02 setembro 2013

Em guerra contra o temor de homens



René Girard me ensinou que nossa época, talvez mais que as anteriores, mascara o tempo todo a interdependência (ponto positivo) e a idolatria (ponto negativo) que caracterizam as relações humanas. Hoje, só por respirarmos nas grandes cidades ocidentais do século XXI, temos uma visão excessivamente autônoma de quem somos e de como nos comportamos. “Eu decido ser o que quero ser” é o mantra da vez. As pessoas escolhem ídolos como um ato de suprema rebeldia, desatentas ao fato de que prestam culto.

Já tratei várias vezes dessa “ilusão romântica” aqui – em linguagem bíblica, mascaramento do “temor de homens” – , mas apenas há alguns meses tenho me dado conta de que Deus está promovendo em meu coração algumas mudanças sutis quanto a isso, sinalizadas aqui e ali. Às vezes, Ele não deixa que esqueçamos uma reação emocional antiga nossa a fatos específicos do passado, e algum tempo depois nos faz comparar essa reação com alguma mais recente, aos mesmos fatos, mostrando o quanto Ele já nos transformou – milagre! Conto duas delas aqui.

Na primeira, em 2004, em um evento promovido pela Sepal em São Paulo, lembro que James Houston repreendeu a plateia porque aplaudimos uma frase sua. Naquela hora, pensei: “Mas que bobagem. Estamos aplaudindo só para manifestar nossa aprovação.” Ele explicou que os aplausos o prejudicavam por instigar nele o orgulho. Hoje, penso diferente, e lhe agradeço por nos ter lembrado os perigos da idolatria ocultada.

A segunda foi quando li há alguns anos que Calvino pediu para ser enterrado em local incerto para evitar peregrinações a seu túmulo. Achei mesmo uma aberração: se todo mundo tem pedra no túmulo, por que Calvino não podia ter? Agora eu o compreendo, e mais, admiro-o muitíssimo por isso.

Houve ainda um terceiro fato muito importante este ano, enquanto eu estava em São Paulo, cursando a matéria do prof. João Alves sobre Calvino no CPAJ (Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper). Confesso que, fiada na minha grande humildade (pois é!), eu nunca tinha me dado conta seriamente do quanto aprecio ser reconhecida por leitores. Tive de conversar sobre isso com meu marido, cheia de vergonha, depois que cheguei a Natal e percebi que todo aquele frisson à minha volta me fazia falta. Pois bem, durante o curso, o prof. Tarcízio (que naquela ocasião substituía o prof. João Alves) promoveu um debate em sala sobre supralapsarianismo e infralapsarianismo, ao qual eu havia chegado atrasada. Lá na frente, pôs dois “advogados” dentre os alunos, cada um se esforçando argumentativamente para fazer valer seu ponto. Quando o rapaz encarregado de defender o infralapsarianismo declarou que a adesão a um desses pontos não tinha grandes incidências práticas na vida de ninguém, eu me inflamei e, praticamente equalizando infralapsarianismo com arminianismo, discursei durante alguns minutos sobre as profundas diferenças na cosmovisão – logo, na vida! – de quem acredita na preparação divina da salvação depois da queda. Ao final daquela preleção, com muito tato, o prof. Tarcízio comentou que a visão que eu tinha do assunto era a popular, não a teológica.

Cuén cuén cuén cuén...

Lembro que depois, na sala, eu me levantei para sentar em outro lugar e ainda tive que ouvir “Vai, infra!”, o que me fez sorrir de vergonha e alegria ao mesmo tempo. Alegria? Sim, pois aquele foi o melhor modo – o mais bem-humorado! – que Deus encontrou para me mostrar que estava em guerra contra meu temor de homens. Obrigada, Pai!

9 comentários:

Leonardo Bruno Galdino disse...

Norma,

tenho acompanhado fielmente as suas postagens quase diárias. E tenho sido muito edificado com todas elas. Essa, por exemplo, falou muitíssimo ao meu coração. Muito obrigado!

Abraços!

Enézio E. de Almeida Filho disse...

Lutando contra isso em minha vida...

Fábio Paiva disse...

Texto excelente.Parabéns !

Norma disse...

Leo, fico super feliz! Não pretendo parar. Ore sempre por mim, por minha saúde principalmente. Abração!

Norma disse...

Ezézio, é assim mesmo, todo mundo luta contra isso... O importante é lutar com as armas certas, na Palavra e na força de Deus, não nossa.

Fabio, fico feliz!

José Aristídes Santos Filho disse...

Temor dos homens! Um assunto sempre recorrente em meu coração! Gostaria de ler algo sobre como suplantá-lo com a graça de Deus. Continue escrevendo. Que o Senhor a bendiga!

Norma disse...

Dê uma olhada, José Aristides:
http://www.editorabatistaregular.com.br/produtos.asp?codigo=62

Deus o abençoe!

Aprendiz disse...

O temor dos homens um dos meus dois maiores problemas. O outro é falta de tenacidade, desânimo.

Marco Carvalho disse...

Olá Norma! Texto muito importante e relevante para nosso tempo. Parabéns.

Quando puder dê uma olhada nos últimos textos que escrevi. www.cafeegraca.blogspot.com

Marco Carvalho