09 dezembro 2005

Querem nos calar


Como muitos evangélicos, não simpatizo com a figura do Bispo Edir Macedo. A Igreja Universal usa de práticas estranhas ao protestantismo para atrair gente, os pedidos de dinheiro nos cultos são sempre excessivos e o ensino da Bíblia é sempre insuficiente, quando não errado.

No entanto, com freqüência me incomodavam as falas insistentes e raivosas contra ele e a Universal. Eu me abstinha de me unir ao círculo do linchamento verbal porque sabia que a coisa não ia prestar: um dia, alguém ia se aproveitar da impopularidade de Macedo para fazer algo muito ruim não só com a igreja dele, mas com todas as igrejas evangélicas.

Pois fizeram. Deu no Estado de São Paulo: "Todos os exemplares do livro Orixás, Caboclos e Guias, deuses ou demônios, do bispo Edir Macedo, deverão ser retirados de circulação imediatamente. A determinação é do desembargador Souza Prudente, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que manteve liminarmente decisão de primeira instância. (...) Segundo o Ministério Público Federal, a obra de Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, incita a segregação religiosa e a intolerância às religiões afro-brasileiras. No livro, argumenta o Ministério Público, os seguidores destas religiões são tidos como seguidores do demônio."

Essa última frase, acusativa, é um absurdo. Nós evangélicos não cremos que "os seguidores de religiões 'afro' são seguidores do demônio", como se o umbandista fosse um satanista assumido. Isso, sim, seria preconceituoso e ofensivo. Nós cremos conforme nosso livro de fé ensina. É só ler a Bíblia para descobrir que, cada vez que um anjo fala com alguém, é fora do corpo de uma pessoa (como Maria ao receber a anunciação do nascimento de Jesus); cada vez que um espírito se vale do corpo de alguém para se expressar, ele é tido como "espírito enganador", "impuro" ou "imundo", conforme os relatos da Bíblia, e é sempre expulso por Jesus ou pelos apóstolos (Jesus mandando uma legião sair de um homem e correr para uma manada de porcos, por exemplo). Não estou inventando nada: está no Livro Sagrado.

Assim, longe de ser um preconceito com os adeptos desses cultos, trata-se das implicações da adesão a uma verdade, verdade evangélica (dos Evangelhos), que agora querem nos fazer calar. Os evangélicos querem ser fiéis à Bíblia e ao que o protestantismo historicamente sempre ensinou. Num país tomado por essas práticas de consulta a espíritos que se expressam através dos corpos das pessoas, como vamos falar da verdade sem incluir esse tema? Impossível. Agora, ouve quem quer, compra o livro quem quer. Nem eu nem nenhum outro evangélico pode obrigar ninguém a abrir mão do que acredita. Mas querem nos melindrar, sob o argumento falacioso do politicamente correto, impedindo-nos de falar toda a verdade sobre o que cremos. Para preservar os ouvidos de quem não precisa nos ouvir, calaram nossa boca.


Ah, OK: você não é evangélico, não gosta dos evangélicos e não está nem aí para essa decisão do Tribunal? Cuidado! A decisão é seriíssima e coloca o Brasil a um passinho de formiga rumo à aplicação maciça dos preceitos politicamente corretos nas obras já em circulação – quaisquer obras. O monstro da censura vai ficar cada vez mais voraz. Leiam o restinho da matéria com a explicação do juiz, que relativiza a liberdade de expressão: "As liberdades públicas não são incondicionais e a liberdade de expressão especificamente não se revela em termos absolutos, como garantia constitucional, mas deve ser exercida, nos limites do princípio da proporcionalidade, proibindo os excessos nocivos à salvaguarda do núcleo essencial de outros diretos fundamentais, como no caso em exame." Isso significa que, agora, qualquer um vai poder alegar "excessos nocivos à salvaguarda de direitos fundamentais" (quanta subjetividade!) para calar quem quer que seja, quando caberia ao incomodado ou ofendido se defender por outros meios – escrevendo outros livros, indo a jornais, por exemplo – , não por essa maneira covarde cala-te-boca. Mas o politicamente correto sempre estimula a covardia, bem como o ódio insensato e as ações arbitrárias, punitivas. É assim que a vigilância ressentida, animosa, começa a dar o tom nas relações entre os brasileiros.

Você quer viver em um país assim? EU NÃO. Portanto, comece a temer: a decisão não diz respeito apenas aos evangélicos, sequer apenas aos religiosos, mas a todos nós.
Em tempo: se nós evangélicos fôssemos correr para clamar a punição de quem nos destrata, acusa e difama há anos, não só em livros mas em todos os veículos midiáticos do Brasil, teríamos um trabalho danado. André Petry nos chamando de "racistas" na revista Veja, por exemplo, sem que um pio seja dado em nosso favor. Racistas porque cremos na Bíblia e não aceitamos como portadores da verdade os espíritos que se manifestam em cultos afro? Será que esse jornalista estava em seu juízo perfeito ao fazer tal raciocínio tronchíssimo? Por favor!

O que querem esses juízes, afinal? Censurar a própria Bíblia? Capaz!

16 comentários:

Eliot D. Chambers disse...

Opa!

Então também chegou a hora de tirar de circulação todos os livros que criticam o cristianismo. Nietzsche, Carl Sagan, Stephen Jay Gould, Karl Marx, Richard Dawkins, Bakunin, Mencken, Saramago, Schopenhauer, Hume... É...pelo visto nossas lareiras não se apagarão no próximo inverno...

Se tal empreitada se desse, as bibliotecas das universidades ficariam vazias, e a fina flor da 'burritsia' botocuda teria que ficar de bico fechado pelo resto da vida, pois transpiram ateísmo e relativismo suicida.

Tudo aquilo que contém valores judaico-cristãos hoje é tido como retrógado, obscurantista autoritário e segregador pelos politicamente corretos. Curiosamente, são estes mesmos que que endossam o discurso islamofascista, e o exemplo mais notório disso foi a cobertura jornalística da Intifada francesa.

A civilização que colocará o anticristo no poder está se formando, e o meu desejo é atrapalhá-la ao máximo, para que vidas sejam salvas.

Norminha, que bom saber que lutamos em trincheiras tão próximas.Fica aqui um fraterno ósculo santo do Eliot.

César Miranda disse...

Por que os fiéis dos cultos africanos não escrevem um livro explicando as coisas? Agora os fiéis dos cultos africanos fazem parte de uma minoria protegida pela lei como o são os homossexuais e os índios? Ou são incapazes ou não têm argumentos. Ora, sabemos que não são incapazes, então usam a força da lei, quer dizer, a violência estatal, como argumento. Não duvido que venha coisa muito pior por aí, nos preparemos. É um truque astucioso: proíbe-se um direito de expressão a alguém antipático - como Edir Macedo - e pronto, logo a coisa vira jurisprudência contra todos. Vivemos no reino da opinião e da aparência, do politicamente correto, da mentira. Desde que a verdade se tornou algo relativo, se abriu a porta para essa sociedade gosmenta que em que vivemos com juízes tomando partido do lado que ele acha antipático. Agora a interpretação da lei é mera questão de opinião! Pena que os idiotas tomaram o poder, com previa Nelson Rodrigues. Que Deus nos ajude; Parabéns pelo post, ma fleur.

Marcos Vasconcelos disse...

Norma, o alerta do post é mais que verdadeiro. É um vislumbre da clara expansão da teia do politicamente correto que por fim acorrentará toda a nossa sociedade, não apenas os "evangélicos". Na medida em que a verdade torna-se relativa, a mentira torna-se absoluta para justificar qualquer ação arbitrária que sirva para nos amordaçar. A censura apenas começou.

Forte abraço.
MV

Cláudio Peixoto disse...

O Judiciário brasileiro passa por um processo ímpar de imbecilização.

O Edir Macedo não está incitando violência contra os praticantes dos cultos (e não religiões) afro-brasileiros.

Apenas os denuncia desde uma perspectiva cristã e exorta seus fiés a não se envolverem.

Que mal há nisso? Quem investiu estes juízes em fâmulos do animismo?

Edward Wolff disse...

E se eu escrevesse um livro dizendo que os satanistas são "seguidores do demônio"? Todos os exemplares teriam de ser recolhidos sob a acusação de "incitar a segregação religiosa e a intolerância"?

Luiz Augusto Silva disse...

Mais um pouco e todas as Bíblias serão tiradas de circulação.

Adelice disse...

Você tem toda razão, Norma. Eles pegam um cara antipático e nem os demais evangélicos ou mesmo os católicos o defenderão, sem saber que serão alvos da mesma medida.

Santa disse...

Não conheço o teor do livro "Orixás, Caboclos e Guias, deuses ou demônios". O título não deixa muitas dúvidas com relação aos seus objetivos. O bispo Edir Macedo, não me parece uma pessoa antipática, sim um empresário obstinado em sua máquina de fazer fortuna.Desta vez a polêmica em torno das crenças “afro”, antes "chutar a imagem de uma santa" em público (TV), ofendeu católicos. Estratégias promocionais, que lhe valem milhões na bolsa. Mas, em nada se justifica o cerceamento, a censura, a liberdade de expressão. Uma prática que se repete, mascarada na “salvaguarda de direitos fundamentais”, tal qual o nazismo, onde foram praticadas fogueiras de livros, diante do povo na “salvaguarda” de uma ideologia insana.

Um abraço.

Anônimo disse...

"O certo será chamado de errado e o errado de certo", não fomos enganados quanto a isso e nem mesmo que seríamos perseguidos por causa do nome de Cristo. São por questões como essa que tenho me levantado contra as "rixas" denominacionais que também presenciamos. Censuramos tanto nossos irmãos cristãos por praticarem idolatrias com as quais não concordamos.Nossas igrejas estão cada vez mais cheias, irmãos, só que quem deu a cara a bater nas passeatas gay de Israel e da Argentina foram os católicos. Portanto, ou nos posicionamos como igreja de Cristo, para sermos como o "cordão de duas dobras", ou continuaremos a sofrer calados não só sanções que nos ferem como cidadãos , mas principalmente como cristãos que estão tendo seu direito constitucional de liberdade de credo tolido.

Lata Mágica disse...

Querida Norma, estamos contando Histórias da Lata (03). Vá lá no blog.

Um beijo

Anônimo disse...

Cara Norma, é mais um aspecto da "guerra assimétrica" que está na base do politicamente correto: uns podem tudo - livros anticristãos e antijudaicos abundam sem censura - outros não podem nada. Veja também a condenação do Padre Lodi da Cruz, do Pró-Vida de Anápolis, por chamar uma abortista de ...... abortista!
No entanto este cerco é extremamente perigoso. Quando os nazistas incendiaram sinagogas, muitos luteranos e católicos aplaudiram sem se darem conta de que inevitavelmente chegaria a vez deles.
Heitor De Paola

Cosmovisao disse...

"o mundo jaz no maligno"
ou seja
"o sistema mundial jaz no maligno"
A arma a ser usada para a perseguicao aos cristaos sempre foi e sera o estado que atua simplesmente conforme a sua propria natureza, natureza maligna.
A diferenca deve ser feita por nos que vivemos no status do Reino dos ceus, podemos utilizar ferramentas do sistema para bloquear acoes descabidas, mas a vitoria completa sempre vira do Soberano, o Senhor de todas as coisas.
Quando olhamos a historia dos cristaos vemos a vitoria sendo outorgada, mas nem por isso as aflicoes sao refreadas, por este prisma, sofremos um pouco agora, batalhamos com afinco (denunciando, protestando, etc), mas um fato eh indiscutivel, o inferno nunca vai prevalecer contra a igreja do Senhor, nem que ele use os seus "juizinhos" e "jornalistinhas".

rafael galvão disse...

Sabe, dá até para achar que os caras que estão querendo proibir o livro do Bispo Macedo, estão querendo nos provocar, Edir Macedo não é o melhor exemplo de ortodoxia bíblica do Brasil (todo evangélico que lê a Bíblia com temor sabe disso) .

Então eles querem usar esse fato para tentar nos confudir. Qual seria a melhor solução?

Anônimo disse...

Não deve-se confundir libertade de expressão com libertinagem verbal. Afinal, os direitos de cada um terminam onde começa o do próximo. Então, uma sociedade progride se existe respeito entre seus cidadãos e o Estado precisa intervir para que um grupo não utilize de sua liberdade de expressão em prejuízo da liberdade de terceiros. Existe uma lei, que não é aplicada pelo Poder Judiciário e sim pela própria natureza: a Lei do Retorno. Cada ser religioso, de qualquer religião, para absorver os preceitos de sua fé, adquirem um grau de intolerância à fé alheia que será esse grau maior ou menor. O tamanho da intolerância que se tem é diretamente proporcional à intolerância que se sofre. E isso se aplica a todos. Assim como se aplicou ao bispo, agora tb se aplica ao Judiciário que foi intolerante e agora tb não está sendo tolerado. Ideologias contraditórias e/ou paradoxais podem e devem coexistir, afinal ninguém é mais filho de Deus que outrém. Quanto ao assunto acima, certamente, Deus ama os evangélicos, o bispo Edir Macedo, o Poder Judiciário, os praticantes das religiões provenientes da África e também todos nós que estamos aqui a discutir esse assunto tão importante sobre censura, intolerâcia.

André disse...

Séculos de intolerância...
Tal livro foi simplesmente "censurado" sem motivo algum? Nada mesmo? É uma obra de engrandecimento e fortalecimento da "fé" e incentivo da paz realmente...

Antes de criticar a decisão da justiça, deveríamos dar uma lida em tais livros. Vcs já leram? Qual é o conteúdo? Gostaria, se possível, q alguém pudesse indicar algum link p/ um ebook dos livros. Não foi dessa igreja q saiu uns "pontapés" às imagens de "santos" de outra igreja? Hum.... Estranho os comentários do povo neste blog. Chegaram a analisar o problema do preconceito à alguns religiosos neste país?

Da mesma forma q o nazismo e o anti-semitismo, outras formas de preconceito e incitação ao ódio devem ser evitadas. Cabe À LEI, AO ESTADO DE DIREITO, manter a ordem nessa joça de país, se não começa a virar bagunça igual a alguns países teocráticos onde não há liberdade de culto e credo. Vamos pensar um pouco... bem... quantos livros de religiosos, seguidores de seitas/cultos africanos estão nas bancas falando mal desta ou daquela religião cristã ou outra qualquer?!?! Alguém sabe? Nenhum? Mas... por outro lado, QTOS LIVROS DE "CRISTÃOS" ESTÃO ESPALHADOS PELO BRASIL FALANDO MAL DE CULTOS/SEITAS AFRICANAS?! Incitando o ódio e preconceito? Poxa, q diferença hein?! DEFESA DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO?! balela!

Antes do "cristianismo" existiam diversas culturas e religiões no "Novo Mundo". Chegaram os que traziam as "boas novas" e pilharam, saquearam, assassinaram, estupraram, mentiram e roubaram de norte a sul os habitantes deste continente. Protestantes na América do Norte e Católicos nas Central e Sul. Poxa... isso q foi "evangelização"! Agora, após séculos de erros e contradições, de Cortéz, Cabral, colonos puritanos, etc... até os dias de hoje, continuam discriminações às religiões "não-cristãs". A diferença q hoje, mesmo q falha, existe a LEI de um estado LAICO, o q impede q mandem às fogueiras "pais, mães, irmãs, primos ou qualquer outro parentesco-de-santo" ou outro "herege" (do grego hairesis= liberdade de pensamento)

Os negros, com tais culturas "pagãs", "demoníacas", etc... pediram pra vir pro Brasil? Vieram de "primeira classe" num avião? Acho q não. Não foram os "cristãos" q trouxeram os negros da África, ESCRAVOS!, p/ ralarem e serem chicoteados nas plantações de algodão nos EUA e cana-de-açúcar no Brasil? Agora, após séculos de perseguição e exploração, defendem a discriminação ostensiva da última coisa a q sobrou, apesar do sincretismo, de sua cultura: a religião.

Sobre "Essa última frase, acusativa, é um absurdo. Nós evangélicos não cremos que "os seguidores de religiões 'afro' são seguidores do demônio", como se o umbandista fosse um satanista assumido." >>> Seguem links interessantes p/ poderem analisar tal problema de liberdade de culto e religião q o país sofre. Fala sobre isso q vc acabou de falar (leiam a matéria INTEIRA antes de criticá-la):

http://www.fazendomedia.com/novas/educacao090206.htm

link sobre a noticia publicada no blog, no site "juristas":
http://www.juristas.com.br/noticias/noticia.jsp?idNoticia=14929&idCategoria=1

Convido a todos a participarem do GD, fórum do TERRA de discussão sobre religião.

Algumas frases de alguns q, apoiados na "palavra de Deus", defendiam a escravidão dos q trouxeram as religiões africanas ao país:

"Não há nada na Bíblia proibindo a escravidão, apenas a organizando. Podemos concluir que ela não é imoral" (Rev. Alexander Campbell)

"É melhor ser escravo no Brasil e salvar sua alma que viver livre na África e perdê-la" - sermão do Pe.Antônio Vieira aos escravos

"O direito a ter escravos está claramente estabelecido nas Escrituras Sagradas, tanto por preceito como pelo exemplo" (Rev. R. Furman, D.D., batista, da Carolina do Sul/EUA)


Por um mundo mais tolerante,

André

(cicuta no FÓRUM DO TERRA)

Jonny disse...

Abaixo os preconceitos e intolerâncias religiosas. Infelizmente Edir Macedo agiu como se falasse por todos os Evangélicos, ou seja, este degrada a imagem de muitos religiosos sérios, este que se diz pastor acusou de demônios aqueles de outra religião, isto não é papel de um lider religioso.
Judeus, Hare Krishnas, Candomblecistas, Católicos... nenhum se intromete nos assuntos uns dos outros, mas pelo menos se respeitam. Edir devia respeitar os outros também. Não vejo Edir Macedo como lider religioso, muito pelo contrário, sim como um empresário. Há pastores que representam muito mais a religião que este, que nos envergonha.