06 junho 2011

História de minha conversão (III)

“aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo”

Hebreus 9. 27

Quando criança, eu já sabia que o homem era mau e Deus era justo. O que eu não sabia era como se manifestava Sua justiça. Criada por uma avó espírita, achei natural crer, aos oito anos, que a justiça de Deus se produzia através da reencarnação: os espíritos padeciam nesta vida, mas recebiam uma nova chance nas vidas posteriores. Essa explicação me satisfez durante vários anos.

Aos 24 anos, como já contei aqui, fui apresentada ao Evangelho. Meu amigo A.R. pregou para mim e me mostrou o versículo em que a crença espírita mais importante, a corrente sem fim de sucessivas vidas, é definitivamente contrariada pela Bíblia. Li Hebreus 9:27 mais de vinte vezes até me convencer de que a Bíblia não endossa a reencarnação. E aos poucos compreendi que a solução reencarnatória somente adia o problema, na medida em que o mal não é resolvido, mas “empurrado” para encarnações posteriores, que invariavelmente criam novas situações irresolvidas (karma). Infinitizando a questão, o diabo consegue diluir a sede de justiça em muitos. Lembrei que, ao assistir a um vídeo espírita pouco antes de me converter, não pude deixar de pensar no quão tristes aquelas pessoas se mostravam: o sofrimento apenas parece menos pesado quando estendido para várias e várias vidas.

Com a pregação da Palavra, pude alegrar-me na solução bíblica para o mal, expressa no que chamamos já e ainda não. Em Cristo, pela fé (e não por obras), somos justos, não perfeitos nem totalmente isentos da capacidade de fazer o mal, mas sim justificados Nele, sendo Ele a nossa justiça, o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29). Cristo tornou-se condenação em nosso lugar (morreu nossa morte, como explica Paulo em Romanos 4.25) e resolveu o problema do mal, de uma só vez, para sempre. Se pecamos, é Nele que temos perdão eterno; se desejamos não pecar, é porque Ele nos deu esse desejo; se nos aperfeiçoamos, é porque Ele provê graça sem fim para que, no processo de arrependimento, perdão e cura, haja compatibilidade cada vez menor entre nossa alma e a propensão para atos, palavras e pensamentos maus, ofensivos a Deus e aos homens.

E o ainda não consiste na vida eterna, uma só vida após a morte, em que o mal e a morte serão definitivamente vencidos. É o que Calvino expressa tão magistralmente nas Institutas (livro 1, cap. V, 10):

Quando notamos que as indicações que Deus fornece de sua clemência e severidade são ainda inacabadas e incompletas, sem dúvida é preciso considerarmos que Ele preludia obras maiores, cuja manifestação e exibição plena serão percebidas na outra vida. E, de modo inverso, quando vemos os devotos serem talhados pelos ímpios com aflições, abatidos por injúrias, oprimidos por calúnias, dilacerados por afrontas e opróbrios e, ao contrário, os celerados florescerem, prosperarem, obterem a tranquilidade com dignidade, e isso impunemente, de imediato devemos concluir que haverá outra vida, na qual tanto a maldade será vingada quanto a justiça reposta.

De fato, é o próprio Deus, em Jesus, que exclama “Bem aventurados os que têm sede de justiça, pois serão saciados” (Mateus 5.6), apontando tanto para a justificação que Ele propiciou para nós na cruz, por meio da fé Nele, quanto para a maravilhosa palavra que fala em julgamento, novos céus e nova terra, em Apocalipse 20 e 21:

Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. E aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.

6 comentários:

Simone Quaresma disse...

Que lindo texto, amiga! Ê Calvino...Vocês dois me encheram os olhos de lágrimas!!!!

Esli Soares disse...

Norma,

Legal sua experiência... mesmo em doses homeopáticas, é um bom remédio administrado.

Abraços.

Esli Soares

Luciano disse...

Tenho acompanhado sua trajetória e me alegrado com a maravilhosa graça do Senhor na vida dos seus escolhidos, movendo todas as coisas para levá-los àquele lugar e hora em que o as arranca da morte em delitos e pecados para a vida eterna. A carona na saída da UERJ, o jazz, duas semanas de profundo esvaziamento da vida que eu achava possuir, como foi no meu caso, enfim, as cordas de amor do nosso Deus e Senhor. O que fazer senão glorificar o Senhor por tudo isso?
Bom lê-la de novo, querida amiga!
Faz um ano desde que descobri esse seu blog e vi que era possível conciliar a fé e o intelecto, que não era necessário abandonar este por aquela, nem tornar aquela o pálido objeto deste.
Ainda ouço Heloísa Rosa achando que é você cantando ao Senhor (rsrsrs) - já comentei sobre isso uma vez, desde os comentários ao "Coisinhas sobre mim(2)".
Glorifico o Senhor por sua vida e por esse espaço onde podemos encontrar irmãos comprometidos com o Senhor, escrevendo - abraços também no André - e comentando.
Abração.

Norma disse...

Simone, não vale, você é chorona igual a mim! :-)

Esli, obrigada!

Luciano, teve jazz na sua história também? Mas que legal!

Até que a Heloísa Rosa tem um pouquinho do meu estilo, sim. :-)

Abração!

Luciano disse...

Norma,
na verdade, a carona e o jazz foi referência a sua experiência, no meu caso teve mais foi dor mesmo, mas depois a alegria do Senhor que se sobrepõe a todas as coisas. Para mim o jazz veio depois, aliás, depois que encontrei seu blog e o Rev. Augustus Nicodemus no Tempora/Mores e descobri, ao contrário do que tinha aprendido antes, que não era pecado ouvir a dita "música do mundo".
Vai uma dica na linha da Heloísa Rosa e de que gostei também: Nívea Soares.
Abração.

Casal 20 disse...

Norma, querida, lindo! Como já disseram, o testemunho de conversão em tempos de reversão é uma benção e bálsamo.

Mas estamos passando aqui para desejar a você e ao maridão um Felicíssimo dia dos namorados!

Abraços sempre afetuosos.

Fábio e Lu.