24 fevereiro 2006

Reacionária sim... mas como Nelson Rodrigues!

Alegro-me em dizer: sou reacionária como Nelson Rodrigues! Afinal, não é à-toa que este blog é dedicado a ele. Um amigo me mandou um trecho impagável de uma entrevista de Nelson, feita em agosto de 1977 para a revista Manchete. Assino embaixo. Leiam!

MancheteVocê está lançando o seu livro O Reacionário [hoje editado pela Companhia das Letras]. Por que o livro e por que esse título?

Nelson RodriguesEste livro é uma das coisas mais sérias que já fiz na minha vida. Antes de falar de mim, mal ou bem, o sujeito deve ler o meu livro para saber o que eu acho, para saber do meu anticomunismo, saber do meu horror a Marx... Marx não toma conhecimento da morte. E nós exigimos de Marx a devolução de nossa alma imortal. Tudo isso está no livro. Agora, eu tenho uma virtude única, que é a seguinte: não tenho medo de passar por reacionário. Querem me chamar de reacionário, chamem; querem me pichar como reacionário, pichem; querem me pendurar num galho de árvore como ladrão de cavalo, pendurem. Mas eu sou homem que não aceita essa impostura gigantesca dos chamados países socialistas. Por mais que eu tenha horror da política, há muita política no meu livro. Eu acho que a política corrompe qualquer um, mas ela é um fato. Alias, vocês querem saber de uma coisa? Eu comecei a ficar anticomunista aos 11 anos de idade. Eu era um rato de jornal e nessa ocasião comecei a freqüentar o jornal A Nação, do Leônidas de Rezende, um comunista tremendo. Então, um dia assim sem mais nem menos, um rapaz me disse que, se o partido mandasse, ele estrangularia a sua própria mãe. Era só o partido mandar. A ONU, por exemplo, não considera o Brejnev um canalha. Para ela, o fato d e existirem intelectuais internados em hospícios não representa um ato atentatório aos direitos humanos. Agora, vou te dizer uma coisa: eu pensei muito quando dei ao meu livro o título de O Reacionário. Porque no duro, no duro, eu não sou reacionário. A mais cruel forma de reacionarismo está nos países socialistas, na Rússia, em Cuba, na China, etc. Realmente, eu sou um libertário. Veja você: dois pobres-diabos cidadãos soviéticos seqüestraram um avião para deixar o paraíso e foram parar na Finlândia. Entregaram-se ao governo finlandês, que os devolveu ao Brejnev. Vão ser naturalmente fuzilados. Pois bem: quem protestou contra isso? Onde está o manifesto dos intelectuais com 3.999 assinaturas? No duro, eu sou um libertário. Eles, marxistas, é que são reacionários. Repito mais uma vez: os marxistas é que são reacionários.


Leia mais aqui.

9 comentários:

Wilson Bento disse...

Me achei tb!!!

Norma disse...

Hehehe, Nelson é dez!

João Emiliano disse...

Prezada Norma,

Muito bom post. Nelson Rodrigues tem toda a razão. Reacionarismo é com a esquerda seja ela a extremista ou a "light". Se há algum tipo de autoritarismo por parte dos conservadores é apenas para preservar a ordem apanágio que os auto-proclamados progressistas não possuem Elio Gaspari já dizia "com a direita nós temos ordem com a esquerda bagunça".


Abraços do,

JOÃO EMILIANO MARTINS NETO

Solano Portela disse...

Cara Norma:
Lucidez política e argumentos irrespondíveis, a não ser pela cegueira burra que acomete a esquerda brasileira, para utilizar o chavão deles - totalmente "reaças" e "retrôs", vendida a uma ideologia que fracassou no mundo inteiro e que, onde ainda subsiste, perpetua os cidadãos na escravidão intelectual e econômica.

Só sinto que o meu endôsso ao Nelson é dado com um gosto amargo na boca, pela obra literária amoral e imoral que produziu. Por mais que retratasse o cotidiano brasileiro, não ressaltava nenhum aspecto do qual devêssemos nos orgulhar e apresentava um "libertarismo" sexual totalmente contrário às diretrizes divinas.

Abs

Solano

Norma disse...

É verdade, Solano! Creio que ele fazia isso (era o que alegava) para provocar uma catarse nos espectadores, purgá-los das impurezas, conforme Aristóteles ensinava.

Mas vou lhe confessar uma coisa: tenho e li alguma coisa da obra ficcional dele ("A vida como ela é", "Engraçadinha") e vi algumas de suas peças. E posso dizer sem hesitar: não gosto muito não! Posso muito bem passar sem elas. Elas são inferiores inclusive do ponto de vista estilístico, a meu ver. O Nelson das crônicas e ensaios é muitíssimo melhor. É esse o Nelson que eu admiro, influenciado pelo católico Corção - o Nelson de "O óbvio ululante", "A cabra vadia", "O reacionário", que retratava e questionava com humor Alceu Amoroso Lima, d. Hélder Câmara, os "padres de passeata", as grã-finas de decote, todo o esquerdismo chique da época... e que dizia coisas sublimes sobre o amor, em contraposição a esse ódio apregoado pela esquerda. Sabe, esse Nelson me influenciou muito positivamente logo antes de eu me converter. Sei que os textos dele tiveram um papel importante quando Deus começou o processo em mim. Por isso devo tanto a esse Nelson, que é também um Nelson tardio. Já o da ficção não me interessa muito... Creio que todos os cristãos que gostam do Nelson se sentem assim.

Grande abraço!

Marcelo Hagah disse...

Norma,

Seu facínio pelo Nélson Rodrigues me faz lembrar o meu por Renato Russo. Como o seu caso, não julgo mais o Renato Russo por sua obra, senão por termos dela que (por incrível que pareça) me ajudaram psicologicamente a buscar a Jesus. Sim, senão vejamos: "Deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chances" (Fábrica), que concorda com Jairinho em "Há de ter um lugar onde o tempo há de parar..." Há também "Quando o sol bater na janela do teu quarto, lembra e vê que o caminho é um só". E até o terrível "Deus, Deus, somos todos ateus" me fez pensar, aos 16 anos: Por que eu sou ateu? Por que sinto a falta de alguém em quem não acredito? Por quê? Orei muito por ele quando me converti, mas penso que ele se foi sem fazer as pazes com Jesus Cristo, seu Senhor e seu Deus, quer ele cresse ou não.

Norma disse...

Nossa, Marcelo! Eu me lembro, logo antes de me converter, como Deus usou poderosamente duas músicas para encaminhar meu espírito para Ele. Uma foi a 40 days, uma peça jazzística de Dave Brubeck lindíssima sobre os dias de tentação de Jesus; eu sempre pensava Nele quando a ouvia e me emocionava. A outra, você vai rir: foi do David Bowie! Eu era esotérica até o âmago e acreditava no pensamento positivo, nessas coisas. Mas Deus me tocou com uma música que dizia assim: "Don't believe in yourself..." ("Não acredite em você mesmo..."). Aquilo foi me trabalhando no seguinte sentido: somos frágeis, somos inconstantes, acreditar em si mesmo é puro orgulho... Logo em seguida (coisa de menos de um mês) apareceu alguém para me evangelizar, também de uma forma meio milagrosa. Um dia eu conto tudo!
Abração!

O Palpiteiro disse...

E viva os reaças!
Beijão,
Davi

Geórgia Damatis disse...

Peraí, ele atribuir a qualidade de ser reacionário aos comunistas, não quer dizer que ele dizia o contrário da direita. Ele atribuiu esse título à esquerda da época porque essa atribuia esse título a ele. Então foi como uma resposta. Ele detestava qualquer tipo de violência no poder, da direita ou da esquerda, como ele mesmo disse:

"Se eu apoiasse QUALQUER ato de violência, da direita ou da esquerda, seria um canalha".

"Tão parecidos, Stalin e Hitler, tão gêmeos, tão construídos de ódio. Ninguém mais Stalin do que Hitler, ninguém mais Hitler do que Stalin."

Precisa dizer mais alguma coisa?

Norma, visite meu blog: http://georgiadamatis.blogspot.com/

Abs!
Geórgia Damatis.