordando as questões da política operária na URSS, em 17 de dezembro de 1929, no momento em que era iniciada a política de coletivização em massa no campo, declarou que “será necessário trabalhar muito para refazer o camponês-kolkoziano, para corrigir sua mentalidade individualista e fazer dele um verdadeiro trabalhador da sociedade socialista. E chegaremos mais rápido a isso na medida em que os kolkozes sejam providos de máquinas e tratores...”

É evidente a contradição de Stalin com os escritos de Marx e Lênin, ao considerar que a passagem à coletivização não será resultante da “luta de classes” ou da “transformação das relações sociais”, e sim do “emprego de máquinas e tratores” como forma de corrigir a “mentalidade individualista” dos camponeses.

Assim, de acordo com a concepção stalinista, não são os camponeses que se transformam graças à luta de classes, mas são transformados pelas máquinas e tratores.

Antes de assumir o poder, o partido é um ferrenho defensor das reivindicações das amplas massas. Depois de assumir o poder impõe, em nome do proletariado, a ditadura sobre o proletariado.

Se o país possui uma frágil economia, diz-se que é oprimido pelo imperialismo. Assim, os comunistas forjam a aliança da revolução proletária com movimentos de libertação nacional. Isto é, promovem o comunismo à custa do nacionalismo.

Nenhuma pessoa sensata é capaz de opor-se à independência nacional de seu país. Os comunistas, porém, ao se engajarem nessa causa nobre, nada mais fazem do que cumprir a primeira etapa da sua revolução. Tão logo assumem o poder político, hipotecam a independência nacional à União Soviética e ao Movimento Comunista Internacional. Quanto aos nacionalistas sinceros dos movimentos de libertação, basta conhecer um pouco de História para verificar quais têm sido seus destinos, tão logo vitoriosas as revoluções bolcheviques.

O PC utiliza o proletariado como força principal da sua revolução e busca atingir seus fins revolucionários fomentando, em favor do partido, a luta de classes entre o proletariado e a burguesia. Depois essa luta é ampliada, incluindo não apenas o proletariado, mas todos os trabalhadores, e logo a seguir, todo o povo, formando uma ampla frente.

Essa luta entre comunistas e não-comunistas é por eles denominada de luta de classes, conceito que é estendido indefinidamente.

Portanto, não importa se no país-alvo existem ou não uma classe trabalhadora e uma classe capitalista e em que nível se encontram as forças produtivas. Conquanto exista a vanguarda do proletariado - o partido – os comunistas continuarão enterrando os capitalistas em países onde não há capitalismo e a fazer a revolução proletária onde não exista uma classe operária, como na Rússia de 1917.

O Estado, segundo Marx, na ditadura do proletariado se iria enfraquecendo, até desaparecer no comunismo. No entanto, a Resolução Política aprovada na XVI Conferência do PCUS, posteriormente ratificada pelo XVI Congresso (1930), apela para a construção do socialismo, a concentração das forças do partido, da classe operária e, também, à concentração das forças do Estado. Assim, toma força a tese da “revolução pelo alto”, expressão que Marx utilizou para descrever a política de Napoleão Bonaparte, executor da revolução de 1789, na França.

A propósito da “revolução pelo alto”, consta na História do PCUS, aprovada pelo Comitê Central, que a coletivização forçada, iniciada em 1929, “tinha de original o fato de ter sido realizada pelo alto, sob a iniciativa do poder do Estado” .

Segundo Marx, após a revolução a burguesia seria expropriada e não haveria distinção entre trabalhadores intelectuais e operários.

No entanto, logo em 1920, Lênin estabeleceu a “não-limitação de salários dos técnicos e especialistas”, a existência de um diretor único nomeado pelos aparelhos centrais, que seria o único responsável pela direção da empresa, bem como a “autonomia financeira”, que permitiria à empresa dispor de uma parte de seus lucros.

Desenvolveu-se assim, menos de três anos da revolução bolchevique, uma nova burguesia, a Nomenklatura, nas empresas do Estado e do partido. Essa burguesia é de um novo tipo, pois embora não disponha da propriedade jurídica privada, nada a impede de dispor, de fato, dos meios de produção.

Para apoderar-se do poder político, os comunistas, historicamente, participam primeiro de um governo de coalizão e, como integrantes desse governo o paralisam e forjam contradições insanáveis, até assumirem o poder total. O novo regime passará a culpar, então, o imperialismo pela sua incompetência, e a retribuir, com apoio material e político, o auxílio recebido de organizações revolucionárias e mesmo de governos de países vizinhos, como ocorreu, por exemplo, na década de 80 com o regime sandinista, na Nicarágua.

Sob o manto do internacionalismo proletário a União Soviética sufocou as revoltas populares na Hungria, Polônia, RDA e Checoslováquia. Depois, fez o mesmo no Afeganistão. A China invadiu o Vietnam, e o Vietnam, por sua vez, anexou o Laos...

O social-imperialismo, o expansionismo armado, a subversão, a agressão e a anexação sempre foram palavras de ordem estratégicas do bloco comunista, que apesar de repudiado pela sua população, nas ruas, não desistiu de pintar de vermelho o mapa-mundi.

O marxismo sempre afirmou que a maior contradição de nossa época é a que existe entre o socialismo e o imperialismo e não se cansa de proclamar a força do campo socialista, da classe trabalhadora e do nacionalismo, afirmando que essas são as três grandes forças revolucionárias: o movimento comunista internacional, o movimento operário nos países capitalistas desenvolvidos e os movimentos populares de libertação nos países coloniais.

A estratégia comunista de promoção da revolução mundial é conhecida, mas recordá-la não faz mal a ninguém: consiste em criar um ambiente internacional favorável aos comunistas e aumentar o seu poderio econômico e militar para apoiar e sustentar mais eficientemente os movimentos revolucionários em todo o mundo.

Finalmente, o que hoje se observa é que o marxismo que, segundo seu criador, constituiria a sociedade sem classes, serviu apenas para criar uma forma moderna de totalitarismo com base em uma doutrina contraditória, incoerente e ilusionista, mas que, apesar disso, faz da omissão e da ausência de conhecimentos históricos e doutrinários dos não-comunistas o seu principal fator de força.

Norberto Bobbio, marxista italiano escreveu em seu livro Qual Socialismo?, editora Paz e Terra, 1983, que “o problema da conquista do poder pelo movimento operário seja a condição preliminar para a destruição da sociedade capitalista e para a instauração de uma sociedade diferente, fundada sobre a coletivização dos meios de produção, pode ser considerado ponto pacífico.

O que não é, de forma alguma, pacífico, depois do que ocorreu na União Soviética e nos países onde o socialismo foi importado do exterior, é que o problema da conquista do poder passe a ser isolado completamente do problema do seu exercício ou, em outras palavras, pelo modo pelo qual o poder é conquistado nada tenha a ver com o modo como será, em seguida, exercido.

Transferir para depois da conquista do poder o problema do Estado, da organização estatal, produziu o seguinte efeito: o partido, para o qual se voltaram todas as atenções como órgão de tomada do poder, terminou por tornar-se, ele mesmo, o Estado”.

www.midiasemmascara.org