27 janeiro 2016

Livro novo!

Entre leituras e trabalhos do Jumper, revisões, dores de cabeça e arritmias, ainda deu tempo de juntar um material de palestras e compor um livrinho para a Vinacc. É coisa pequena e simples, mas valiosa. Obrigada, Senhor!
Aqui vai o texto da contracapa. A foto foi feita pela querida Nathalia Chalegre na nossa igreja, Presbiteriana do Pirangi.
Este livro ajudará o leitor a perceber como a fé cristã oferece direção para todas as esferas da vida, inclusive a cultura, e como é possível ao cristão relacionar sua fé com este mundo de modo que possa transformar a cultura de seu lugar e seu tempo. 
Escrito de modo cativante e claro, a autora demonstra os benefícios que a fé cristã legou à cultura, alerta para os recente e perigoso movimento de secularização e oferece ao leitor uma proposta de posicionamento para que “nos tornemos menos parecidos com o mundo e sejamos mais parecidos com Cristo”. 
Norma Braga Venâncio é doutora em Literatura Francesa pela UFRJ e mestranda em Teologia Filosófica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (Universidade Mackenzie). Publicou A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã pela editora Vida Nova. É casada com André Venâncio e mora em Natal, RN.



21 janeiro 2016

Música que é a cara do Brasil - 1929




Refrão:
Quando nos saímos do norte
Foi pra no mundo mostrar
Como cantar aqui nesta terra
Um bando de tangarás

Uma madama pra fazer economia
comprou as perfumarias num tutu que ela encontrou
Saiu pra rua perfumada em todo canto
o perfume fedeu tanto que a madama desmaiou, ai…

Meu tangará, meu curió meu terra-a-terra
E o meu canário da terra que é danado pra cantar
Eu tambem canto uma semana um mês inteiro
E quando eu canto no terreiro inté a lua quer sambar, ai…

Eu fui fazer minha compra na feira
Eu vi tanta roubalheira de se encabular
Tava um sujeito de roubar com uma tal febre
Vendendo gato por lebre, ratazana por gambá, ai…

Na sepultura que eu fiz pra minha famia
Tinha um freguês por dia para se enterrar
Na minha vez quando eu cheguei ao pé da cova
Apesar de ela ser nova jé não tinha mais lugar, ai…

E lá no norte quando é boa a brincadeira
Lá tem bala e tem madeira, tem tabefe tem punhá
Mas eu não temo nem cacete e nem garrucha
Levei dez tiros na fuça e depois disso eu fui sambar, ai…

Dei um emprego ao filho do Zacaria
Só das onze ao meio dia que tinha que trabaiá
Mas o malandro pegar peso não podia
E além disso inda queria hora e meia pra almoçar, ai…

19 janeiro 2016

Nota Pública sobre debates entre calvinistas e arminianos

Diante da recorrência de discussões e ataques pessoais realizados no âmbito eclesiástico, na internet e nas redes sociais, especialmente entre calvinistas e arminianos para a defesa de posições teológicas, NÓS, abaixo subscritos, vimos a público emitir a presente nota:
Reconhecemos a importância e a historicidade do debate teológico dentro da tradição cristã como meio de defesa e salvaguarda da verdade e, consequentemente, da ortodoxia bíblica. 
Apoiamos a produção e a reflexão teológica realizada no ambiente da internet, em virtude de seu caráter democrático e do livre curso de ideias, como corolário da Reforma Protestante.
Repudiamos, todavia, que para a defesa de posições teológicas haja discussões e ataques pessoais realizados em nome da fé, que promovem dissensões, inimizades e escândalo ao nome de Cristo. Rejeitamos, assim, todo e qualquer conteúdo difamatório, ofensivo e jocoso, ainda que a pretexto do humor, produzido contra irmão de vertente religiosa diversa, que atente contra sua honra e imagem.
Entendemos incompatíveis com os preceitos que devem reger a conduta dos discípulos do Mestre posturas antiéticas que estimulam a zombaria, o desrespeito e o escárnio, baseado em dolo, distorções e mentiras. 
Discordamos das publicações anônimas, especialmente quando realizadas com o objetivo de provocar animosidade e discórdia entre os cristãos. Além de ser proibido constitucionalmente (Art. 5o, IV), o anonimato atenta contra os princípios bíblicos da transparência (2Co 3.18), sinceridade (Tt 2.7) e honestidade (1Tm 2.2).
Relembramos que a calúnia, a injúria e a difamação são crimes contra a honra, de acordo com o Código Penal Brasileiro, os quais não se coadunam com o caráter do verdadeiro cristão, que deve expressar o fruto do Espírito (amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança), conforme Gálatas 5.22.
Aconselhamos os cristãos piedosos a não dar audiência a páginas e grupos que promovam tais ofensas.
Defendemos e incentivamos a exposição de convicções cristãs, bem como o debate teológico na internet e nas redes sociais, de modo irênico, ou seja, de espírito pacífico (Rm 12.18), com cordialidade e respeito. A discordância e a confrontação das ideias alheias, quando for o caso, devem ser conduzidas com ética, honestidade intelectual e de maneira objetiva, sem denegrir e atacar o oponente.
Asseveramos que a produção teológica é, sobretudo, um ato de glorificação a Deus. Discussões, pois, que se desenvolvem com o único propósito de vencer desavenças intelectuais, baseadas em disputas do ego, estão longe de honrar o nome de Cristo. A determinação bíblica de “falar o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1) exige coragem, mas também responsabilidade, para os cristãos em geral e os pastores em particular, os quais devem ser, dentre outras coisas, “irrepreensíveis, honestos, moderados, aptos a ensinar, não contenciosos...” (1 Tm 3.2,3).
Citamos, a propósito, as palavras de J.I. Packer: “Se a nossa teologia não nos reaviva a consciência nem amolece o coração, na verdade endurece a ambos; se não encoraja o compromisso da fé, reforça o desinteresse que é próprio da incredulidade; se deixa de promover a humildade, inevitavelmente nutre o orgulho. Assim, aquele que expõe teologia em público, seja formalmente, no púlpito ou pela imprensa, ou informalmente, em sua poltrona, deve pensar muito sobre o efeito que seus pensamentos terão sobre o povo de Deus e outras pessoas".
Recomendamos, assim, a importância da constante elevação bíblica e espiritual do nível dos debates teológicos. E caso nos deparemos com um irmão em Cristo com postura inadequada e não condizente com a ética e pratica cristãs, que ele seja repreendido, mas que em tal ato não falte educação e principalmente amor.
Reconhecemos as diferenças marcantes historicamente existentes entre as tradições calvinistas e arminianas, notadamente em referência à doutrina da salvação. Todavia, tais divergências teológicas não suplantam a comunhão cristã que deve haver entre os irmãos dessas duas vertentes da cristandade. Em uníssono, à luz das Escrituras Sagradas, enfatizamos que a salvação somente se alcança em Cristo somente, mediante a graça somente, pela fé somente (Rm 3.24; Ef 2.8; Tt 2.11).
Finalizamos com a menção ao episódio em que o calvinista George Whitefield foi perguntado se esperava ver o arminiano John Wesley nos céus. Sua resposta foi: “Não. John Wesley estará tão perto do Trono da Glória, e eu tão longe, que dificilmente conseguirei dar uma olhadela nele”. Assim se tratam verdadeiros cristãos que discordam em questões de soteriologia, mas que não fazem nada por contenda ou vanglória, e consideram os outros superiores a si mesmos (Fp 2.3). E, sobretudo, estes sabem o preço custoso com que foram comprados por Cristo Jesus.
18 de janeiro de 2016.
Augustus Nicodemus Lopes, pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO.
Altair Germano, pastor da Assembleia de Deus - Itália, escritor.
Carlos Kleber Maia, pastor da Assembleia de Deus - RN, escritor de obra arminiana.
César Moisés de Carvalho, pastor da Assembleia de Deus, teólogo, escritor.
Ciro Sanches Zibordi, pastor da Assembleia de Deus na Ilha da Conceição em Niterói - RJ, escritor e articulista.
Clóvis José Gonçalves, membro da igreja O Brasil para Cristo e editor do blog Cinco Solas.
Davi Charles Gomes, Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP.
Euder Faber Guedes Ferreirapastor, presidente da VINACC (Visão Nacional para a Consciência Cristã).
F. Solano Portela Neto, presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil, conferencista e autor reformado.
Franklin Ferreira, pastor batista, diretor geral do Seminário Martin Bucer-SP.
Geremias do Couto, pastor da Assembleia de Deus, escritor.
Glauco Barreira Magalhães Filho, pastor batista – CE, professor universitário, escritor.
Gutierres Fernandes Siqueira, membro da Assembleia de Deus – SP, editor do blog Teologia Pentecostal.
Helder Cardin, pastor batista, reitor do Seminário Palavra da Vida-SP.
Jamierson Oliveira, pastor batista, teólogo, escritor.
Jonas Madureira, pastor batista, editor de Edições Vida Nova e professor do Seminário Martin Bucer.
José Gonçalves, pastor da Assembleia de Deus - PI, teólogo, escritor.
Magno Paganelli, pastor da Assembleia de Deus – SP, teólogo, escritor.
Marcos Antônio Moreira Guimarães, professor de teologia, obreiro da Assembleia de Deus - MT.
Mauro Fernando Meister, diretor do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper-SP.
Norma Cristina Braga Venâncio, escritora, membro da Igreja Presbiteriana do Pirangi, Natal-RN.
Paulo Romeiro, pastor, teólogo, escritor.
Renato Vargens, pastor da Igreja Cristã da Aliança de Niterói-RJ.
Solon Diniz Cavalcanti, pastor, teólogo, presidente do CEAB Transcultural.
Thiago Titillo, pastor batista, professor, escritor.
Tiago José dos Santos Filhopastor batista, editor-chefe da Editora Fiel, diretor pastoral do Seminário Martin Bucer-SP.
Uziel Santana, presidente da Anajure (Associação Nacional de Juristas Evangélicos).
Valdeci do Carmo, obreiro da Assembleia de Deus, teólogo, coordenador do curso de Teologia das Faculdades Feics, Cuiabá/MT.
Valmir Nascimento Milomem Santos, teólogo da Assembleia de Deus, professor universitário, editor da revista Enfoque Teológico.
Wallace Sousa, evangelista da Assembleia de Deus, DF, escritor, pós-graduado em teologia, coordenador da União de Blogueiros Evangélicos.
Wellington Mariano, pastor da Assembleia de Deus, escritor e tradutor de obras arminianas.
Wilson Porte Junior, pastor batista e professor do Seminário Martin Bucer.
Zwinglio Rodrigues, pastor batista, escritor de obra arminiana.

11 janeiro 2016

Palestras em Natal


Morre David Bowie




Antes de me tornar cristã, eu depositava minha confiança em uma divindade que oscilava entre o Deus cristão e o “deus interior” (ou força impessoal), um híbrido mal-ajambrado que sintetizava em minha mente as influências do meio em que eu circulava (espírita e esotérico) — alguém a quem eu orava vez ou outra enquanto conservava a certeza de que eu mesma era meu próprio Deus.

Isso começou a ser quebrado através de uma música de David Bowie chamada Quicksand (“areia movediça”). O refrão era anunciado pelas palavras “Não tenho mais o poder”, para arrematar: “Não acredite em si mesmo”. A cada vez em que ouvia essa música belíssima (e um tanto depressiva), sentia um tiro no coração que espatifava o tal deus interior. Mostrei-a para minha melhor amiga na época — que partilhava resolutamente de meus híbridos conceitos religiosos — e observei: “Mas não é um orgulho imenso esse negócio de acreditar em si mesmo?” Era o prenúncio de que em breve eu conheceria o verdadeiro Deus.

(Trecho de meu livro A mente de Cristo, publicado pela Vida Nova)

08 janeiro 2016

O filme cristão Quarto de Guerra



Semana passada, eu e André fomos ver um "filme cristão" - categoria que vem ganhando os espaços do cinema. Eis aqui minhas impressões. War Room (em português, Quarto de Guerra) não é um mau filme. Não é uma obra-prima artística, mas também não é perda de tempo. De forma geral, o Evangelho está presente, bem como a centralidade em Jesus. A história é interessante, os atores não fazem feio, as tiradas de humor - peculiarmente focadas em maus cheiros corporais - são eficazes e se integram bem ao todo. Há algumas pentequices, mas, como não sou uma reformada antipenteca, isso não me incomodou. No entanto, saí do cinema um tanto fustigada, como se a experiência tivesse sido negativa em algum nível que não consegui imediatamente compreender.

Esse artigo (em inglês) me ajudou a entender um pouco o porquê. Richard Brody aplica ao filme o termo "sanitizado" para referir-se à ausência total de balizas culturais na história. É algo que sempre me chateou, por exemplo, na série Friends, em que os personagens vivem em um vácuo inexplicável de leituras e arte. O mesmo ocorre em Quarto de Guerra. No contexto protestante, essa falta adquire um tom mais macabro, por causa do fenômeno descrito por Francis Schaeffer em O grande desastre evangélico e que eu costumo chamar, em minhas palestras, de "alienação": o cristianismo que se pensa ortodoxo (em contraposição ao sintético) meteu-se em um gueto cultural autodefensivo cuja crítica está apenas esboçada. No Brasil, muitas denominações ainda mantêm seus membros afastados de músicas, filmes, livros etc. considerados "do mundo". Quarto de Guerra não defende essa postura, mas também não desafia as fronteiras do gueto - e uma das consequências desse alheamento é apontada pelo autor do artigo muito acertadamente: a descrição pobre do mal, com seus atrativos e suas profundidades. Sim, Jesus salva - mas do quê? No que consiste a luta cristã? Quarto de Guerra faz parecer tudo muito simples e rápido, e a isso reagi mal emocionalmente, pois nada foi simples e rápido na minha vida cristã; muito pelo contrário. Assim, saí da sala sentindo o desconforto de um filme que representa pouco minha vivência e a de incontáveis outros cristãos.

Daí minha ênfase na descrição mais acurada do mal - no caso, da idolatria - que foi todo o objeto de minha dissertação de mestrado em Teologia Filosófica no Andrew Jumper.

05 janeiro 2016

Alegria e aceitação

Nunca entendi por que Should Have Known Better, de Surfjan Stevens, provoca em mim uma alegria inexplicável, misturada a uma espécie de sentimento de aceitação. O texto que descobri hoje me explica um pouquinho por quê.

Mais longe na periferia cultural: MEC consolida desenvolvimentismo na educação

Saiu hoje no Globo uma denúncia aterradora do historiador Marco Antonio Villa. Afirma ele que mudanças propostas pelo Ministério da Educação - a serem aprovadas até junho deste ano - equivalem a "culto à ignorância" e "crime de lesa-pátria". As novas diretrizes levam às últimas consequências os postulados do politicamente correto: "histórias ameríndias, africanas e afro-brasileiras" são o foco atual. A ênfase na raça e na geografia não é nova, mas sim um prolongamento lógico de uma tradição já descrita e criticada por Mario Vieira de Mello em Desenvolvimento e cultura, o desenvolvimentismo. Ao consolidar-se nesse currículo, tal tradição, que buscou em Marx as bases para uma identidade nacional, aprofunda agora o problema antigo para o qual apontou Mello: o abandono de considerações das ideias europeias. Agora, com a Europa devidamente apagada dos estudos históricos, efetua-se por canetadas o triunfo final de toda uma linha de pensamento cuja única preocupação é marcar uma orgulhosa diferença, racial e geográfica, em relação ao Velho Continente. Ou seja, um antieuropeísmo que nos situa em uma periferia mais distante ainda da cultura ocidental, ao lado de um brasileirismo que quer triunfar na marra, não por seus próprios méritos, mas por decretos ressentidos.
Homeschoolers serão ainda mais necessários, caso isso se torne realidade. E nós, educadores e críticos sociais, precisaremos mais que nunca de Vieira de Mello e seus continuadores para compreender os rumos do país, alertando e ensinando direito as novas gerações.

20 novembro 2015

Menos que um gato

Quando eu estava grávida (perdi o bebê aos cinco meses de gestação), lembro que Chantilly, como sempre, vinha para meu colo; mas, na minha nova condição, ele não conseguia relaxar - ficava olhando em volta, procurando aquela presença que sentia mas não via. E me assombro ao pensar que, neste mundo de hoje, há tanta gente com menos percepção que um gato.




07 agosto 2015

Uma pesquisa sobre o racismo: verdade e ira

Como a academia tem funcionado atualmente a partir das ênfases do politicamente correto? Aqui se tem uma amostra interessante na área da psicologia: uma pesquisa que buscou entender o racismo do branco contra o negro. Há, evidentemente, toda uma concepção errônea sobre as cotas como medida ideal (estatal!) para estimular o contingente de estudantes negros nas universidades. Mas também há momentos tocantes - por exemplo, a psicóloga conta que alguns entrevistados mostraram certa naturalidade em reconhecer que ser brancos lhes proporcionava "privilégios", como o mendigo branco que podia ir ao banheiro do shopping enquanto seu amigo, negro, era barrado. Nós, críticos do lado perverso da ação afirmativa (as palavras recentes dirigidas à apresentadora Fernanda Lima são um bom exemplo), precisamos prestar muita atenção a essas e outras histórias, pois corremos o risco sério de fechar os olhos para a existência do racismo na sociedade e em nossas atitudes (e aqui não posso deixar de lembrar o testemunho muitíssimo emocionante de John Piper).

Mas o que mais me chamou a atenção na reportagem foi a fala da pesquisadora sobre o que a afetou pessoalmente depois de seu trabalho. Ela respondeu que tem estado "muito irritada" ao perceber a maioria de pessoas brancas em determinados locais. (De fato isso pode ser bem revoltante. Lembro que uma das coisas que eu mais amava quando morava em Salvador era a presença negra por toda parte.) Mas a ira não é uma boa resposta; ela nos consome. O único modo de combater o racismo sem naufragar na ira é tornar conhecido o amor de um Deus que não discrimina as pessoas - um amor que molda as relações humanas, assim como moldou Piper.

01 julho 2015

Sobre ser parte de uma pequena minoria

Quando eu era espírita kardecista, durante meus anos de graduação, quase ninguém era. Eu dizia aos amigos, "hoje vou ao centro", e todo mundo perguntava: "Centro da cidade?" Agora que sou protestante reformada conservadora, há muito mais espíritas kardecistas em todos os lugares e quase ninguém é como eu. Não foi intencional, mas há algo divertido em fazer parte de uma pequena minoria toda vez. Além disso, a gente acaba se acostumando a ser espezinhado, xingado e excluído de todos os lados, tornando-se menos suscetível, mais aberto ao diálogo e às diferenças, nem que seja por pura necessidade.

Comemorar por quê?

Eu não sou exatamente a favor da redução da maioridade penal em casos de estupro, latrocínio e homicídio qualificado, como propôs a PEC 171/93 que foi rejeitada hoje, mas sim da retribuição adequada do Estado aos crimes graves cometidos por menores de qualquer idade. Mesmo assim, fiquei triste com a decisão final - e sobretudo fiquei sem entender o porquê da comemoração toda. Como a situação está agora, parece que tudo pende em favor do menor infrator (considerado vítima do sistema) e contra as vítimas (e seus parentes que clamam por justiça). Mas não é bem assim. A ausência de retribuição adequada faz com que os menores sejam presas fáceis dos criminosos adultos, que os usam sem escrúpulo nenhum para fazer o trabalho sujo. Os menores também acabam se tornando vítimas - não do "sistema", mas do mundo do crime. Por que esse fato não é levado em conta? Será que é porque os políticos mais famosos anti-redução estão muito ocupados em chamar gente como eu de "fascista", "racista" e "homofóbica" (??? - um ponto de interrogação para cada xingamento).

A matéria diz que a discussão continua. Vamos aguardar.

26 junho 2015

Suprema Corte dos EUA legaliza casamento gay

- O mundo segue firme rumo ao fim do casamento.

- Ué, por que, Norma?

- Porque havia motivos para o Estado regular e proteger o casamento tradicional: a maior fragilidade da mulher e dos filhos. Não porque o Estado é "bonzinho", mas porque estava especialmente interessado na estabilidade do núcleo familiar como o ambiente ideal para a formação de seus futuros cidadãos. Agora que as diferenças entre os sexos estão ruindo, mulheres e crianças vão deixar de ser especialmente protegidas em uma futura mudança da legislação. Duvida? Então aguarde.

- Mas o que isso tem a ver com o casamento gay?


- Quando o Estado passa a proteger uma união em que ninguém é especialmente frágil, todo mundo fica frágil, certo? Sem os fundamentos corretos para as leis, novos fundamentos são gestados. O Estado poderá passar a proteger outras relações com base em... nada de muito sólido. Com base no simples desejo "eu quero ser casado e reconhecido como tal". Sem o dever da criação de filhos, ou seja, sem a contrapartida ética. Uma sociedade que baseia o núcleo familiar em um sentimento, não na ética, não poderá durar muito. E um Estado que se interessa por regular todo tipo de relação não está pensando no bem comum, mas em seu próprio engrandecimento: quanto mais regulações, maior ele fica. 
Essa é uma decisão ruim que os gays que tiverem alguma consciência política ainda vão lamentar muito.

Quer ler mais sobre o assunto? Indico o livro (em inglês) What is marriage? Man and Woman: A Defense, de três autores que argumentam em uma linha próxima à desta postagem. Disponível em Kindle.

23 junho 2015

"Estou olhando para Jesus" - Paul Washer

Querem audiência? Aos autores de novelas da Globo

Li essa notícia sobre a novela Babilônia e pensei: talvez os autores de novelas da Globo estejam precisando de uma ajudinha...

Pois bem. Se querem audiência novamente, que tal esquecer as apelações sexuais? Isso já está por toda parte e as pessoas estão cansadas. Esqueçam também o politicamente correto. Isso também já está por toda parte e as pessoas estão começando a perceber o potencial destrutivo dessas lutas de poder: mulheres com ódio de homens, gays com ódio de heterossexuais, negros com ódio de brancos e vice-versa. O ódio cansa. Deixem de lado a iniciativa de "mudar as mentalidades". Está tudo mudando tão rápido que falar de mudança hoje é falar do óbvio. Tratem do que não está na pauta do dia. Tragam para as telas as grandes questões humanas, aquelas que nunca envelhecem: a busca de um sentido para a vida; a dificuldade de estabelecer relacionamentos verdadeiros; o impulso contraditório por imitar e por querer ser diferente; os afetos naturais e a tragédia quando estes faltam. Falem dos grandes problemas da nossa geração: a corrida por sucesso a qualquer preço, a excessiva exteriorização, a violência e a reificação da vida, a perda da sensibilidade ética e estética. Alguns de vocês sabem contar uma boa história e compor diálogos tocantes. Façam isso.

Minha "tevê" é um monitor de computador em que só vejo filmes e séries do Netflix. Não sintonizo nenhum canal local. (A última novela que acompanhei foi Laços de Família. Algumas cenas entre mãe e filha eram de fazer chorar. Isso não existe há um bom tempo na televisão brasileira.) Estamos em uma crise cultural terrível e, talvez não tão estranhamente, os últimos a reconhecerem isto são os mais envolvidos com rádio e tv. Mas, se a feiúra do cotidiano for fielmente espelhada na tela, as pessoas vão desligar o aparelho. A ficção - mesmo a mais despretensiosa - precisa apontar além e dar esperança. Essa é sua função mais nobre. 

10 junho 2015

Do mau uso da palavra "censura"

Bruno Gagliasso e outros atores da novela Babilônia, vejam só, acreditam estar sofrendo censura. Mas quem acompanha o imbroglio sabe: tudo o que aconteceu foi que, diante da rejeição maciça de boa parte dos telespectadores ao primeiro capítulo, que mostrava um beijo gay entre duas senhoras, a própria emissora correu atrás para remodelar a história mais ao gosto do senso comum. Se alguém censurou Babilônia, foram seus autores e diretores, a mando do deus Ibope, o principal ídolo da televisão. Vamos lá então, uma palavrinha para Bruno Gagliasso e outros que, como ele, gostam de bancar o mártir de uma pretensa ditadura conservadora: se vocês querem muitos beijos gays, gente nua e o escambau, sugiro largar as novelinhas da Globo e fazer teatro alternativo. Essa, sim, seria uma decisão corajosa. Aliás, teatro alternativo era o que estavam fazendo em 1968 atores como Marieta Severo, André Valli e Rodrigo Santiago, quando foram espancados pelo Comando de Caça aos Comunistas depois da peça Roda Viva - aquilo, sim, foi censura conjugada a violência. Horrenda censura. Não use nem aplauda a palavra em vão, caro elenco de Babilônia. Não desrespeite a memória de seus colegas que realmente sofreram, na pele inclusive, por sua consciência.

 

09 junho 2015

Igualitarismo

Por Douglas Wilson

O igualitarismo, nome político para a crítica invejosa, tornou-se a mim insuportável, como de fato deveria ser. A Feiticeira Branca (Nárnia) se depara com um extravagante banquete de Natal, que a ela parecera desperdício e consumo concupiscente: 'O que significam toda essa glutonaria, esse desperdício, essa autoindulgência?' Ela então transforma em pedra os que festejam e sai a seu modo perverso, cheia de autojustiça. Vemos que a Feiticeira Branca, Judas Iscariotes e os burocratas do governo têm um grande objetivo em comum - a preocupação pelos pobres, sinceramente expressa pelo uso que fazem da carteira alheia.

In: Futuros homens: criando meninos para enfrentar gigantes. Clire, 2013.

(Compartilhado no Facebook por Márcio Carvalho.)

08 junho 2015

Sobre o boicote à Boticário

Vejo no Facebook: alguns cristãos querem reagir à propaganda da Boticário - que mostra casais do mesmo sexo recebendo presentes e se abraçando no Dia dos Namorados - com um boicote. (Escrevo "boicote" e lembro que, quando éramos pequenos, eu e meu irmão nos acabávamos de rir com essa palavra; era popular nos telejornais dos anos 1980.) Quando feito assim, fruto de uma conclamação pública por parte de um setor inteiro da sociedade (lobby gay, igrejas etc.), o boicote não deixa de ser um procedimento baseado na chantagem: "Se você, empresa, continuar exibindo esses valores, a gente vai diminuir seu lucro." E isso é um tanto antipático. Não me entenda mal: acho legítimo e até bacana o indivíduo que deixa de comprar por motivos de consciência (McDonalds, foie gras etc.). Mas se a igreja acredita que deve se levantar para uma grande conclamação contra determinadas marcas, que face está mostrando ao mundo: ódio ou amor? toma-la-dá-cá ou serviço? A face do ódio não combina com sua missão, que é testemunhar Cristo. E temos falhado no serviço à sociedade, deixando de ser criativos na comunicação dos valores cristãos. O politicamente correto, embora fale de amor o tempo todo, trabalha com base no ódio; por isso promove boicotes contra tudo e todos. Não é assim que devemos proceder. É o que penso, pelo menos por enquanto.

09 abril 2015

Resenha de Mentira romântica..., de Girard

Ainda não leu Mentira romântica, verdade romanesca, de René Girard, mas gostaria de ter uma ideia do que trata esse livro que volta e meia eu menciono por aqui? Trago uma ótima resenha de Júlia Reyes, no blog de meu amigo Pedro Sette-Câmara sobre Girard. Vale muito a leitura!