Estamos no mundo mas
não somos do mundo.
Somos o sal da
terra, a luz do mundo. São palavras de Jesus sobre nós. Os cristãos são
chamados por Ele para ser contracultura. “Eles não são do mundo, como eu também
não sou” (Jo 17.14). Isto significa que lutamos pela pureza: dentro de nós, no
caminho tão pessoal e bonito da santificação, pela graça de Deus; e também fora
de nós, denunciando a crueldade do pecado e convidando a outros para que sigam
o mesmo caminho, escorados de igual modo na graça de Deus. Quando o fazemos
fora de nós, confrontamos não só os incrédulos, para que se convertam, mas
também os próprios crentes, para que deixem determinados pecados e se
santifiquem, desatando os laços com outros (falsos) doadores de identidade –
bens materiais, aparência, ideologias, saberes, profissões, condição social etc.
Nossa identidade realmente última deve ser Cristo em todas as esferas da vida.
Quando o cristão adere inadvertidamente ao culto a um ídolo
mundano, incorporando ao cristianismo elementos espúrios, esse chamado de
Cristo tende a se tornar inócuo. Afinal, se nossa identidade é partilhada entre
Cristo e ídolos, não nos diferenciamos do mundo o suficiente para salgá-lo. E o
sal que não salga “só presta para ser pisado pelos homens” (Mt 5.13). Esse
culto ambíguo e informe recebe um nome na filosofia reformada: “síntese”. E há
muito mais sínteses do que conseguimos identificar, certamente: como dizia
Calvino, o coração é uma incansável fábrica de ídolos.
No blog, e também no livro, uma das sínteses mais presentes
em minha denúncia do pecado é a que mistura cristianismo com esquerdismo.
Dediquei longo tempo ao estudo do esquerdismo em suas variadas formas –
soviético, chinês, cubano, politicamente correto – e ainda pretendo fazê-lo
muito mais. Porém, sabendo que o pecado nos empurra para extremos que apenas
parecem opostos, mas são análogos, tenho ocupado minha mente hoje com a síntese
que indiferencia cristianismo e conservadorismo – ou, de modo mais específico,
cristianismo e luta contra o esquerdismo (ou luta cultural). Encerro a ambas as
sínteses – com esquerdismo e com conservadorismo – sob a expressão “politização
da fé”.
O que ocorre quando o cristianismo se dilui na politização
da fé? A luta contra o pecado se torna predominantemente exterior, quando na
verdade é primordialmente interior – ou seja, sempre se inicia com a
identificação dos pecados íntimos, seguindo-se com arrependimento, perdão e
cura diante de Deus. De fato, esse autoexame é uma condição sine qua non para o exame adequado dos
pecados exteriores, conforme enfatizou Jesus em Lucas 6.41-42. Se não
conhecemos nem nossos próprios pecados, como enxergaremos o pecado alheio?
Em Letters of Francis
A. Schaeffer [Cartas de Francis A. Schaeffer], o grande apologista apresenta
um referencial para que a importância da interioridade na vida cristã seja
preservada, representado por um esquema onde aparecem três círculos
concêntricos:
O círculo da apologética se correlaciona com “a aplicação da
teologia à incredulidade” (John Frame), ou seja, com a luta da verdade contra a
mentira que reside no coração humano (a começar pelo coração do próprio
apologista: não esquecer Lucas 6.41-42). O das doutrinas diz respeito à
afirmação positiva da fé cristã. E o interior é de onde fluem “os rios de água
viva”, onde ocorre a conversão, onde se dá o relacionamento pessoal da alma
individual com Deus . Sem o interior, nenhum dos outros dois pode constituir um
cristianismo legitimamente bíblico. Sem o interior, de fato, não pode haver um
salgar efetivo, pois somente nos diferenciamos do mundo à medida que nos
deixamos transformar por Cristo.
Para Schaeffer, e também para mim, não há alternativa a não
ser pedir a graça de Deus para que cada um desses círculos esteja em seu devido
lugar na nossa vida. Porque somos pecadores, nossa tendência sempre será nos
afastar de Deus para manter nossos pecados intactos (Jo 3.19). Então, para
disfarçar esse afastamento, tenderemos a substituir a vida interior com Deus
pela luta exterior com as pessoas, as ideologias, os pais, os professores, o
“sistema”, achando que servimos a Deus com isso, sem perceber o quanto estamos
secos por dentro. É quando o empunhar das armas toma o lugar da novidade de vida em Cristo. Se você
acredita ter caído nessa armadilha, talvez ajude lembrar que estamos
soldados neste mundo, mas nossa verdadeira natureza é de adoradores: amar a
Deus e aos irmãos é o que faremos por toda a eternidade.
É precisamente nessa inversão – que suprime a primazia da
vida interior e a substitui pela luta cultural – que eu identifico o cruzamento
entre esquerdismo e conservadorismo como sínteses com o cristianismo. A única
diferença é que não creio ser possível, para o cristão, aderir ao esquerdismo
sem realizar sínteses, enquanto o conservadorismo, por ser a posição mais
natural biblicamente, pode ser adotado sem corromper o cerne da fé. Porém, isto
não significa que o cristão conservador deva se sentir imune ao mecanismo da
inversão – e de fato, nesses tempos em que (finalmente!) as posições
conservadoras “saem do armário” e se mostram à luz do dia, vários exemplos
desse mecanismo já podem ser percebidos. Ainda tratarei mais disso aqui.