26 julho 2005

Os fatos, os fatos, por favor!

Quase não acompanho mais o noticiário da CPI. Os depoimentos e as discussões em torno do assunto são tão disgusting que estão fora da realidade. Melhor ver um filme, ler um bom romance, ouvir uma sinfonia... Afinal, já que o ambiente no Brasil de hoje nos afasta da realidade, para ter contato com ela precisamos fugir para a obra de arte, a ficção! Eu já cansei de acompanhar, não os fatos, mas a conversação em torno. Para mim, todos os implicados na história se comportam como personagens inverossímeis, máscaras malfeitas, e qualquer personagem de ficção é mais real que eles.

Delcídio Amaral dando entrevista no Jô, por exemplo. Muito tranqüilo, dizendo que é "religioso", que é chegado numa "energia" etc. Reclama da atmosfera da CPI no melhor estilo bicho grilo new age: "Culpados ou não, o clima lá é tããããão pesado..." (Poderia escrever vários parágrafos utilizando essa pérola como um ótimo exemplo do quanto o brasileiro deixou de se preocupar com o certo e o errado e passou a privilegiar o "agradável" em suas relações... mas deixo para uma outra vez.) A determinada altura, afirma categoricamente (com concordância também categórica de Jô) que não estava preocupado porque conseguia perceber a inocência de muitos dos depoentes na CPI apenas pela expressão do rosto: "o olhinho fala" etc. Cúmulo da alienação ou do cinismo mesmo? Não sei... Mas enfim, ele acha que está falando com quem, com 180 milhões de bobos?

Nessas horas, alguém tinha de lembrar a ele com uma cotovelada discreta que muitos (inclusive eu) acreditaram no "olhinho" do Maníaco do Parque - o motoboy serial killer de jovens mulheres. Aquela carinha redondinha, cheia de sardas, o ar absolutamente infantil, tudo apontava para uma figura acima de qualquer suspeita. E era justo o olhinho dele que mais chamava a atenção, feito de uma sinceridade cristalina ao garantir em frente às câmeras que era inocente. Sei de gente que chorou quando soube, pela posterior apuração dos fatos, que ele era culpado de todos aqueles assassinatos. Pois o brasileiro já cansou de "olhinho" e de "promessinha". A gente quer mesmo é a graninha no lugar certo, onde deve estar, não no bolso largo de quem nos rouba. E isso só os fatos serão capazes de dizer - os fatos, esses seres que vêm sendo tão menosprezados pelos bem falantes da mídia no decurso dessa CPI.

2 comentários:

Bianca disse...

Parabéns pelo texto, Norma!
Eu ando sem a menor força de vontade de manifestar qualquer opinião sobre essa CPI, a qual faço, também, questão de acompanhar somente por textos em blogs ou esquecer. A cara do Delúbio ou do Bob Jeff na telinha, aumentando minha conta de luz, está fora de cogitação.
Outro dia, arrisquei espiar o Jô, com uma mesa de discussão com jornalistas. A única preocupação de todos é com o tratamento "desrespeitoso" com que alguns depoentes são tratados. Onde estamos, não? Aproveitando o final do seu post, a única declaração razoável daquela noite veio da Lillian Witte Fibe, exigindo que o PT devolva a grana e pare de falar em déficit.

Eliot D. Chambers disse...

Olá Norma !

Li seu artigo no MSM, e seu blog está muito bom. É sempre reconfortante saber que existem pessoas tementes a Deus que não tem medo de usar o cérebro, como você. Portanto, não se cale.

Quanto a podridão reinante na esfera política, nem chego perto. Tanto os políticos safados, quanto os jornalistas, subservientes e analfabetos, me causam asco... Prefiro me trancar no quarto e curtir um livro do John Stott ou estudar a Bíblia.

Fica com Deus!