24 agosto 2005

O marxismo e a teoria girardiana do bode expiatório (1)

René Girard é um dos autores que mais admiro no mundo. Ele é um dos raros pensadores cristãos da atualidade cuja fé não é acessória em suas teorias, mas central, atestando o quanto está mergulhado de mente, corpo e alma naquilo em que acredita. Seu conceito de “mecanismo do bode expiatório” é um verdadeiro tesouro para quem quer que sinta a necessidade de compreender tanta matança, tanto ódio justificado racionalmente, em pleno século XX, o século de duas guerras mundiais.

Segundo Girard, todos nós sabemos da existência do mal e sentimos a urgência de uma solução para ele. Para os cristãos, Jesus trouxe essa solução, ao levar embora nossos pecados sacrificando-se Ele mesmo por nós – fazendo-se "maldito" em nosso lugar, como nos diz o apóstolo Paulo. Foi o sacrifício de um inocente, e nós, que cremos nele, é que nos declaramos culpados (o arrependimento cristão é nada menos que isso). Porém, para quem não crê, o problema do mal resta irresolvido, e a solução social que todos encontram – todos, sem exceção, segundo Girard, que pesquisou muitas civilizações antigas e o comprovou – é o "mecanismo do bode expiatório": fazer com que alguém encarne o mal e acreditar de verdade que esse alguém é culpado, eliminando-o em seguida. Tal processo funciona como apaziguador temporário, já que se trata de um falso fator de união entre os demais - em ódio, não em amor. Enquanto a Bíblia enfatiza que o sacrifício de Jesus é eterno, nas sociedades que expiam o mal por si mesmas é necessária a instauração contínua de novos bodes, em uma cadeia de sacrifícios sem fim.

Isso se verifica facilmente nas grandes tragédias do século. O povo judeu foi o bode expiatório da Alemanha de Hitler, e durante todo o regime nazista o ódio aos judeus fez parte, sem contradições aparentes, de um só projeto nacionalista e unificador. Do mesmo modo, o vago conceito de "classe dominante" tem servido como base para a condenação de levas inteiras de bodes expiatórios nos países comunistas e nas organizações de esquerda em geral, que querem enxergar na extinção de classes um ideal de paz. No cristianismo, há a compreensão de que não há quem possa particularmente encarnar o mal, pois todos o reconhecem, de forma estrutural, em si mesmos ("todos pecamos, todos carecemos da glória de Deus", afirma o apóstolo); em Jesus, o cristão encontra ainda a resposta única e definitiva para o problema do mal. Já a sociedade que sustenta seus valores sobre o mecanismo do bode expiatório é sempre uma sociedade polarizada, que fornece subsídios ao infinito para a hostilidade entre seus membros, apresentando em seguida como solução dos conflitos o fim dos que representam o mal – por morte social ou física. Ao endossar a tal “luta de classes”, quem colabora com isso ajuda a perpetuar um ciclo verdadeiramente diabólico, pois não há sacrifícios que cheguem para a sanha dos que pensam combater o mal dessa maneira.

2 comentários:

Cláudio Peixoto disse...

Oi, Norminha:

Adorei teu post. Muito bem escrito e toca num ponto fundamental sobre a política contemporânea: as soluções reducionistas que buscam extirpar o mal pela eliminação física do inimigo.

É inútil projetar a imperfeição humana em entes abstratos, como o Estado, o mercado, a mídia, etc...

Melhor reconhecê-la e tentar superá-la, seja pela fé, seja pela resignação.

um beijão,
Cláudio

Norma disse...

De preferência não pela resignação, que não vejo como poderia suscitar grandes coisas... :-))

Obrigada pelo comentário! Beijão!