31 dezembro 2005

História triste de bailarinos


Eles se viam ao longe e já se amavam. Admiravam o contraste recíproco dos gestos - doces, para a bailarina, viris, para o bailarino - e ansiavam por dançar juntos um dia.

Naquele que seria, finalmente, seu primeiro ensaio com a bailarina, o bailarino, muito nervoso, subiu ao palco percebendo-se de súbito despreparado e sem vigor suficiente para uma dança com ela. Não lhe disse nada, mas levou adiante seus movimentos e intenções de movimentos. A bailarina, no entanto, sentiu a hesitação do parceiro. Diante disso, ela se viu invadida por um ímpeto de indignação e não se furtou a continuar a dança, mas quis intensificá-la lançando-se com fúria na direção do bailarino para que ele a tomasse nos braços e a transportasse pelo ar. Assustado com a força desmedida da parceira em sua direção, o bailarino não pôde erguê-la graciosamente, mas a conteve com as mãos estendidas, interrompendo toda promessa de movimento conjunto. Tão rápido quanto começou, o ensaio estava terminado.

Depois do esforço, a bailarina confessou que não poderia ter agido diferente, pois precisava da segurança do parceiro para continuar dançando com leveza. Com os dedos machucados, o bailarino prometeu a si mesmo que jamais dançaria com ela novamente. Ela acha que ele poderia tê-la segurado apesar do impulso desmedido; ele crê que ela não poderia ter saltado para ele daquele jeito. Separaram-se sem compreenderem exatamente no que consistira o drama. Ainda se admiram e se amam ao longe, mas já não ousam dançar juntos. Ele ainda esfrega os dedos de nervoso, ela teme ser deixada no chão quando queria voar em seus braços.

4 comentários:

Jacquitz disse...

De uma forma poética e, utilizando elementos do ballet clássico, você parece descrever uma cena do cotidiano.... não uma cena comum, mas uma cena de relações humanas, ensaios e erros, ajustes e desajustes... um tema, uma interpretação e uma conclusão.

Luiz Augusto Silva disse...

Todos os dois tristes.
Todos os dois indignados.
Nenhum dos dois errado.
Nenhum dos dois entendido.

Adelice disse...

Lindo, Norma.

Rodrigo de Vasconcelos disse...

Ah Norma,
como eu gosto quando você nos surpreende...