27 dezembro 2005

Marx logofóbico

Não é à-toa que as teorias modernas em voga nas áreas humanas, sempre imanentistas, costumam ter um pezinho ancorado no marxismo. De acordo com Eric Voegelin, Karl Marx teria sido o responsável por um verdadeiro sistema doutrinário-religioso, centrado em um logos "intramundano", ou seja, na divinização do homem e na auto-salvação.

Segundo Voegelin, Marx afirma que sua dialética supera a de Hegel. Porém, para o autor, na prática Marx ignora conscientemente em seus escritos o problema hegeliano da realidade, recusando-se a teorizar. Ou seja, onde ele diz que é "anti-hegeliano", está sendo apenas antifilosófico, tão antifilosófico como a grande maioria das (anti)filosofias ditas "modernas" - que também recusam-se a lidar com o problema da realidade e, conseqüentemente, do conhecimento. Pretendem-se teorias e de fato teorizam, mas seu conteúdo costuma tratar da impossibilidade de teorizar - decorrente da impossibilidade de conhecer a realidade, decorrente, por sua vez, do niilismo que se apossou da filosofia desde o século XVIII, inspirado por Descartes, que inaugura a dúvida radical ao deslocar o mundo (a realidade) e o homem, separando-os. Pretensamente fora da realidade, flutuando em um espaço vazio de dúvidas criadas por sua mente, o antifilósofo descrê em tudo - menos em seu próprio pensamento, autor da dúvida. O que ele pensa passa a ser a realidade última, e tudo que vê e experiencia é mergulhado definitivamente em uma nuvem de irrealidade. A mente do antifilósofo é seu Deus, e em sua direção o mundo se curva devotadamente.

Marx foi um dos apóstolos desse Deus, ensinando a milhares que o mundo não passa de matéria moldável pela mente. Não admira que tenha ajudado a implantar sistemas que atribuíram tão pouco valor à vida humana: se o mundo se curva ao Deus-pensamento, as pessoas que passam pela nossa janela podem muito bem ser apenas projeções de nossa imaginação... Assim é a gênese de um sistema teórico que promove a autoglorificação como meta - um modo de ser que a todo instante precisa negar qualquer experiência de limitação humana, um ilusionismo perpétuo.

Por isso Voegelin trata a teoria marxista como antifilosofia e logofobia - uma aversão a conceitos que hoje está muito viva e atuante através da ênfase moderna na inexistência da verdade. Voegelin não exagerava ao dizer que Marx possuía uma verdadeira doença espiritual, caracterizada pela revolta da consciência imanente contra a ordem espiritual do mundo. Pois bem, essa doença é altamente contagiosa. Um cristão que siga Marx está abrindo portais gigantescos para sérios danos à sua mente e à sua fé.

Este post foi inspirado nos excertos de Voegelin publicados pelo blog Simply the Truth.
Mais sobre Descartes aqui.

13 comentários:

Caio Kaiel disse...

Crente que segue Marx é Crente descrente... confusão instaurada na revolta da revolta ao "mundo", como aquela idéia que já ouvi em várias igrejas, de que Cristo foi um Che Guevara - Misericórdia!

Santa disse...

Norma, desculpa se não consigo passar em seu blog diariamente. É que estou de viagem e mal consigo postar do hotel. Como neste País, não faltam assuntos e raivas, ....
Agradeço suas visitas ao blog e sobretudo os comentários.Bjs

Raquel Rochwerger disse...

Adorei o texto! Beijocas!

Eliot D. Chambers disse...

Voegelin foi muito preciso ao taxar Marx de antifilósofo. Afinal, foi o próprio Marx que disse que o mundo não deveria mais ser compreendido, e sim, transformado. Quando ele abandona a análise e vai direto a práxis, deixa de ser filósofo e se transforma em piqueteiro.

Quem quer transformar aquilo que sequer conhece fica impossibilitado de fazer algo corretamente. Não é a toa que a trajetória do marxismo não passa de uma coletânea de palhaçadas, só encobertas por muita matança e mentira.

Norma, mais um belo post.
Bjo do Eliot.

Nagel disse...

Olá Norma!

Tenho frequentado essa casa há alguns dias e é a primeira vez que participo efetivamente.

Eu peço licença pra comentar, mas discordo quando você diz que "um cristão que siga Marx está abrindo portais gigantescos para sérios danos à sua mente e à sua fé". Logicamente, não concordo com a filosfia (ou antifolosofia, como você coloca) e antropologia de Marx, mas seu sistema político, o socialismo, ao meu ver, é o ideal. E veja, a base do socialismo, se não me engano, é a igualdade entre os homens. Sabemos também que ele chega a essa conclusão por vias humanistas e racionalistas, mas essa conclusão não é falsa. Enfim...

Resumindo, sou cristão, não abro mão da minha fé, em nada (não creio num mundo fechado, não sou ateísta, nem materialista, etc), e não vejo impossibilidade em ser um cristão socialista.

Bom, estarei considerando sua análise quanto à antifilosofia de Marx e tal. Valeu pela reflexão.

Abração.

Juan de Paula disse...

Norma,

ao contrário do meu amigão e colega de sala de aula que escreveu acima, baseado no que li e em nossas conversas no msn, vejo que há uma impossibilidade de integrar marxicismo e fé cristã. Na prática, isso ficou evidente na década de 60 e 70 com o surgimento da TDL que submetia as Escríturas , regras de fé e prática a hermenêutica marxicista, aonde fechava a dialética judaíco-cristã que nos abre ao mistério e a imanência exagerada fechava o diálogo ao transcedente.

Além de nunca ter visto o regime de Marx dar certo em lugar nenhum. Tenho um amigo pastor cubano que reside no Brasil para fazer estudos teológicos. Pergunta se ele quer voltar a Cuba? (Risos).

A esquerda prega igualdade entre os homens, porém quando chegam ao poder acontece isso? Não. Vide as ultimas presidências no Brasil.

Os pressupostos epistemológicos de Marx são completamente imanentes, aonde até o abstrato de Hegel entra e também herda de Feuerbach toda essa cosmovisão "naturalista" e imanentista que são completamentes opostos a cosmovisão cristã.

No que tange a justiça social, a Bíblia é bem clara quanto ao assunto. Porém , deixa claro que só o evangelho da graça que transforma o ser humano e regenera seu coração corrompido. As confissões de fé da reforma colocam que as boas obras são recomendadas pelo evangelho sim, porém não é a lógica marxcista que ira mudar alguma coisa nesse mundo, aliás nunca mudou!

Juan de Paula disse...

Ah perdão! Quando cito Hegel, quero dizer que Marx racionalizou e materializou o pensamento abstrato de Hegel.

Como saí sem me despedir!!!!!!!!!

Abração !!!!!!!!!

Cleber disse...

Pescador,
concordo com vc. A teologia da libertação é tão míope quanto a da prosperidade.
No caso da primeira comparar Jesus com um revolucionário político é um absurdo.
No caso da segunda comparar Jesus com o gênio da lâmpada é outra aberração.

Eu fico feliz pelo crescente interesse evangélico pela ação social. Creio que isso tem haver com a teologia da missão integral do pacto de Lausane. E isso é bíblico. Espero realmente que não tenha nada haver com a teologia da libertação, pois se for precisa ser combatida essa heresia.

Lata Mágica disse...

Feliz Ano Novo e obrigado por tudo!!

Oswaldo Viana Jr disse...

Para o Nagel, que postou acima: Aí meu caro, igualdade entre os homens, nem no céu... Nesta vida, a única igualdade válida é a de oportunidades. Desigualdade não é sinônimo de injustiça, muito pelo contrário.

Anônimo disse...

Um Cristão não segue Marx, segue Jesus.

Um cristão pode ler Marx, gostar de Marx, pensar pelo ponto de vista de Marx e se posicionar próximo as idéias dele.

Achar que isso faz mal a fé, é embasar a fé em conceitos que te passaram, e isso não é fé.

Minha fé esta em Deus.

Heber disse...

(o ultimo post é meu)

Dizer que Marx abandona a analise e vai a praxis é piada.

Duas tolices contidas:

Marx não analisa (besteira, nem argumentarei)

Não devmos agir, só analizar.

Jesus viveu entre nós e nos ensinou a AGIR.

Ósculos e Amplexos

Norma disse...

A quem acha que Marx é inofensivo e até salutar para a fé: leiam Eric Voegelin. Não só ele, mas principalmente ele.