11 julho 2005

Show de Truman à brasileira

Hoje eu estava no táxi indo para casa e o rádio estava sintonizado em uma dessas estações brega-desafinadas. Tocou então um "pagode" assim: "Tira essa mulher de mim, tira essa mulher de mim..." O sentido era: o cara estava apaixonado e não podia estar, precisava esquecer a mulher; vejam com que belíssimas palavras e com que sutileza isso foi expressado na "música"!

E aí me veio a certeza fulminante: o que falta para estarmos em pleno 1984? NADA! Temos a indigência cultural, fabricada especialmente para o povão e consumida unanimemente - escapar disso requer um esforço quase arqueológico; temos a diferença absurda entre quem trabalha para o Governo-Estado-Partido e quem não trabalha, em termos de remuneração, segurança e status; temos a invasão estúpida e absoluta de privacidade, feita por quem tem meios para isso, basta querer. Está tudo (com o perdão do cacófato) aí! A grande diferença, e que só torna a coisa toda milhões de vezes mais eficaz e perversa, é que a maior parte da situação não é imposta, mas consentida. É o sistema perfeito: as pessoas estão esmagadas, sentem-se esmagadas, mas jamais o diriam, porque a coerção não é visível, e não conhecem algo mais humano que isso.

Enquanto isso, a beleza natural do país vai fazendo o papel de um estupefaciente. Onde moro, por exemplo, as vistas são belíssimas, mas eu me sinto esquisita - como se soubesse que aqui é o lugar exato para passar o finalzinho da vida. Estaria feliz se só me restasse curtir a aposentadoria, devorando a literatura que ainda não conheço, passeando no calçadão, comendo nos ótimos restaurantes, fazendo amizade com os vizinhos, tomando banho de piscina na AABB (se eu fosse uma aposentada do Banco do Brasil). Por isso me sinto sufocada, sabendo que tenho tanto o que produzir e por aqui não há meios, não há estímulos, não há quem me ensine e sequer quem me ouça com interesse. Não consigo deixar de me lembrar do Raul Seixas: "Eu é que não me sento no trono deste apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a mooorte chegaaaaar!"

Quando a gente compreende o que está se passando, é inevitável essa sensação de figurante do Show de Truman!

Um comentário:

Roney Belhassof disse...

Por mais que a gente discorde de alguém sempre há pontos de convergência.

Este é outro ponto em que concordamos bastante.

1984 fala sobre a possibilidade de um mundo fascista. Tem uma história em quadrinhos de um inglês chamado Allan Moore (eu acho) que se chama V de Vendetta e versa sobre a mesma possibilidade, só que foi escrita na década de 80 e ambientada na Inglaterra.

Como você vê não estamos sozinhos neste receio...

Não sei o que fazer além do que vc e eu fazemos: falar em nossos sites sobre os nossos temores. Mesmo que vc veja a ameaça vindo de um lado e eu de outro, pelo menos estamos falando nela e talvez isso sirva para ajudar a mudar o rumo das coisas...