21 setembro 2007

Girard e o politicamente correto

Estou lendo um livro chamado Quand ces choses commenceront, transcrição de uma longa entrevista de René Girard. Traduzi aqui alguns trechos sobre o politically correct e o "totalitarismo da vítima", termo de Girard que expliquei algumas vezes aqui no blog. Traduzi também o que ele afirma sobre "os crentes fundamentalistas" americanos - algo que se estende perfeitamente a nós, crentes brasileiros, que somos criacionistas, não cedemos ao politicamente correto e não abrimos mão da nossa fé por uma pretensa rivalidade entre fé e ciência, fé e filosofia, fé e intelectualismo.

Se você quiser estender a mão para além do alcance dos livros evangélicos e continuar nos arraiais bíblicos, não perca tempo com os Bettos e Boffs da vida; leia Girard. Tem me abençoado muitíssimo. Minhas observações estão entre colchetes e em itálico.
Hoje, as perseguições são todas em nome da vítima. (...) Veja, por exemplo, o verdadeiro terror que paira atualmente sobre as áreas de letras e de ciências humanas, chamadas antigamente de setores mais vulneráveis da universidade americana. É a união dos "single-issue lobbies", ou seja, os grupos de pressão étnicos, feministas, neomarxistas, gay and lesbian liberation etc. A partir do momento em que a preocupação vitimária se universaliza de modo abstrato e se transforma em um imperativo absoluto, torna-se por sua vez um instrumento de injustiça. Através de uma espécie de mecanismo de compensação, existe hoje a tendência de considerar um privilégio o simples fato de pertencer a um grupo minoritário, algo que dá direito, por exemplo, a títulos nas universidades. A cada vez em que talento pedagógico e qualidade de publicações são substituídos por critérios de seleção puramente étnicos e sociais, a universidade americana perde em eficácia ao abrir mão das regras que regem a concorrência, com base em méritos. [Estamos caminhando para isso no Brasil...] O meio universitário se transforma em uma burocracia autocrática, em um sistema hierárquico alheio a critérios como a pesquisa bem-sucedida ou os bons resultados na transmissão de saberes. Essa nova hierarquia que vemos suplantar a antiga não representa progresso algum. No plano social, um Nietzsche ao contrário não é melhor que o original, que pregava o aniquilamento dos fracos e dos vencidos.

No final das contas, o poder da vítima se torna tão grande em nosso universo que acaba se transformando em um novo totalitarismo. (...) Os textos cristãos o previram! (...) O Apocalipse de João é todo constituído dessas predições. O que significa Anticristo? Significa que haverá uma imitação de Cristo, como uma paródia. Descreve-se um mundo exatamente como o nosso, no qual aqueles que mais perseguem o fazem em nome da luta contra a perseguição. [Incrível como vivemos em um mundo que se parece como uma sala de espelhos: as inversões se sucedem, até se tornarem inversões das inversões das inversões...] O comunismo soviético foi exatamente assim.

Os nazistas diziam: "Nós vamos mudar a vocação do mundo ocidental, anular o ideal de um universo sem vítimas. Vamos fazer tantas vítimas que será reinstaurado o paganismo." Mas hoje, nos Estados Unidos [no Brasil também], o que nos ameaça é o politically correct... que eu defino como a religião da vítima, isenta de toda transcendência, com a obrigação social do uso de uma verdadeira "língua de pau vitimária" que vem do cristianismo, mas que o subverte mais insidiosamente que um anticristianismo escancarado. [Costumo dizer que a forma cultural do esquerdismo, que é o politicamente correto, sobrevive como um parasita do cristianismo: mantém a casca, mas "come" por dentro todo o aspecto principal, transcendente, da fé cristã. E o mecanismo da "língua de pau" nos manda dizer "afrodescendente", "homossexualidade", "direitos reprodutivos da mulher", enquanto joga negros, gays e feministas contra brancos, heteros e homens, multiplicando a violência sob a máscara de uma linguagem neutralizada por pressão.]

É preciso sobretudo não se fixar em uma posição "revolucionária" ou "tradicional". Eu sou um moderado, na verdade... As pessoas me vêem como uma obsessivo, só porque não mantenho ilusões à la Rousseau, que acreditava na bondade inata do homem. A teoria do pecado original ensina como nenhuma outra a moderação, ao contrário do que dizem seus críticos. Crer na bondade inata do homem, fonte perpétua de desilusões, leva sempre à caça do bode expiatório. [Quando o homem não vê o mal dentro de si, ou seja, não se reconhece como pecador, ele procurará extirpar o mal fora de si - fazendo-o encarnar-se em outros homens. Por isso, também, o cristianismo é um poderoso inibidor de violências.] Sobre isso, aliás, são exemplos a própria história de Rousseau e o desenvolvimento de sua paranóia.

[Os criacionistas e os fundamentalistas em geral] são hoje o bode expiatório da cultura americana. [Da brasileira também!] A mídia distorce tudo o que eles dizem e os trata como os últimos dos últimos. (...) São verdadeiros banidos da sociedade. É fato que os americanos não conseguem resistir a pressões sociais. Veja a Universidade: essa tropa imensa de carneirinhos que se crêem perseguidos, enquanto não são. Os criacionistas são, mas resistem à pressão social. Para eles, tiro meu chapéu!

Nos EUA e em outras partes do mundo, o fundamentalismo é resultado da ruptura do acordo diplomático entre a religião e o humanismo anti-religioso. Foi o humanismo anti-religioso que efetuou tal ruptura, defendendo causas como o aborto e manipulações genéticas, e que ainda culminarão na adoção de formas de eutanásia em perfeita conformidade com regras sociais. Em poucas décadas, o homem terá se transformado em uma repugnante máquina de gozo, liberta das dores e até mesmo da morte, ou seja, de tudo o que o estimula paradoxalmente não só à transcendência religiosa, mas a tudo que há de mais nobremente humano.

Os fundamentalistas até defendem teses que eu rejeito, mas existe neles um resíduo de sanidade espiritual que os faz pressentir o horrível campo de concentração que as burocracias benevolentes estão preparando para todos nós. A revolta deles me parece mais respeitável que nossa sonolência. Estamos numa época em que todo mundo abre a boca para se vangloriar de ser um pária, um marginal, ao mesmo tempo em que demonstra uma espantosa docilidade mimética. [É de fato o que vivemos: todo mundo clama ser diferente e original, mas todos afirmam as mesmas coisas, partilham os mesmos valores, cultivam as mesmas reações. O crente, não.] Os fundamentalistas são dissidentes verdadeiros.

03 setembro 2007

Os dois infinitos

Romanos 7:14-25

Compreender a altura imensurável da santidade de Deus, longe como o céu, e aprofundar o alcance de minha própria condição de pecadora. Sim: infinito para cima, infinito para baixo. Olho para cima e toda aquela distância é demais para mim, jamais chegarei. Olho para onde estou e o fosso é enorme, jamais sairei dele. Quanto mais contato tenho com Tua Palavra, Senhor, mais entendo os dois infinitos. Quanto mais entendo a extensão da Tua santidade, mais suja me vejo, mais indigna sou.

Quando penso ter vencido um pecado, mil outros se afiguram diante de mim, aparentemente intransponíveis. Salva-me!

Quando me alegro com alguma atitude amorosa, mil outros pensamentos abomináveis se apossam de mim, em uma sucessão e força insuportáveis. Salva-me, Senhor!

Quando minhas motivações me parecem razoavelmente boas, mil sentimentos contraditórios e perversos apenas aguardam a vez de mostrar seus rostos terríveis. Oh, Senhor...

Este corpo de morte é pesado demais, não o consigo carregar.

Mas, se me sento e choro, é a Tua mão que rompe toda barreira entre os dois infinitos e me ergue no ar, pecadora como sou. Se me reviro em horror diante de mim mesma e encolho-me diante de Tua perfeição, é o sorriso de Jesus que me convida a entrar nesse vácuo aberto por Ele: “Eu te apresento limpa diante do Pai, não temas.”

Jesus é o ponto de intercessão entre os dois infinitos que, sem Ele, jamais se cruzariam. Irrompe no tempo e restabelece a relação com o Pai, para sempre. Enquanto eu me lembrar disso, jamais errarei o caminho. Mas, se esqueço meu infinito e o infinito de Deus, meu coração se acostuma à sujeira de minha alma e não vê a pureza do Pai. Perco meus dois referenciais máximos e me destruo ao inventar um padrão estreito para mim mesma.

A vida cristã é a tensão entre o infinito mal do homem e o infinito bem de Deus, tensão que só se resolve em Jesus. Meu mal só não é infinito porque eu O tenho. Mas, se não O tenho, renuncio a sair do fosso em que estou, também para sempre.

Querido Jesus, livra-nos do mal eterno. Amém.
Ó eterna verdade, verdadeiro amor, querida eternidade! Tu és o meu Deus e eu suspiro por ti dia e noite. Quando comecei a conhecer-te, elevaste-me para ti para me mostrares que eu tinha ainda muitas coisas a compreender e como era ainda incapaz de o fazer. Fizeste-me ver a fraqueza do meu olhar, lançando sobre mim o teu esplendor, e eu estremeci de amor e de espanto. Descobri que estava longe de ti, na região da dissemelhança, e a tua voz vinha a mim como que das alturas : “Eu sou o pão dos grandes; cresce e comer-me-ás. E não serás tu que me transformarás em ti, como acontece com o alimento do teu corpo; mas tu é que serás transformado em mim.” Agostinho (354-430), Confissões, VII, 10

27 agosto 2007

O socialismo petista


Esse VÍDEO sofisticado foi produzido especialmente para um dos congressos do PT. Nele, fala-se sem rodeios da ambição petista: implantar o socialismo no Brasil.

Reparem na linguagem. A palavra "socialismo" jamais é definida adequadamente. Não é dito, por exemplo, que os governos socialistas se apropriam da riqueza com o pretexto de melhor distribuição - uma óbvia falácia. Na prática, o que ocorre é a criação de uma superclasse governista mais poderosa e mais rica, enquanto o povo se nivela em uma escassez inimaginável, que supera em muito a pobreza presente em nossas favelas urbanas; para ter certeza disso, basta ler sobre Cuba, China, a antiga URSS. (Enquanto os lares dos morros cariocas têm uma profusão de antenas de tv, por exemplo, o cubano não pode comprar itens básicos como pasta de dente e papel higiênico, e come absurdamente pouco e mal. Cuba é um grande sertão nordestino sem seca.) Bom, o PT já está poderosíssimo, com os impostos absurdos que continuamos pagando e um potente aparelhamento estatal na educação e na mídia. O que falta? Ah, falta substituir totalmente o conceito corrente de democracia - aquela em que o povo é livre para escolher o que quer estudar, o que quer escrever, o que quer financiar, em que quer trabalhar, se quer votar - pela falsa, a petista: aquela em que "governo do povo" significa "governo do PT". O governo petista reformula o conceito de democracia para erigir à vontade verdadeiros sacerdotes com todos os poderes representativos, acima do bem e do mal.

Fala-se o tempo todo tanto de "democracia" quanto de "quebra de poder dos grupos dominantes", mas não é revelado como isso se dará. Imagino que a resposta é: por vias sutis e/ou por vias autoritárias, o que der certo. Aqui, de novo, há uma torção conceitual. "Grupo dominante", não se enganem, não segue um critério econômico. Se fosse assim, toda a classe política e artística seria considerada elite. A questão é: o rico pode ser rico à vontade, desde que seja socialista ou comunista. Os ricos e influentes Fidel Castro, Chico Buarque, Luís Fernando Verissimo e Zé Dirceu estão com os oprimidos e não com os opressores, pois adotaram o discurso de esquerda. "Grupo dominante", portanto, é simplesmente sinônimo de oposição: serve para caracterizar todo e qualquer sujeito que se oponha ao projeto de poder petista. O conservador que repudia o governo totalitário dos regimes comunistas é tachado de "membro de grupos dominantes", mesmo que seja pobre e sem relevância política alguma (e geralmente é).

Mas o que mais me chamou a atenção no vídeo foi esse trecho: "A reflexão [no congresso do PT] segue afirmando o socialismo como alternativa ao capitalismo e negando as experiências do socialismo real." É uma confissão, equivalente a dizer: o socialismo real não dá certo. É preciso uma tremenda imprecisão na linguagem - com a balela adicional "o PT opta por não ter uma definição única sobre socialismo" - para criar uma cisão entre uma bela idéia de socialismo e uma realização espúria, em todos os países em que foi implantado.

Bom, eu não apostaria tanto assim na negação do "socialismo real" - pelo menos, não enquanto o governo petista estiver apoiando inequivocamente a ditadura cubana e a ascensão da ditadura venezuelana. Além disso, as ocorrências e as decisões autoritárias desse governo apontam para uma definição bem mais precisa do tipo de socialismo que querem os petistas:

- Corrupção generalizada nos altos escalões do governo e absolvição constante dos culpados: uma "classe" impugnável, um verdadeiro panteão de ídolos a quem não pode se atribuir dolo algum.


- Abolição da propriedade privada (quebra do mandamento "Não furtarás") através da mesma estratégia usada na antiga URSS com os "sovietes": tomada de terras à força pelo MST sob o pretexto de "justiça social".

- Leniência para com a violência do crime organizado nas grandes cidades: o desespero do povo fomenta o desejo por um governo autoritário. É mais fácil governar no caos.

- Desarmamento da população com vistas à impotência dos cidadãos honestos diante de uma futura coerção mais agressiva do governo. Os criminosos continuam fortemente armados.

- Tentativas sucessivas de criação de órgãos públicos para submeter a pequena parcela da mídia que ainda resiste à ideologização e ao aparelhamento.

- Educação pública cada vez menos qualificada e cada vez mais ideologizada; quer-se dos alunos a filiação ao projeto socialista, não a proficiência nas matérias escolares.

- Fomento dos ditames do politicamente correto e repressão aos grupos religiosos que se opõem a eles: promoção governamental do aborto, do homossexualismo, das drogas, do sexo nas escolas.

- Perseguição generalizada aos opositores: demonização de manifestações populares e espontâneas como o Cansei (o próprio presidente da república gosta de usar o termo "golpistas"); processos sem fim contra Diogo Mainardi; ameaças de morte e abaixo-assinados contra Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo; processo jurídico contra o Pr. Ademir Kreutzfeld por "crime de homofobia" antes mesmo da implantação do famigerado projeto de lei.

Diante disso tudo, mui sinceramente, se o Brasil não tiver mais jeito e quando tudo estiver sob controle dos socialistas, eu espero que os meus amigos de esquerda (os que permaneceram meus amigos) se lembrem de mim quando eu for presa ou sofrer algum processo jurídico injusto. (Ok, piada sem graça. Não percam as esperanças: vamos continuar denunciando esse governo e pedindo a Deus que nosso país não afunde de vez nessa ideologia idolátrica e destrutiva.)

25 agosto 2007

Se eu não publicar seu comentário...

Mensagem aos leitores

Se eu não publicar seu comentário, caro leitor, saiba que foi por um dos motivos seguintes:

1 - Grosseria e/ou zombaria: infelizmente, o mais comum. Publico às vezes, quando o texto grosseiro ou escarnecedor pode servir de amostra didática da falta de compostura de algum comentador que, dizendo-se irmão, é "devasso, ou idólatra, ou maldizente" (1Co5:11).
2- Chantagem emocional: infelizmente, o segundo mais comum. Em vez de argumentar contra as idéias que apresento, o comentador tenta me convencer de que estou pecando ao escrever que tal coisa é heresia ou tal líder precisa se arrepender. Meu conselho: leia a Bíblia.
3 - Comentário longo demais e falta de tempo para responder, principalmente quando (a) as idéias do comentador já foram refutadas muitas vezes por mim ao longo deste blog ou (b) o texto é confuso e mal argumentado.
4 - Erro do Blogger. Às vezes perco comentários e não sei onde foram parar.

Conselhos:

A quem cai no caso número 1 - Desista. Se vier, venha em paz e com argumentos.
A quem cai no caso número 2 - Desista. Se vier, venha com maturidade emocional e espiritual.
A quem cai no caso número 3 - Não desista, pesquise o assunto no blog todo e reescreva.
A quem cai no caso número 4 - Poste novamente!

13 agosto 2007

A menina sem estrela

A Revista Veja veicula essa semana uma matéria sobre Marcela, a menina anencéfala que está completando nove meses, contra todas as predições médicas. O texto se chama "A Menina sem Estrela", título feliz emprestado de uma crônica de Nelson Rodrigues. A menina sem estrela é a filha de Nelson, Daniela, que nasceu com um problema cerebral. Eu a conheci. É uma mulher linda, de uma brancura diáfana, traços fortes e perfeitos. Fica paradinha, olhos cerrados, cabeça ligeiramente inclinada. A mãe, Lúcia, diz que ela gosta de ouvir rádio. Daniela é linda, e mesmo com vida vegetativa possui uma dignidade de ser humano que nenhum eugenista irá tirar dela.

Leitores desaprovam Reinaldo Azevedo por defender a vida de Marcela. O lugar-comum sobre o caso fecha a matéria de Veja na espantosa frase de um pediatra: "É como se ela fosse um computador sem processador." Computador? A lógica do aborto é sempre reificadora. Pronunciar sentença de morte sobre um feto ou um idoso por doença é condenar a humanidade inteira ao aniquilamento. Assim é que, todos os dias, somos postos fora displicentemente, como aparelhos danificados que não prestam mais.

No entanto, apesar de sua anomalia congênita, Marcela não foi
jogada na vala comum dos objetos inúteis ou das sobras orgânicas de hospital. Teve direito a um nome, a uma certidão de nascimento e ao amor paterno. Tem seu lugar garantido na história, modificou a vida das pessoas à sua volta, deixou sua marca pessoal. Será sepultada como todo ser humano deve ser, mesmo os que não têm cérebro: com sua dignidade intacta. Deus seja louvado por isso!

09 agosto 2007

O Pastor e o Filósofo

Era uma vez um Pastor muito comunicativo e sorridente que tinha uma igreja enorme e era benquisto por toda a comunidade evangélica de seu país. Preocupado com a pureza teológica da doutrina cristã, adquirira excelente fama ao escrever livros contra o perigo das heresias da Nova Era. Mas havia algumas dúvidas profundas em seu coração, dúvidas difíceis de serem reconhecidas e esclarecidas. O Pastor acreditava que, se desse voz a essas dúvidas, poderia comprometer todo o seu ministério. A essa altura ele não sabia, mas identificava-se cada vez mais com o pensador francês Voltaire, que não conseguia harmonizar soberania de Deus e existência do mal.

Um dia, o Pastor encontrou o Filósofo, alguém com quem compartilhar suas perplexidades. Começou não só a ler avidamente autores que negavam o cristianismo, como Sartre e Nietzsche, mas também passou a ter gosto por uma estranha teologia, que considerava Deus menor que Ele é. Essa teologia havia sido construída sobre as mesmas preocupações de Voltaire: Como dizer que Deus é bom e soberano ao mesmo tempo? Deus não pode ser responsável pelo mal que há no mundo. O que se depreendia disso era estarrecedor: em vez de ecoar Jesus nas palavras “nenhum fio de cabelo cai de vossas cabeças sem que o Pai tenha permitido”, ou ecoar Davi no salmo 139 “todos os meus dias estavam escritos”, os adeptos de tal teologia preferiram afirmar que Deus não sabe do mal que advirá. Ele não sabe e não é responsável. E se regozijaram com isso.

Assim, o que é invenção desesperadora, para alguns, torna-se fato aliviador, para outros. O Pastor e o Filósofo começaram aos poucos, juntos, a disseminar na igreja que Deus é “aberto” e nada está determinado. Alegraram-se nessa indeterminação e na liberdade que parecia advir dessa doutrina. Não atinaram, ou não pareceram atinar, para as horríveis conclusões:

Se Deus não sabe o futuro, Deus não habita totalmente na Eternidade. Há “partes” de Deus sujeitas ao tempo, tal como nós somos sujeitos ao tempo. Assim, se em parte Deus é finito, Deus não é todo-poderoso e o mundo não está sobre Suas mãos. Deus, portanto, não é Deus, mas Semi-Deus. Há fatos que estão abandonados ao acaso e ao poder decisório dos homens, unicamente. O homem que sofre jamais poderá encontrar alívio na soberania de Deus, mas terá de se conformar com o fato inequívoco do acaso. Deus não protege o tempo todo, Deus não guia, Deus não ensina. Sujeito ao tempo, Ele é passível de aperfeiçoamento, sendo portanto imperfeito, "aberto". Mesmo em momentos cruciais – morte de um parente, pobreza, fome, dor existencial – Deus pode “piscar os olhos”. Ele não vela por nós, não interrompe o curso da destruição deste mundo nem faz com que a destruição tenha uma finalidade. Ele não tem uma vontade soberana à qual o homem deve obedecer. Por outro lado,se Deus diminui, o homem cresce. A autonomia humana está preservada. O homem passa a ser senhor de seu destino.

Para o Pastor e o Filósofo, portanto, o Deus da Bíblia, o Pai de Jesus Cristo, não passava de ficção. Como poderia ser, um Deus soberano (Rm 9, At 4:24, 1Tm 6:15, Jd 1:4, Ap 6:10, Sl 139, Mt 7:21, Mt 23:10, Mt 10:30, 2Pe 2:1) que preside todo o universo, passado e futuro, cada um de nós? Um Deus totalmente fora do tempo, Deus criador, que submete a si mesmo Sua criação? Sim, porque, do ponto de vista temporal, o homem toma decisões importantes; mas só o homem submisso à vontade de Deus – o homem que abdica de sua autonomia, “morto para o mundo e vivo para Deus”, controlado pelo Espírito Santo – toma as decisões corretas, com poder de vida eterna, para conversão e obediência. É quando a eternidade irrompe no tempo e dá vida ao que estava morto. É quando Cristo encarna, morre e ressurge, evidenciando em sua própria carne a soberania de Deus e a vitória final de Sua vontade contra todos os desvarios humanos.

Negar a soberania de Deus é negar o próprio Deus.

Ao fim de suas investigações filosóficas, Voltaire não suportou crer em um Deus que permite o mal no mundo e terminou seus dias como ateu. Já o Pastor e o Filósofo adotaram para si um outro deus, um falso deus, em um ateísmo disfarçado de cristianismo. Esta história tem um final mais ou menos feliz. Grande parte da igreja em que serviam o Pastor e o Filósofo terminou por rejeitar seus ensinamentos. Houve dor e dilaceramento nessa separação, mas a certeza de permanência na verdade acompanha os que se foram. Os cristãos leais e sinceros certamente oram pelo arrependimento do Pastor e do Filósofo, na esperança de que se convertam de seus pecados e voltem a crer no Deus da Bíblia, soberano e infinito.

Para entender melhor a história
Para entender melhor 2
Resenha sobre um livro de Piper et alii sobre a TR

06 agosto 2007

Atualidades e, mais importante, John Piper


Estou aqui em um ritmo intenso de trabalho. Enquanto isso, escolhi alguns textos importantes:

- Sobre os dois boxeadores que fugiram e algumas informações recentes sobre Cuba: Fuga do Paraíso, Ipojuca Pontes;

- Sobre a manifestação contra o governo Lula na Avenida Paulista: Resistam ao peso..., Reinaldo Azevedo;

- Uma recente descoberta teológica, graças a meus queridos amigos Juliana Portella e Franklin Ferreira: digite John Piper na seção de busca do site Monergismo, opção "autor", e escolha pelo menos um entre os 61 textos que aparecem na tela.

Tenho assistido a alguns vídeos de Piper, da série Battling Unbelief (Enfrentando a Descrença), que está para sair no Brasil com legenda em português (os meus estão com legendagem em inglês e espanhol). Fique de olho!

A primeira coisa que me chamou a atenção nessas pregações de John Piper foi o modo tão pessoal com que ele se expressa no púlpito. Você tem a nítida impressão, oposta à de tantos pregadores expostos e incensados na mídia televisiva, de que ele não adotou nenhuma persona - ou segunda personalidade - para estar ali. Seu vocabulário não é padronizado, seu jeito de falar não é teatralizado, a expressão de suas emoções não segue nenhum tipo de linguagem televisiva especialmente concebida para tocar o público. Além dessa imagem de autenticidade que ele passa, algo por si só extraordinário se pensarmos nos cansativos espetáculos e micagens oferecidos por tantas igrejas de nossa época, Piper pontua tudo o que diz com extensas citações bíblicas, mostrando solidez teológica sem parecer impessoal ou distante. Essas duas características são, de fato, conscientemente adotadas por ele, que ainda as aconselha a todo crente que deseja "ensinar e pregar o calvinismo":

- Regozije-se por causa das críticas. Aquele que conhece e descansa na soberana graça de Deus deve ser o santo mais feliz. Não seja um anunciador amargo, melancólico, hostil ou falso para a glória da graça de Deus. Louve-a. Regozije-se nela. E não deixe que se torne um espetáculo. Faça isto no seu quarto secreto até que isto seja derramado sobre o púlpito e áreas públicas.

- Não cavalgue sobre o que não está no texto. Pregue exegeticamente, explanando e aplicando o que está no texto. Se isto soar Arminianismo, que soe Arminianismo. Confie no texto e o povo confiará em você por ser fiel ao texto.

Que Deus abençoe essa nova geração de pastores para que compreendam que tudo o que é pedido deles no púlpito é a pregação fiel da Palavra aliada à singeleza de um coração genuinamente convertido. Para isso, não é preciso nenhum brilho adicional, nenhuma artimanha a mais. Basta preparar-se em estudo e viver pela fé, até que a pregação seja conseqüência de um inteligir e um experenciar que se harmonizam e se aproximam cada vez mais da plenitude de uma vida com Deus.

Mais sobre Piper (em inglês): http://www.desiringgod.org

27 julho 2007

Delicadeza masculina

Harpo Marx tocando seu instrumento


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Poema de Miguel Torga

25 julho 2007

Os cheiros da França

Cheguei à França no dia 11 de julho de 2007 para um estágio de quinze dias que incluía turismo puro, em Paris, e formação pedagógica, em Vichy. Éramos um grupo de quase cem professores de francês, vindos de três países: Brasil, África do Sul e México. Apesar de ensinar o idioma há mais de quinze anos, eu ainda não conhecia a pátria do idioma. O programa Profs en France, patrocinado pela Embaixada, foi inaugurado especialmente para esse fim: levar professores de francês à França, para que, por sua vez, eles pudessem mais eficazmente levar a França a seus alunos.

Sendo uma aficcionada por perfumes franceses, minha idéia fixa perfumística era experimentar o L'Heure Bleue e o Après L'Ondée, da Guerlain, perfumes do início do século com uma bela história para contar, pré e pós-guerra. Ainda queria dar uma boa olhada nos chamados perfumes de nicho, mais intimistas, de Serge Lutens. Era uma grande oportunidade, já que nenhum deles é vendido no Brasil. Em uma das inúmeras lojas Sephora de Paris, vibrei com um pequeno letreiro do lado de fora que dizia "800 m2 de diâmetro": um verdadeiro paraíso perfumístico de quase um quilômetro quadrado!

Percorrendo a loja, foi com um frêmito de alegria que me deparei com uma prateleira inteira só de Lutens, os papeizinhos embaixo e nenhuma vendedora pressurosa por perto, sentindo-me livre para experimentar à vontade. Preferi, no entanto, procurar primeiro pelo L'Heure Bleue. Afastei-me dele com horror na primeira borrifada, sem conseguir ultrapassar as fronteiras do tempo para apreciar suas qualidades - o oposto do que sinto com relação ao Chanel n.5, um de meus preferidos. Voltei aos Lutens, e o primeiro que espirrei no papel, Douce Amère, teve um efeito instantâneo de maravilhamento sobre mim. Bem colorido e vivo, uma flor delicada sobre uma base amarga mas nem tanto, o suficiente para equilibrar a doçura silvestre da flor. O segundo, Un Bois Vanille, pareceu-me baunilha pura, assim como Miel de Bois, mel puro. Saí de lá com Douce Amère em um braço e Un Bois Vanille no outro, cheirando-os de tempos em tempos, deixando-os misturarem-se com as ruas de Paris. Mesmo assim, não consegui decidir. E foi apenas alguns dias depois, já em Vichy, que consegui provar o Après L'Ondée e confirmar sua semelhança com o novíssimo Insolence, da mesma maison: o cheiro rosado de frutas vermelhas e violeta está presente em ambos, mas o Après L'Ondée é infinitamente melhor, mais natural e pluricromático. Não consegui me ver usando-o hoje, talvez em outra época mais adiante. Porém, em compensação, trouxe um saco de balas sabor violeta, que são como o Après L'Ondée em versão feita para o paladar. Gosto muito da idéia de doces de flores, e eles são muitos em Auvergne, região de Vichy.

Acabei trazendo na mala apenas um perfume, um antigo amor de adolescência, Tocade de Rochas, também só vendido na França. É um atalcado bem confortável, bom de usar até mesmo em casa, mas perigoso no calor do Rio de Janeiro. E foi na França que percebi algo de que tinha apenas ouvido em teoria: perfumes mudam segundo o local e o clima. Tinha levado para lá o Chance de Chanel, que no ar seco de Paris e de Vichy se tornou um aroma fresco de flores contido por uma madeira suave. No Rio, chegou a me enjoar por causa de um fundo que lembrava pipoca doce, mas na França usei-o quase todos os dias, com prazer.

Depois de muitos anos sem sair do Brasil, entendi que uma das experiências mais fortes a partir do contato com um país estrangeiro são os odores que sentimos nas ruas. O cheiro do metrô, do Sena, dos museus, das boulangeries e pâtisseries, das cercas vivas e dos canteiros de lavanda cuja visão me emocionou... Cada esquina era uma surpresa olfativa. Indissociáveis aos cheiros, os gostos não-cultivados no Brasil: o vinho rosé que acompanhava cada jantar leve servido pela nossa calorosa famille d'accueil, o pão mais consistente junto à variedade de queijos e geléias, o mil folhas de morangos e framboesa cuja doçura o creme discreto deixava generosamente sobressair... Agucei muito o olfato e o paladar na França, incorporando, além de idéias e impressões novas, também cheiros e sabores diferentes ao meu "dicionário de mortal", imagem que Charles Baudelaire aplica não só a viagens, mas principalmente à literatura, que compõe as viagens que fazemos sem sair de casa – para muitos, as melhores.

Em Vichy, bela cidade-calmaria de águas termais fundada por Napoleão III, o grupo se recuperou com alívio do estresse de Paris. Tivemos uma semana de formação intensiva no Cavilam, centro de formação lingüística que nos impressionou muito pela qualidade tanto dos cursos quanto dos contatos pessoais travados entre os professores (ou "formadores") e os alunos-professores que éramos. Para quem quer aprender francês na França, recomendo entusiasticamente o Cavilam. Além disso, Paris é boa para passear por alguns dias, enquanto Vichy é um encanto para se conhecer aos poucos e devagar, com suas construções antigas, suas praças e confeitarias chiques mas acessíveis. E, se você passear pela região de Auvergne, alegrará os olhos com aquelas visões magníficas que o brasileiro só conhece através de reproduções de quadros famosos: campos de trigo e plantações enormes de girassóis, como nos quadros de Van Gogh, além dos montes cheios de casinhas antigas rodeadas de pinheiros e, às vezes, pequenos caminhos que se ondeiam até se perder no horizonte. Impossível não se impressionar com a vivificação de tantas imagens do museu imaginário, expressão cunhada por André Malraux para a coleção de obras que trazemos dentro de nós.

Nossa formação pedagógica foi inaugurada com uma conferência do diretor do Cavilam, Michel Boiron, que começou distribuindo a todos os professores presentes as famosas pastilhas de Vichy. Com gosto de menta, e em versões de limão e anis, são feitas com as águas termais, conhecidas por suas propriedades digestivas. Pensamos todos: "Que simpático." Mas era muito mais que pura cortesia. Durante a conferência, além de nos fazer rir quase o tempo todo, Boiron pôs para tocar algumas músicas francesas e falou das flores de Vichy, mostrando-as na tela, explicando com isso tudo que a língua era muito mais que estruturas gramaticais e listas de vocabulário – era também sons, gostos, perfumes, paisagens. Foi de fato emocionante: ele nos falou do ensino do francês através do estímulo a nossos sentidos diante de fatos cheios de significado, ampliando as percepções sobre nosso trabalho, bem como suas possibilidades, para muito além dos limites das salas de aula. Ele não apenas falou sobre, mas mostrou, que língua é vida. E todo o resto da formação apenas confirmou isso. É algo que só poderia acontecer na França, onde tínhamos pela primeira vez todo o entorno mergulhado naquela língua e naquela cultura que até então conhecíamos apenas de longe. Como profissional do idioma, jamais esquecerei a vívida impressão dessa convergência.

04 julho 2007

Maternidade

Essa é uma análise do Segundo movimento da Sinfonia número 3, Lamentações, do compositor polonês Górecki. Não deixe de ouvir antes de ler: aqui. Basta rolar o cursor até a soprano Dawn Upshaw e clicar em "escuchar".


A peça se inicia com uma introdução instrumental leve e de curta duração, para logo dar ensejo a acordes bastante graves em ritmo lento, cuja cadência sugere o badalar de sinos fúnebres. Logo o canto da soprano se inicia bem grave também, acompanhando os acordes com poucas variações, como em uma linha horizontal. Em seguida, os acordes começam a realizar uma subida rápida (se comparada ao andamento), com a voz da soprano se destacando cada vez mais, descendo apenas em poucos e breves momentos – como quem pára para descansar em uma escada muito extensa, ou como quem recua em uma dança apenas para ganhar um impuso maior. Finalmente, a voz atinge o ápice – ou vários momentos de ápice, sempre recuando brevemente – , e é nesses momentos mais agudos que o acorde dominante passa a maior, em vez de menor. Para quem se entrega a uma escuta atenta, ainda que não compreenda o que se canta, é notável o ambiente de profunda tristeza e dor que a peça evoca. Pois são justamente esses momentos agudos, de acordes maiores, que configuram uma espécie de alívio em meio à lamentação: quando a dor parece chegar a um ponto insuportável, evocado pelos acordes ainda menores, a subida da voz e a mudança para acordes maiores parecem insuflar uma grande lufada de consolo em meio à dor. Em todo o movimento, a dor é grande, mas não é o fim. Há esperança.


Quando li o que inspirou as Lamentações, fiquei impressionada com as associações entre a música e o que se canta. Embora cada uma das três lamentações tenha uma letra já pronta vinda de lugares e épocas diferentes – a primeira é de um monastério do século XV, de uma coleção chamada “Canções de Lysagóra”; a segunda, uma inscrição encontrada em um dos porões da Gestapo em Zadopane, de uma jovem de 18 anos presa em setembro de 1944; e a terceira, uma canção folclórica em dialeto Opole – , há um tema comum entre as três: uma mãe perde o filho assassinado. Isso ocorre em uma situação de injustiça, como foi o caso de Jesus Cristo (primeiro movimento), da jovem aprisionada que escreve a sua mãe (segundo movimento) e de um filho morto por inimigos (terceiro movimento). No segundo movimento, analisado aqui, a letra é o texto da jovem encarcerada pela Gestapo à sua mãe, pedindo-lhe que não chore, seguido de uma oração a Maria (Gorécki era católico).

Encontramos assim na letra do canto dessa lamentação a mesma atmosfera de dor evocada pela música, mas uma dor que tem escapatória na certeza de um amparo celestial: consolo que, em meio à dor expressa pelas “linhas horizontais” das notas graves e dos acordes menores quase sem variação, surge nos pontos fortes da peça – os agudos e os acordes maiores que os acompanham.

C
reio que, ainda que se trate de uma peça com marcada conotação católica, o cristão protestante poderá apreciá-la pela profunda dor filial que ela evoca (a perda de um filho é talvez uma das dores mais lancinantes que existem), bem como pela conotação geral que infunde no ouvinte: a certeza de socorro do Alto como única solução possível para a dor irreparável da morte, intuitivamente percebida para quem não sabe polonês. Apenas isto já basta para que a peça seja uma obra de arte singular em meio à reiterada negação de qualquer instância transcendente, vício constitutivo de nossos tempos, fundo comum a quase toda produção artística atual.

Desde que a descobri, não posso ouvi-la sem cair em prantos convulsivos. Já bem pequena era muito sensível a questões da maternidade perdida: passava um sofrimento semelhante à audição de uma música cantada por Zizi Possi, “Pedaço de mim”, imaginando logicamente um filho pranteado. Para a análise da peça de Gorécki – que seria parte de minha tese de doutorado, mas acabou sendo descartada – , ouvi a composição três vezes, mas não houve “distanciamento crítico” algum: chorei da mesma maneira nas três. (Por isso, também, meu horror absoluto, e igualmente bem antigo, ao aborto.) Que Deus tenha recompensado a Gorécki por isto.


Em tempo: talvez eu nunca tenha filhos biológicos. Mas sei que Deus olha para esse impulso de amor maternal em mim e prepara filhos adotados – sejam bebês rejeitados, sejam discípulos, saberei apenas quando vierem. Não importa o que aconteça, Deus seja louvado!

05 junho 2007

Deixados no vácuo

Fui criada lendo e ouvindo falar de uma época antiga, no Brasil, em que considerava-se normal que os principais pensadores e autores trocassem farpas argumentativas na mídia, deliciando-se em escrever e publicar um para o outro, um contra as idéias do outro. Sou uma "filha intelectual" dessa época - de Nelson Rodrigues, Carlos Lacerda e Monteiro Lobato para trás - em que os brasileiros tinham respeito suficiente pelo debate teórico para não deixá-lo morrer quando iniciasse, e respeito suficiente também pelo voluntário a debatedor, para que não se ficasse falando sozinho. Mesmo com toda a exaltação decorrente do choque de mentalidades, o público acompanhava com o mesmo prazer tanto o esmero argumentativo com que se conduziam os diálogos, quanto a mordacidade e a exaltação que os acompanhavam – e que, dependendo do esprit de jeu de cada um, resultavam em eternas hostilidades ou eternas admirações.

Hoje é diferente; hoje, a "nova moralidade" não se importa com nada que esteja fora da agenda politicamente correta, pouco afeita à lógica e à verdade. Nossa época dá de ombros para a clareza e a delimitação fina entre as diversas idéias. É um tempo confuso, de aglomeração mental: todos gravitam em torno dos mesmos assuntos e, com a mesma linguagem, transferem artificialmente para arremedos de debate uma cosmovisão planificada, absoluta, por trás de um pretenso e alardeado “pluralismo”. No fim das contas, trata-se de um mal-disfarçado horror à discordância, vício tão onipresente que ninguém reclama dele. Pois eu reclamo. Onde estão os debatedores, onde estão os reais adversários teóricos, onde está a velha cordialidade em meio às diferenças racionais? Procurem em congressos universitários, em mesas-redondas dos meios de comunicação, em reuniões políticas. Se encontrarem, não deixem de me avisar, pois são artigos raros.

Com muito mais freqüência, em vez da franca hostilidade intelectual casada (e não oposta) a um respeito pela pessoa, encontramos reações de desdém e punição à voz dissonante. Quem se recusa a participar da exaltação coletiva de cosmovisões interpostas e vocabulários eternamente conciliados acaba sendo deixado no vácuo, transformando-se em um pária, ausente de seminários, livros, rádios, jornais. Basta incomodar um pouquinho, nem é preciso enunciar grandes verdades ou elaborar potentes argumentações anti-status quo.

Da década de setenta para cá, mesmo depois que a esquerda liberada seguiu a estratégia gramsciana de "preencher espaços" na educação e na mídia, o brasileiro ainda treme de revolta à lembrança do finado e pouco cordato poderio militar, sem perceber que tem sido preparado para receber de bom grado uma ditadura mansa que dessa vez - oh paradoxo! - clama o amor para solidificar-se. Nesse novo regime, concede-se a poucos não só o privilégio da opinião pública, mas o da hiperssensibilidade: membros do partido-governo (prontos para disparar processos na justiça à menor menção negativa de seus sacrossantos nomes), defensores do aborto (que não podem mais ser chamados de "abortistas"), gays (praticamente intocáveis se aprovado o projeto da homofobia), professores esquerdistas que ensinam Che Guevara em vez de sociologia, geografia, matemática. Do outro lado, longe do abrigo nuclear estatal, estão os religiosos, os direitistas e os conservadores, escolhidos como os costas-de-aço da nova sociedade politicamente correta do Amorrrr.

15 maio 2007

Poucas e boas sobre o aborto

O argumento basilar dos defensores do aborto é sempre o mesmo: querem nos convencer de que o feto não é gente. As alegações são várias - até X meses, feto não sente dor, feto não tem consciência, não tem alma etc. - , mas o argumento continua igual: se não é gente, matá-lo não é assassinato. Porém, se o feto não é gente, o que ele é? Animal? Zumbi (corpo morto que se mexe)? Por quê? E, nesse caso, como é possível dentro do útero a passagem de um animal ou de um corpo morto a um ser humano? Atenção: não estou perguntando quando (se um, três ou nove meses), mas sim como. Se o defensor do aborto puder responder científica e satisfatoriamente a essas perguntas, podemos começar a conversar.

O ministro petista Temporão disse recentemente na TV que o aborto era "questão de saúde pública". Bom, dizem que o bebê tem a capacidade de sentir se é querido ou não ainda dentro da barriga da mãe. Sendo assim, acredito que, quando era um feto, o ministro não gostaria muito de saber que alguém lá fora estava lutando para que a sociedade o visse como um tumor maligno.

A bandeira do aborto é uma bandeira de morte louvada pela maioria "esclarecida" (luz de trevas), erguida bem alto e muito bem financiada por instituições internacionais milionárias com motivações e objetivos escusos. A bandeira da vida é pobre e ridicularizada como inútil restolho religioso. Nesse quadro, quem exerce pressão sobre quem? E a quem aproveitam tantas crianças a menos no mundo?

02 maio 2007

Reflexão óbvia sobre os palavrões

Sempre tive uma certa simpatia para com palavrões, confesso. Inspirava-me não só na óbvia associação de seu uso a um espírito de espontaneidade e rebeldia, mas nos ditames de minha formação lingüística e literária, segundo a qual "todas as palavras são boas e utilizáveis". Tinha como certo que um profissional da palavra deveria se manter isento de melindres para com o principal instrumento de seu métier. Porém, como qualquer pessoa civilizada e também ciente da noção de registro – a adequação da linguagem a cada situação – , sempre os evitei em público, recorrendo a eles quando sozinha ou com amigos mais próximos. Mantive assim a boca razoavelmente "suja" sem questionamentos até que me converti, aos 24 anos. Perdi quase todos os meus amigos não-cristãos, que de modo natural começaram a se afastar, e por força do meio decidi suprimir todas as palavras feias de uma vez só, desde as mais simples às mais cabeludas. No que fui bem-sucedida.

Um dia, surpreendi-me comigo mesma quando, conversando com uma irmã após o culto, ouvi-a dizer m**** em meio a um discurso irritado. Não deixei que ela percebesse, mas aquele palavrão provocou em mim uma reação tão forte que não hesitei em classificá-lo como um nada previsível escândalo. Veio então o escândalo do escândalo: horrorizada por ter ficado tão escandalizada com um simples m****, resolvi, dali em diante, revogar a decisão anterior. Recomecei a dizer palavrões normalmente, não com a mesma freqüência que no período pré-conversão, mas com regularidade quando sozinha e em companhia de cristãos tão "descolados" quanto eu.

Depois de algum tempo, porém, comecei a me sentir incomodada com o recurso freqüente aos palavrões. Sozinha, bastava ficar irritada, que lá vinha um bem cabeludo, e em voz alta. Inquietava-me diante de Deus e também diante de um possível “flagra” dos homens: e se algum pastor, dentre meus conhecidos, passasse na rua exatamente em um momento desses? Somava-se a essas considerações uma vergonha especial: eu, não só profissional da palavra, mas uma missionária de idéias segundo minha própria definição, ciosa por abençoar a igreja com o que digo e escrevo, poria muito a perder com uma boca destemperada. Além disso, o ato de praguejar, longe de servir como vazão à raiva, apenas contribuía para confirmar a disposição errada de espírito. Tudo estava errado, mas eu ainda não me convencia totalmente de que deveria voltar a me abster dos palavrões.

Comecei então a orar a Deus sobre isso, até me dar conta do óbvio-mais-que-óbvio, algo de uma obviedade tão grande que passa despercebida da maioria dos simpatizantes de palavrões. Percebi que todos os palavrões, dos menores aos maiores, têm algo em comum: remetem invariavelmente ao sexo. São menções aos genitais, a coitos indesejados e/ou ilícitos, prostitutas e filhos de prostitutas, materiais fecais etc. A lógica do palavrão é estranha: ele une o ato de esbravejar e xingar aos dejetos do corpo ou ao ato sexual. E, mais estranho ainda, os palavrões que tratam de dejetos são bem menos fortes e mais tolerados socialmente que os que tratam do ato sexual. Palavrões, portanto, em suas formas mais pesadas, associam o sexo a explosões de raiva, a punições, ao descontrole entre pessoas que não se amam. E a conclusão é inevitável e aterradora: palavrões são formas de perversão. Se Deus criou o sexo como a expressão máxima do amor perpétuo, compromissado, entre um homem e uma mulher, é de um profundo desamor que nascem as aberrações sexuais – a masturbação, o "sexo casual", o aviltamento de partes do corpo até que se estraguem. Palavrões são cristalizações, no idioma, da alienação total de si e do outro pela busca de um prazer sempre deslocado, desgarrado, fora da alma: um prazer masoquista, misturado a ódio e desespero. Por que essas expressões tão opostas ao amor de Deus deveriam povoar a linguagem de um cristão?

Depois dessas reflexões decidi, não por pressão do meio, mas por mim mesma, que não quero que nada do que digo tenha parte nisso. Nem quando eu estiver sozinha, nem em pensamento.

27 abril 2007

Diálogos (insanamente) irrelevantes IV e uma oração

Inspirado na quase-discussão do blog do Paulo Brabo. Os trechos entre aspas são de autoria dele.

- Por isso eu sempre digo: “A verdade cristã pode ser inquestionavelmente abraçada, jamais explicada ou entendida.”

- Ué, mas então a pessoa se converte como?

- É inexplicável.

- Não é possível; tem que haver alguma explicação.

- Não, não tem.

(outro intervém)

- Bom, é verdade que um aspecto da conversão é relacional, ou seja, o homem é impactado pela presença de Deus e cai a Seus pés, às vezes sem entender direito o que está acontecendo. Já presenciei isso várias vezes. Por outro lado, o apóstolo Paulo diz que precisamos sempre estar prontos para dar ao mundo a razão da nossa fé. A fé não é vazia, ela tem conteúdo racional, que é adquirido e fortalecido com a leitura bíblica e também no confronto com as idéias seculares. Nenhuma fé se sustenta na base das experiências, somente. Há uma história a ser conhecida, uma determinada cosmovisão, uma lógica bíblica...

- Ih... Lá vem você falar de “lógica”! (vários narizes torcidos)

- Mas qual o problema em falar de lógica? A fé tem um conteúdo racional, não tem? Gostaria que os senhores se pronunciassem a respeito.

O primeiro toma a palavra:

- “O efeito dessa nossa obsessão em precisar o conteúdo intelectual da verdadeira fé está em que enquanto fazemos isso conseguimos manter Jesus irrelevante para o restante e vasta maioria do mundo. A impressão que passamos é que a coisa mais útil e importante que o cristão pode fazer é definir intelectualmente e sem arestas a forma como Deus funciona e em seguida defender a todo custo o seu ponto de vista.”

(aplausos dos antilógicos; o outro responde, estupefato:)

- Não acho que “precisar o conteúdo da verdadeira fé” seja “manter Jesus irrelevante para o mundo” nem “a coisa mais importante que um cristão pode fazer”. Acho, simplesmente, que todo cristão acaba fazendo isso em certa medida, seja sozinho, seja com a ajuda de outros – irmãos da igreja, amigos, autores novos ou antigos. E isso é sumamente necessário, pois a fé cristã não é oposta à razão! Ela requer um conteúdo específico – um conteúdo, aliás, belíssimo, que começa com a criação do mundo, passa pela queda da humanidade (que recusa Deus) e culmina na salvação de Jesus e, por fim, na redenção do Planeta. O cristão que quer tornar sua fé conhecida precisa passar por esses pontos todos, e isso inclui a razão também. Esses pontos definem o cristianismo, e uma das preocupações do apóstolo Paulo foi justamente precisar o que cremos para tomar cuidado com outras doutrinas, com um outro cristianismo...

(narizes mais torcidos ainda e comentários gerais)

- Nossa, que coisa mais chata...

- Pior que chata: ele está falando de “cristianismo verdadeiro” e “cristianismo falso”, que empáfia!

- Absurdo mesmo. Todo cheio de si, ele e suas “razões”...

- Vou mandar um beijo para ele, quem sabe assim ele pára de falar desse jeito!

(Todos riem e se afastam, deixando-o sozinho com seus pensamentos. Sem sequer perceber, ele começa a orar:)

- Senhor, eu sei, só eu sei, o quanto pequei na minha vida justamente nos momentos em que quase me afastava da Tua doutrina. Eu sei por minhas experiências, amargas experiências, que todas as vezes em que ameacei questionar a integridade da Tua Palavra, ou a singularidade da Tua mensagem, eu me vi abrindo portas em minha mente para ser tentado naquilo que não conseguia evitar. Caí muitas vezes e quase caí tantas outras, correndo o risco de morte espiritual, sentindo-a bem de perto. Hoje sei que a ortodoxia é uma bênção, e a mente fraca é cria deste século, receptáculo de tudo que é contrário aos Teus desejos de santidade. Firma minha mente em Teus limites e não me deixa jamais cair no engodo do relativismo moderno. Que a Tua verdade seja minha em pensamentos, palavras e atos. Glórias sejam dadas a Ti, Senhor. Amém.


23 abril 2007

Uma pergunta a Ricardo Gondim

Texto motivado pela mais recente postagem do blog O Tempora O Mores

Em maio de 2005, Augustus Nicodemus escreveu um artigo
bastante elucidativo sobre um dos assuntos de um antigo post deste blog que deu muito no que falar: Teologia Relacional, ou Teísmo Aberto, uma teologia baseada em pressupostos no mínimo estranhos, veiculados e defendidos aqui no Brasil sobretudo por Ricardo Gondim. Nicodemus menciona seis desses principais pressupostos, dos quais o primeiro, base para os restantes, parece o mais "inocente": O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.

É verdade que a Bíblia diz que Deus é amor. No entanto, com a desculpa da "superioridade" do amor sobre outros atributos divinos e da "abertura" de Deus aos sentimentos humanos, os cinco pontos seguintes levantados e criticados por Nicodemus são claramente mentiras da TR sobre o Deus da Bíblia - idéias contrárias ao que a Bíblia ensina. São elas: Deus não é soberano e procura se adequar às ações do homem; Deus não sabe o futuro, pois vive no tempo; Deus se arrisca em todas as Suas decisões; Deus é vulnerável; Deus muda. Nenhum cristão que se preza, em toda a história do cristianismo bíblico, concordaria com uma só dessas idéias, crendo que o amor e a sensibilidade de Deus para com o homem não excluem nem se sobrepõem a Sua soberania. Essas considerações se tornam bastante evidentes ao longo do artigo de Nicodemus.

Pois bem; recentemente, Ricardo Gondim resolveu escrever uma
definição de Teologia Relacional que ao mesmo tempo contivesse uma resposta a esse artigo de Nicodemus, só mencionado brevemente no final. Gondim não analisa o texto todo, apenas o primeiro ponto da TR levantado por Nicodemus: "O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas." Desse ponto, Nicodemus discordou apenas, como vimos, da superioridade do amor sobre outros atributos, estratégia da TR para advogar a pretensa "abertura" de Deus a ponto de negar Seu poder e Sua soberania. A sensibilidade e a comoção de Deus com relação a Suas criaturas foram evocadas pelo autor apenas para explicar o fundo sentimentalista e subjetivista da TR. É como se essa "teologia" argumentasse: "Deus é tão sensível e se comove tanto como os dramas de suas criaturas que chega ao ponto de se limitar voluntariamente para caminhar com elas." Isto é o que todo leitor atento tem condições de perceber ao finalizar o texto de Nicodemus.

No entanto, Gondim afirma que Nicodemus discorda de todo o parágrafo sobre o amor de Deus
. Vejam o que escreve:

A próxima frase [de Nicodemus] vai negar noções intuitivamente percebidas pela grande maioria dos evangélicos: Deus é afetuoso, sim. (...) não é precisamente isto que as Escrituras repetidamente expressam sobre o Senhor? Por que a TR seria uma heresia por acreditar nos afetos divinos? A não ser que Nicodemus leia as Escrituras com as lentes aristotélicas do “Motor Imóvel” ou da “Apatia Divina”, não há como entender o Deus da Bíblia, senão como uma Pessoa que se sensibiliza e se comove com o drama humano.

Ora, por que Gondim teria se aferrado, em sua refutação a Nicodemus, ao ponto menos controverso sobre a TR, o único de todos os seis que não continha apenas falácias, afirmando que Nicodemus se posicionava também contra as verdades imbuídas nele? Não sei. E, porque não sei, preciso perguntar. Aqui vai, portanto, minha perguntinha a Ricardo Gondim:
Caro Gondim,

A partir de uma menção feita em artigo por Augustus Nicodemus a idéias da Teologia Relacional -
O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas - , o senhor conclui, no item III de seu artigo, que Augustus Nicodemus posiciona-se contra todas essas afirmações, enquanto no artigo o único ponto refutado é a superioridade do amor sobre os demais atributos divinos. Sendo assim, o senhor afirma explicitamente em seu texto Teologia Relacional - Que bicho é esse? que Nicodemus NÃO CRÊ que Deus seja amoroso, sensível e se comova com os dramas de suas criaturas. Gostaria então de lhe perguntar se essa aterradora conclusão sua foi (das duas, uma):

- Mero recurso retórico para finalizar bem o texto? ou
- Uma real conclusão a partir do texto de Augustus Nicodemus?

Tertium non datur. Não creio ser possível qualquer outra resposta, embora muito me alegrasse que houvesse, pelo seguinte motivo: no primeiro caso, o senhor estaria usando de uma estratégia algo desonesta para desacreditar violentamente não só o texto criticado, mas seu autor (afinal, como os evangélicos podem confiar em um teólogo que não crê na verdade bíblica de que Deus é amoroso, sensível e se comove com os dramas de suas criaturas?); no segundo caso, o senhor estaria se valendo de uma interpretação de texto muito duvidosa ou, no mínimo, de uma grande desatenção, o que põe em cheque sua própria capacidade de articulação e leitura. Qual das duas é a alternativa exata? Muito gostaria de saber.

Sinceramente,

Norma Braga

14 abril 2007

SHOW DE HORRORES

(O apresentador entra correndo e sorrindo no palco. Música de abertura.)

- Senhoras e senhores! Bem-vindos ao nosso SHOOOOW DE HORROOOREEEES!

(Aplausos entusiasmados. O apresentador espera pacientemente o ruído baixar, ainda sorrindo. Encaminha-se para seu posto no canto direito do palco.)

- Boa-noite, amigos da platéia!

- Boa-noiteeeeee!


- Que platéia maravilhosa temos aqui hoje! São estudantes universitários de teologia e ciências da religião, vindos de todos os cantos do país. Obrigado pela presença! A participação de vocês no Show de Horrores é fundamental! Como sabem, vocês têm o poder das multidões: aprovar ou desaprovar o que será dito no palco.

(Barulho ensurdecedor. O apresentador espera.)

- Para quem ainda não conhece o programa, o Show de Horrores tem como símbolo o monstro Frankenstein. (Mostra no canto oposto um boneco gigante cheio de escaras e cicatrizes.) A cada semana, promovemos uma competição ao vivo entre profissionais da área acadêmica. O ganhador é aquele que demonstrar a maior discrepância, a maior incoerência, a maior esquizofrenia entre suas idéias e sua vida!

(Aplausos e urros.)

- O tema de hoje é: Bíblia. (Um letreiro brilha acima dele.) Os profissionais que se inscreveram para esta competição são professores de seminários protestantes que também têm cargos de liderança em suas igrejas. Todos eles cumprem essa jornada dupla: ensinam a futuros pastores e pregam na igreja, orando em público e cuidando de suas ovelhas. Veremos o quanto são capazes de assumir posições conflitantes nas duas funções. Recebam agora nossos candidatos!

(Aplausos. Entram os professores de seminários, alguns tímidos, outros gesticulando animados para a platéia, com suas Bíblias debaixo do braço. Já instalados no canto oposto do palco, os jurados do programa colocam seus óculos e abrem suas pastas. Um deles pede ao apresentador para fazer uma observação sob a forma de pergunta.)


- Os professores costumam fornecer aos estudantes a base teórica do conteúdo veiculado em sala de aula?

(O apresentador parece confuso, e pede a um dos professores que responda. Antes de se levantar, o professor menos tímido olha para os demais colegas, certificando-se de que a resposta é unânime.)

- Não costumamos fazer isso.

- Ótimo. (O jurado parece satisfeito.) Excelente dado para a esquizofrenia.

(Todos parecem contentes, e o apresentador decide começar a competição.)

- Vocês sabem as regras: os estudantes fazem uma pergunta para cada professor. Se a resposta não for suficiente, o estudante pode fazer ainda mais uma para complementar. E não se esqueçam: ganha quem demonstrar mais esquizofrenia entre idéia e vida, teoria e prática!

(Candidatos e jurados assentem, ansiosos. O primeiro estudante se adianta.)

- Professor, quais as diferenças entre o que o senhor diz em sala de aula e o que o senhor ensina na igreja?

(O candidato sorri.)

- Na igreja, eu sou confessional e ensino a Bíblia como a Palavra de Deus. No seminário, sou acadêmico, científico, crítico. Posso questionar tudo que preguei na igreja, inclusive se a Bíblia é mesmo a Palavra de Deus.

(Ovação. O professor une as mãos em sinal de vitória. Satisfeito, o estudante retorna a seu lugar. Outro toma a palavra e se dirige ao segundo professor.)

Continua...

28 março 2007

Três definições e três notas sobre o racismo

ENQUETE

Escolha a melhor definição para racismo e poste sua resposta nos comentários, justificando sua opção:

( )
"Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.
" (Ministra Matilde Ribeiro, Seppir)

( ) "O racismo se caracteriza na medida em que você impede que o outro cresça. Isso só pode ser feito por quem tem o poder. Como nós (negros) não temos o poder, não podemos ser racistas." (Waldemar Pernambuco Moura Lima, presidente do Movimento Quilombista Contemporâneo; Zero Hora, 28/03/2007, p. 31)

( )
"Racismo é a tendência patológica de fazer menções a raça nos assuntos em que isso não é relevante, somente em benefício próprio." (Mike Adams, professor de direito e colunista do Townhall.com)

Quer saber minha resposta? Vá aos comentários.

Em nome do ressentimento

Como se sabe, a ministra Matilde Ribeiro, titular de um ministério de nome politicamente corretíssimo – Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir) –, afirmou em entrevista que a discriminação dos negros contra os brancos, “muito natural”, não se configurava racismo. Assim, se uma pessoa que se vê negra (não acredito em raças, muito menos no Brasil) se recusar a aceitar a presença de uma pessoa de cor mais clara, poderá manifestar seu desagrado sem medo de sanções penais; mas não o oposto. Chame isso de justiça, mas não conte comigo para chamar também.

E não, o argumento histórico não vale. A escravidão foi praticada tanto pelos brancos europeus que queriam comprar gente para trabalhar aqui quanto pelos africanos que queriam embolsar o dinheiro vendendo povos de tribos inimigas e socialmente inferiores às deles. O pecado veio de ambos os lados e teve uma motivação mais poderosa: cobiça. Na base da escravatura está, portanto, o fator econômico como preponderante, já que o processo dependeu de uma hierarquia entre povos de raça igualmente negra, subordinação típica de sociedades tribais. Se a Sra. Ministra crê como desculpável o desagrado do negro em relação ao branco em função do passado histórico, convém lembrar-lhe portanto que o açoite não foi praticado somente por mãos brancas. O racismo é uma condição secundária desse processo, e há pelo menos um sociólogo brasileiro, Demétrio Magnoli, que confirma o que digo em artigo no Estado de São Paulo: “O que existe é uma exclusão social e econômica dos pobres — entre os quais os de pele escura e também os de pele clara. É falso definir como problema racial o que é na verdade um problema social e econômico.”

Hoje, embora a progressiva miscigenação tenha diminuído bastante a chance de sentimentos racistas por parte do brasileiro – e ser racista no Brasil não é só burrice, mas perda de tempo –, não escapamos ao fato de que todas as épocas contam com um certo número de idiotas segregacionistas, com suas desculpas absurdas para atribuir uma inferioridade intrínseca não só ao negro, mas também ao pobre, ao nordestino, à mulher, ao gay. (NÃO É o que se faz na religião: o gay não é condenado como pessoa, mas a prática homo, sim. Assim como eu posso amar um filho mas deplorar nele o hábito de contar mentiras.) Com raras exceções, o racista brasileiro não costuma encontrar respaldo social para maltratar os outros. Porém, a depender de dona Matilde Ribeiro, a partir de agora encontrará: só o racista negro.

Isso, em nome de quê? Do ressentimento politicamente correto, resposta emocional bastante admirada e estimulada pela esquerda que domina o país. “Vinguem-se com o endosso do Estado”, parecem dizer os adeptos do pensamento PC. “Mas atenção”, frisam eles, “isso só vale se o negro quiser se vingar do branco, o homossexual do heterossexual, a mulher do homem, o pobre do rico.” Como se o pecado escolhesse raça, classe, sexo. Como se negros, homossexuais, mulheres e pobres não pudessem também cometer crimes de preconceito e atentado contra a honra.

Se não houvesse tantas cabeças pensando à moda de Marx, poderíamos deixar que a lei se encarregue de simplesmente punir injúria, calúnia e difamação, não importa de quem venha. Porém, escritas sob o calor do ressentimento, as novas leis – cotas em universidades, projeto de lei contra a homofobia não são leis: são vingança. De que forma? Ora, as cotas punem o branco estudioso e esforçado, enquanto a lei da homofobia ressuscita o famigerado delito de opinião ao criminalizar o religioso que crê na Bíblia. Nos dois casos, negros e gays são tutelados como se fossem intrinsecamente mais frágeis que os demais seres humanos. (O caso de mulheres e crianças é diferente, pois precisam mesmo de proteção especial.) Acho que todos os negros e gays deveriam se insurgir contra esse evidente erro de julgamento. Os que o fazem têm o meu respeito.

Ainda que houvesse justiça nisso, uma sociedade construída sob o signo da vingança não irá muito longe.
Uma história de racismo

Eu já fui discriminada por ser branca. Deixe-me contar como foi.

Eu tinha uns treze anos à época e tinha ido ao Mc Donald's com minha prima. Enquanto ela esperava atendimento na fila para comprar o lanche, eu guardava lugar para nós duas em um sofazinho. O lugar estava lotado e as filas, enormes.

Apareceu então uma senhora negra obesa, muito gorda mesmo, acompanhada de umas duas crianças também gordinhas. Ela me pediu licença para se instalar com a turma no sofazinho. “Deve achar que estou sozinha aqui”, pensei, olhando para aquele volume humano todo e calculando que minha prima, quando voltasse, não caberia no espaço: só a mulher ocuparia quase metade do assento! Na minha inocência, muito sem jeito (como me expressar sem chamar a mulher de gorda?), tentei explicar que logo viria minha prima para se sentar ali, e que nós todos não caberíamos no sofá.

Para meu horror, ela arregalou os olhos e começou a gritar impropérios, dizendo que eu não queria que eles se sentassem ali porque eram negros. Aquilo durou alguns minutos, até que ela se cansou e foi embora. Quando minha prima chegou, encontrou-me chorando desconsoladamente. Aos treze anos, eu tinha sido maltratada em público porque não tinha a mesma cor da pele daquela senhora! O julgamento dela me marcou para sempre.

Fico imaginando a mesma situação hoje: será que aquela senhora me processaria, ou a meus pais? Será que eu seria xingada por mais gente na lanchonete? Quem pode dizer até onde iremos com essas leis esquisitas, cujo único objetivo parece ser dividir e desagregar a sociedade em dicotomias que se odeiam? Pessoas não são mais pessoas, mas brancos contra negros, homens contra mulheres, heterossexuais contra homossexuais, classe dominante contra classe oprimida. É isso que os grupos politicamente corretos não entendem, vítimas daquele a quem a Bíblia atribui o epíteto de “deus deste século” (2Co 4:4), cuja finalidade é “matar e destruir”: a pessoalidade não pode ceder ao rótulo social sem que desçamos alguns degraus de nossa condição humana. Quando a preocupação jurídica com os processos for considerada a única forma de “amor ao próximo”, estaremos bem perto do fim do mundo. A quem acha que estou sendo dura demais, explico: a moralidade do politicamente correto não pode substituir o amor de Deus. Quando tentam fazê-lo, as pessoas que professam essa nova moralidade acabam compactuando com o demônio na destruição do verdadeiro amor. Simples assim.
Fifty-fifty


Meu dentista fez uma radiografia de perfil do meu maxilar. Eu me surpreendi com o resultado: parecia a radiografia do Milton Nascimento! “Esse 'bico' é normal em descendentes de portugueses, por causa da mistura com os mouros”, explicou ele.

Reparei então que, no meu rosto, não dá para ver um “bico” como no rosto do Milton; mas, prestando-se bastante atenção, há uma protuberância na área da boca. Um restinho de bico, digamos. Adorei saber disso! O tipo de africano que eu mais amo é o tipo com “bico” – como a Nina Simone, que eu acho lindíssima.

Pois então: diante dessa mistureba toda, é ainda possível falar-se em “raças”? Com base em quê, a quantidade de melanina na pele? Não faz sentido.

É preciso reconhecer que muitas vezes a “luta pela igualdade racial” assume um teor contraditório: seus militantes alegam que “somos todos iguais”, mas na prática um bom número de ações afirmativas se caracteriza por atribuir à pele negra um valor intrínseco que muitas vezes parece superior ao da pele branca. Duvidam? Pois prestem atenção nos dizeres de uma camiseta já famosa que diz “100% negro” e pensem no seu correlato, “100% branco”. Esse correlato é ofensivo? É, muito. Na mentalidade contemporânea, “100% branco” é ofensivo porque parece significar “não tenho sangue negro no meu sangue”: uma conotação racista. Já “100% negro” não ofende, mas afirma o valor da raça negra, por causa das teorizações da ação afirmativa que formataram as consciências. Porém, o raciocínio que imbui os dois dizeres não é o mesmo? Não para os militantes, que alegam motivos históricos para alguém querer ser 100% negro e não 100% branco no Brasil. Para eles, as pessoas mais claras deveriam se penitenciar até hoje por seus antepassados racistas, enquanto as que têm mais melanina na pele podem se sentir orgulhosas da cor. Que esquisito. E racista, evidentemente: um racismo ao contrário. Se vejo um negro com uma camiseta “100% negro”, fico imediatamente triste porque, por causa da minha cor clara, sei que ele me vê como uma inimiga ou pelo menos uma descendente do inimigo. Entendeu como funciona? É o fator desagregador-demoníaco de que falei aqui.

Odeio a idéia do 100% branco ou 100% negro – a não ser, como falei em outro post, por motivos estéticos, e isto com relação a todas as raças. A maioria dos brasileiros de pele clara ou morena-clara tem negros na família e fica absolutamente transtornada com declarações e decisões de dona Matilde Ribeiro e demais membros do governo petista. “Temos que tomar partido?”, parecem perguntar. “É a cor que vale? A melanina? Mas eu tenho 'bico', minha pele escurece ao sol, meu bisavô era negro. Não posso ser a favor dos dois? Fifty-fifty? Por favor...

23 março 2007

Peter Singer e o infanticídio

Um leitor me escreveu em protesto ao post anterior, aludindo às qualificações e à fama do sr. Peter Singer. Porém, estranhamente, não tocou no assunto do infanticídio. Comecei a tecer considerações sobre isso nos comentários, mas o texto ficou tão extenso que resolvi publicar outro post.

Singer é um obcecado com a dor. A parte mais controversa de sua filosofia se baseia nesse pressuposto: se viver traz mais dor que alegrias, é melhor pôr fim à vida. Esse é o argumento que usa para defender tanto a eutanásia quanto o infanticídio em caso de doença grave, como medidas de caridade para com o próximo. Tal visão, porém, já traz inúmeros problemas. Os menos óbvios (falarei depois dos mais gritantes) decorrem da classificação de "doença grave" e da quantificação da dor alheia. Você conhece portadores de síndrome de Down felizes? Eu conheço. E pessoas com doenças degenerativas como a de Charcot, que paralisa progressivamente todo o corpo? Eu conheço alguém não só feliz, mas famoso e intelectualmente ativo: Stephen Hawkins. E esquizofrênicos, autistas, borderlines, cadeirantes, surdos, cegos... Eu conheço, conheço, conheço. E posso garantir que nenhum deles quer ser morto ou pensa em suicídio.(1)

Mas alguém há de objetar: certamente um filósofo tão renomado e reconhecido como Peter Singer considera doenças graves apenas aquelas gravíssimas mesmo, que impossibilitam qualquer manifestação de autonomia do sujeito. Certo? Errado. Singer considera graves doenças perfeitamente contornáveis, como hemofilia e infecção urinária. Hemofilia e infecção urinária? Sim, leitor, você entendeu direito. Se for incurável e um pouco debilitante, o problema entra para a categoria singeriana de "doença grave" e passa a ser motivo suficiente para que os pais e a sociedade possam dispor da vida de uma criança ou um idoso como seres descartáveis, que passam à condição de "não-pessoas", nos dizeres do próprio Singer.

Veja como ele leva a mentalidade pragmatista às últimas conseqüências em uma citação sua sobre o infanticídio:

When the death of a disabled infant will lead to the birth of another infant with better prospects of a happy life, the total amount of happiness will be greater if the disabled infant is killed ... killing a disabled infant is not morally equivalent to killing a person. Very often it is not wrong at all.

Tradução: "Quando a morte de uma criança deficiente levar ao nascimento de outra criança com melhores perspectivas de uma vida feliz, a quantidade total de felicidade será maior se a criança deficiente for morta... matar uma criança deficiente não se equivale moralmente a matar uma pessoa. Com muita freqüência, isso não é errado."

Há muitas inferências que podem ser feitas dessas afirmações, todas terríveis. Para o sr. Singer:

- O que conta é a "quantidade total de felicidade": algo indiscernível e abstrato demais diante do valor maior que é a vida de um ser humano. Temos aqui a subordinação da individualidade (pessoal) a uma mera abstração (impessoal).

- A doença torna alguém menos gente. Um hemofílico, um cadeirante, um portador de Down e um esquizofrênico são, para Singer, inferiores intrinsecamente: seres humanos de segunda categoria - ou melhor, de categoria nenhuma, já que são "não-pessoas".

- O assassinato se torna uma solução viável dependendo do contexto. Matar é justificável sob certas circunstâncias.

A civilização ocidental inteira foi construída sobre a moralidade tanto dos Dez Mandamentos - "não matarás" é um deles - quanto das regras máximas de Jesus: amar ao próximo como a ti mesmo e não fazer ao outro aquilo que você não gostaria que fizessem com você. Há algumas posturas que, por romperem a regra, ameaçam a vida e, portanto, a civilização. Por exemplo: o aborto. Você já foi um feto, certo? Gostaria que fosse abortado? Claro que não. Já foi criança? Sim, todo mundo foi. Gostaria de ser morto na infância? Duvido.

Não passa pela pragmática mente do senhor Singer - não posso escrever o nome dele sem me lembrar de que singe, em francês, é "macaco" - que, se algum outro cientista brilhante tivesse tido a mesma idéia antes dele e a implantado, o próprio Singer poderia ser morto na infância se tivesse um problema congênito qualquer. Isso é aterrorizante: alguém defender uma idéia e não considerar sua aplicação a si próprio. É fascismo, nazismo, comunismo: dispor da vida do outro como se você não tivesse parte na mesma humanidade que está no outro.

Não quero viver em um mundo onde os defeitos humanos não são suportados(2), onde evitar a dor seja um imperativo a ponto de se sobrepor ao valor maior da vida(3). Não quero viver em um mundo onde as pessoas terão liberdade para matar crianças e idosos doentes achando que os libertam de um "sofrimento inútil", brincando de Deus. Ou a vida é o valor máximo pelo qual todos nós devemos lutar, ou não vale a pena viver neste mundo e lutar pelo que quer que seja.

Além disso, só alguém muito cego não vê que as idéias do filósofo Peter Singer são apenas um trampolim para tiranias maiores. Como aconteceu com o aborto: no começo, o procedimento era benquisto apenas no caso de estupro ou ameaça à vida da mãe. Depois, estendeu-se a malformações fetais e agora abortam-se crianças até com síndrome de Down - doença com a qual se convive perfeitamente bem! Da mesma forma, na Holanda, a eutanásia foi legalizada e hoje os velhinhos desesperados estão correndo para a Alemanha, fugindo dos próprios parentes. Não duvide: a defesa do aborto, da eutanásia e do infanticídio(4) seguirá o mesmo caminho de abertura, até chegarmos a fazer como os gregos - jogar bebês aleijados no despenhadeiro.

Abra o olho para essas idéias(5) pragmatistas e aparentemente "humanitárias"! Não somos Deus e não podemos brincar com a vida.

Notas

1 Muitos crêem que as idéias de Singer são "bem argumentadas", demonstrando com isso a incapacidade de se contrapor a experiência ao discurso, ou de aplicar-se a lógica à vivência pessoal. Sequer lembram que conhecem deficientes felizes, o maior contra-argumento ao simplismo homicida singeriano. Homicida e alienado ao outro. Afinal, todo ser humano tem direito à sua vida e ao seu quinhão de dor, e ninguém pode decidir por ele se aceita ou não esse quinhão, que é aliás universal e não se restringe somente às limitações físicas.


2 Sobre a intolerância à idéia da precariedade humana e suas implicações, leia o excelente ensaio de Reinaldo Azevedo: Você é um homem ou um urso branco? E também recomendo ler o livro de Tolentino citado por ele,
O mundo como idéia, que trata poeticamente do mesmo tema.

3 Se uma das obsessões modernas é o evitamento da dor não só física, mas também emocional, talvez isso explique a onda gigantesca de ações por danos morais e a elaboração de leis e mais leis para impedir a mais simples expressão de uma idéia objetiva que possa por acaso "ferir a sensibilidade" pró-aborto ou pró-homossexualismo. Mas isso é assunto para muita pesquisa e outro post.

4 Alguns autores, muito cheios de si, afirmam que quem chama Singer de "abortista e infanticida" não entendeu nada do que realmente ele queria dizer em seus livros. Se alguém vier para cima de você com esse argumento estúpido, meu mui sábio leitor, devolva com um "auto-retrato filosófico" escrito pelo próprio Singer, que confirma o aborto como "eticamente justificável" e diz com todas as letras: "
Na Alemanha, minha defesa da eutanásia ativa para recém-nascidos com deficiências sérias gerou grande controvérsia." Abortista e infanticida, pois.

5 Vou começar a me dizer "filósofa". Não é por nada não, mas eu penso melhor que esse cara.



21 março 2007

Escândalo na universidade pública

O blog de Reinaldo Azevedo traz este mês um post sobre um teste de acesso ao curso de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco para quem já tem um diploma. Só esse fato já é esquisito, porque para cursar uma segunda faculdade basta pedir o que chamam "reingresso", e não me consta que haja prova além desse pedido. O teste, porém, além de conter erros absurdos de português e conteúdo, parece querer medir não o preparo do estudante para o curso de filosofia, mas sim seu grau de ideologização. As questões que o compõem são aterradoras e oferecem ao leitor a dimensão do tipo de "profissional" que invadiu o ensino deste país. Como professora e estudante de pós-graduação, estou muito chocada e indignada. Precisamos apenas saber como protestar de modo eficaz para que a educação pública não só cresça em qualidade e pertinência, mas se desvencilhe de vez da ideologia - pois, quanto mais política fizer, menos interessada estará no verdadeiro conhecimento.

Não deixem de ler: Uma prova da Universidade Federal de Pernambuco e a revolução cultural do ministro Haddad

Comentário que deixei ao post:

Reinaldo,

"Ela" é a ecologia. A pessoa que elaborou a questão quis que o aluno fizesse uma associação entre o enunciado e as opções de resposta, assim: cristianismo e a primeira sentença, a Ecologia e a segunda (que começa com "Ela"), ética ambiental e a terceira. Nada muito didático, nem muito bonito, nem muito harmonioso. E ainda há os erros terríveis que você apontou: erro de conteúdo, de ortografia, a redação ruim e a politicagem despudorada que demoniza alguns autores para santificar outros.

Porém, o que me salta aos olhos com horror - e que você não mencionou - é também o endosso indireto que essa universidade dá a Peter Singer, um cientista que defende o infanticídio! Como pode um infanticida ser leitura obrigatória para uma prova de acesso à universidade?

A julgar por essa prova, será que chegaremos um dia a ter de reconhecer que a universidade brasileira é predominantemente politiqueira e anti-ética, além de oferecer um ensino de má qualidade? Será que esse dia está perto? Será que já chegou? Eu temo, temo muito.

Observação: Na prova toda (veja aqui), de 25 questões, CINCO se referem diretamente a Peter Singer. Se isso não é um endosso indireto, não sei o que é. E ainda pretendem poder discernir "homens éticos" depois de recomendar um infanticida como um grande filósofo. Isso é que é "filosofia engajada"... no que não presta, definitivamente.