24 abril 2008

Porque Ele é bom II: Livramento

Quando eu tinha uns 12 anos, costumava ir à praia na companhia de uma amiga de escola. Apesar de jovens mocinhas, éramos inconseqüentemente destemidas: à tarde, hora sem muito movimento, nadávamos até bem depois da arrebentação, onde já não havia quase ninguém por perto. Eu havia desenvolvido, nessa época, um método bastante eficaz, embora não infalível, de escapar ilesa do efeito caixote: mergulhava o mais fundo possível, tentava ao máximo me postar na horizontal e passava por baixo, arrastando-me por onde a onda permanecia mais estável. Só não funcionava quando eu errava o timing e acabava me embolando um pouco acima; aí não tinha jeito: rolava até a margem e me entupia de água e areia até a alma. Para no dia seguinte começar tudo de novo, ainda que a noção de perigo de morte se afigurasse nítida a cada vez - principamente diante de ondas maiores, que chegavam a ultrapassar três metros de altura.

Hoje de manhã, no entanto, não haveria método que me livrasse das ondas que acometeram o catamarã de Charitas no trajeto Niterói - Rio. Apenas Deus poderia conter a força inédita das águas da Baía da Guanabara, que invadiram a embarcação arrebentando duas portas, quebrando cadeiras e derrubando vários passageiros de uma só vez. Era como se pudéssemos capotar no mar; de fato, a sensação era de estar em um carro que, tendo perdido o contato constante com o solo, corcoveasse perigosamente na pista. Era também como estar em uma montanha russa marítima e nada empolgante, sem saber o que aconteceria depois de cada violenta subida e descida. Quanto às informações visuais, não me perguntem como foi: atrás de uma divisória opaca e sólida, fui bastante poupada, ao abrigo não só da traumatizante imagem das ondas chegando, mas sobretudo dos efeitos da água - que apenas molhou meus pés ao fim da viagem, enquanto havia machucado e encharcado as dezenas de pessoas que se sentaram mais à frente. Do cantinho seguro em que eu estava, sem poder me levantar, acompanhei os fatos pelos movimentos, gritos e barulhos das portas quebradas e, quietinha, apenas clamei por Deus.

Quando chegamos, alguns ilesos (como eu) e outros nem tanto, mas todos vivos, tivemos a certeza de que havíamos escapado de morrer. Mas eu tinha uma certeza maior e bem mais plena de positividade: Deus me queria viva. Apesar de ainda tremer com o acidente - sou do tipo inglesa, fico calma nos piores momentos e passo muitas horas nervosa depois - , não posso evitar um pequeno impulso revigorante depois dessa quase-tragédia: Deus me quer viva, e o livramento de hoje é uma das provas de Sua vontade.

Mais sobre o acidente
Depoimentos de quem viu mais que eu

Comandante: "Graças a Deus não aconteceu nada pior"

22 comentários:

deb disse...

II Tessalonicenses 3:3.
glória a Deus por isso.
quanto amor e cuidado!

Cristiano Silva disse...

Que bom que Ele te quer viva. Assim você poderá continuar abençoando nossas vidas por mais um tempo com suas reflexões. Graças a Deus por isso.

Abraços.

Gustavo Nagel disse...

Semana esquisita no Rio de Janeiro. Ondas de três metros na Baía, tremores de terra na Zona Oeste... E que bom que acabou tudo bem tanto para você quanto para os demais.

Abraços.

Roger disse...

Que susto heim?!
Mas que bom vocês escaparam dessa, graças a Deus.

Abrçs fraternos,

Roger

Rouver Júnior disse...

Pedi a Deus, em nome de Jesus, que continue te guardando e te abençoando ainda mais.

Fica com Deus.

A paz do Senhor.

Anderson disse...

Norma,

Eu me alegro com você, louvando a Deus pelo livramento que Ele lhe concedeu.

Enquanto muitos daqueles passageiros talvez atribuam ao acaso o fato de estarem bem, nós nos alegramos no Senhor, sem olhar as circunstâncias!

Abraço

Mauricio Abreu de Carvalho disse...

Oi Norma
Essas experiências são muito boas para percebemos nossa finitude.
Em um pequeno instante já não somos mais.
Que bom que você esta aí para contar essa história.
Deus continue te abençoando.

João Paulo Mendes disse...

Paz do Senhor,

Que belo blog ainda estava distante de meus olhos, parabéns pelo conteúdo, pela sobriedade.
É certo que Deus, pelos motivos que só a Ele pertencem, tem livrados seus servos há todo tempo, a outros, tem Ele levado pra Si pois Lhe é prazeroso, mas graças a Deus que o nome dEle foi exaltado por esse livramento recebido por você, certamente esse é o propósito dEle: que Seu nome seja exaltado em nós.

Em Cristo,

Joao Paulo
www.joaopaulo-mendes.blogspot.com

Diego dy Carlos disse...

Gosto de pensar que Cristo nunca nos prometeu um caminho fácil, mas um fim certo.

Que estas experiências te façam crescer, com a certeza da mão invisível de Deus ao seu lado.

Deus te dê graça.

Norma disse...

Deus os abençoe, queridos leitores e amigos!

Uma palavrinha. É engraçado como a animosidade vem de onde não se espera. Às vezes recebo um comentário aqui, outro ali, de pessoas se queixando que "a calvinista não se importa com o destino de outros". Ora, não há nada no post ou no blog que indique tamanho egoísmo. Quando damos graças a Deus por um livramento, não estamos excluindo de nossos agradecimentos o fato de que outros foram poupados juntamente conosco. Não entendo esse tipo de observação, que obviamente é oriundo de uma rixa boba anticalvinista - da qual alegremente me evado, se me permitirem. Por isso não publico comentários pueris fundados em pré-julgamentos e hábitos ad hominem de conversar.

By the way, fico pensando o que essas pessoas falariam de Davi quando enuncia que ficará de pé enquanto muitos cairão à direita e à esquerda. "Você não tem pena, Davi, de quem está à sua volta?" A resposta é óbvia: "Tenho, porque são seres humanos como eu. Porém, se não colocarem sua confiança no Senhor, estarão sujeitos a destruição." No que depender de mim, continuarei a louvá-lo por Seus livramentos, confiando que tudo está debaixo de Seus desígnios.

Cristiano Silva disse...

"Gosto de pensar que Cristo nunca nos prometeu um caminho fácil, mas um fim certo."

Frase boa esta não? :-)

Joabe disse...

Doutora Norma.
Que susto todos devem ter levado ?!
Posso até imaginar, porque já tive a oportunidade de navegar num mar violebnto e não foi nada agradável a experiência.
Mas que bom vocês escaparam dessa, graças a Deus.A vontade Soberana dEle nunca pode ser frustada.

Em Cristo,

Joabe

Norma disse...

Frase boa, sim, Cristiano! :-)

É verdade, Joabe. Ainda assim, muitos que se dizem cristãos continuam crendo que Deus é totalmente impotente diante do mal. Mandá-los ler a Bíblia é a única coisa decente que podemos fazer.

Marcelo Hagah disse...

Glória a Deus por seu livramento. Você é querida, muito querida por Deus e por seus amigos. Conte com minhas orações de gratidão a Deus e de proteção.

Eu, que já morri pelo menos umas 3 vezes, sei de como você se sente.

Marcelo Hagah
João Pessoa-PB

Norma disse...

Marcelo, saudades de você! Como foram essas três mortes, hein? E que cegonhinha é essa? Conta!

Christopher Marques! disse...

Norma,

Tudo bem com você? Faz um bom tempo que não nos vemos. Desde o aniversário da Juliana.

Penso que o livramento é uma das variáveis formas de Deus dizer: eu te amo, eu tenho um propósito na sua vida, eu me importo com você e claro, eu cuido muito bem de você.

O interessante é que pequenas coisas demonstram o imenso cuidado de Deus. É muito enriquecedor valorizar a simplicidade da ação de Deus. Nem sempre o céu se abre ou a terra treme, mas um vento suave também revela a presença paternal e sustentadora do Pai Eterno.

Um grande abraço e tudo de bom,

Christopher Marques
www.cristomarques.blogspot.com

Marcelo Hagah disse...

Norma,

Minhas três mortes não se comparam ao seu livramento. Vou te contar, mas não vá ficar com inveja (risos).

A primeira: eu era bebê, estava com sarampo, muita febre. O médico disse: "Já era!" E eis-me aqui. Bom, mamãe me contou essa história um dia desses.
A segunda: essa é fogo! Melhor, essa é água. Eu estava me afogando num belo açude no interior da Paraíba. Era, na verdade, o reservatório de água de muita gente lá. Meu pai dizia: "Crianças tomam banho aqui, e só aqui". Eu, curioso, fui para a área dos adultos, porque era mais fundo... como não sabia nadar, caí num buraco e afundei. Ocorre que, mesmo não havendo ninguém por perto, nem por longe, eu gritei muito por minha mãe (eu tinha cerca de 9 anos), mas minha mãe estava em outra cidade, há 20 km. As crianças sempre gritam pela mãe, né? Ocorre que, quando desisti de me debater, e resolvi descer ao fundo escuro do açude, uma grande mão baixou e me pegou. Era uma prima minha, que padecia das faculdades mentais... SAbe Deus de onde ela veio. Eu perguntei, mas ela não conseguiu me explicar. Ela me salvou.

A terceira morte: um choque elétrico.
A quarta morte: um tiro que não pegou, mas eu vi a fumaça passando por meu nariz.

Cruzes! Caba difícil de morrer, sô!

Eu conto como mortes, porque sei que Deus me buscou de novo da morte. Que nada impediria minha derrocada, minha destruição não fosse a carinhosa mão de Deus, o seu cuidado.

Ai, ai... Se me lembrar de outras mortes, te conto.

Ah, a cegonha... bem, minha esposa quer outra criança, e a pressão tá grande. Meu Calebe vai fazer, se Deus quiser, 3 anos no dia 23 de maio. E o kimono de judô do outro irmão (que tem 14), quando era pequeno, já cabe nele. Daí, acho que estamos perdendo o nenê... ele está crescendo. Somos carentes de bebês. Acho que vou abrir uma creche. Não consigo, nem minha Diana, ficar sem bebês por perto. Eles gostam de mim, riem quando me vêem, até hoje nenhum chorou quando me viu, nenhum me estranhou. Acho que tenho cara de palhaço, ou alguma coisa engraçada.

Um beijo. Estava com saudades também.

Marcelo Hagah - mais tagarela do que antes.
João Pessoa-PB

Edson Junior disse...

Olá. Conheci você via Nagel há já um tempo, mas ainda não havia cumprido a obrigação de comentar aqui e dizer que seus textos são muito bons.

E é claro que Ele lhe quer vivinha.

Júlio Pereira disse...

A paz do senhor irmã!!
Graças a Deus pelo livramento que ele te deu. Creio que o fim está se aproximando pois estamos tendo terremotos até no Brasil, local considerado estável há muito tempo.
Conheci você através do Saulo, que conheci no período em que estudava na UFRJ.

A biêntot!!

Francisco Mário disse...

Norma, todo livramento mostra que estamos a um passo da eternidade. Graças a Deus por estar viva.

Anderson Gonzaga disse...

Norma,

Por falar em livramento, hoje se comemora o "Dia D" . Um grande livramento ocorreu naquele dia.
Sei do seu amor pela França e pela cultura francesa e, graças ao "Dia D", não estão a falar alemão hoje em Paris....
Me angustia que a história não seja importante para a maioria das pessoas e não se cultive mais respeito por datas marcantes para o homem.
Não vi quase ninguém se lembrar desse dia histórico!

Abraço

Pri Mataruna disse...

Ele quer usar sua inteligência.
Isso é muito bom. Se você tem alguma promessa dEle para sua vida, você pode concluir que você não morre enquanto elas não acontecerem... hehehe!
Grande abraço, que Ele te encha com o Seu Espírito.
Priscila.