23 outubro 2013

Idolatria e cooperação


Pense no cisco e na trave dos olhos (Mateus 7.1-5) de modo mais específico, como os afetos não-regenerados do coração ou seja, aqueles que nos afastam de Deus e nos aproximam de ídolos. Jesus é claro quando diz que só poderemos ajudar os irmãos em suas idolatrias quando estivermos cônscios das nossas. Isso significa várias coisas. Primeiro, precisamos partir de uma compreensão pessoal, profunda e detalhada de pecado original. Paulo se declarou “o principal dos pecadores” (1 Timóteo 1.15) – sim, ele enxergava a trave... Se estivermos coram Deo – diante do Deus que é a luz do mundo (João 8.12) – , certamente veremos o que se passa conosco no íntimo, progressivamente, e sempre bem mais do que vemos nos outros (no olho deles, é cisco; no nosso, é trave). Logo, ao vislumbrar a miríade de ídolos e resquícios de ídolos no nosso coração, não seremos impiedosos quando percebermos um idolozinho no coração do irmão, pois nossa trave estará sempre diante de nós. A aplicação pessoalizada do conceito de pecado original é o que nos proporciona compaixão – sentir a dor do outro por identificar-se com ela.

Por outro lado, Deus fez as coisas de um modo muito interessante (1 Coríntios 12.14-18): às vezes nós nos tornamos como que especialistas em certas idolatrias, seja porque Deus nos ajudou a vencê-las no passado, seja porque nossa tendência é nos alinhar com o ídolo oposto – então, fica mais fácil enxergar aquele(s) que não cultuamos. Essa habilidade de percepção segundo cada ídolo é o que proporciona à igreja a ajuda mútua: quando conheço alguns dos ídolos que me fascinam e alguns dos que não me fascinam, consigo ajudar os irmãos que não estejam percebendo os ídolos que os fascinam, e vice-versa – ou seja, meu conhecimento, sendo sempre parcial, precisará do complemento do outro para que eu tenha um vislumbre mais amplo do terrível panteão das idolatrias humanas.

Por isso, não faz sentido entrincheirar-se por trás de um discurso condenatório porque determinado setor da igreja (permanecendo fiel às doutrinas mais básicas da fé cristã) cultiva certa idolatria. Mas e as idolatrias presentes no seu setor? Já lidou com elas? Pois é: neste mundo, nenhum cristão fiel está isento de ídolos. Crer nisso é o mesmo que crer-se livre de pecados – que em si mesmo é pecado (1 João 1.8). Portanto, não devemos agir como se não tivéssemos laços com ídolo algum, como se pairássemos acima do mundo dos homens. É um grande desejo meu que a igreja assuma um tom mais misericordioso ao lidar com a idolatria dos irmãos. Que Deus me ajude, em primeiro lugar, nesse caminho de humildade e discernimento.

2 comentários:

Marcio Pereira Gonçalves disse...

Louvo a Deus, por suas palavras minha irmã. Eu só aprendi a olhar a vida de maneira compassiva depois que entende a realidade do pecado em minha vida, e a extensão do perdão de Deus. E mais uma vez através das suas palavras escritas pela interpretação das Escrituras, Deus falou novamente ao meu coração de uma forma exortativa. Depois que li e entendi a parábola do credor incompassivo, é que aprendi sobre a trave nos meus olhos e esse agir é um desafio para mim, e para a IGREJA de hoje. Abraços e que Deus te abençoe muito a você e o seu esposo.

Norma disse...

Louvo a Deus por isso, Marcio! Que Deus o abençoe muito também, a você e à sua família!