01 setembro 2006

O Esnobe (II) é aquele que...

...controla-se muito, mas muito mesmo, para, em um embate de argumentos via texto escrito, não apontar os erros de português do adversário - não porque ache o procedimento desleal (embora ache um pouco), mas principalmente para tentar impedir que os outros lhe atribuam a pecha que ele evita mais do que a peste: esnobe! Afinal, ele quer que reconheçam seu bom português, mas não quer perder público humilhando o pobre do oponente que estudou ou leu bem menos que ele. E vai agüentando com bravura os "ascenção", os "paralizar" e os "a nível de", como quem está de dieta e mantém a boca fechada em festa de criança.

15 comentários:

Eliot D. Chambers disse...

Ah, Norminha, mas corrigir o Emir Sader, como você fez, é um dever cívico.

Acho que não há maior esnobe do que aquele que, ao invés de corrigir, corrige quem corrige dizendo:

- Ei, você sabia que não existe "erro" na língua? Nunca leu o Bagno ou o Possenti?

Esse esnobe disseminador de analfabetismo é o pior de todos.

Bjo!

Norma disse...

Ué, mas quem disse que eu estava falando de mim? ;-)

Eliot D. Chambers disse...

Eu sei que vc não estava falando de vc.:-)

Norma disse...

Uma vez eu tive uma discussão semelhante com um amigo da Letras. Ele dizia que Paulo Coelho era literatura porque não existia essa fronteira entre o que era e o que não era, e eu rosnava de volta dizendo que aquilo era um absurdo. Uma amiga teve de apartar porque a coisa estava ficando feia demais. :-) É o que certa área da lingüística faz com as pessoas: nivela tudo e no final só fica a porcariada - os textos mal escritos, cheios de erros e sem genialidade alguma. Essa pregação niveladora deve ser obra de algum falso literato frustrado que inventou a história para se sentir melhor.

É interessante observar os "desvios da norma culta", como se diz, para comprovar algumas leis da linguagem oral, tal como a da economia ("cê" é mais rápido e curto que "você", por exemplo). Mas afirmar que a norma culta só existe como traço distintivo de uma "classe dominante" - e tem professor que diz isso - é puro marxismo aplicado ao uso do idioma, e não faz bem nenhum; só reforça a atitude negativa do estudante brasileiro, que é aplicar apenas o esforço suficiente para passar de ano e pegar o canudo no final. Afinal, se o bom uso do idioma está a serviço da "opressão", para que falar ou escrever bem? E depois ainda reclamam do nível dos estudantes de Letras.

Eliot D. Chambers disse...

Pois é, frô, e a caboclada sai das faculdades reproduzindo essas pataquadas marxistóides e acham que estão prestando um enorme serviço à cultura nacional.

Bjoca.

HelioPereiriano disse...

Prezada Norma

Foi Marcos Bagno que começou a vender a idéia de que "Gramática normativa é mera imposição das classes dominantes", usando como argumento o fato de que a lingua muda. De fato há autores condenando a falta de logicidade em muitas regras impostas como normas, ou mesmo criticando o discurso mal ajambrado para justificar uma regra que logo será violada num contra-exemplo, usando argumentos até bastante razoáveis para mudar o entendimento e a classificação de determinadas ocorrências gramaticais.

Contudo existem várias razões para evitar a proposta de Bagno, uma delas é o perigo de que no futuro sermos obrigados a estudar "Português Antigo" com ajuda de dicionários para entender Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, etc..

Com relação ao esnobismo, vou fazer uma experiência mental de tentar simular um pouco de atitude esnobe na minha cabeça para ver se os as idéias e pensamentos surgirão extamente como você teorizou:

Atenção...

attitude esnobe em 1, 2, 3, já...

hummmm....

Marcelo Hagah disse...

Olha, comecei a escrever uma gramática (estou contando isso porque sou esnobe) - sei que vou gastar uns dez anos para concluí-la, porque nós, esnobes, somos muito perfeccionistas - e na parte de Fonética e Fonologia acrescentei Processos Fonológicos (Metaplasmos), como uma espécie de apêndice. Ocorre que é difícil conseguir bons livros sobre prótese, epêntese, paragoge, aférese, hipértese e que tais... daí, busquei em Portugal (on line, claro) por um amigo de Leirias. No Brasil, tive que consultar os livros do Marcos Bagno (ele me disse que é "banho" que se fala), mas depois de ouvir a galera do contra, concordei com eles, e não leio mais o Bagno, e tirei a citação que havia na minha futura Gramática dos livros dele. Como eu consegui a mesma informação por outra fonte, resolvi citá-la em vez do Bagno. Sei lá, parece que a gente ao citar alguém está concordando com ele em tudo: pode ser isso que os meus 300 compradores da gramática pensariam... O que me diz?

Um abraço.

Marcelo Hagah
João Pessoa-PB

P.S.: E a Alina, já chegou?
P.S.2: Entra no meu blog, só uma vezinha. É que eu tenho um post novo. Só você me visita.

Marcelo Hagah disse...

Sobre o pessoal de Letras, aqui na PB é fogo! Os meninos não têm dinheiro, e não querem gastar dinheiro. Preferem gastar 200 reais com um abadá (para dançarem na Micarande) do que comprar um livro. Vivem de apostilas. Certa vez um professor disse que esse negócio de demônio ser do mal é coisa de cristão. No mundo grego não era assim. Daí, eu fiz uma pesquisa exaustivíssima e consegui marcar todas as vezes em que a palavra demônio aparecia na Ilíada e na Odisséia e mostrei para ele, que demônio era mal em Homero. E que foi Platão, que se dizia endemoninhado que resolveu dar um cheirinho "alma-de-flores" ao tema.
Este tipo de gente se forma e vai ensinar os nossos filhos. Meu filho de 12 anos, mesmo a gente sendo pobre, já leu todo (eu disse todo) o Dom Quixote publicado pela José Olympio. O melhor Dom Quixote em português. Leu devargarzinho, sem pressão, por curiosidade. Riu bastante... Leu também a coleção do Sítio do Picapau Amarelo... leu a coleção Para Gostar de Ler, Crônicas. Sabe xadrez e ganha todas na Scotland Yard... se um dia ele pirar e quiser fazer Letras, vai desistir.

Marcelo Hagah
João Pessoa-PB

Marcelo Hagah disse...

Perdoe-me se ainda volto ao Dom Quixote, mas a tradução que eu e meu filho lemos foi de Fernando Nunes Rodrigues, da Editora Otto Pierre, em 1980.

Marcelo Hagah
João Pessoa-PB

Marcelo Hagah disse...

Norma,

Desculpe-me mais uma vez. É que tenho um vício danado, e todo vício é danado, de trocar mau por mal. Oxe, parece um "encosto". Apressa me fez errar lá em cima... Acho que foi excesso de esnobice de minha parte. Não precisa publicar mais este post, senão vão pensar que sou muito esnobe. E eu não sou muito esnobe, sou só esnobe. Mas se não publicar, vão pensar que errei por burrice e não por pressa. Aqui no meu trabalho não consigo pensar direito com um bando de velha taramelando perto de mim.

Marcelo Hagah
João Pessoa-PB

Norma disse...

Oi, Helio! Acho que, com esnobismo, o método científico não funciona... :-)

Marcelino, a Alina chegou, sim! Chegou muito feliz.

Eu era uma criança tal como seu filho: devoradora de livros. Mas Dom Quixote, só li mesmo a versão para crianças do Monteiro Lobato. O menino vai longe!

Não se avexe com mal/mau; na verdade, eu entendi o erro como "o demônio era O mal (representava o mal) em Homero". Esses professores são mesmo muito engraçadinhos tentando dissimular a aversão ao cristianismo. Não conseguem, porque a gente é diplomado e escaldado em pescar preconceito anticristão.

Beijos!

HelioPereiriano disse...

Você acha...mas não tem certeza ;).
De qualquer forma o método que expus acima se refere a um princípio de que se existe um elo entre dois estados de espírito, então deve ser possível gerar um a partir do outro. Quem enunciou este princípio ? Não sei. Na verdade não é do meu conhecimento que tenha existido alguma coisa escrita invocando isso como princípio. Mas surgiu entre as minhas preocupações justamente para satisfazer "pretensões científicas". De fato sempre fui muito pretensioso. Mas não esnobe...acredito...e a propósito, acho que funcionou...você é uma gênia ;)

HelioPereiriano disse...

Só agora percebi a frase sobre esnobismo e método científico tem duplo sentido ! Oh não ! Que lerdeza ! :(

Hereticus disse...

Da resposta que deu D. Quixote ao eclesiastico que o censurou:

-"Eu,guiado pela minha estrela, sigo a apertada vereda da cavalaria andante, por cujo exercicio desprezo a fazenda, mas nao a honra. Tenho satisfeito agravos, castigado insolencias, vencido gigantes e atropelado vampiros; sou enamorado, so' porque e' forzoso que o sejam os cavaleiros andantes, e, sendo-o, nao pertenzo ao numero dos viciosos, mas sim ao dos platonicos e continentes. As minhas intenzoes sempre as dirijo para bons fins, que sao fazer o bem a todos e o mal a ninguem."

Da divisa de um relogio de sol:

In sweet deluding lies
Let fools delight.
A shadow marks our days,
which end in night.

Alguem comentou que em breve nossos filhos e netos terao que usar dicionario de portugues antigo (arcaico?). A melhor versao do castelhano de Miguel de Cervantes Saavedra e' dos viscondes de Castilho e de Azevedo, publicada no Brasil pela Editora Edigraf, em 1960, em 3 volumes. Vale o que o sebo pedir, venda uma propriedade se for preciso (enquanto o direito de propriedade nao for abolido,como o sera' na Federazao Bolivariana das Republicas Socialistas).

A cada dez anos (desde meus 20) releio o Quixote (ou o Quijote),e a minha citazao e' de memoria,
talvez ele nao tenha mencionado vampiros... Aos 70 anos a nossa memoria vai enfraquecendo, e a catarata vai nublando a vista.
Mas guardo bem o que ouvia de Gustavo Corzao na sua casa do Cosme Velho.
A todos a minha benzao.

PS. O meu teclado e' em lingua inglesa, por isso os "erros".
O ce^ cedilha troquei pelo z, e o til foi suprimido... Desculpem, e como diz Cervantes pela boca inspirada de Don Quixote, fazam o bem a todos e o mal a ninguem.

Marcelo Hagah disse...

É uma pena que o "hereticus" não deixou nem um e-mail. Eu tenho tanto que aprender com ele.

Snif,

Marcelo Hagah
João Pessoa-PB