05 janeiro 2016

Mais longe na periferia cultural: MEC consolida desenvolvimentismo na educação

Saiu hoje no Globo uma denúncia aterradora do historiador Marco Antonio Villa. Afirma ele que mudanças propostas pelo Ministério da Educação - a serem aprovadas até junho deste ano - equivalem a "culto à ignorância" e "crime de lesa-pátria". As novas diretrizes levam às últimas consequências os postulados do politicamente correto: "histórias ameríndias, africanas e afro-brasileiras" são o foco atual. A ênfase na raça e na geografia não é nova, mas sim um prolongamento lógico de uma tradição já descrita e criticada por Mario Vieira de Mello em Desenvolvimento e cultura, o desenvolvimentismo. Ao consolidar-se nesse currículo, tal tradição, que buscou em Marx as bases para uma identidade nacional, aprofunda agora o problema antigo para o qual apontou Mello: o abandono de considerações das ideias europeias. Agora, com a Europa devidamente apagada dos estudos históricos, efetua-se por canetadas o triunfo final de toda uma linha de pensamento cuja única preocupação é marcar uma orgulhosa diferença, racial e geográfica, em relação ao Velho Continente. Ou seja, um antieuropeísmo que nos situa em uma periferia mais distante ainda da cultura ocidental, ao lado de um brasileirismo que quer triunfar na marra, não por seus próprios méritos, mas por decretos ressentidos.
Homeschoolers serão ainda mais necessários, caso isso se torne realidade. E nós, educadores e críticos sociais, precisaremos mais que nunca de Vieira de Mello e seus continuadores para compreender os rumos do país, alertando e ensinando direito as novas gerações.

4 comentários:

Aprendiz disse...

Bom ano, Norma.

Norma disse...

Pra você também, Aprendiz! :-)

Lissa Pachalski disse...

Norma, acompanho há algum tempo teus escritos, os quais me ajudam muito a fazer uma leitura equilibrada da realidade (obrigada!).

Teu post me interessa por se tratar da famosa Base, assunto muito debatido por mim, que sou pedagoga em formação, com meus colegas e professores no âmbito da Universidade.

Há muitas controvérsias com relação às propostas da BNCC, de fato, e entendo (e concordo) com a posição de Marco Villa (e a tua) relativamente à disciplina de História, embora, creio, que ele esteja tratando do texto redigido para o Ensino Médio, com o qual não tenho muita familiaridade.

Entretanto, ao menos no que tange aos anos iniciais do ensino fundamental, na leitura que venho fazendo, uma "base curricular" é uma garantia importante de que as crianças, especialmente as mais pobres, tenham seus direitos de aprendizagem respeitados. Isso, também, porque a formação de professores hoje no Brasil tem sérias deficiências e uma delas está relacionada à falta de clareza sobre o que a criança deva aprender. Claro que definir quais são esses direitos de aprendizagem é o ponto crucial e, portanto, mais controverso, em todos os níveis da educação básica, e é justamente aí que o governo e outros interessados lançam mão de seus anseios ideológicos. Assim, entendo que a criação de um documento que "unifique" e "planifique" os currículos do país abra margem para manobras perversas. Entretanto, entendo também que abre espaço para o que defendi anteriormente. A proposta que está sendo elaborada para o 1º ciclo do ensino fundamental, por exemplo, tem como curadores e redatores grupos de pesquisa de universidades que realmente têm contribuído para conseguir um suado avanço no ensino e aprendizagem na alfabetização, com uma visão balanceada da educação.

Logo, creio que deva haver, como um dos mecanismos de controle, uma discussão mais contundente e contínua acerca do documento, o que incluiria a premissa de que, a partir da data em que for promulgado, sua redação fosse revisitada em 5 anos (para menos ou para mais).

Ah! Saiu um programa especial na Globo News agora há pouco sobre a Base.

Um abraço!

Paulo Tôrres disse...

O texto do Marco Antônio fala verdades, mas é profundamente ideológico no sentido direita , tal como a BNC é em sentido à esquerda (aff!)
Alguns dos seus argumentos mostram que ele não leu toda a proposta, como quando fala dos povos antigos, que estão incluídos sim, porém no 3º ano.
Apesar das incongruências e da ideologia anti-PT escrachada (basta ver os posts do blog), concordo plenamente que essa base está fora do que nós, professores de história, acreditamos ser importante ensinar.
O ponto positivo é que até março podemos entrar no site e opinar, coisa que não lembro ter visto anteriormente. Se for para mudar, essa é a hora!!