Um esforço, com a graça de Deus, de recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais. Não por pedantismo ou orgulho, mas por uma necessidade quase física de dar nomes às minhas intuições e contornar o status quo das idéias hegemônicas deste mundo.
05 agosto 2013
Mais sobre arte moderna
Pois é, além de um quadro de Frida Kahlo (que nem era tão bom assim) e outro muito impressionante (uma atmosfera sombria e um Jesus crucificado em uma árvore - eu queria encontrar o nome da autora para postar aqui, mas na internet só achei referências à festa de abertura da exposição), todo o evento nos decepcionou, e mais, enfureceu esta que vos fala. Os quadros eram relativamente poucos em comparação aos vídeos, que exibiam o pior do espaço. Como uma mulher cristã se sentiria quando, acreditando proporcionar um momento cultural agradável a seu marido que não conhece bem o Rio, acaba o expondo não só a um monte de nulidades com nome de "arte", mas a incontáveis cenas de nudez feminina? Por aí você pode imaginar em que estado eu fui embora de lá.
Já no hall, um vídeo todo desfocado e com defeitos na imagem - irritante de se ver - mostrava uma mulher descabelada se jogando de lá para cá e cantando sem parar, na primeira pessoa, a linha inicial de Happiness is a Warm Gun, dos Beatles: "I'm not a girl who misses much." Tive que discordar: she missed a lot, principalmente equilíbrio corporal, bom gosto e bom senso. Mais interessante teria sido assistir ao vivo a um bêbado chato cantando; pelo menos a imagem estaria boa.
Outros vídeos também torturavam pela via do enfado: imagens ao ar livre onde nada ou quase nada acontecia, acompanhadas de textos que muito dificilmente poderiam ser classificados como literatura. Em outra sala, André me chamou para ver cenas de um gato - "Olha, querida, esse não tem mulher pelada" - , mas, quando olhei, para a consternação dele, uma mulher pelada estava abraçando o gato.
Já contei aqui uma vez que uma professora minha da Letras havia comentado com uma colega: "O estudo da literatura e o cristianismo são incompatíveis." (Para fazer justiça com a faculdade, meu orientador discordaria dessa apreciação.) Eu me pergunto se a própria arte dos séculos XX e XXI também não estaria se tornando incompatível, não com o cristianismo, mas com a noção de arte que produziu tantas maravilhas nos séculos anteriores e nos fez pensar e sonhar, em vez de responder com tédio, irritação ou vergonha. Desprovida de forma e conteúdo feitos para dizer, boa parte da arte e da cultura modernas (pinturas, filmes, peças de teatro) se viciaram na apresentação de uma nudez muito diferente da grega e da renascentista, uma nudez que, em vez de graciosa e arquetípica como suas predecessoras, é puro atentado ao pudor. O problema, o leitor já adivinhou qual é: atentados ao pudor dificilmente podem ser considerados arte. A arte até pode chocar, mas precisa ser bela antes de tudo. Faltam não só beleza, criatividade e sentido, mas sobretudo amor pelos espectadores, e aqui entram as costumeiras considerações deste blog sobre a cultura pautada pelo politicamente correto: nessa exposição, acredito que o ódio feminista enganou a maioria daquelas mulheres a tal ponto que foram convencidas de que qualquer coisa de suas mãos, só por serem mãos de mulheres, mereceria destaque como obra de arte. Em resultado, parece que só às feministas - e aos masoquistas - foi permitido sentir-se bem ali (e quem não reclamou certamente não o fez por pura culpa, a reação obrigatória exigida pelo feminismo).
E quando o masoquista é a própria arte? O vídeo que trago abaixo não foi retirado da exposição - claro! - , mas é uma sátira muito inteligente da arte moderna. Imagino que o roteiro foi inspirado em uma história terrível sobre a qual escrevi aqui. Também falo de arte moderna aqui. Modifiquei e ampliei esses dois textos para integrar meu livro A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã.
02 agosto 2013
Você está pronto?
* * *
Em Romanos 13.3-4 (uso aqui a versão NVI), a função retributiva da justiça é sancionada pela Bíblia. Para isso, Deus proíbe a vingança pessoal e incumbe as autoridades constituídas:
"os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal."
Igualmente, 1 Pedro 2.13-14:
"Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes, como por ele enviados para punir os que praticam o mal e honrar os que praticam o bem."
O problema é que, hoje, os governantes têm deixado de punir o mal e recompensar o bem. Pelo contrário: deixam de condenar os maus (impunidade! banditismo! violência!), praticam e aprovam publicamente o mal (corrupção financeira e moral! aborto no SUS! bolsa-família eterna e indiscriminadamente!) e ainda buscam punir o bem (impostos abusivos! controle da educação! lei da palmada! proibição do homeschooling! lei da homofobia! tentativa de controle da internet!). Caem assim na condenação de Isaías 5.20:
"Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo. Ai [...] dos que por suborno absolvem o culpado, mas negam justiça ao inocente. Por isso, assim como a palha é consumida pelo fogo e o restolho é devorado pelas chamas, assim também as suas raízes apodrecerão e as suas flores, como pó, serão levadas pelo vento; pois rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, desprezaram a palavra do Santo de Israel."
Diante disso, a regra é clara: não podemos ser levados pelas autoridades a deixar de fazer o bem ou a fazer o mal. Como está em Atos 5.59:
"É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!"
Você está pronto para a perseguição?
01 agosto 2013
31 julho 2013
Empobrecendo o Ocidente
Herbert Schlossberg, em Idols for Destruction (sobretudo nas páginas 282-3), retraça em linhas gerais o processo de empobrecimento e crise dos países do Ocidente cuja economia se vale da ideia da "soma zero": ganha-se apenas com a perda de outros. Com base na progressão que ele oferece, esbocei o seguinte esquema:
1- Imbuído da ideologia marxista, que prega uma ideia equivocada de “igualdade”, o Estado se incumbe do que chama “redistribuição de renda”, com impostos abusivos e políticas humanitárias que transformam pobres, imigrantes e desempregados em eternos dependentes.
2- A redistribuição afeta negativamente a produção: há menos trabalho, menos investimentos, menos poupança e cada vez mais consumo, pois quem não trabalha não produz (e vive do dinheiro alheio) e quem trabalha se sente desestimulado a produzir, investir e poupar para ter que entregar grande parte dos frutos de seu esforço nas mãos do Estado.
3- Cria-se assim um ambiente psicológico de “carpe diem”, com toda uma população sendo estimulada à irresponsabilidade e ao imediatismo. (E ainda culpa-se o "capetalismo" pelo consumo desenfreado!)
4- Os ideólogos, sempre a serviço do Estado, contemplam esse estado de coisas e culpam automaticamente outros fatores: o planeta tem gente demais, não há recursos para todos, produzir gera poluição, desmatamento e destruição...
5- Logo, o que é necessário? Sem alternativa à vista, a resposta deles é: mais controle estatal. As “soluções”, sendo erradas, só pioram o problema e empurram as nações – financeira e moralmente – mais para baixo. (Políticas estatais de estímulo ao aborto e ao homossexualismo talvez sejam propostas como medidas de controle populacional...)
6- O Estado reforça as políticas de redistribuição. Tudo recomeça, e a máquina estatal se torna cada vez mais poderosa, angariando mais dependentes, inibindo as iniciativas privadas e emperrando a produção.
Tudo isso poderia ser evitado se nossa sociedade tivesse adotado como base alguns princípios bíblicos: limitação do poder do Estado, redenção somente através de Cristo (e não pela economia, como ocorre no marxismo), responsabilidade individual, caridade com discernimento etc.
O livro de Schlossberg é imperdível! Devo publicar citações dele aqui esta semana.
30 julho 2013
De evento em evento
26 julho 2013
Ei você, que defende o "Estado laico"...
25 julho 2013
Recheando a teologia
04 julho 2013
Manifestar-se como Jeremias
Eu estava experimentando um mix de sentimentos durante as manifestações do mês de junho: alegria (porque o que nasceu de modo calculado, com o Passe Livre, tornou-se uma explosão de indignação espontânea), tristeza (por causa da violência de alguns), apreensão (ao pensar no que o governo poderia fazer para se apropriar dos acontecimentos ou retaliá-los), perplexidade (porque é muito difícil analisar os fatos e suas múltiplas correlações). Nesse ambiente emocional, tive um sonho em que participava de um almoço com os membros muitos simpáticos de um coral evangélico. Depois de comer, fomos cantar juntos e eles iniciaram aquele cântico que usa a letra do Salmo 108: "Firme está, firme está meu coração, oh Deus". Quando elevei a voz para a frase seguinte, "Cantarei e entoarei louvores", vi que eles foram em uma direção totalmente oposta. Ri comigo e parei, só ouvindo. O que se seguiu foi uma paródia do cântico, que usava a ironia de um modo inteligente para denunciar as práticas idolátricas da igreja. O coração não pode estar "firme" quando tantos cristãos adotam costumes animistas (como a crença no poder de objetos ungidos) ou se alienam diante de novelas de televisão - só para citar algumas das críticas levantadas ali. Depois que a apresentação acabou, eu tive muita dificuldade para segurar as lágrimas - e acordei inevitavelmente chorando, como me acontece em alguns sonhos. Em seguida, lembrei-me do blog de meu amigo Renato Vargens, que tem denunciado sem cessar essas práticas absurdas, e ponderei sobre o quanto podemos estar tão satisfeitos com nossa igreja local, ou nossa denominação, que passamos a dar de ombros para esses desvios em outras igrejas, como se não nos dissessem respeito... Trata-se de um pecado, ou vários - conformismo, individualismo, sectarismo - , de que precisamos nos arrepender.
E, enquanto escrevo esta postagem, dois textos bíblicos me vêm à mente: Lucas 6.41-42 (em que é necessário reconhecer os próprios pecados antes de identificar e tratar os alheios) e 1 Pedro 4.17 (em que seremos julgados primeiro). Será que temos chorado o suficiente pela igreja antes de fornecer soluções para o mundo? Será que temos condenado o mundo sem perceber o quanto compartilhamos das mesmas idolatrias? Será que entendemos o quanto a purificação da igreja é fundamental para salgar e iluminar o mundo? Evidentemente, não condeno quem escreveu análises sobre as manifestações, de modo algum, e li algumas delas; o trabalho de crítica cultural à luz da cosmovisão bíblica é muito importante. Mas o sonho, de alguma forma, colocou as coisas em perspectiva, não necessariamente quanto à ordem das tarefas, mas quanto ao espírito com que as cumprimos: implicando-nos na crítica, como alvos da Palavra, jamais juízes. Se tantos cristãos têm energia suficiente para sair às ruas e clamar contra a corrupção reinante, imagino que podemos fazer como Jeremias e começar a nos lamentar coletivamente, em nossas igrejas, pelo estado da doutrina e da mentalidade evangélicas no Brasil. Ao contrário das manifestações, cujo resultado é incerto e talvez até negativo, a lamentação dos filhos de Deus, com verdadeiro arrependimento, nunca é vã.
28 maio 2013
O patético resultado do assistencialismo (II): o caso sueco
Você certamente já ouviu aquele amigo que se diz social-democrata citar o exemplo da Suécia como de um socialismo bem-sucedido. Bom, faça-lhe dois favores: dê a ele de presente o livro do Janer Cristaldo (já desatualizado, pois é de 1973: procure em sebos) O paraíso sexual democrata, e mostre-lhe o artigo de Gary North (teólogo e economista presbiteriano) do dia de hoje, O estado assistencialista sueco está em chamas. Isso vai funcionar como um panorama bastante amplo da situação daquele país, que de paraíso não tem nada. As “chamas” do título são literais: faz seis dias que a Suécia vem sofrendo na mão de incendiários.
Nós somos o país que mais se esforçou para integrar essas pessoas, muito mais do que qualquer outro país europeu; gastamos bilhões em um sistema de bem-estar que foi criado para ajudar imigrantes desempregados e garantir a eles uma boa qualidade de vida. Ainda assim, temos áreas em que existem grupos étnicos que simplesmente não se identificam com a sociedade sueca. Eles veem a polícia e até mesmo as brigadas de incêndio como parte do aparato repressor, e os atacam. Já tentamos de tudo, de tudo mesmo, para melhorar as coisas, mas nada funcionou. Não se trata de racismo; a questão é simplesmente que o multiculturalismo não reconhece como os humanos realmente funcionam.
21 maio 2013
O patético resultado do assistencialismo
Continue assim, Governo Brasileiro, solapando com suas decisões toda noção de responsabilidade individual e incentivando os imaturos e folgados deste país. É assim que o Brasil vai pra frente!
P.S.1 Leitor(a), aproveite e dê uma olhada nesse artigo oportuno do economista Rodrigo Constantino, que compara a postura da brasileira com outra, bem diferente, de um jovem de Portugal, e também nesse outro de Reinaldo Azevedo sobre os "excluídos não tão excluídos" que recebem o Bolsa Família.
P.S.2 Para quem está chocado com esta postagem, vale aqui a advertência do apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 3.10: "quem não quer trabalhar, que também não coma". Há quem cite a igreja primitiva como um exemplo de comunismo, infelizmente. Mas quem lê a Bíblia toda sabe que ali, entre os primeiros cristãos que se inspirassem em Paulo, o folgado irresponsável não tinha vez. Nada de se aproveitar do amor dos irmãos para parasitagem, nada de deixar de trabalhar para viver do governo! Essa é a ética bíblica aplicada ao mundo atual: é nossa responsabilidade divulgá-la e vivê-la!
16 maio 2013
A mesma face
Já convertida, entendi que eu era rebelde e que somente Cristo podia transformar essa condição. Sabia, agora, que estávamos reconciliados, eu e Deus. Mas o questionamento, adaptado, prosseguiu. Estava claro que Ele me amava em Cristo, mas será que aprovava minhas escolhas?
Quando consigo enxergar melhor, desdobrada do anseio pelo amor total e sem máculas entre mim e Deus, percebo que a face do Deus irado contra meus pecados (que ainda existem) e a face do Deus feliz comigo (por causa de Cristo) são a mesma e única Face. O "já/ainda não" da Bíblia se manifesta também na relação que Ele estabelece conosco, de modo que não nos livramos da incômoda sensação de que Ele se ira contra nós - felizmente, pois é essa sensação que nos impulsiona na luta com o pecado.
Mas essa ira é acomodada no sacrifício de Cristo, e, contida, em vez de nos destruir, é como um sussurro doce em nossos ouvidos, um sussurro que diz "continue, continue". Senhor, caso seja necessário, dá-me uma resposta emocional mais adequada aos teus sussurros.
25 março 2013
Pela liberdade de brasileiros inocentes
Para saber mais, clique aqui e aqui
Para assinar, clique aqui
Eu não os conheci, mas eles são da Igreja Presbiteriana Betânia, em Niterói, onde fui batizada.
08 março 2013
Ester
Não ligo para o "Dia da Mulher" e acho complicadas as circunstâncias que o originaram... Mas não há momento melhor para compartilhar o texto de um belíssimo sermão que muito me edificou, na Igreja Presbiteriana do Cambeba, em Fortaleza, pelo pr. Francisco Macena da Costa. Sim, é sobre o Livro de Ester. É por causa desse sermão que, nesses tempos de totalitarismo montante, sempre que temo desagradar pessoas com o que escrevo, penso na frase dela: "Se morrer, morri." Que grande confiança em Deus!
Nos momentos de perigo, perseguição, tristeza, insultos e dedos apontados, Deus quer que nos lembremos que Ele é o único a ser louvado e temido, pois é soberano e nada nos acontece que não esteja sob Suas mãos. "Reconhece-o em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas" (Pv 3.6). Que a frase de Ester também possa ser seu lema, junto com a exortação de Jesus em Mateus 10.28: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.
28 fevereiro 2013
Pausa para cuidar da saúde
Agradeço infinitamente aos que têm orado por mim e torcido para que eu me recupere da enxaqueca persistente. É especialmente para vocês que eu escrevo aqui. Há alguns dias, descobri que tenho Síndrome de Hashimoto, uma doença autoimune que ataca as células da tireóide e provoca cansaço, lentidão, dor de cabeça e dor muscular, pele seca, queda de cabelo. Tenho todos esses sintomas. Não há nódulos, mas a glândula já demonstra inchaço (ao ponto de um ligeiro bócio difuso, perceptível ao especialista) e desgaste. Já estou tomando a medicação correta e comecei uma dieta bastante rígida, com nutricionista, para ajudar a reequilibrar hormonalmente meu organismo. Não me foi dada nenhuma promessa de prazo quanto à melhora da dor de cabeça especificamente, mas estou confiante de que não deve demorar. Por enquanto, estou em uma fase ruim, com crises todos os dias e graus variáveis de dor. Por isso, o blog vai ficar em banho-maria até que eu comece a demonstrar uma reversão significativa de todos os sintomas de Hashimoto. Por isso também, junto com meu marido, tomei a decisão de recusar convites para palestras e viagens até pelo menos o meio do ano, pois estou recuperando as forças e privilegiando meu tratamento. Isso inclui a viagem para São Luís, anunciada na postagem anterior, pois não estou em condições agora.
Continuo pedindo suas orações! Estamos no caminho certo, graças a Deus.
Muito obrigada,
Norma
15 fevereiro 2013
08 fevereiro 2013
VINACC 2013
Para não romper as atualizações do blog, deixei programada uma postagem para segunda-feira sobre Romanos 12.1 e 2, versículos que certamente serão lembrados muitas vezes ao longo do evento! Esse texto que postarei é um pequeno trecho de meu capítulo do livro a ser lançado no sábado durante o Enblogue, com a participação de vários blogueiros cristãos. Com o livro em mãos, contarei mais novidades!
Que este Carnaval seja ocasião para crescimento diante do Senhor para você! A maior folia estará no céu, e já experimentamos um pouquinho dele aqui. :-) Que Deus o abençoe!
04 fevereiro 2013
Anteparo contra a verdade
Assim, um dos maiores problemas de nossa época é que as pessoas se acostumaram a um afrouxar de laços entre o crer e o agir. Não sabem mais no que creem e por quê, e não sabem o que as motiva em suas decisões práticas. A proliferação de analistas parece ter coincidido com o abandono de um autoexame informado culturalmente: buscam soluções tão individualizadas, tão personalistas, que perdem de vista o todo que poderia fornecer-lhes explicações para esse estado de divisão interior. Embriagadas da ilusão romântica (Girard), esquecem-se de que são seres de imitação.
Um dado que me parece óbvio nesse quadro é que as crenças partilhadas, hoje, são de fato desconectadas da realidade, tão incapazes de escorar ações efetivas no mundo que passam a compor apenas uma atmosfera indiscernível, uma bruma difusa, que só obscurece o caminho em vez de apontar direção. Acreditar que a moralidade é relativa mas continuar vivendo de modo compatível com a existência do bem e do mal (porque não se pode viver de outro modo, a não ser como sociopata) é um dos exemplos mais recorrentes dessa dissociação. A frequência com que o discurso nega a vida é tão grande que o pensar não só deixa de acompanhar a experiência, mas a atomiza ainda mais.
E há outro exemplo que nos diz respeito diretamente. Você fala a alguém de sua fé em Cristo e narra algum fato miraculoso ou extraordinário relacionado a sua fé, e imediatamente seu interlocutor proclama com seus botões, ou até em alta voz, que você só pode ter um parafuso a menos. Porém, ao mesmo tempo, nada em seu comportamento ou suas atitudes mudarão em relação a você. Em 99% das vezes, você continuará sendo, aos olhos dele, uma pessoa amiga e confiável. A presumida "loucura" que ele lhe imputa, nesse caso, é operacional e só funciona para que se mantenha a salvo da ameaça da crença.
Eis a marca de nossos dias: antes, as cosmovisões davam identidade, ainda que uma identidade idólatra e inconsistente; hoje, foi dado um passo para trás: o relativismo engole toda possibilidade de um posicionamento público que esteja de acordo com a cosmovisão, persistindo, como forte anteparo, contra qualquer tentativa de organizar mentalmente o real. Lamentamos essa situação, mas ao mesmo tempo podemos nos indagar se um mecanismo que se afigura claramente como proteção contra a verdade não seria mais fácil de desmascarar, já que resulta (ou deveria resultar) em maior desconforto existencial. Por outro lado, assusta que nossos contemporâneos se mostrem tão voluntários em preferir a ilusão e permanecer nela, ainda que em tudo se assemelhe de fato ao que é: uma ilusão.
Só Deus poderá nos comunicar com eficácia as reações adequadas aos desafios que a igreja está prestes a enfrentar nesse novo século. Estejamos atentos.
28 janeiro 2013
Enquanto não venho
21 janeiro 2013
Quero trazer à memória
Há muito do velho paganismo em nós. Mesmo o mais racionalista dos seres pode manifestar uma ponta de irracionalismo quando, por exemplo, adia ad infinitum a visita ao dentista esperando inconfessadamente que o problema se resolva por si.
Mas, ao contrário do racionalista que às vezes se comporta de modo irracional, tenho uma personalidade naturalmente inclinada para o irracionalismo. Foi o que me levou a buscar Deus nos meios esotéricos, por exemplo, antes de me converter. Uma das manifestações mais dolorosas dessa inclinação é a presença de medos obscuros e inconfessáveis cuja irrealidade só é percebida com muito custo.
Cito alguns. Um pavor antigo, desde criança, era a possibilidade de ficar louca do nada, ou de bater a cabeça no chão em algum acidente e perder as faculdades mentais mais básicas. Derivava de uma pregação comum no esoterismo: a mente podia transformar os pensamentos em realidade. Uma vez convencido disso, tente dormir à noite enquanto seu cérebro fabrica os acontecimentos mais indesejados de sua vida.
Boa parte disso foi debelada com o trabalho do Espírito Santo em mim. Com poucos anos de conversão, pude identificar de imediato um inacreditável twist argumentativo em uma irmã que citou Jó para confirmar o ensinamento esotérico: “Aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece” (Jó 3.25) – um desabafo evidentemente descritivo. Se Deus não tivesse me transformado, sabe-se lá que tipo de síntese mística eu teria feito com o cristianismo.
Deus continua debelando em mim os medos mais tenazes. O processo de cura, como descobri, é exemplificado em Lamentações 3: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21). Assim como o versículo de Jó, essa frase tem sido retirada de seu contexto para justificar uma esperança mundana, baseada na lembrança de “tempos melhores”. Mas relembrar o passado feliz em um contexto infeliz, além de nada garantir para o futuro, é uma verdadeira tortura autoinfligida. E pior: às vezes não há o que lembrar. Uma infância infeliz, uma cadeia de insucessos amorosos, o cotidiano de pobreza que atravessa gerações... Nesses casos, como o versículo se aplicaria? Percebe-se então que a ênfase do texto não pode estar nos fatos da vida. Mas onde estará?
Vejamos. Jeremias relembra o passado, mas um passado nada glorioso: “Eu sou o homem que viu a aflição pela vara do furor de Deus” (Lm 3.1), resume ele seus infortúnios. Todo o livro é uma grande lista de infortúnios, resultantes dos contínuos pecados do povo de Israel. Até que o versículo 21 do capítulo 3 inaugura a mudança de foco:
Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se a a cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele.Onde Jeremias foi buscar esperança? Nenhum acontecimento pessoal é evocado, mas sim essa característica divina: o Deus de Israel é misericordioso. Caso haja arrependimento, Sua ira não dura para sempre. Jeremias sabia disso a partir do registro de tudo o que havia sido feito a seu povo até então. Hoje, também sabemos disso, primordialmente, pelo registro bíblico de tudo o que Deus fez nas vidas de Abraão, Moisés, Josué, Isaías, Paulo e de todos aqueles que, tendo sido alvo da grande misericórdia do Senhor, andaram com Ele. Assim como somos “enxertados” na família da fé (Rm 11), também ocorre conosco essa apropriação da vivência de outros: todo novo cristão, inicialmente sem referenciais para pensar e enxergar Deus, apropria-se das maravilhas do passado e as integra a seu horizonte. Quando não há lembrança pessoal dos feitos de Deus, a fé inaugura o processo e a Palavra entra como experiência adquirida.
Nova convertida, eu não tinha acesso à experiência direta com a cura divina de meus temores. Foi trazendo à memória o caráter de Deus, com o poder do Espírito Santo, que meu coração foi orientado para a segurança da onipotência do Pai sempre que pseudoverdades, tais como a do pensamento mágico e do poder da mente, ameaçavam me submergir. Em um processo longo, que durou anos (e ainda continua em alguma medida), grandes medos foram vencidos com a lembrança – em meio a grande choro e oração – de que toda a realidade está nas mãos dele. Diante de pecados recém-descobertos, é a partir da experiência adquirida biblicamente que precisamos clamar: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” Não algum ponto de nosso passado, que no caso sequer existe, mas o foco no contínuo educar da mente para pensar toda a realidade – inclusive a realidade mais apavorante dos medos obscuros – segundo os conteúdos expressos em Sua Palavra: o que pode – é capaz – de nos dar esperança é o maravilhoso caráter de nosso Deus, atestado nos relatos de nossa fé e posteriormente, se o provamos (Sl 34.8), na nossa vida.
Racionalista ou irracionalista, sejam quais forem os males que o assediam, você deve se apropriar conscientemente dessa Palavra que agora, por causa do nosso enxerto na família de Deus, pertence-nos por completo, como parte da própria seiva que nos alimenta como galhos enxertados. Se não o fizer, sua esperança será puro saudosismo, sem apoio consistente algum.
Oro para que você faça isso, aplicando-a contra todos os seus pecados e em todas as suas aflições.
14 janeiro 2013
Resultado do Concurso Apologético!
Repito e expando aqui os critérios para a escolha, sobretudo por um propósito didático: quem sabe um dia você não será convidado para falar na televisão?
- Brevidade. Todos nós sabemos o quanto o Jô gosta de interromper os entrevistados e fazer piada. Aproveitar a "deixa" teológica da pergunta dele e falar o mínimo possível era fundamental. Li as melhores respostas em voz alta e percebi que alguns textos bons e coerentes não funcionariam ao vivo, na língua oral, por serem extensos demais.
- Linguagem acessível. Crente não resiste a um "teologuês". Precisamos tomar cuidado com isso: diante de uma plateia não-evangélica, o uso do nosso "jargão" só contribui para afastar o público do interlocutor.
- Foco na teologia. As perguntas do Jô foram eminentemente teológicas. Era o momento para colocar a preocupação com a alma dele (e dos espectadores) em primeiro lugar, deixando de lado as questões sobre a política, a liberdade de expressão religiosa ou as explicações científicas para o comportamento homossexual, por exemplo.
- Conteúdo essencial. Como as perguntas do Jô versavam sobre o que é o pecado, era necessário que a resposta mostrasse o esquema essencial do Evangelho (criação, queda e redenção) por dois motivos: mostrar que o pecado original se deu depois que Deus disse que "tudo era bom" (a criação) e apresentar a redenção como o único antídoto possível para o pecado.
Por isso, anuncio aqui que a resposta breve, acessível, isenta de digressões e fiel ao essencial do Evangelho (criação, queda e redenção) foi a do...
Thiago McHertt!
Parabéns, Thiago! Por favor, poste um comentário com seu endereço para envio do livro (não o publicarei).
Quero agradecer muito a todos os participantes! Foi uma honra receber tantas entradas em apenas uma semana. Também foi gratificante ler respostas que manifestaram a criatividade de alguns (Roberto Vargas Jr., Yago Martins, Hugo, Jônatas, Antônio Brito), a firmeza de outros (João, Luiz Renato, Cristiano), o carinho de outros (Pr. Samuel, Pr. Macena, Ivonete). Nenhuma resposta foi rejeitada para publicação.
Daqui a algum tempo, aparecerei com um novo Concurso Apologético. Não percam!
Republico aqui a resposta do Thiago:
Jô, tudo o que Deus faz é bom por definição. Logo, a criação é boa. Mas desobedecemos a Deus, e isso é pecado - e mau. Todos os homens nascem em pecado, ou seja, nascem da natureza caída de Adão. O pecado é o fruto da natureza caída do homem. Nesse sentido, se é verdade que alguém nasce homossexual, isso não o isenta do pecado, mas o confirma. E é nessa condição humana caída e pecaminosa que Deus ordena a mim, a você - Jô -, aos homossexuais e a todos os outros seres humanos "que se arrependam e creiam no evangelho".
Update importante: Um dos pontos mais fortes da resposta do Thiago ao Jô foi o fato de implicá-lo diretamente ("Deus ordena a você"), e isso é bacana porque gera uma reação pessoal. Creio que a apologética jamais deve esquecer que lida primariamente com pessoas, não com conceitos, ideias ou argumentos. Essa pessoalidade está presente em obras imprescindíveis dos maiores apologistas com quem podemos contar: Francis Schaeffer, C. S. Lewis, Cornelius Van Til e muitos outros.


