10 julho 2006

A perfeita liberdade - Jornal Palavra

Publicado no Jornal Palavra

Conversei sobre minhas dificuldades de decisão com um amigo, que buscou me esclarecer de três “peneiras” às quais era útil, para um cristão, submeter suas opções. “A primeira é a normativa”, disse-me, “pois antes de tudo precisamos saber se o que cogitamos fazer é lícito diante de Deus.” Confidenciei-lhe que, de fato, as opções que me restavam já haviam passado por esse crivo. “Ótimo”, respondeu. “A segunda é a circunstancial, que consiste em testar os limites da realidade para o que pensamos fazer.” Ou seja, eu deveria conhecer os trâmites de cada uma de minhas opções, para saber se poderia realizá-las. Deus, nessa segunda peneira, me ajudaria a discernir entre objetivos alcançáveis e inalcançáveis.

Finalmente, a terceira peneira, o coração. “Se o que você pensa fazer está correto segundo os padrões de Deus e é realizável, resta decidir o que você mesma quer mais.” Ponderei que até cristãos costumam pular diretamente para a terceira peneira, com uma impaciência que acaba sendo fonte de muitos arrependimentos.

A igreja evangélica brasileira costuma de fato confundir as três peneiras, aplicando-as sem critério. Limites normativos são impostos em questões de menor importância, enquanto um deslimite subjetivista dilui claras instruções bíblicas. “Por isso é importante utilizar sempre os três critérios na ordem”, concluiu ele.

Toda essa conversa brotou-me à mente enquanto lia um livro sobre Rimbaud, poeta francês que, brigado com Deus, buscava se superar pela palavra. Seus poemas revelam uma luta constante contra uma profunda falta de esperança, o sentimento de fatalidade, o medo da inexistência de um “além” libertador e o risco constante de aniquilamento do eu. Uma luz me atravessou: se a vida com Deus se resume a progressivos “sim” que damos a Ele, paradoxalmente somos mais livres quando a peneira menor – nossos desejos – está contida na maior, a dos desígnios santos de um Deus santo e apaixonado por nós. É quando podemos nos referir com alegria à perfeita liberdade em Cristo, que nos faz exclamar como Sulamita ao rei Salomão: “Eu sou do meu amado.”

8 comentários:

Eliot D. Chambers disse...

Que a igreja brasileira pare de umbiguismos presunçosos, legalismos bestas e possa perceber o quanto Deus a ama e anseia por um relacionamento que agrade ao coração do Noivo e transforme a vida da Noiva a cada dia.

Belo post, Normitcha!
Edificante, conciso e consistente.

Bjão!

Caio Kaiel disse...

"Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos que dormem. Mas, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados;quando, porém, somos julgados pelo Senhor, somos corrigidos, para não sermos condenados com o mundo." (I Co 11)

HelioPereiriano disse...

Oi Norma

Esta é uma questão de refletir se a consciência individual é insuficiente exigindo ser corrigida ou ampliada pela "norma". Em algumas interpretações da narrativa do pecado original, este tema é abordado, em que o arqui-inimigo de Deus se apresentaria como um iluminador, defensor da liberdade humana. Nos evangelhos, o conceito da liberdade pecaminosa é expresso como escravidão aos desejos. Recentemente, foi escrito um artigo nos Blogs Coligados, "Como Fazer Revolução Liberal" que talvez considere implicitamente estas 3 peneiras.

Adelice disse...

Excelente esta abordagem, Norma. Gostei muito.

Cláudia disse...

Fiquei pensando...
"Aquele que ama cumpre toda lei"
"Eu bem sei os pensamentos que tenho sobre vós, pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o FIM QUE DESEJAIS"...
Ainda pensando...

Anônimo disse...

Norma, tenho me esforçado em estudar português e venho aqui lhe pedir uma sugestão. Gostaria que você me sugerisse um livro de gramática para esse estudo que estou tocando.

Obrigado.

Lúcio

Anônimo disse...

vc pode postar a resposta neste espaço, pois costumo visitar este blog.

Lúcio

Anônimo disse...

Nesse contexto, o Anglicanismo não está falhando ao expor a cadeia Escritura -> Tradição -> Razão. Melhor explicar: A Escritura é a Escritura mesmo, a Tradição refere-se aos seis primeiros Concílios e literatura correlata, e não a qualquer "tradição dos homens", e a razão interpreta e adapta a circunstâncias extemporâneas. É sábio que a razão não seja auto-centrada, sem levar em conta a tradição, e que a tradição seja absolutamente consistente com a Escritura.
"Mas na prática a teoria é outra", e infelizmente a Escritura vem sendo vista como uma recomendação geral, o que tem resultado no drama pelo qual passa a IEAB e a Comunhão Anglicana de forma geral.
J O Avila