Texto motivado pela mais recente postagem do blog O Tempora O Mores
Em maio de 2005, Augustus Nicodemus escreveu um artigo bastante elucidativo sobre um dos assuntos de um antigo post deste blog que deu muito no que falar: Teologia Relacional, ou Teísmo Aberto, uma teologia baseada em pressupostos no mínimo estranhos, veiculados e defendidos aqui no Brasil sobretudo por Ricardo Gondim. Nicodemus menciona seis desses principais pressupostos, dos quais o primeiro, base para os restantes, parece o mais "inocente": O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.
É verdade que a Bíblia diz que Deus é amor. No entanto, com a desculpa da "superioridade" do amor sobre outros atributos divinos e da "abertura" de Deus aos sentimentos humanos, os cinco pontos seguintes levantados e criticados por Nicodemus são claramente mentiras da TR sobre o Deus da Bíblia - idéias contrárias ao que a Bíblia ensina. São elas: Deus não é soberano e procura se adequar às ações do homem; Deus não sabe o futuro, pois vive no tempo; Deus se arrisca em todas as Suas decisões; Deus é vulnerável; Deus muda. Nenhum cristão que se preza, em toda a história do cristianismo bíblico, concordaria com uma só dessas idéias, crendo que o amor e a sensibilidade de Deus para com o homem não excluem nem se sobrepõem a Sua soberania. Essas considerações se tornam bastante evidentes ao longo do artigo de Nicodemus.
Pois bem; recentemente, Ricardo Gondim resolveu escrever uma definição de Teologia Relacional que ao mesmo tempo contivesse uma resposta a esse artigo de Nicodemus, só mencionado brevemente no final. Gondim não analisa o texto todo, apenas o primeiro ponto da TR levantado por Nicodemus: "O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas." Desse ponto, Nicodemus discordou apenas, como vimos, da superioridade do amor sobre outros atributos, estratégia da TR para advogar a pretensa "abertura" de Deus a ponto de negar Seu poder e Sua soberania. A sensibilidade e a comoção de Deus com relação a Suas criaturas foram evocadas pelo autor apenas para explicar o fundo sentimentalista e subjetivista da TR. É como se essa "teologia" argumentasse: "Deus é tão sensível e se comove tanto como os dramas de suas criaturas que chega ao ponto de se limitar voluntariamente para caminhar com elas." Isto é o que todo leitor atento tem condições de perceber ao finalizar o texto de Nicodemus.
No entanto, Gondim afirma que Nicodemus discorda de todo o parágrafo sobre o amor de Deus. Vejam o que escreve:
A próxima frase [de Nicodemus] vai negar noções intuitivamente percebidas pela grande maioria dos evangélicos: Deus é afetuoso, sim. (...) não é precisamente isto que as Escrituras repetidamente expressam sobre o Senhor? Por que a TR seria uma heresia por acreditar nos afetos divinos? A não ser que Nicodemus leia as Escrituras com as lentes aristotélicas do “Motor Imóvel” ou da “Apatia Divina”, não há como entender o Deus da Bíblia, senão como uma Pessoa que se sensibiliza e se comove com o drama humano.
Ora, por que Gondim teria se aferrado, em sua refutação a Nicodemus, ao ponto menos controverso sobre a TR, o único de todos os seis que não continha apenas falácias, afirmando que Nicodemus se posicionava também contra as verdades imbuídas nele? Não sei. E, porque não sei, preciso perguntar. Aqui vai, portanto, minha perguntinha a Ricardo Gondim: Caro Gondim,
A partir de uma menção feita em artigo por Augustus Nicodemus a idéias da Teologia Relacional - O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas - , o senhor conclui, no item III de seu artigo, que Augustus Nicodemus posiciona-se contra todas essas afirmações, enquanto no artigo o único ponto refutado é a superioridade do amor sobre os demais atributos divinos. Sendo assim, o senhor afirma explicitamente em seu texto Teologia Relacional - Que bicho é esse? que Nicodemus NÃO CRÊ que Deus seja amoroso, sensível e se comova com os dramas de suas criaturas. Gostaria então de lhe perguntar se essa aterradora conclusão sua foi (das duas, uma):
- Mero recurso retórico para finalizar bem o texto? ou
- Uma real conclusão a partir do texto de Augustus Nicodemus?
Tertium non datur. Não creio ser possível qualquer outra resposta, embora muito me alegrasse que houvesse, pelo seguinte motivo: no primeiro caso, o senhor estaria usando de uma estratégia algo desonesta para desacreditar violentamente não só o texto criticado, mas seu autor (afinal, como os evangélicos podem confiar em um teólogo que não crê na verdade bíblica de que Deus é amoroso, sensível e se comove com os dramas de suas criaturas?); no segundo caso, o senhor estaria se valendo de uma interpretação de texto muito duvidosa ou, no mínimo, de uma grande desatenção, o que põe em cheque sua própria capacidade de articulação e leitura. Qual das duas é a alternativa exata? Muito gostaria de saber.
Sinceramente,
Norma Braga