26 outubro 2005

O que os EUA me ensinaram


De minha viagem à Disney aos quinze anos, tenho algumas lembranças marcantes, e duas delas contrastam fortemente com a realidade que tinha até então experimentado no Brasil.

Uma delas foi na própria Disneyland, quando, por reflexo, joguei a embalagem de sorvete no chão do parque impecavelmente limpo. Olhei em torno e havia dúzias de lixeiras enormes ladeando toda a rua; olhei para baixo, e apenas o meu papelzinho era estrela solitária naquele céu liso, uma vergonha para mim. Depois de hesitar um pouco, abaixei-me resolutamente, catei o papel e o depositei em uma das latas. Desde esse dia, exatamente dezenove anos sem sair do Brasil, nunca mais joguei nada no chão – mesmo que isso significasse andar um bom tempo com algo levemente pegajoso na mão ou na bolsa. Foi uma experiência que me educou para sempre.

A outra foi em frente ao hotel onde estávamos, quando, depois de ter comprado alguns petiscos para comer no quarto, eu precisei atravessar uma imponente auto-estrada de mão dupla por onde carros passavam em alta velocidade. Já tinham me contado que ali não havia sinal, pois os carros parariam assim que alguém se posicionasse no meio-fio, esperando. Mas nada se compara à sensação de comprová-lo: eles pararam lindamente, um do ladinho do outro, só para que eu – eu! uma moleca de quinze anos – desfilasse com total tranqüilidade diante dos monstros resfolegantes, só faltando dar a eles um tchauzinho de alegria.

A primeira, uma experiência de responsabilidade. O Brasil não nos ensina isso: pelo contrário, a todo momento somos recompensados pela maleabilidade das regras quando as infringimos, ou punidos pela nossa insistência em cumpri-las. Um buzinar impaciente atrás do carro parado à noite em sinal vermelho, o perdão da bibliotecária amiga pelos meses de atraso na devolução dos livros, o riso alheio de escárnio quando contamos que perdemos a bolsa de estudos porque dissemos a verdade sobre um emprego novo.

A segunda, uma experiência de valor individual. A quase neutralidade na reação corrente aos maliciosos esquemas da política e até o menor exemplo de comportamento cotidiano mostram que se entranha cada vez mais profundamente no espírito do brasileiro que as instituições ou as coletividades são mais importantes que as pessoas. O corporativismo nas empresas e universidades públicas, a voracidade do Estado que inibe a iniciativa privada e incha com a quarta parte de nossos salários, o tapinha nas costas que substitui a crítica isenta só para que todo mundo continue "unido", a brutalidade com que somos conduzidos pelo motorista nos ônibus das grandes cidades – tudo no Brasil favorece um resignado ou cúmplice encolher de ombros perante a grande máquina que, estatal, coletivista ou mecânica, sempre envolta em fumaças de "cordialidade", representa um simulacro de transcendência que oprime e não ama, comprazendo-se em chacoalhar corpos e almas até que se indistingam uns dos outros em uma massa amorfa e inerte.

Quisera eu que não fosse assim. Mas tem sido. Ainda que se negue tudo o que no Brasil tem pisoteado nossa liberdade individual – a falta de solidez que impede qualquer plano para o futuro, a vigência de leis absurdas e modos ainda mais absurdos de contorná-las, o monocromatismo das idéias que se impõem sem permitir contestação, a deterioração não natural, mas sobrenatural, do que nos cerca – , mesmo a menor atenção prestada aos olhares apagados que se cruzam com os nossos no dia-a-dia será testemunha disso. Quisera eu que substituíssemos o cultivo ao ódio pelos Estados Unidos, quase obrigatório em círculos bem (mal) pensantes da intelectualidade (hein?) brasileira, por uma saudável reflexão acerca do que lá nos incomoda tanto, e do que afinal temos feito aqui, para transformar pouco a pouco este país em um verdadeiro inferno.

13 comentários:

Claudio Tellez disse...

A falta de liberdade individual, no Brasil, vem dos indivíduos.

Oswaldo Viana Jr disse...

Indivíduo?? Que bicho é esse? :))

O brasileiro quer ser pessoa antes de ser indivíduo.

Acho que o Brasil fornece a idéia mais exata, neste mundo, do que será o purgatório...

Victor disse...

Vim, vi e gostei! Estás de parabéns, Norma! Blog lindo, textos impecáveis, será um sucesso.
Ganhaste um leitor diário!
Quanto à sensação, é idêntica à minha. Existe cá no Brasil a cultura da malandragem, do "todo-mundo-faz-então-faço-também", da Lei de Gerson (que parece ser a verdadeira constituição do Brasil)... É por essas e outras que eu descreio muito do Brasil, embora o ame de uma maneira muito minha, falando mal o tempo todo, mas com um sentido "pedagógico" em todo tempo.
Ah, e a escolha do título baseado em São Nelson Rodrigues é maravilhosa! Eu sou um fã de NR desde moleque.
Beijos e boa sorte nessa nova vida de blogueira.

Norma disse...

Obrigada, Victor! Eu amo Nelson Rodrigues desde a adolescência. Cheguei a fazer amizade com a Lucia, última esposa dele, mãe da Daniela (de quem ele fala em "A menina sem estrela", lindíssimo), que freqüentava a mesma igreja que eu. Um doce de pessoa. Nelson é como alguém muito próximo para mim, de tanto que me identifico com o que ele escreve. Ele me ajudou a abrir os olhos com relação ao esquerdismo e a alargar minhas perspectivas sobre a centralidade do amor. Além de ter um estilo incisivo e franco que, no mundo do "politicamente correto", ninguém mais tem, ele e Olavo me impulsionam para incorporar ao meu estilo essa parte integrante da minha personalidade, digamos, "obsessiva"... :-) algo que, numa mulher, muitas vezes fica escondido por medo de indelicadeza. E como precisamos, mais do que nunca, no Brasil excessivamente cordial (para não dizer hipócrita) de hoje, dessa firmeza de expressão, dessa força contra a pusilanimidade irrestrita! Fico muito feliz por você ter gostado do blog! Beijão!

Iraldo disse...

Pois eu já vim, vi e detestei. Gustavo Corção, Astrólogo Olavo, Nelson Rodrigues pré-sucumbência, ambiente noir dos anos cinquenta, tudo cheirando bolor e naftalina... Desculpem, mas não pretendo voltar mais aqui.

Leilah disse...

Oi, querida! Tudo bom? Passei aqui para deixar um oizinho! Depois leio seus textos com mais calma!

Beijos, e saudades!

Norma disse...

Hahaha! Depois de despejar sua chatice no blog do Claudio Téllez, Iraldo - com sua fotinha irônica - veio se sacudir um pouquinho aqui também... Não precisa se desculpar não, Iraldo! Fico feliz de ver que a naftalina funcionou...

Norma disse...

Leilinhah, volte sempre! Beijos!

Claudio Tellez disse...

Norma: Puxa, mas que cara chato. Sabe o que é mais engraçado? Pessoas assim falam de uma posição pretensamente "pluralista", mas fazem patrulhamento ideológico contra quem não compartilha de seus modos de pensar. Tentam impor o seu senso estético (ou ausência dele) e acreditam que podem moldar o mundo à imagem e semelhança de Fidel, Allende, Mao e tantos outros, sempre sob o discurso demagógico e delinqüente da construção de um mundo "mais justo".

Tomara que a naftalina funcione...

Abraços!

Norma disse...

Ahahahaha... Acho que já funcionou, Claudinho... Olha que eu vi o blog quase pornográfico (ridículo) do cara e nem falei nada, mas ele tinha que vir aqui empentelhar a paciência... Chato é apelido!!!

Marcos Vasconcelos disse...

Oi Norma, também dei uma passada no blog do "santinho". A mim me pareceu coisa de adolescente onanista.

Forte abraço.

Norma disse...

Oi, Marcos! Não só onanista. Viu como ele se referiu ao Nelson? "Pré-sucumbência" - ao catolicismo, claro. E a foto que ele usa também é reveladora da zombaria ao cristianismo como uma atitude "crítica". O mais engraçado de tudo é que ele deve se sentir muito original com bobajada, desdenhar do cristianismo e ironizar sobre o sexo como a única transcendência possível. Tadinho. Isso, sim, é mofo: de 40 anos atrás. Hoje, nada mais vanguarda que ser um cristão sincero, que mostra a cara para o mundo bater.

Claudio Tellez disse...

Norma: É pedir demais. A evolução mental dessa gente congelou em maio de 68.