10 março 2010

Interpretações (3)

Sei que, apenas por meu antiesquerdismo, muitos colam ou colarão em mim uma atitude elitista. (No entanto, que injustiça, se estudassem saberiam que o Estado socialista é a forma mais cruel de elitismo!) Pelo contrário, meu sempre presente horror ao elitismo foi o que me salvou de muitos erros teológicos. Explico.

Quando eu era esotérica, tinha literalmente raiva da Bíblia porque, segundo os “mestres” do esoterismo, o que se lia nunca era o que se lia. Lembro-me de assistir a palestras sobre a Bíblia em um centro esotérico. A palestrante, “incorporada”, explanava o trecho em que Jesus vê Natanael embaixo da figueira (Jo 1.48). Dizia ela: “Filipe significa isso, Natanael significa aquilo, a figueira significa aquilo outro...” Ou seja: sem uma ridícula, nada democrática e provavelmente impossível tabela de simbolismos, os escritos bíblicos seriam sempre um conjunto inalcançável. Isso me manteve por anos longe desse Livro, pois, apesar de esotérica, desagradava-me profundamente que fosse uma leitura somente para “entendidos”.

Hoje, quando leio sobre os críticos heterodoxos que adoram — a-do-ram — inventar simbologias escalafobéticas para a Bíblia, no mesmo estilo que a mestra “incorporada” (“tal personagem significa isso...”), sempre formulo mentalmente a seguinte regra: se a leitura desses “eruditos” é diferente demais da leitura de qualquer mortal, jogue fora. O mesmo vale para estudiosos que até acatam o sentido primário dos textos bíblicos, mas os desprezam em favor de outros “mais profundos”, aos quais se apegam mais, afirmando até mesmo que esses sentidos (o “básico” e o “profundo”) se opõem! (É, tem louco pra tudo…)

A questão é: Jesus nunca deixaria longe de seu Reino os pequeninos; muito pelo contrário, eles são privilegiados na revelação (Mt 11.25)! Portanto, desconfie da chamada teologia liberal e neo-ortodoxa, além de todo tipo de “esoterismo cristão”: a maioria desses autores eruditiza demais a Bíblia e nega a leitura básica, mandando os pequeninos amados por Jesus para o fim da fila da compreensão de sua fé.

6 comentários:

Ricardo Mamedes disse...

Norma,

O texto é muito bom especialmente porque se lembra dos "pequeninos", tão amados por Deus.

E eles deveriam ser lembrados por todos os cristãos, à semelhança do mestre, uma vez que "Deus vê o coração, enquanto o homem vê o exterior. Eis então a pergunta: haverá vantagem para os eruditos, elitistas, acadêmicos, luminares do conhecimento, quando forem sopesados pelo Altíssimo?

Ricardo

Norma disse...

Ricardo,

O engraçado é que a teologia liberal posa de "libertária", quando, na verdade, ao negar a leitura mais básica, torna-se uma perfeita gaiola, já que para ler a Bíblia você precisa necessariamente de um aporte absurdo de informação. Isso molda psicologicamente o leitor para desconfiar de todo significado óbvio, de toda associação imediata - e pronto, ele é forçado a usar para a Bíblia "lentes especiais" que precisará deixar de lado para outras atividades, digamos, mais "prosaicas".

O que ocorre com os leitores esotéricos que "se acham" cristãos é tão trágico quanto: ao atribuir ao texto bíblico significados que se opõem, admitindo tranquilamente uma duplicidade de leitura, não estarão admitindo uma terrível duplicidade em suas próprias vidas?

É a dura realidade: o mundo erudito, hoje, gosta de produzir conteúdos que contrariam a experiência, conteúdos que negam as obviedades cotidianas, conteúdos que são como uma rasteira no entendimento comum.

Fazendo isso, esses eruditos SEQUER desconfiam de sua MALDADE em relação aos pequeninos.

Liberdade? Só em Cristo, com essa fé simples que decorre de uma recepção direta de Sua Palavra. Sem firulas nem adequações convenientes à "modernidade".

Abraços!

Filho do Camoatí/RS disse...

Concordo com o seu post. Quanto mais envelheço mais acredito em uma interpretação mais literal da Bíblia.Parabéns!

André disse...

Muito bem, Norma!

A religião do homem é sempre elitista. Em minhas andanças mentais pelo Oriente, o que mais encontrei foi isso mesmo: uma interpretação literal para o povão e uma "espiritual" para os iluminados. O liberalismo não é muito diferente disso. Aliás, o pastor Augustus já registrou em algum lugar essa relação entre as duas coisas.

PROF. LUIS CAVALCANTE disse...

Parabéns pelo texto, muito edificativo e apologético vivencial.

Deus continue te abençoando ricamente.

http://luis-cavalcante.blogspot.com

Paulo Pires disse...

Prezada Norma,

Ingenuidade sua assumir que quando Jesus falou de "pequeninos" foi em sentido literal. Você precisa entender o sentido profundo por trás desse termo.

Hehehe... É claro que é brincadeira!

Um grande abraço.