26 setembro 2013

Arte e nudez: uma mudança de perspectiva?

Em meu livro A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã, escrevi que acreditava na nudez artística, "invenção dos gregos, imagino". (Esqueça o cinismo contemporâneo de quem faz pornografia justificando-se com a expressão "nudez artística": estou falando mesmo dos gregos e dos renascentistas, não da libertinagem pós-moderna.) Propositalmente, deixei o assunto no ar, reconhecendo que não poderia ser dogmática naquele momento, mas com a promessa implícita de voltar a ele. Conversei com meu marido sobre isso certa vez, apenas para perceber que este era um dos raros temas em que o consenso entre nós não foi possível: ele é contra toda nudez na arte e eu me pronunciei a favor, dentro de certos limites, nos mesmos moldes de Hans Rookmaaker, que é criticado nesse artigo do Christian Pundit. Esta postagem tem então dois objetivos: recomendar o artigo como um bom ponto de partida para discussões futuras e revelar algo que me aconteceu ontem, e que não deixa de ser engraçado. Rearrumando a estante de livros, vi que, em uma das pontas, havia ficado visível - e logo em frente à porta do escritório - a capa de um exemplar de Alain Besançon, A imagem proibida, que exibe uma estátua grega de nu masculino. Instintivamente, troquei-o de lugar pelo livro que estava mais perto - um de Affonso Romano de Sant'Anna, Desconstruir Duchamp, que mostra a privada assinada do bufão-artista (menos mal). Desconforto diante da possibilidade de olhares alheios ou mudança de perspectiva à vista? Não sei, e por isso eu não poderia deixar de registrar o fato aqui, para revisitações futuras.

Não posso negar: biblicamente, é muito difícil defender a nudez artística. Segundo o artigo do Pundit, de modo muito semelhante a Victor Hugo sobre a feiura (no prefácio a Cromwell), Rookmaaker declarou (em Modern Art and the Death of a Culture): "O erótico e o sexual têm um lugar na arte, assim como na vida... Não podemos simplesmente afirmar que o nu na arte é impuro" (tradução minha). Certo, mas (argumenta WVD, autor ou autora do artigo) a arte pertence ao olhar público, e o lugar da celebração do erotismo e do sexual (e, consequentemente, da beleza de corpos nus) é o casamento, a portas fechadas. Por outro lado (e aqui sou eu dialogando comigo mesma), é impossível não se embevecer com certos quadros renascentistas que apresentam um nu tão diáfano, infinitamente distante da realidade sexual cotidiana, e nisso esses nus parecem ensinar um olhar muito diverso, admiração sem desejo, sobre o corpo humano (quase sobre-humano). Por isso tudo, não fechei cem por cento com a ideia exposta no artigo, embora a princípio não me agrade desaguar a questão em cada obra particular ("esse" nu pode, "esse" não pode). Adoraria conversar mais sobre o assunto com cristãos artistas, teóricos da arte ou simplesmente apaixonados pela arte, como eu - quem quiser, pode se candidatar nos comentários.

7 comentários:

Ricardo Henrique disse...

Olá, Norma!

Não sou exatamente a pessoa que você convidou a comentar sua postagem. Faço meu comentário não como alguém ligado à arte, nem como grande admirador, mas como um pastor que entende a fé cristã ligada à vida como um todo, inclusive às ideias de estética.

Minha aproximação da questão levantada não é nada teórica. É, na verdade, bem instintiva. Há exposições do nu na arte, como em Michelangelo ou Rodin, que eu aprecio e reverencio como algo que me faz apreciar ainda mais as perfeições do Criador. E há expressões da nudez, especialmente as contemporâneas, que me parecem denegrir a criação, e lançar um desafio ao Criador, fazendo dele um ser patético. Mas não tenho nenhuma doutrina ou teoria muito clara para fazer as distinções. Eu ainda sequer li Rookmaker.

Sem dúvida, uma matéria digna de mais atenção e estudo. Obrigado por chamar a atenção a ela.

Norma disse...

Exato, pr. Ricardo! É exatamente isso que sinto. Por isso não consigo endossar totalmente o artigo, embora não consiga também descrever quais as diferenças precisas entre os nus que apreciamos e reverenciamos, e os que deploramos. Como precisamos de mais cristãos que pensem a estética de um modo teorreferente!

Abraços!

Carl Pedro disse...

Muito interessante! Sou artista, ligada em essência a arte. Desenho, pinto, modelo... Ela está em minha genética. rsrs... Mas confesso pra você que nunca parei pra pensar nisso. Apesar de por vezes admirar. Você citou: "O erótico e o sexual têm um lugar na arte, assim como na vida... Não podemos simplesmente afirmar que o nu na arte é impuro". E eu diria que tem seu lugar na Bíblia, o livro de Cantares é um livro muito erótico e sensual. Embora alguns cristãos tentem negar o óbvio. Cnt 7:7-9 " Seu porte é como o da palmeira, e os seus seios como cachos de frutos. Eu disse: Subirei à palmeira; eu me apossarei dos seus frutos. Sejam os seus seios como os cachos da videira, o aroma da sua respiração como maçãs, e a sua boca como o melhor vinho... vinho que flui suavemente para o meu amado, escorrendo suavemente sobre os lábios de quem já vai adormecendo."
Mas se quando falo sobre álcool e música com alguns eu já assusto, imagine falar sobre nudez artística. Serei excomungada! rsrs...

Parabéns, excelente artigo.

Carla Pedro

Norma disse...

Pois é, Carla! Às vezes, a dimensão erótica (até mesmo da Bíblia!) é negada e excluída por simples confusão entre a cosmovisão cristã e um gnosticismo que trata o corpo como inferior, ou por puro medo mesmo de perder os limites em uma época que parece estar perdendo por completo qualquer limite. Por isso é tão difícil tentar entender o tema. É necessário contornar um desconforto enorme e antigo!

Mas vamos seguindo, do jeito que dá. :-)

Abraços!

Thiago Bragantin disse...

Sou grande admirador das artes e ainda vejo este tema como um tanto espinhoso. Enquanto no meio cristão é um tabu, fora dele a "nudez artística" é usada e abusada.
Acredito que 60% das peças de teatro que fui nos últimos meses, tinha alguma cena com nudez (na maiorias das vezes totalmente desnecessário).

Sempre tive um receio de gostar de algum filme (principalmente filmes franceses) e saber que ele tem alguma cena de sexo ou nudez, porem no livro "Cinema e Fé Cristã" de Brian Godawa, tem um artigo no apêndice sobre sexo, violência e linguagem obscena. Isto me ajudou bastante em criticar uma arte que usa destas características como recurso para sua expressão.

Thiago Bragantin disse...

Sou grande admirador das artes e ainda vejo este tema como um tanto espinhoso. Enquanto no meio cristão é um tabu, fora dele a "nudez artística" é usada e abusada.
Acredito que 60% das peças de teatro que fui nos últimos meses, tinha alguma cena com nudez (na maiorias das vezes totalmente desnecessário).

Sempre tive um receio de gostar de algum filme e saber que ele tem alguma cena de sexo ou nudez, porem no livro "Cinema e Fé Cristã" de Brian Godawa, tem um artigo no apêndice sobre sexo, violência e linguagem obscena. Isto me ajudou bastante em criticar uma arte que usa destas características como recurso para sua expressão.

Aprendiz disse...

Norma

Primeiramente devemos entender que o cristianismo não é uma proposta de sociedade, mas de vida para os seguidores de Cristo num mundo de inimigos de Cristo. Então um cristão não precisa ter uma resposta geral para tudo, pode simplesmente exercer sua discrição com propósito unicamente de buscar o melhor para o seu mundo interior. Pode apreciar a nudez numa pintura, sentindo que ela enriquece seu mundo interior, e pode execrar a nudez num outro contexto, sentindo que ela lhe parece pornografia vil. Ele não tem de ter uma teoria geral que abarque tudo, o Espírito e o bom senso o guiarão caso a caso.