22 abril 2010

Perguntas e respostas

Estou tentando sair do assunto “esquerdismo”, mas está difícil. :-) Tinha um post fresquinho aqui sobre um tema totalmente outro, que ainda estou burilando, mas um leitor me pediu para responder a algumas perguntas. Como o blog precisa de atualização e as dúvidas dele representam as de muita gente, vou ordená-las aqui, com as devidas respostas.

Anderson: Pode ser rotulado "de esquerda" quem sai da inércia e procura fazer algo diante do sofrimento alheio?

Norma: Claro que não. A rotulagem, na verdade, costuma funcionar no sentido contrário: para a esquerda, quem é de direita necessariamente NÃO faz nada diante do sofrimento alheio. O que, evidentemente, é julgamento e difamação política.

A: É de esquerda quem tenta colocar em prática o mandamento cristão do amor ao próximo?

N: O amor ao próximo se manifesta de mil e uma formas. Não damos apenas dinheiro, mas principalmente nosso tempo, nosso amor, nossas palavras de consolo, nosso testemunho, nossa disposição para ouvir etc. etc. E nosso próximo pode ser rico também, não pode? De novo, aqui, a rotulagem é no sentido inverso: a esquerda sempre acha que o próximo é o pobre, nunca o rico, reduzindo os necessitados do amor de Deus (todo mundo) aos necessitados de bens materiais, "materializando" a fé. A Bíblia afirma que todos pecamos e todos carecemos da glória de Deus. Reduzir o problema do mundo a seu aspecto apenas material (como faz a Teologia da Libertação) é um acinte à fé cristã.

A: Se eu participar de movimentos que ajudem crianças em situação de risco, dependentes químicos e mendigos, significa necessariamente que eu concordo com as atrocidades dos regimes comunistas?

N: Claro que não. Mas se você se sente um cristão melhor que seu irmão por participar desses movimentos, sem saber o que seu irmão faz de seu tempo, estará incorrendo no pecado do julgamento e do orgulho. Não é preciso aderir a um movimento para servir a Deus. Podemos servi-Lo em nossas vidas cotidianas, de acordo com as situações que se apresentam a nós, como o bom samaritano ajudou o judeu caído no chão.

A: Ser a favor da reforma agrária, do acesso universal à educação, à moradia, à saúde, ao transporte urbano, à alimentação adequada é desconforme à cosmovisão cristã?

N: Depende. Reforma agrária através de vandalismo e roubo de propriedade, como é o caso do MST, definitivamente é algo desconforme à cosmovisão cristã. Tomar as coisas à força do braço jamais será algo aprovado por Jesus. Quanto ao restante, é evidente que direita e esquerda não discordam da necessidade dessas coisas, mas sim dos métodos para alcançar sua acessibilidade. Se o método for "através de um Estado que mande em tudo", discordo, pois o Estado forte faz mais mal que bem - inclusive para a igreja.

A: Sou a favor da distribuição de renda, da erradicação da pobreza, da sustentação do meio ambiente e da democracia. Os conservadores podem dizer, por isso, que contrario os princípios cristãos?

N: Depende. Vamos por partes.

Primeiro, “distribuição de renda” é um termo-pegadinha. É claro que a ideia parece muito bonita. Mas veja: para a distribuição de renda, é preciso alguém que distribua. A quem cabe essa tarefa? Esse que distribui não será o mais rico de todos (o Estado)? E a história não mostra que, uma vez de posse de toda a riqueza, o Estado NÃO a distribui? Fidel Castro riquíssimo não me deixa mentir. Assim, o cristão que confia de todo o seu coração em um Estado que, uma vez tendo angariado poder suficiente para acumular toda a renda de um país, irá distribuí-la com justiça, está esquecendo um ponto básico da fé: o pecado original. Isso nunca funcionou e nunca funcionará, pois o coração do homem é mesquinho e egoísta. Sem Deus e com poder nas mãos, os governantes apenas se sentem licenciados para oprimir mais e mais o povo. (Mas, se você tem outra ideia quanto ao que significa “distribuição de renda”, gostaria de ouvi-la.)

Justo por causa do pecado original, a “erradicação da pobreza” é um sonho, uma utopia. Fazemos o que está a nosso alcance para diminuir o sofrimento dos pobres, mas não podemos, como cristãos, crer em uma erradicação total da pobreza para este mundo, nem delegar essa responsabilidade a governantes com poder máximo nas mãos. Eles não irão cumpri-la e ainda desejarão mandar em nossas consciências para garantir a continuidade desse poder máximo (vide os projetos do atual governo – que no entanto está ainda longe de ser um autêntico governo totalitário!).

Quanto ao meio ambiente, é preciso tomar cuidado com algumas falácias pretensamente científicas, como o aquecimento global, usado para pressão política. Fora isso, a causa é válida.

Já “democracia” é uma palavra que vem sofrendo abusos há muito tempo. Há quem afirme, por exemplo, que “Cuba é uma democracia” (como faz Chávez). Na verdadeira democracia são preservados o direito de expressão, o direito de ir e vir, a liberdade para formar partidos políticos e contestar o governo. Em Cuba há prisões por delito de opinião, ninguém pode sair do país sem autorização e só há um partido, que se perpetua no poder há meio século. Dessa democracia eu não quero, obrigada!

A: Por fim, será que a dicotomia direita x esquerda já não foi superada?

N: Acho que não. A dicotomia ainda é muito útil para precisar posições quanto ao socialismo (contra/a favor). Porém, como no Brasil o pensamento esquerdista obteve o status de um aprovado lugar-comum (inclusive na igreja!), tem muito esquerdista ou semi-esquerdista que não se diz de esquerda, como falei em post anterior. (A linguagem que você usa para elaborar suas perguntas demonstram um tanto essa confusão.) Isso se deve em grande parte à passividade geral diante de estratégias educativas espúrias, quando professores socialistas destilam seu socialismo em sala de aula sem nomeá-lo ou sem explicitá-lo devidamente. Os estudantes “compram” essas ideias gerais e mal digeridas – distribuição de renda, fim da propriedade privada, demonização de toda autoridade etc. – sem conseguir integrá-las a uma cosmovisão. Quando essas ideias invadem a igreja, então, é o caos: discípulos de Jesus depositam sua esperança (transcendental) na política (imanente e composta em grande medida por homens sem Deus) e, levados por um sentimento sincero de compaixão pelos pobres, podem aos poucos deixar que seja pervertida a fé libertadora. Por me preocupar com isso é que falo tanto do assunto – não por gostar de política. Também não quero saber daquele tipo de conservadorismo (comum nos EUA) que transformou a fé cristã em um pretexto para mudar a sociedade através de leis. Meu conservadorismo é essencialmente antissocialista.

13 abril 2010

Ufa! Por que falo tanto da esquerda afinal?

Alguns leitores podem perguntar-se: “Mas por que ela fala tanto da esquerda?”

Que bom, tenho teólogos para responder por mim! Veja o que diz Michael Horton sobre a ação transformadora da igreja:

Precisamos parar de nos acomodar à cultura que confrontamos e objetivamos transformar. Porém, para fazer isso precisamos não apenas conhecer nossa própria teologia, mas também conhecer os ídolos e compreender os modos com que nós mesmos acabamos tomando a forma do espírito deste século em vez da forma do Espírito de Cristo.

É precisamente por isso que denuncio a esquerda como um ídolo parasita do cristianismo, um dos obstáculos mais comuns à cosmovisão genuinamente bíblica. Mas o principal, evidentemente, não é o não que o cristão precisa dar à inversão política (confusão entre o Reino de Deus e o paraíso socialista), mas o sim (entusiasta!) da mente e do coração para o reforço teológico nas Escrituras, com a ajuda de pregações fiéis e obras de nossos irmãos do passado que organizaram a doutrina. Teologia frouxa equivale a mente enfraquecida, que por sua vez gera uma vida de pecados não-identificados e inconfessados. Por isso, siga o conselho de Horton: estude teologia reformada!

Quer ler o restante da citação? Dê uma olhada no Tamos lendo!

08 abril 2010

Cristãos conservadores do Brasil, uni-vos!

Percebi que meu artigo publicado na Ultimato está cumprindo uma função bastante interessante na blogosfera e além: uma espécie de espanação geral do armário. Socialistas antes enrustidos se colocam de modo claro e conservadores até então tímidos resolvem expor sua indignação com os onipresentes e opressivos lugares-comuns socialistas.

Pois é, as tentativas de resposta a meu artigo na Ultimato têm sido reveladoras. Primeiro, salta à vista o mote geral “não sou de esquerda” (ou “não sou comunista”), pronunciado tão-somente como preâmbulo para a defesa de uma cosmovisão inegavelmente montada em cima de pressupostos esquerdistas. Segundo, é sempre impressionante constatar o uso do mecanismo do bode expiatório (Girard, again) em lugar de contra-argumentações (um bom exemplo: “se não dar [sic] para conciliar as idéias socialistas aos [sic!] princípios bíblicos, então o que dizer do capitalismo monstruoso que acumula fortunas em poucas mãos plutocratas enquanto dois terços da população mundial morre [siiiiiiic!] de fome nas raias da exclusão total?”): o capitalismo desculpa todos os erros do socialismo, inclusive o genocídio. Uau! Na mesma linha, perguntam desafiadoramente o que eu acho da Ku Klux Klan e dos cristãos alemães, demonstrando com isso quão longe chegou a demonização dos opositores do socialismo.

Como sou boazinha, deixo aqui explicitamente: não sou nazista, não sou a favor da KKK (a não ser para rir na internet), não sou entusiasta da ditadura militar, não sou contra os pobres nem indiferente à pobreza. Não acredito que o socialismo seja a solução para o problema da pobreza, a não ser que o objetivo seja empobrecer todo mundo logo de uma vez, material, mental e espiritualmente. Aí, o socialismo dá certo. A propriedade privada é bíblica, senão o Oitavo Mandamento não faria sentido algum. Não é “coisa de capitalista”. E, se você acha que a Bíblia defende o socialismo, um post excelente do Helder Nozima me poupou muito trabalho argumentativo e uma bronca do Roberto Vargas também dá conta do recado direitinho.

Alguns ficaram horrorizados porque eu disse que o conceito de “classe dominante” é vago. Tratei disso aqui.

E muitos reclamaram do meu uso de Girard. Pois é, Girard também foi cooptado pela esquerda, assim como Calvino e Kuyper. No entanto, minha alusão está perfeitamente correta. Só para constar, Girard coloca tanto o nazismo quanto o comunismo debaixo da mesma etiqueta: “totalitarismo”. A diferença? O comunismo seria um “totalitarismo da vítima”. Vejam o que ele declara:

Nazismo: "Os nazistas diziam: 'Vamos mudar a vocação do mundo ocidental, anular o ideal de um universo sem vítimas. Vamos fazer tantas vítimas que reinauguraremos o paganismo."

Comunismo: "Vivemos hoje em um mundo em que existem poderosos lobbies da vítima, em que só se pode mais perseguir ou exercer violência através de um discurso vitimário, de uma defesa das vítimas. O comunismo, por exemplo, na URSS, pretendia falar apenas em nome das vítimas, e fazia vítimas em nome das vítimas. O fracasso do comunismo soviético é um fracasso desse segundo totalitarismo que não chegou de modo nenhum ao fim. Penso que esse segundo totalitarismo irá reaparecer sob outras formas, e que já está reaparecendo, ainda está bem vivo. Como o terrorismo, que sempre fala em linguagem vitimária e exerce violência em nome da defesa das vítimas.

Politicamente correto: "É a religião da vítima, desprovida de toda transcendência, a obrigação social de empregar uma verdadeira 'língua de pau vitimária' que vem do cristianismo, mas que o subverte mais insidiosamente ainda que a oposição aberta."

Tá vendo? Queimou a língua quem reclamou do Girard no meu texto, né? Ah, mas se lessem meu blog saberiam! Falei disso muitas vezes: aqui, aqui, aqui, aqui.

Quanto aos conservadores que elogiaram minha coragem, penso o seguinte. Hoje em dia, é preciso menos coragem para declarar-se homossexual (e a recepção festiva ao novo gay assumido Ricky Martin não me deixa mentir) que para sair do armário do conservadorismo. Agora, tem muito líder cristão que também continua trancado no armário do socialismo, principalmente quando fala desse bicho esquisito que é a Missão Integral. E o pior é que muitas vezes fica lá não por falta de coragem (esquerda é mainstream, é chique), mas por ignorância ou desonestidade. Não pode! Se você, pastor, gosta de Marx, é contra a propriedade privada, acha que a igreja primitiva é um exemplo de distribuição de bens e usa Isaías 5.8 para defender o MST, faça um favor a suas ovelhas: diga claramente a elas que você é socialista. Porém, faça um favor ainda maior a suas ovelhas e a você mesmo: pare de confundir socialismo com Reino de Deus.

Por tudo isso, minha conclamação é: conservadores cristãos do Brasil, uni-vos! Todos para fora do armário, já! Vamos mostrar ao mundo do que é feita a cosmovisão calvinista e reformada de verdade.

01 abril 2010

Sobre o artigo da Ultimato

Sobre meu artigo na Ultimato, cabe um esclarecimento. Conforme a Carta Aberta das páginas 38 e 39, não é de hoje que a revista tem sido acusada de um esquerdismo quase militante, embora nem sempre em termos explícitos. A veiculação dessa carta na mesma edição de meu artigo suscitou em alguns leitores e não-leitores meus (hehe) a hipótese de que Ultimato, preocupada com essas acusações, tenha decidido publicar meu artigo somente para rebatê-las, dando mostras de pluralidade. Mesmo que o editor da revista tenha mencionado meu artigo como prova de que não segue uma linha antiamericana (o que aliás não entendi, pois os EUA estão ausentes do texto), não posso negar nem afirmar a veracidade dessa hipótese, pois não quero correr o risco de pecar ao emitir julgamentos acerca de motivações ocultas.

O que posso dizer com toda certeza é o seguinte: seja como for, a publicação de meu artigo não configura, de modo algum, pluralidade. Meu texto é um evento isolado em uma seção dedicada a opiniões femininas (“Deixem que elas mesmas falem”). A “pluralidade”, se limitada a uma seção de opiniões, não me parece algo significativo. Assim, o que dá identidade à revista são os articulistas de sempre, cuja maioria, de fato, é bastante conhecida do público, seja por suas posições à esquerda, seja por seu antiamericanismo, seja por manifestar apreço por certo feminismo: René Padillha, Paul Freston, Robinson Cavalcanti, Ricardo Gondim, Valdir Steuernagel, Bráulia Ribeiro. Isso é o que posso dizer simplesmente ao olhar o sumário da nova edição que tenho em mãos. E nisso não vai nenhum julgamento de valor. Apenas a constatação: sim, a grande maioria dos autores fixos da revista Ultimato tende a demonstrar posições de esquerda.

Mas e daí? Nosso país não conhece variedade política. A grande maioria dos formadores de opinião no Brasil é de esquerda. A revista apenas espelha esse fato no mundo protestante evangélico.

Tudo isso para, fundamentalmente, dizer o seguinte. No Brasil, as pessoas acham bonito o socialismo, aprovam ou não se incomodam com a ditadura cubana, odeiam os Estados Unidos, andam com camisetas do Che Guevara, veem no governo a solução de todos os problemas, xingam o “neoliberalismo”, abominam o capitalismo como o próprio Mal e não se dizem de esquerda. Claro, há os que o declaram mais abertamente, mas são minoria. A maioria sequer reconhece que existe, de fato, esquerda. Há ainda os que se denominam “socialdemocratas” embora continuem apoiando ditadores consumados como Fidel Castro e Hugo Chávez... Depreende-se disso que, neste país, o pensamento de esquerda se tornou a Opinião Comum Isenta e Racional. A explicação é simples: basta lembrar que desde o Brasil Colônia somos a somatória do Complexo do País Oprimido com a histórica expectativa de um governo que atue como um Grande Pai. Além disso, os ideais socialistas, onipresentes, nunca são questionados por leituras ou ensinamentos diversos, pois autores conservadores e liberais são ilustres desconhecidos no Reino dos Doutores do MEC. Ideologicamente, estamos quase tão fechados quanto a ilha-cárcere cubana...

Como conservadora, uma de minhas tarefas é denunciar o apagamento de todo um leque de opções (e isso não significa que eu seja uma adoradora dos EUA, uma entusiasta do capitalismo, uma elitista que não se importa com a pobreza etc. etc.). Outra, como cristã, é mostrar que a afinidade do socialismo com o cristianismo é, em grande medida, falsa, apontando para os perigos dessa convergência forjada. Isso significa afirmar que crente esquerdista não é crente? Claro que não! Mas se você, crente, por causa do seu esquerdismo, abre exceções ao aborto, cede ao relativismo (epistemológico, moral, cultural) e ajuda na perpetuação de um pensamento político autoritário por meio de um Estado forte e centralizador, quero contribuir para que você se desesquerdize, desconformando sua mente em relação ao mundo e submetendo-a cada vez mais ao senhorio de Cristo.

Dito isto, nos próximos posts procurarei responder às várias objeções que foram levantadas contra meu artigo, aqui ou acolá, indicando as leituras em que me apoiei para escrevê-lo.

P.S. É significativo que a publicação desse texto se dê no Dia da Mentira. Esquerdistas que não se dizem esquerdistas, mentindo conscientemente ou não: assumam suas posições! :-)

29 março 2010

Por que não sou de esquerda

Artigo publicado na Revista Ultimato, março de 2010

Diante do problema do mal, experimentamos a urgência de uma solução. Para quem crê, Jesus satisfez essa urgência: inocente, sacrificou-se por nós. Assim, o cristão fiel declara com tranquilidade que o mal está em si, confiando em Cristo para a redenção. Porém, para quem não crê, o problema do mal resta irresolvido e a solução será sempre externa. Este é o “mecanismo do bode expiatório”, segundo René Girard: fazer com que alguém encarne o mal e eliminá-lo, gerando sacrifícios sem fim (enquanto a Bíblia enfatiza: o sacrifício de Jesus é eterno).

Isso se verifica facilmente entre nós, ocidentais, quando lembramos os assassinatos em massa do século XX. Judeus, ciganos, cristãos dissidentes e povos não-alemães foram os bodes expiatórios da Alemanha hitlerista: quarenta milhões de mortos. Da mesma forma, nos países comunistas o vago conceito de “classe dominante” tem justificado a condenação à morte de mais de cem milhões. Trata-se um ciclo diabólico, pois não há sacrifícios que cheguem para a sanha dos que pensam combater o mal dessa maneira. Assim, a violência aumenta na mesma proporção do secularismo.

A equiparação entre comunismo e nazismo não é novidade. No entanto, de certo modo o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães era melhor nisso: mentia menos. Seus membros não escondiam o desejo de conquistar o mundo; já o socialismo oculta seu projeto de poder total sob a compaixão pelos pobres e a promessa de um futuro glorioso. O autointitulado “protetor dos oprimidos”, ao tornar-se chefe da nação, passa a valer-se de sua anterior (e farsesca) posição de “oprimido” para solapar resistências e positivar desmandos. E o povo, além de mais empobrecido, fica definitivamente sem voz. Na Rússia, na China e no Camboja a arbitrariedade apenas mudou de mãos, tornando-se voraz como nunca; em Cuba, uma favela carioca pareceria condomínio de luxo na parte não-turística da ilha; na Venezuela, Chávez diz “eu sou o povo” para justificar a progressiva supressão da democracia.

Hoje não há cristãos nazistas (espero!), mas há uma miríade de cristãos socialistas ou comunistas. É algo difícil de compreender. Em primeiro lugar, por que um seguidor de Jesus aderiria a um arremedo de plano da redenção? Para confessar esse endosso, precisaria necessariamente subverter todo o pensamento bíblico, substituindo a criação divina pela matéria autônoma, o pecado original pela propriedade privada, a salvação em Cristo pela revolução socialista. Se não o fez, é porque ainda oscila entre os dois mundos, sem perceber que são díspares — a cultura marxista mimetizando a cristã.

Em segundo lugar, por que um cristão se posicionaria a favor de um Estado forte que pune seus dissidentes? O processo de centralização do poder empurra a igreja ou para o servilismo ou para a clandestinidade onde quer que o socialismo seja implementado. De fato, Hannah Arendt estudou o totalitarismo e concluiu que o isolamento torna o ser humano muito mais vulnerável ao controle estatal. Por isso, esse regime ataca prioritariamente as livres associações (a família, a igreja, a escola, o comércio), buscando atomizar a sociedade no melhor estilo romano “dividir para conquistar”.

Ser socialista e cristão é tomar o partido de César, não de Cristo. Sobretudo, ser socialista e cristão no Brasil de hoje é assumir uma postura perigosíssima para a igreja. De várias maneiras, o governo atual, honrando suas influências teóricas e suas alianças internacionais, busca cada vez mais controle sobre a sociedade. É quando precisamos recorrer aos ensinamentos de Calvino e Kuyper: por causa do pecado, Deus instituiu os magistrados para punir os maus e garantir a ordem; porém, o Estado jamais pode ferir a soberania das esferas individuais, familiares e corporativas, pois a autoridade de cada esfera descende igualmente de Deus. Caso o faça, devemos orar para que retorne ao ideal divino, opondo-nos a cada atentado à liberdade e amparando os perseguidos. Mas isso só será possível se substituirmos a cosmovisão esquerdista por uma genuína cosmovisão cristã. Que Deus ajude a igreja brasileira nessa empreitada.

24 março 2010

Infanticídio indígena e justificações antropológicas

Indiozinho
Há tanto tempo que ninguém poderia contar, boa parte das tribos brasileiras acredita que a certas crianças não é permitido sobreviver. Crianças com defeitos congênitos, gêmeos, filhos de mães solteiras representam, segundo crenças muito antigas, um risco espiritual para toda a aldeia. O costume é matá-las assim que nascem.

Algumas dessas famílias indígenas pressentem a crueldade desse ato e, contrariando a tradição, fogem da aldeia, recusando-se a assassinar seus filhos. (O menininho da foto, Niawi, foi enterrado vivo no Amazonas aos 5 anos de idade, por não conseguir aprender a andar. Seus pais eram contra o sacrifício e se suicidaram antes do acontecimento.) A Atini, uma organização sem fins lucrativos, oferece apoio para esses índios que estão na contracultura. Pretende com isso diminuir todo esse sofrimento e impedir a matança de mais indiozinhos.

Porém, no melhor estilo petersingeriano, partidários do relativismo cultural não apenas discordam dessa intervenção, mas negam o próprio fato de que o indiozinho recém-nascido é… gente! E um deles é uma antropóloga que se diz conselheira da UNICEF! Confira a história, contada pela presidente da Atini, Marcia Suzuki.


A ESTRANHA TEORIA DO HOMICÍDIO SEM MORTE
Marcia Suzuki

 

Alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. Através de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mínimo racista. A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos. Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas “interdição” de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha 2, 5 ou 10 anos de idade.

Deixe-me explicar melhor. Em qualquer sociedade, a criança precisa passar por certos rituais de socialização. Em muitos lugares do Brasil, a criança é considerada pagã se não passar pelo batismo católico. Ela precisa passar por esse ritual religioso para ser promovida a “gente” e ter acesso à vida eterna. Mais tarde, ela terá que passar por outro ritual, que comemora o fato dela ter sobrevivido ao período mais vulnerável, que é o primeiro ano de vida. A festa de um aninho é um ritual muito importante na socialização da criança. Alguns anos mais tarde ela vai frequentar a escola e vai passar pelo difícil processo de alfabetização. A primeira festinha de formatura, a da classe de alfabetização, é uma celebração da construção dessa pessoinha na sociedade. Nestas sociedades, só a pessoa alfabetizada pode ter esperança de vir a ser funcional. E assim vai. Ela vai passar por um longo processo de “pessoalização”, até se tornar uma pessoa plena em sua sociedade.

Esse processo de socialização é normal e acontece em qualquer sociedade humana. As sociedades diferem apenas na definição dos estágios e na forma como a passagem de um estágio para outro é ritualizada.

Pois é. Esses antropólogos e missionários estão defendendo a teoria de que, para algumas sociedades, o “ser ainda em construção” poderá ser morto e o fato não deve ser percebido como morte. Repetindo – caso a “coisa” venha a ser assassinada nesse período, o processo não envolverá morte. Não é possível se matar uma coisa que não é gente. Para estes estudiosos, enterrar viva uma criança que ainda não esteja completamente socializada não envolveria morte.

Esse relativismo é racista por não se aplicar universalmente. Estes estudiosos não aplicam esta equação às crianças deles. Ou seja, aquelas nascidas nas grandes cidades, mas que não foram plenamente socializadas (como crianças de rua, bastardas ou deficientes mentais). Essa equação racista só se aplicaria àquelas crianças nascidas na floresta, filhas de pais e mães indígenas. Racismo revestido com um verniz de correção política e tolerância cultural.

Tristemente, o maior defensor desta teoria é um líder católico, um missionário. Segundo ele "O infanticídio, para nós, é crime se houver morte.  O aborto, talvez, seja mais próximo dessa prática dos índios, já que essa não mata um ser humano, mas sim, interdita a constituição do ser humano", afirma.”i

Uma antropóloga da UNB concorda. "Uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa.  Ela passará por um longo processo de pessoalização para que adquira um nome e, assim, o status de 'pessoa'.  Portanto, os raríssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é.  Infanticídio, então, nunca." ii

Mais triste ainda é que esta antropóloga alega ser consultora da UNICEF, tendo sido escolhida para elaborar um relatório sobre a questão do infanticídio nas comunidades indígenas brasileiras iii. Como é que a UNICEF, que tem a tarefa defender os direitos universais das crianças, e que reconhece a vulnerabilidade das crianças indígenas vi, escolheria uma antropóloga com esse perfil para fazer o relatório? Acredito que eles não saibam que sua consultora defende o direito de algumas sociedades humanas de “interditar” crianças ainda não plenamente socializadas. v

O papel da UNICEF deveria ser o de ouvir o grito de socorro dos inúmeros pais e mães indígenas dissidentes, grito este já fartamente documentado pelas próprias organizações indígenas e ONGs indigenistas. vi

A UNICEF deveria ouvir a voz de homens como Tabata Kuikuro, o cacique indígena xinguano que preferiu abandonar a vida na tribo do que permitir a morte de seus filhos. Segurando seus gêmeos sobreviventes no colo, em um lugar seguro longe da aldeia, ele comenta emocionado:

“Olha pra eles, eles são gente, não são bicho, são meus filhos. Como é que eu poderia deixar matar?” vii

Para esses indígenas, criança é criança e morte é morte. Simples assim.



[i] http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=347765
[ii] idem
[iii] Marianna Holanda fez essa declaração em palestra que ministrou em novembro de 2009 no auditório da UNIDESC , em Brasília.
[iv] Segundo relatório da UNICEF, as crianças indígenas são hoje as crianças mais vulneráveis do planeta. “Indigenous children are among the most vulnerable and marginalized groups in the world and global action is urgently needed to protect their survival and their rights, says a new report from UNICEF Innocenti Research Centre in Florence.”
[v] Em algumas sociedades, crianças não socializadas seriam gêmeos, filhos de mãe solteira, de viúvas ou de relações incestuosas, crianças com deficiência física ou mental grave ou moderada, etc. A dita “interdição” do processo pode ocorrer em várias idades, tendo sido registrada com crianças de até 10 anos de idade, entre os Mayoruna, no Amazonas. Marianna defende essa “interdição” em dissertação intitulada “Quem são os humanos dos direitos?” Estudo contesta criminalização do infanticídio indígena
[vi] www.quebrandoosilencio.blog.br www.atini.org www.movimentoindigenaafavordavida.blogspot.com http://vimeo.com/1406660 carta aberta contra o infanticídio indígena
[vii] Trecho de depoimento do documentário “Quebrando o Silêncio”, dirigido pela jornalista indígena Sandra Terena. O documentário está disponível no link www.quebrandoosilencio.blog.br

22 março 2010

Coisinhas sobre mim (2)

- Os únicos críticos do capitalismo dignos de minha atenção respeitosa são aqueles que não se renderam a nenhum tipo de opressão estatal socialista. Ou seja, aqueles que são honestos o suficiente para não usar o capitalismo como bode expiatório do socialismo.

- Não sou gorda, mas tem pelo menos dez anos que eu queria perder uns quilos para sempre. Poderia adaptar aquela frase famosa de Mark Twain: “Emagrecer é fácil, eu já emagreci várias vezes!”

- Gosto muito do seriado americano Without a Trace (Desaparecidos). Quando cheguei à terceira temporada, percebi isto: via de regra, os desaparecidos são pessoas reservadas ou cheias de segredos. Isso atrapalha a investigação, já que familiares e amigos não podem ajudar muito quando entrevistados. Pois bem: eu me comporto como se um dia fosse desaparecer, contando tudo sobre mim para as pessoas que mais amo. Se isso não for saudável por alguma razão (ainda não descobri qual), pelo menos pode ser útil para me acharem um dia.

- Estou sedenta de mais música boa que louve a Deus. Se você sabe de algum músico ou grupo que seja de fato diferente do que se ouve hoje nas rádios ou “por aí”, por favor, poste nos comentários. Por exemplo: Elomar (embora não o tempo todo) e aquele casal fofo que pastoreia a igreja do Surfjan Stevens. Folk é uma ótima (tipo Nick Drake, Neil Young, Kings of Convenience), mas pode ser também rock ou pop, desde que seja de fato bom (tipo Paul McCartney, David Bowie, Billy Joel). Agora, se for tão original quanto Rumo, Air ou Beirut, irei às nuvens. E, se as letras forem citações diretas da Bíblia, melhor ainda! (Ok, sei que estou pedindo demais, hehe!)

15 março 2010

Abaixo-assinado pela liberdade em Cuba


O caso de Orlando Zapata Tamayo (ver meu post aqui) tem despertado pessoas em todo o mundo para protestar contra as condições desumanas da ditadura cubana. Quero juntar minha voz a esse coro pela libertação dos presos políticos em Cuba e pelo fim do cruel regime dos irmãos Castro. Se você também gostaria de participar desse clamor, assine aqui. O texto do abaixo-assinado em português:

Pela libertação imediata e sem condições de todos os presos políticos das prisões cubanas; pelo respeito ao exercício, promoção e defesa dos direitos humanos em qualquer parte do mundo; pelo decoro e o valor de Orlando Zapata Tamayo, injustamente preso e brutalmente torturado nas prisões cubanas, morto após greve de fome por denunciar estes crimes e a falta de liberdade e democracia no seu país; pelo respeito à vida dos que correm o risco de morrer como ele para impedir que o governo de Fidel e Raul Castro continue eliminando fisicamente aos seus opositores pacíficos, levando-os a cumprir condenações injustas de até 28 anos por "delitos" de opinião; pelo respeito à integridade física e moral de cada pessoa, assinamos esta carta, e encorajamos a assiná-la também, a todos os que elegeram defender a sua liberdade e a liberdade dos outros.
E não deixe de dar uma olhada:

No blog cubano que está veiculando o abaixo-assinado;
No vídeo da manifestação dos cubanos de Miami na embaixada brasileira nos EUA;
No desabafo de Marcelo Madureira (do Casseta & Planeta) sobre os "recados" do governo.

10 março 2010

Interpretações (3)

Sei que, apenas por meu antiesquerdismo, muitos colam ou colarão em mim uma atitude elitista. (No entanto, que injustiça, se estudassem saberiam que o Estado socialista é a forma mais cruel de elitismo!) Pelo contrário, meu sempre presente horror ao elitismo foi o que me salvou de muitos erros teológicos. Explico.

Quando eu era esotérica, tinha literalmente raiva da Bíblia porque, segundo os “mestres” do esoterismo, o que se lia nunca era o que se lia. Lembro-me de assistir a palestras sobre a Bíblia em um centro esotérico. A palestrante, “incorporada”, explanava o trecho em que Jesus vê Natanael embaixo da figueira (Jo 1.48). Dizia ela: “Filipe significa isso, Natanael significa aquilo, a figueira significa aquilo outro...” Ou seja: sem uma ridícula, nada democrática e provavelmente impossível tabela de simbolismos, os escritos bíblicos seriam sempre um conjunto inalcançável. Isso me manteve por anos longe desse Livro, pois, apesar de esotérica, desagradava-me profundamente que fosse uma leitura somente para “entendidos”.

Hoje, quando leio sobre os críticos heterodoxos que adoram — a-do-ram — inventar simbologias escalafobéticas para a Bíblia, no mesmo estilo que a mestra “incorporada” (“tal personagem significa isso...”), sempre formulo mentalmente a seguinte regra: se a leitura desses “eruditos” é diferente demais da leitura de qualquer mortal, jogue fora. O mesmo vale para estudiosos que até acatam o sentido primário dos textos bíblicos, mas os desprezam em favor de outros “mais profundos”, aos quais se apegam mais, afirmando até mesmo que esses sentidos (o “básico” e o “profundo”) se opõem! (É, tem louco pra tudo…)

A questão é: Jesus nunca deixaria longe de seu Reino os pequeninos; muito pelo contrário, eles são privilegiados na revelação (Mt 11.25)! Portanto, desconfie da chamada teologia liberal e neo-ortodoxa, além de todo tipo de “esoterismo cristão”: a maioria desses autores eruditiza demais a Bíblia e nega a leitura básica, mandando os pequeninos amados por Jesus para o fim da fila da compreensão de sua fé.

27 fevereiro 2010

Esquerdismo assassino e seus cúmplices

Em artigo para o Boston Globe, o jornalista Matthew Price conta que perguntaram para o propalado historiador Eric Hobsbawn, leitura obrigatória nas universidades brasileiras, se a perda de vinte milhões de pessoas no regime comunista da antiga União Soviética havia sido justificável. Sem hesitar diante das câmeras de TV, Hobsbawn respondeu: “Sim.”

Há quem diga que o comunismo acabou, mas (que curioso!), mesmo morto, continua matando. Dias depois da publicação do artigo de Price, em março de 2003, houve a chamada Primavera Negra em Cuba, uma onda de prisões de dissidentes do regime castrista. Entre 75 outros cubanos, Orlando Zapata Tamayo foi preso. Seus crimes: “desrespeito, desordem pública e resistência”. Sua pena: 36 anos de detenção. No cárcere, vinha sofrendo graves espancamentos, maus-tratos e tortura psicológica. Quase sete anos depois, no dia 3 de dezembro de 2009, Tamayo decidiu que seu martírio não seria em vão: começou uma greve de fome pelo fim da ditadura em Cuba. O chefe da prisão resolveu “dar uma forcinha” para a greve e mandou que negassem água ao preso. Hospitalizado com falência renal, foi posto nu em um quarto com um forte ar-condicionado e contraiu pneumonia. Em seguida, sem tratamento, foi levado de volta para a prisão, largado para morrer. No dia 23 de fevereiro deste ano, depois de 85 dias sem se alimentar, Tamayo falece.

Diante do ocorrido, qual o veredito de Raúl Castro, irmão do ditador? “A culpa é dos Estados Unidos.”

Graças ao Senhor de toda a justiça, a morte de Tamayo está provocando protestos no mundo inteiro. Os Estados Unidos, a União Europeia e o Canadá exigem a libertação de todos os presos políticos em Cuba (duzentos, segundo os dissidentes). Na República Checa, o parlamento guardou um minuto de silêncio em homenagem a ele. Lech Walesa, líder que trabalhou pelo fim do comunismo na Polônia, está pressionando o governo cubano a favor dos encarcerados, e a Anistia Internacional se pronunciou sobre a repressão violenta do regime. A movimentação chega tarde demais, porém: desde 1957, a Cuba socialista já matou 17 mil diretamente e 83 mil no mar, tentando deixar a ilha.

E o Brasil, o que fez? Lula estava lá e, representando-nos, calou-se diante de tudo isso.

Conta o jornalista que Hobsbawn, cúmplice ideológico do assassinato de milhões de pessoas, alegrou-se muitíssimo com a eleição de Lula para presidente do Brasil. Compreende-se. Diante das mortes simbólicas e reais do mundo socialista, ambos se irmanam em suas justificações. Price também escreve que hoje poucas figuras da envergadura do historiador mantêm a mesma devoção ao comunismo. Isso certamente não é verdade no Brasil. Se fosse, o barulho em torno da morte de Tamayo seria maior. Bem maior. Haveria uma indignação gigantesca contra o silêncio conivente de Lula. ONGs fariam passeatas, ativistas de direitos humanos bradariam de horror. Entre os cristãos, haveria ainda mais protestos. Na igreja protestante brasileiras, pastores iriam a público pedir perdão a seus fiéis por terem apoiado Fidel e seus seguidores — Chávez, Morales, Lula. É isso que espero dos pastores brasileiros. Há muito tempo, na verdade.

E você, cristão esquerdista que apóia Fidel, que gosta de Lula, que anda com a camisa do Che, que louva as maravilhas do socialismo, já se informou? Já pediu suas desculpas em público? Até quando será cúmplice da tirania e do assassinato?

24 fevereiro 2010

Vamos testar a tolerância secular com uma música pop

Um dos maiores sucessos dos Titãs nos anos oitenta foi aquela música Igreja (tem no You Tube), que dizia:

Eu não gosto de padre
Eu não gosto de madre
Eu não gosto de frei

Eu não gosto de bispo
Eu não gosto de Cristo
Eu não digo amém!

Todo mundo adorava! Todo mundo ainda adora os Titãs e o compositor de Igreja, o hoje tão bonzinho, comportadinho e falandinho-de-amor Nando Reis. Mas, pensando bem, o que eles fizeram não é nada de mais. Pelo menos há uns cinquenta anos (pois é, cinquenta anos!), xingar a igreja, falar mal de padre e pastor e enxovalhar o cristianismo é moleza, lugar-comum e não choca ninguém. Assim, lanço aqui uma ideia que todos os cristãos conservadores, protestantes e católicos, poderão aproveitar: testar a tão propalada tolerância do secularismo politicamente correto com uma letra contracultural de verdade, desafiando a religião moderna. Vamos todos então cantar assim:

Eu não gosto de Lênin
Eu não gosto de Stálin
Eu não gosto do Che!

Eu não gosto do Chávez
Não gosto do Morales
Eu não sigo Fidel!

Eu não rezo pra Lula
Eu não voto na Dilma
Eu não sou do PT!
Não! Não!

Eu não gosto de Darwin
Eu não gosto de Dawkins
Nem do tal do big bang

Eu não sou feminista
Não aprovo o aborto
Eu gosto do neném!

Eu não faço parada
Eu não creio nas cotas
Nem festejo Zumbi!

Eu não gosto da esquerda
Eu não entro pra esquerda
Não sou comunistão!
Não!
Não! Não gosto! Eu não gosto!
Não! Não gosto! Eu não gosto!

15 fevereiro 2010

Um belo texto americano para o Valentine's Day

Traduzido por mim daqui
O autor, Ray Ortlund, foi uma indicação do blog do John Piper.

Cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido.
Efésios 5.33

Primeiro, Deus criou Adão e o colocou no Jardim com uma tarefa, uma missão a guardar. Sobre o coração de cada homem caído paira essa dúvida: “Sou homem o suficiente para escalar essa montanha para a qual Deus me chamou? Poderei cumprir meu destino?” A esposa sábia compreenderá essa dúvida nas profundezas do coração de seu esposo. E passará toda uma vida comunicando-se com ele em resposta, de várias maneiras: “Querido, eu acredito em seu chamado. Sei que você pode cumprir sua missão, no poder de Deus. Não desista.” Dessa forma, ela estará insuflando vida em seu amado.

Deus criou Eva a partir de Adão, para Adão, com a finalidade de ajudá-lo a cumprir a tarefa. Sobre o coração de cada mulher caída paira essa dúvida: “Você se agrada de mim? Eu sou o que você queria?” O esposo sábio compreenderá essa dúvida nas profundezas do coração de sua esposa. E passará toda uma vida comunicando-se com ela em resposta, de várias maneiras: “Querida, você é perfeita para mim. Eu amo você. Venha cá me dar um abraço.” Dessa forma, ele estará insuflando vida em sua amada.

03 fevereiro 2010

Coisinhas sobre mim

- Sou tão lenta para aprender as coisas que Deus resolveu compensar amorosamente essa característica, fazendo-me parecer dez anos mais nova. Assim, a passagem do tempo se torna um pouco menos evidente enquanto levo anos amargando as mesmas lições.

- Acho muito feio o uso do verbo “colocar” no sentido de “afirmar”.

- O reconhecimento público é algo que me emociona mais do que eu gostaria (por minha causa: medo do orgulho). Mas não me envergonho nem um pouco de me emocionar com aqueles programas de tv em que famílias unidas ganham casas, gente desconhecida canta bem e casais se reencontram (por causa deles mesmos: não preciso me preocupar com meu próprio orgulho).

- Se eu não me dedicasse às letras, seria musicista, talvez cantora lírica ou vocalista de banda folk-rock-celta-progressivo. (Cantando para louvar a Deus, claro! Se não, tudo seria muito sem graça para mim.) A única arte que eu amo mais que a música é a literatura.

- Odeio o vitimismo moderno. O aplicado vitimista (geralmente, de esquerda) é sempre sem noção. Por exemplo: um editor organiza e publica a única enciclopédia existente na atualidade sobre determinado assunto, convidando a si mesmo para escrever os verbetes mais importantes. No entanto, em cada um dos textos dele (e só nos dele), continua a se queixar de uma “univocidade” no meio, como se fosse o último dos excluídos da roda de experts.

19 janeiro 2010

Sobre o Haiti: leituras

Um olhar teológico acurado acerca da tragédia;

Mais considerações teológicas;

Uma análise que eu endosso inteiramente;

Um comovente pedido de ajuda de um pastor;

Amar o vizinho: longe ou perto (em inglês).

Há links para doação nesses sites. Se puder, ajude. E não pense " posso orar": orar, nesses momentos, é tudo.

16 janeiro 2010

Nova postagem no Tamos lendo!

Inspirada pela introdução de um livro, decidi lançar uma campanha no meu outro blog...

Cristãos esquerdistas, leiam os autores conservadores!

...na esperança de que este blog encontre adversários mais preparados!

Dê uma olhada!

09 janeiro 2010

Interpretações (2)

E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo amado, disse: Mulher, eis aí teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa. (João 19.25-27)

No imprescindível “comentário das bolinhas” (da série Cultura Bíblica, Vida Nova) do Evangelho de João, F. F. Bruce cita uma curiosa interpretação desse trecho por Bultmann (em The Gospel of John, p. 673):

“A mãe de Jesus, que se demora junto à cruz, representa o cristianismo judaico que suporta a ofensa da cruz. O discípulo amado representa o cristianismo gentílico, que é encarregado de honrar o outro como mãe de onde veio, assim como o cristianismo judaico é encarregado de ‘sentir-se em casa’ dentro do cristianismo gentílico, sendo todos membros de uma só grande comunidade da Igreja.”

Essa é uma leitura alegórica que pode levar a vários enganos. Não podemos examinar isoladamente João e Maria sem estender tal olhar a todos os personagens da Bíblia. E, se consideramos que todo personagem bíblico remete necessariamente a um arquétipo, corremos o risco certo de perder de vista o sentido básico do texto, não só deixando de considerá-los pessoas como nós, mas fatalmente caindo em subjetivismo. Se há algo que aprendi na Faculdade de Letras, é isso: toda interpretação textual das partes de um texto deve ser sustentada por seu todo. Se o texto inteiro – no caso, a Bíblia – não justifica essa abordagem, melhor deixá-la de lado, por mais bela que possa parecer (e Bultmann me leva a concluir que, mesmo falsa, uma interpretação pode ser extraordinariamente bela!).

É Calvino (Comentários, p. 232, tradução minha do inglês) quem expressa melhor algo que eu sempre intuí da leitura desse trecho:

“É como se Jesus dissesse a João: ‘De agora em diante, não serei mais um habitante desta terra, e tenho o poder de passar para você os deveres de filho; assim, coloco esse homem em meu lugar, para que desempenhe o papel que desempenhei.’ [...] Cristo pretendeu mostrar que, após ter completado o curso da vida humana, abandona a condição em que viveu e entra no Reino celestial, onde exercerá domínio sobre anjos e homens; pois sabemos que Cristo estava habituado a evitar que seus seguidores olhassem para a carne, e isto era especialmente necessário em sua morte.”

Enough said
.

01 janeiro 2010

Interpretações

Quando eu era novinha, cursando a formação de professores da Aliança Francesa, uma das professoras de literatura abordou e distribuiu em sala alguns poemas de Baudelaire (de As flores do mal) para que preparássemos apresentações individuais. A mim coube La chevelure (“A cabeleira”), um poema bastante longo e que, na época, julguei um tanto cansativo e sem propósito. Começa assim:

Ó tosão que até a nuca encrespa-se em cachoeira!
Ó cachos! Ó perfume que o ócio faz intenso!
Êxtase! Para encher à noite a alcova inteira
Das lembranças que dormem nessa cabeleira,
Quero agitá-la no ar como se agita um lenço!

(tradução de Guilherme de Almeida)

Em seguida, o poeta descreve todas as sensações e associações que a cabeleira lhe desperta. Na cabeleira vivem “uma Ásia voluptuosa e uma África escaldante”, acham-se os cheiros de “óleo de coco, almíscar e alcatrão”, podem-se cultivar “a pérola, a safira e o jade”. Um mundo de exotismo e sensualidade é despertado pelos cabelos da amada. Porém, achando que isso era pouco, e cega para o resto, quis ver mais no poema. E vi: falei em sala, para minha vergonha, da relação entre impérios e colônias, entre opressor e oprimido, aprofundando-me toda à esquerda (nem sonhava então em ser conservadora!).

A professora, de queixo caído, apenas sussurrou um talvez involuntário “Quelle horreur!”, enquanto eu e uma amiga entusiasmada enxergávamos fantasmas progressistas desfilando sem parar pela exaltação baudelairiana da cabeleira. Que horror, de fato!

Mais tarde, eu me "redimi", apresentando o mesmo poema a um examinador do Nancy e, anos depois, a alunos. No entanto, lembro-me desse episódio e penso no quanto as más interpretações textuais, sobretudo as culturalmente orientadas, estão na origem de todo tipo de falácia. Pior, no nosso caso: de todo tipo de heresia. Gostaria de explorar melhor esse fenômeno aqui no blog. Enquanto isso, creio poder afirmar: mesmo sem ser mestres em exegese ou hermenêutica, podemos, com a ajuda do Espírito Santo, chegar a uma compreensão acurada da Palavra de Deus, se soubermos submeter nossas escolhas culturais ao senhorio divino ao mesmo tempo em que chegamos humildes ao texto, não dispensando nem os sentidos mais evidentes, nem orientações e comentários abalizados.

Este é meu desejo para você em 2010: que, despojada de interpretações equivocadas, a verdade bíblica resplandeça mais vívida em sua mente e em seu coração!

13 dezembro 2009

Calvino e a responsabilidade humana

Um dos erros mais comuns de autores católicos sobre o calvinismo — mesmo os mais inteligentes e até brilhantes em outros assuntos — poderia ser resumido na seguinte frase: “Calvino nega a responsabilidade humana.” O que a mente católica não consegue entender é que todo o monumental esforço de Calvino repousa sobre a necessidade de tentar vislumbrar a realidade do ponto de vista divino. E, antes que o leitor anticalvinista acuse essa empreitada de uma tremenda empáfia intelectual (“Colocar-se no lugar de Deus!”, quase o ouço exclamar), digo que (como geralmente acontece) falta-lhe leitura: Calvino jamais vai além do que o próprio Deus nos permite ir em Sua Palavra. É escorado nesses reconfortantes limites que o reformador detecta chaves de compreensão do sistema de Deus para a criação e a salvação. Habitando a própria eternidade, criador do tempo e de tudo que nele está contido, Deus é Senhor da história: para Ele, não há surpresa alguma no desenrolar dos acontecimentos, nem em nosso proceder. No entanto, longe de endossarmos qualquer visão semelhante a um determinismo, afirmamos antes isto: que a soberania de Deus não briga com a responsabilidade humana, mas, para que Deus seja Deus, onisciente e todo-poderoso, é preciso compreender esse aspecto dual (não dualista) apenas aparentemente contraditório; não para diminuir nossa responsabilidade, mas para ter a correta perspectiva da graça e do senhorio divino. Calvino, portanto, terá elaborado uma teologia que alguns chamam de “teo-referente” para tratar daquilo que qualquer cristão pode ler em sua Bíblia: para Deus, tudo é ao mesmo tempo e tudo está debaixo de Suas mãos, sem que deixemos com isso de ser uma vírgula menos responsáveis por nossos atos. Como? Não sei explicar como, mas sim para: para que, sem negar nossa triste condição sem Deus, pudéssemos nos arrepender devidamente de nossos pecados, oferecendo-nos a Ele para a salvação e a santificação, ao mesmo tempo convictos de que é Dele que vem todo impulso bondoso e toda graça restauradora.

07 dezembro 2009

My Way e Comme d'habitude

And now, the end is near, and so I face the final curtain...

Quem não conhece esse que foi um dos maiores sucessos do Frank Sinatra tardio e uma das canções mais regravadas de todos os tempos? No leito de morte, o eu lírico da composição proclama orgulhosamente: I did it my way (em uma tradução desajeitada, "fiz do meu jeito", ou seja, "vivi a vida como me pareceu melhor"). Se a música fosse poesia, como crítica literária eu diria que se trata de um sujeito forte: seus arrependimentos foram muito poucos que valessem a pena mencionar; cada um de seus passos, tais como os do Chapolim, foram friamente calculados; se havia dúvidas, ele "engoliu e cuspiu", encarando tudo e permanecendo de pé; ri das derrotas e falhas; e termina seu relato dizendo que um homem que não tem a si mesmo é um homem que não tem nada. Ele morre sozinho, confiante e satisfeito. Uau!

Mas poucos conhecem essa que foi a matriz francesa para My Way, chamada Comme d'habitude, de 1967. Curiosamente, a letra original nada na contramão de sua irmã americana, ao descrever a vida de um casal cujos gestos cotidianos são desprovidos de significado. O eu lírico, dessa vez, é um marido deprimido e até conformado com o fim iminente de seu casamento. Diz a canção: "Como de costume, todo o dia/ Eu vou fingir/ Nesta cama fria/ Minhas lágrimas, eu as esconderei/ Como de costume." É o exato oposto do sujeito que toma as rédeas de suas decisões: em Comme d'habitude, o relacionamento sem vida é um subtema para demonstrar a impotência do homem.

Poderíamos dizer que ambas as canções ilustram os atuais modos americano e europeu de considerar o ser humano. Um é otimista demais, quase heroico; o outro, pessimista e até niilista. Porém, é mais interessante pensar que são duas cosmovisões contraditórias oferecidas por um mundo que só consegue enxergar o homem sem Deus. Separado do Criador, o homem pode aventurar-se pela vida crendo que é dele que depende seu destino; ou então, pode afundar em um surdo desespero ao perceber sua incapacidade fundamental para gerir seus próprios caminhos. Enquanto o segundo desistiu de tentar, o primeiro se satisfaz com muito pouco, refestelando-se nas próprias imperfeições e no orgulho de sua solidão. São dois extremos e nenhum deles é verdadeiro. Só o cristianismo é exato em sua radical afirmação: sem Deus, nada podemos fazer; com Deus, submetidos a Ele, podemos viver sem ganas de um falso heroísmo, descansados em Sua vontade e desejosos de Sua perfeição, em um amor que é real e plenamente vivido no Paraíso. Não há nada no mundo que possa comparar-se a isso.

21 novembro 2009

Dê uma olhada: Kaspar Hauser

Terminei de ler o romance Kaspar Hauser, de Jacob Wassermann. Minhas impressões sobre o livro acabam de ser publicadas no Tamos Lendo. Boa leitura!

20 novembro 2009

Adendo ao post anterior

Muita gente (que não entende o conservadorismo, diga-se) pode ter estranhado meu último post. “Ela defende o capitalismo e está dizendo que a segurança financeira não tem tanta importância?” Pois é, meus amados leitores. Para mim, não tem mesmo. Defendo, sim, o capitalismo como o melhor sistema inventado pelo homem até hoje, o único que garante a liberdade individual. É o melhor possível em um mundo caído, acredito. Porém, jamais endossarei o espírito materialista que se apropriou do presente século. A diferença fundamental é a seguinte: o pecado, no capitalismo, está circunscrito à escolha individual; no socialismo, todo mundo é forçado a pecar os mesmos pecados. Assim, no capitalismo, o materialismo é opcional; no socialismo, é obrigatório, religião do Estado (logo, de todos). Podemos nos abster da cobiça no capitalismo; no socialismo, ela é o motor de quem faz a revolução. E daí por diante.

16 novembro 2009

Segurança

Alguns anos atrás, sempre que eu lia Mateus 6.25-34, não podia esconder de mim mesma uma certa indignação. Sem ousar confessá-la diretamente, sentia que, contrariada, questionava a Deus: Como deixar de me preocupar com os bens mais básicos, comida e roupa? Como simplesmente dar de ombros em relação à sobrevivência no dia-a-dia?

Quando me mudei do Rio para Niterói (sim, faz tempo que queria sair de lá, e fui saindo aos poucos), lembro-me de ter pedido a Deus por um emprego. Há anos como autônoma, queria sentir o gostinho do salário fixo. Deus me atendeu, certamente com o fim de transmutar meu pedido em um período de grandes lições para mim. Pois, fiada na certeza da soma mensal, os cinco anos que passei no último emprego foram a época em que mais estraguei minha vida financeira, consumindo além do que devia e depois roendo os dedos de terror a cada virada de mês. Finalmente tive de reconhecer que O desobedecia, desrespeitando os limites do que ganhava e revoltando-me com uma situação que eu mesma havia criado ao tomar decisões ruins: morar longe da família, dos amigos e do trabalho, gastar demais no cotidiano e submeter-me, por tudo isso, a constantes preocupações com dinheiro.

Ainda fico espantada ao constatar como Deus me trouxe devagarinho para a segurança Nele.

Hoje, por minha escolha, sou só autônoma. Faço meu tempo, atenta ao fluxo de meus trabalhos. Ainda não consigo guardar uma parte significativa do que ganho, mas – graças a Deus – sobra um pouquinho a cada mês. E, mais importante de tudo, sempre que me ocorrem considerações sobre se poderei ou não ficar tranquila antes na virada do prazo para as contas, é como se Deus logo me mostrasse em letras vermelhas o significado dos versículos que antes me incomodavam tanto, assinalando com força o quanto Ele não quer que eu me preocupe com isso. Obedeço então, abandonando esse sentimento, e Ele tem sido sempre fiel.

Não estou dizendo que todo cristão deveria se abster de um emprego fixo. Longe de mim! Apenas isto: saiba que a real segurança está no Senhor. Saiba de verdade, e não abra mão dessa certeza. Assim, se em nome da segurança que o mundo oferece você está infeliz no trabalho, passa pouco tempo com a família e sente que não está utilizando todo o potencial e os dons recebidos de Deus, coloque todo medo de mudanças nas mãos Daquele que quer um cotidiano bom para seus filhos, feito de liberdade. Às vezes serão necessários alguns sacrifícios – uma vida mais simples, sem grandes luxos, ou uma fase mais “apertada”. Porém, nenhum desse sacrifícios será tão custoso para a alma quanto os que fazemos, muitas vezes sem pensar, no altar de Mamom.

05 novembro 2009

Indicações quentinhas e vale a pena ler de novo

Enquanto estou às voltas com minha tradução e algumas outras tarefas que tomam tempo (mas preparando um post quentinho para ir à mesa semana que vem, não se preocupe), não deixe de conferir o último post do blog do meu namorado, André Venâncio, e o nosso blog Tamos Lendo. Tem muita coisa boa lá!

E aproveite para dar um não bem redondo ao Projeto de Lei 122/2006 da Homofobia (que deveria se chamar Heterofobia), clicando na página do Senado Federal aqui e respondendo à enquete na barra lateral direita. A dica é do precioso Tempora. Se tiver dúvidas sobre esse não, dê uma olhada no que escrevi sobre isso aqui, aqui e aqui. Pois é, o blog já está velho, né? :-)

Ah, imprescindível dizer que nem todo gay aprova esse projeto maluco. Dê uma olhadinha também aqui, onde há informações importantes sobre os países onde realmente os homossexuais são perseguidos, como Irã e, sim, Cuba, o querido paraíso dos esquerdistas brasileiros... Cuidado ao rolar o blog, há fotos um pouco fortes - que aliás dizem o que interessa: aquilo, sim, é perseguição, não essa bobagem light que temos no Brasil.

Prometo que semana que vem volto com a corda toda. Abraços!

22 outubro 2009

Orem pela Venezuela

Se eu não fosse cristã, e se ainda por cima cultivasse o hábito das superstições, certamente veria algum laço nefasto entre a aparição simbólica de Fidel Castro no post anterior e a aterrorizante notícia dada por Graça Salgueiro no blog Notalatina hoje, e que pode ser resumida na seguinte frase: Chávez desfere poderoso golpe na propriedade privada venezuelana.

O jornal El Caraboleño deu a "versão oficial" (leia-se: em novilíngua) da resolução. O resumo da coisa é o seguinte: sob o pretexto de "preservação", Chávez declarou patrimônio cultural um número gigantesco de construções em Caracas. Casas particulares também! Veja a lista:

Autopistas, avenidas, ríos, árboles, sitios arqueológicos, parques, haciendas, edificios públicos y privados, casas, colegios, plazas, museos, iglesias, teatros, estaciones de metro, cementerios, entre otros.
 
E o que significa isto? Significa que o pobre coitado do venezuelano proprietário de qualquer uma dessas construções NÃO PODERÁ vender, doar, herdar ou fazer QUALQUER COISA com seus bens sem uma AUTORIZAÇÃO do Instituto do Patrimônio Cultural.

Que golpe de mestre na propriedade privada! Resta saber o que o povo venezuelano fará para deter essa marcha inexorável para o comunismo.

Leiam toda a matéria no Notalatina, orem pelos venezuelanos e não deixem de lamentar publicamente a postura de alguns líderes evangélicos do Brasil que deram seu apoio ao tirano. Minha indignação se exprimirá aqui por meio de uma sofrida interrogação:  

Até quando grande parte dos cristãos protestantes brasileiros estará do lado da monstruosa e sangrenta utopia comunista, em vez de tomar o partido da liberdade?

18 outubro 2009

O que é bom para Fidel...

Apesar de carioca — ou justamente por isso, hehe — , não fiquei muito comovida com a escolha do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016. Li pela web as opiniões de alguns eternos esperançosos, que vislumbram na decisão uma oportunidade incrível de progressos para a cidade, mas eu vejo o que sempre vi nos meus trinta anos de moradora do Rio: maquiagens sem fim no panorama das favelas maiores, ocupação militar nas ruas para coibir os marginais e quase que só isso. Depois, volta tudo ao “normal”. Claro, uma parcela da população vai investir ou trabalhar no evento, e com isso um certo up no seu rico dinheirinho será inevitável. Mas isso se verificará significativamente bom para a cidade como um todo e por um tempo razoável? Sem que se mexa no principal, a criminalidade envolvida no tráfico de drogas? No creo, no creo... Comemorar o fato me soa, mais ou menos, como alegrar-se pelo novo show de fogos de artifício em um navio que já começou a afundar (do qual me evadi antes que fosse tarde demais).

A notícia de ontem — bandidos derrubam helicóptero da polícia militar, caramba! — parece apenas reforçar que é preciso passar da miopia otimista para um plano de ação efetivo e duradouro.

E, como se não bastasse, li no ótimo blog Traduzindo para o juridiquês mais uma razão para torcer o nariz para o otimismo olímpico (nos dois sentidos) dos cariocas:

Fidel Castro escreveu no Granma - aquele jornal oficial apropriadamente utilizado pelos cubanos como substituto do papel higiênico - que a escolha do Rio para os jogos olímpicos de 2016 significou o "triunfo do Terceiro Mundo".

Definitivamente, o que é bom para Fidel é ruim para o Brasil, não é? Só isso já me tira a vontade de participar da euforia geral por esse duvidoso triunfo do Terceiro Mundo! Porém, não custa sonhar um pouquinho. Quem sabe os frutos dessas Olimpíadas não se limitarão às conhecidas macaquices plásticas em alguns cartões postais do Rio. Se o dinheiro aplicado na cidade puder ajudar para reabilitá-la do crime, maravilha! Mas eu penso mesmo é em outra coisa: apesar do que aconteceu àqueles pobres pugilistas deportados em 2007, desejo do fundo da alma que alguns atletas cubanos consigam escapar para sempre da ilha-cárcere durante os jogos — sem deportação!

15 outubro 2009

Não quero apagar da memória...

Não quero apagar da memória o lugar de onde eu vim. Apesar de saber que Deus já se esqueceu de todos os meus pecados antigos e recentes, quero de vez em quando recordar aquela outra criatura, que não sou mais, apenas para afirmar ainda uma vez que meu novo eu não foi uma escalada, um construto, um desprendimento, um aprendizado, uma sensatez súbita e definitiva – mas sim o débil objeto da misericórdia do Senhor.

12 outubro 2009

Tamos lendo!

Eu e André Venâncio criamos um blog chamado Tamos lendo! - assim mesmo, bem informal - para escrever especialmente sobre nossas leituras. Vai ter de tudo: teologia, conservadorismo, física, romance policial, poesia... enfim, tudo o que tamos lendo! Fique de olho! ;-)

10 outubro 2009

Resposta a um comentário não publicado II

Diante do que foi dito no post anterior, vejamos o que a Bíblia afirma sobre os pecados que você, Deborah, deixou de mencionar em sua mensagem: “Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia” (Gl 5.19). Outra versão (Almeida Corrigida e Revisada Fiel) divide o primeiro termo grego, porneia, em adultério e prostituição. Consultando mais alguns comentários e o Catecismo Maior de Westminster, descubro que a linguagem da Bíblia (logo, a mentalidade da época de Jesus) não faz diferença entre adultério e prostituição, ou fornicação, segundo demais versões. Enquanto você condena o adultério apenas quando não consentido pelos cônjuges, a Bíblia é muito mais abrangente.

Consultei pelo menos nove bíblias em linguagens diversas, incluindo mais dois idiomas que domino (inglês e francês), e as traduções diferem muito pouco entre si. Os termos são intercambiáveis: o primeiro, porneia, pode ser prostituição, fornicação, adultério, perversão, libertinagem; o segundo, akatharsia, foi traduzido por impureza (definido por John Stott como comportamento sexual anormal); e o terceiro é aselgeia, lascívia, dissolução, desregramento. Em suma, é justo o “sexo solto” que é condenado como obra da carne, portanto, um dos maus frutos do pecado que habita em nós. Seja em atos, em palavras ou em pensamentos.

Quanto à masturbação, torna-se evidente que é um dos aspectos da lascívia. Dificilmente há masturbação sem a ajuda de imagens mentais lascivas; ainda que houvesse, a dissociação entre o prazer e o amor é própria à impureza. Você se refere à manipulação inconsciente do feto ou do bebê, mas entenda que nenhum adulto se masturba assim, não é? Quando recorremos a imagens mentais para nos satisfazer sexualmente, estamos dizendo a nós mesmos que não podemos alcançar essa satisfação sozinhos, mas preferimos companhias imaginárias que simbolizam relações superficiais, apenas para um prazer físico imediato. E esse procedimento cava dentro de nós um abismo sem fim, pois não podemos distanciar nossa alma do hábito de nossos pensamentos. Posso dizer portanto sem medo de errar que a masturbação é uma espécie de preparação da alma para as relações sexuais sem amor.

Compreendo que afirmar isto é loucura em nossa época fragmentada, em que não só perdemos toda noção do quanto pensamentos, palavras e ações são um todo em cada um de nós, mas sobretudo deixamos de enxergar os pecados sexuais como fragmentadores (nisso, o termo “dissolução” fala por si) – algo que alguns séculos atrás, em sociedades profundamente influenciadas pelo cristianismo, era tão óbvio que não demandava explicações copiosas. Calvino, por exemplo, sempre tão prolixo em tudo o que escreve, não dedica mais de poucas linhas descritivas a esses pecados em seu comentário sobre Gálatas, adicionando-lhes porém uma valiosa observação: “São pecados proibidos pelo sétimo mandamento.”

Qual o sétimo mandamento? “Não adulterarás”, justamente! Ao compreender a Bíblia dessa forma, Calvino imita o procedimento do próprio Cristo, que em seu Sermão do Monte mostrou aos discípulos que a Lei de Deus está muito além de preceitos exteriores.

Diante da enumeração desses quatro pecados como “obras da carne” (“carne”, aqui, não em sentido literal, mas em oposição aos “frutos do Espírito”), é impossível deixar de notar que o sexo sem amor é condenado na Bíblia. Mas esse “amor” não é o laço frouxo do “namoro” (algo que sequer existia nos tempos bíblicos), e sim o amor verdadeiro, profundo e indissolúvel, apenas presente no compromisso matrimonial. Deus criou o sexo para, além da procriação, aprofundar o amor conjugal – amor que não abandona (Jesus o proíbe), mas cuida do outro por inteiro, corpo e espírito, até a morte.

Adão reconheceu em Eva “carne de sua carne”, um só corpo. Nessa monstruosidade que o pecado inventou, o “sexo casual”, não há como reconhecer o outro como si mesmo. Não há como reconhecer nada além do próprio prazer físico. Os corpos no sexo casual são desconectados e fragmentados. Longe de serem apenas pura busca de prazer sem maiores consequências, cada um dos pecados sexuais mencionados nas Escrituras aponta para a mesma atitude interior: o afrouxamento dos laços do amor. É por isso que eles são elencados junto com os demais na lista do apóstolo Paulo: “...idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gl 5.20-21).

Como você, Deborah, disse em sua mensagem, “o sexo é uma energia muito poderosa”. Concordo: por isso, é destrutivo sem as amarras do amor profundo e responsável. Aprendi tanto na Bíblia quanto na vida (porque me converti aos 24 anos) que sexo entre solteiros é desgosto (ainda que oculto ou inconsciente) pelo amor verdadeiro. Ter sexo com alguém a quem não se ama (e quem ama casa!) é algo que machuca a alma. Entendo hoje que essa “energia poderosa” funciona como um cimento: não dá para “colar e descolar” à vontade, a não ser que consintamos em uma boa dose de desmanche do que somos. Nem a criatura mais romântica do mundo escapa disso, se não passar pela mudança de mente operada pela conversão cristã. No início da vida sexual, os rompimentos de namoros que incluem sexo machucam muito (seja sincera com você mesma e você vai se lembrar), literalmente arrancando partes de nós; mas depois de muito tempo, em nome do prazer sem compromisso fomentado pela cultura, começamos a nos forçar a nos acostumar com o processo. O resultado é que nos tornamos cada vez menos propícios a permanecer em um relacionamento. Casamos já pensando em descasar... porque aprendemos a “colar e descolar” em uma roda sem fim. Hoje é Fulano, amanhã é Sicrano... Todos sabemos que o resultado desse “sexo solto” equivale a divórcios em série (e mágoas, crianças feridas, descrença quanto ao amor...). Culpa da “revolução sexual” dos anos 60? Certamente, mas sobretudo culpa do pecado que jaz em nós.

Que Deus a ajude a compreender e vivenciar o verdadeiro amor conjugal Nele.

Abraços.

04 outubro 2009

Resposta a um comentário não publicado


Cara Deborah,

Precisei deixar de fora a totalidade de seus comentários, pois alguns termos que você usa podem ferir a sensibilidade de meus irmãos leitores. Aliás, eu duvido de que você se dirigisse a mim pessoalmente usando esses termos: o conforto que as barreiras tecnológicas oferecem costuma deixar as pessoas menos pudicas. No entanto, algo nos seus comentários me fez pensar que, sem esse conforto, você é uma mulher bem educada com estranhos. Então vamos lá.

Na sua mensagem, você declara: “Sou a favor do homossexualismo, da masturbação, do sexo antes, durante e fora do casamento, contanto que haja respeito mútuo aos cônjuges, pois abomino traição.” Compreendo o conteúdo da sua integridade quanto ao sexo consentido. Eu mesma, embora nunca tenha partilhado dessa opinião, já tive amigos que pensavam assim. Quando eu não era cristã, concordava com o princípio geral que subjaz a essa ideia, tendendo a crer que tudo era permitido, desde que não ferisse a vontade alheia. Porém, essa é a justiça dos seres humanos: falha e limitada. Jesus apontou para esse fato no conhecido Sermão do Monte:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5.20).

Ao longo das Escrituras, entendemos que a justiça dos fariseus (e a justiça humana em geral) é superficial e submetida a subjetividades muitas vezes mesquinhas. Somos pecadores e, mesmo quando queremos acertar, erramos miseravelmente. Acreditar que podemos divorciar ato e pensamento, ato e vontade, ato e emoção etc. é uma das formas desse erro. Assim, é fácil dizer “não pratico o adultério”; mas e quanto ao que ocorre dentro de nós? Jesus sabia que nós pecamos sobretudo interiormente, e que tendemos a nos aprovar se não praticamos aquilo que nos comprazemos em alimentar em secreto. É por isso que, no mesmo Sermão do Monte, Jesus nos lega essa palavra terrível: “Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28). Ampliando o princípio, não deixamos de ser culpados diante de Deus apenas por nos abstermos da prática de determinado pecado. Conforme nos mostra Jesus em todo o sermão, também sobre “não matar” e “não jurar falso”, somos pecadores por inteiro: não só em atos ou palavras, mas em motivações, desejos e impulsos ocultos. E não há pecado que não cometamos em oculto...


A justiça dos fariseus – e de todos nós – é exterior; nossas boas ações são lixo diante de Deus, pois contaminadas por toda sorte de maldades que ninguém vê. Só Deus pode nos tornar de fato justos em Cristo, para que dependamos Dele e de sua graça contínua, sendo aos poucos transformados profundamente. Deus gera vida a partir do interior; leis e restrições exteriores são úteis, mas apenas servem para nos indicar o que está errado e nos condenar quando transgredimos. É isso que distingue o cristianismo bíblico de todas as demais religiões: nelas, há um antropocentrismo que torna possível a progressão da bondade humana através do cumprimento de certos preceitos morais; em Cristo, que morreu em nosso lugar para que tivéssemos vida, encontramos a morte do nosso ser pecador e o renascimento Nele. Portanto, toda justiça parte de Deus, e não de nós.

Assim, seja sincera consigo: os erros que você condena exteriormente não são os mesmos que você comete interiormente?

(Continua no próximo post)




02 setembro 2009

Enxaqueca*

Na minha pré-adolescência, sempre às voltas com doces e chocolates, descobri algo importante: bastava abusar – comendo uma caixa de bombons inteira ou tomando sorvete demais – que me sobrevinha uma forte crise de dor de cabeça. Nesses episódios, eu tinha de ficar deitada, imóvel, em um quarto escuro, enquanto alguém cuidava de mim (na época, minha mãe ou minha melhor amiga) preparando algo bem inofensivo na cozinha, como canja ou sopa. Meu pai dizia a mesma frase, “isso é fígado”, e nunca ninguém cogitou a hipótese da enxaqueca.

Já adulta, quando meu médico descobriu em meus exames uma deficiência de estrógeno, sugeriu-me reposição hormonal por meio de pílula ou injeção. Topei a primeira, claro. Não lembro se ele me perguntou sobre dores de cabeça, mas o certo é que na bula do remédio estava escrito algo como: “Não é recomendável a portadores de enxaqueca.” Como eu não sabia que tinha enxaqueca, não teria feito diferença alguma.

Cinco anos depois, a constatação da tragédia: crises como aquela, ou até mais fortes, mesmo sem abusar de doce algum, em média três vezes por semana. Algumas duravam cinco dias ininterruptos. Caixas e caixas de analgésico. Medo de andar ao sol, de dormir tarde, de acordar cedo, de fazer muito esforço. Virtualmente tudo era capaz de provocar dores de cabeça.

Tive de sofrer esses anos todos de crises incapacitantes cada vez mais frequentes para enfim ser levada a concluir, através da preciosa ajuda do dr. Alexandre Feldman e de sua esposa Pat Feldman (nos sites indicados e em seus dois livros Enxaqueca: só tem quem quer e A dor de cabeça morre pela boca), que um conjunto de variáveis era responsável pelas dores: em primeiro lugar, a bomba hormonal que eu estava tomando; em seguida, a má alimentação, a falta de exercícios e o sono irregular. Estou aos poucos acertando esses pontos, com o fim da reposição e uma dieta rigorosa (mas libertadora!) o mais isenta possível de produtos industrializados e porcarias químicas. Quando os resultados se tornarem mais consistentes (completei anteontem o primeiro mês do tratamento) eu os posto aqui.

Coragem: se você tem enxaqueca, o fim das dores pode ser uma decisão sua!

* Porque o Blog da Norma Braga também é de utilidade pública. :-)

29 agosto 2009

Mulheres que Não Têm Tempo

Eu já fui uma Mulher que Não Tem Tempo. Quantos fins-de-semana perdi completando revisões em casa! Recebia telefonemas de amigos para sair e respondia sempre com a invariável e desalentadora frase: “Não dá, tenho trabalho.” Aos poucos foram parando de me ligar.

E tudo isso, para quê? Eu morava com meus pais, não precisava de tanto. Mas queria gastar em roupas e sapatos. Livros, também, embora os mais caros nunca fossem eles. Curioso é que, apesar de tanto trabalho, não conseguia guardar o que ganhava. Excedia-me nas atividades, excedia-me ainda mais nos gastos. Mesmo depois de convertida, a mania por cheques pré-datados me perseguiu. Chegava a passar tantos que ficava sem dinheiro para as coisas mais simples do mês: pegar um ônibus, fazer um lanche na rua. Não me programava e nem queria – cálculos significavam limites.

Ao longo dos anos, e com muito choro diante de Deus, fui me endireitando. Compreendi a equação que bastante gente se recusa a efetuar: não a clássica, pragmática e perversa “tempo é dinheiro”, mas sim sua inversão, “dinheiro é tempo”. O que eu estava perdendo – camaradagens, passeios, leituras preferidas – equivalia às roupas que muitas vezes sequer chegava a usar, sapatos que no fim me machucavam, excessos que não apenas me entupiam o armário, mas me roubavam vida? Certamente que não.

Hoje, com a graça de Deus, tenho ajustado cuidadosamente meu orçamento para não ser forçada a trabalhar demais. Não se trata somente de ganhar tempo para prazeres: aos poucos, quero me recolher da frenética sucessão de atividades profissionais para abrir em minha vida o lugar de esposa e mãe no futuro. Esse lugar não é feito somente de lavagens de roupa e trocas de fralda, de acordo com distorções modernas; inclui, sobretudo, sondagens emocionais infinitas, de si e dos amados, acompanhadas da orientação, da compreensão e do acolhimento de que somente a mulher é capaz. Quando o frenesi lá fora parece esmagar a subjetividade, é a mulher que percebe o olhar perdido dos seus e os traz para casa, para o ambiente íntimo em que o valor intrínseco do ser é reafirmado.

Mas, se não tem tempo, a mulher está tão perdida quanto todos à sua volta. Sua função se esvai. E quem a substituirá? Essa é uma das tragédias mais pungentes do nosso tempo: a preferência pelo viver exteriorizado, sob o pretexto de uma igualdade de funções sociais entre homem e mulher, está matando a todos nós. Sem que a igreja se manifeste substancialmente sobre a questão ou aja de modo a ser melhor modelo, só vejo deriva com relação a esse assunto. Quanto a mim, estou em um dos níveis mais baixos de aprendizado, se é que de fato estou aprendendo alguma coisa (a prática o dirá). Que Deus me ajude a ser diferente e a abordar de forma apropriada o tema nos próximos posts.

P.S. Gostaria de agradecer a todos os leitores que oraram por mim sobre trabalhar menos. Depois de um período difícil em que praticamente todas as minhas horas de vigília estavam tomadas por aulas e revisões, Deus nos ouviu: neste mês, passei a atuar somente como autônoma. Precisei de coragem para sair de onde estava e Deus deu graça: não apenas estou conseguindo gerenciar melhor meu tempo e minhas finanças, mas nunca estive tão feliz!

11 agosto 2009

Uma relativista emocional em remissão

No blog, falo aqui e ali do amorrrrr, neologismo que criei para designar essa tão popular forma de pseudo-amor que nos torna coniventes com os pecados alheios. Mas nunca contei como tive de reconhecer em mim mesma uma imensa dificuldade de posicionar-me com firmeza em situações delicadas. Bom, na verdade é mais que isso. Sempre fui uma espécie de Zelig de saias, personagem de Woody Allen que adquiria a forma e os trejeitos de todos aqueles com quem travava contato. Quando pessoas queridas se abriam comigo, eu tendia a adotar a atitude de uma compaixão derramada e informe, amalgamando-me a suas dores e vendo a vida com seus olhos. Parece bonito? Não é não: como ajudar, se não conseguia confrontar? Resultado: tempos depois, sempre me dava conta de que poderia ter ajudado aquela pessoa se tivesse norteado minhas palavras pela visão correta, biblicamente orientada. Isso acontecia tanto – e ainda acontece, infelizmente – que até já perdi a conta. Sempre me faz sofrer; porque, na maioria das vezes, um ouvido amigo é bom, mas as pessoas precisam de muito mais que isso. (Por essa razão, também, nunca fui uma boa evangelista!)


Então, confesso aqui: sou uma relativista emocional em remissão. Minha identificação sem limites com o outro me proporcionou uma capacidade de esponja: absorvo o que recebo quase sem triagem alguma, caso haja algum elo afetivo na comunicação. Isso não acontece de modo invariável, mas foi verdade em um número suficiente de vezes para que eu finalmente tivesse que reconhecer um padrão. Também acontece em leituras, motivo pelo qual sofri tanto com certos livros.

O relativismo emocional me custou muito. Foi a porta de entrada para pecados, manipulações alheias, confusões mentais. Foi o motivo de meu silêncio bovino quando falavam mal ou de modo enviesado da fé cristã em boa parte das aulas da pós-graduação. Foi a parte mais importante do pretexto para que eu quase me desviasse para sempre, enquanto cursava o mestrado na universidade e enxergava cristianismo nas obras de certos autores da modernidade francesa. Quando "voltei" pela mão misericordiosa de Deus e vislumbrei o abismo para o qual me dirigia, declarei uma definitiva guerra ao relativismo pós-moderno. Declarei guerra ao esquerdismo também, quando percebi que era o terreno comum de onde o relativismo brotava. No início, era uma guerra silenciosa, travada em meu interior na companhia de autores conservadores. E foi na amistosa companhia de amigos também conservadores que, em uma lista de discussão, aprendi a falar pública e livremente da minha fé e das reflexões bíblicas que sempre me ocuparam. Devo muito a eles, a essa lista, ao encorajamento que recebi, para que pudesse começar a me expor com mais segurança.

Poucos meses depois, fundei o blog e, mais fortalecida, transferi minha guerra para cá. As duas pontas se confirmavam mutuamente: no blog eu falava de minhas experiências sem contá-las, ou seja, apresentava ao leitor apenas o resultado do que tinha vivido tão dolorosamente; ao mesmo tempo, essa apresentação esclarecia melhor esses conteúdos para mim mesma, deixando mais "assentado" o que eu havia aprendido. Como afirmava Sócrates: "Uma vida não-examinada não vale a pena ser vivida." O blog passou a ser o espaço do meu reexame, em que cada preciosidade cunhada por Deus a mim, e entregue ao leitor, tinha uma longa história de busca, tristeza e quedas por trás. Um reexame que eu fazia e faço publicamente para ajudar outros, mas, em primeiro lugar, para combater todos os dias a terrível relativista que sou. É meu jugo e meu fardo, parte de minha luta cristã, que resulta nessa bênção miraculosa: ao expor minha transformação, transformo-me mais profundamente e ainda dou ensejo a que outros se transformem também, de acordo com o que tenho recebido e julgo ser da parte de Deus. Um dia eu me deterei mais longamente sobre cada uma dessas histórias. De fato, vislumbro esse encaminhamento, na medida em que tomo por voz narrativa um eu mais confessional, mais próximo ao que sou. Por enquanto, contento-me em deixar, aqui, o acabamento lisinho do que vivi. Os bastidores terão que esperar por enquanto, mas virão, porque sei que podem ser a coisa mais edificante a fazer para a igreja brasileira hoje. Não por meus próprios méritos, mas porque, como cristã convicta, eu sei o que Deus tem feito em mim, e é isso que quero contar. Para Seu louvor somente.

01 julho 2009

À Cristianismo Hoje

Publicado no site da revista.

Caros editores,

Como a maioria dos comentadores desta página, venho manifestar meu repúdio pelo tratamento dispensado a Julio Severo nessa reportagem. Está bastante claro que Cristianismo Hoje quis entrevistar Severo ao mesmo tempo em que se mostrava abertamente antipática às posturas do entrevistado. No entanto, o título, a apresentação e o tom das perguntas mostram que isso foi feito de modo desrespeitoso - o que fala não só da inabilidade do jornalista (é possível evidenciar discordância sem desrespeito), mas sobretudo do descaso de um veículo midiático que traz Cristianismo no nome para com a luta e as perseguições de alguém que deveria ter sido tratado como irmão. O resultado final é não apenas ridículo (nunca vi um entrevistado ser tratado dessa forma no próprio veículo que o entrevista), mas contraria fortemente os ideais de fraternidade cristã, sendo indigno do nome da revista. Porém, ainda há tempo para um saudável arrependimento bíblico, expresso na forma de uma retratação, útil também para corrigir os excessos do jornalista responsável pela matéria. Fica aqui minha sugestão.

Cordialmente,

Norma Braga

04 junho 2009

Enquanto isso...

Há artistas que não se preocupam com grandes multidões: estão igualmente felizes se mostram sua arte a grupos pequenos ou a platéias a perder de vista. Ou, ainda, sentem-se mais felizes en petit comité, talvez por um temperamento de tendências introspectivas, intimistas.

Identifico-me com eles. Vi ao vivo John Pizzarelli em uma livraria no Leblon, tocando sua guitarra para as quarenta pessoas que se espremiam no chão do lugar. Era evidente sua alegria ao olhar para cada um dos rostos ali presentes, tão pertinho, cantando junto com ele. E vi no You Tube os dois rapazes do Kings of Convenience na praia de Ipanema (digite "Ipanema Beach"), tranquilos e satisfeitos sentados à sombra de um quiosque, dedilhando seus violões sem nenhuma pose de "artista importante", enquanto à volta as pessoas conversavam, cantavam ou estalavam os dedos no ritmo da música.

Há algo disso em mim. Não me preocupo com imagem, com pose alguma, quando dou aula ou quando me exponho escrevendo. Meus alunos se sentem muito à vontade comigo, tanto que eu não poderia jamais dar aulas para crianças: não saberia estabelecer os limites de que elas precisam.

Drummond parou de escrever durante alguns anos porque não tinha o que dizer. Schaeffer deixou o ministério por certo tempo para mergulhar em um profundo questionamento com Deus. Admiro-os por isso. Nenhuma das duas situações é meu caso - tenho o que dizer e não estou em crise de fé - , mas tenho reformulado comigo mesma algumas ênfases e buscado respostas de um modo quieto. Enquanto isso, o maior espaço entre as postagens tem se imposto naturalmente. Se o leitor ficar impaciente, é o momento de fazer como Cristiano Silva, ler os textos antigos. E, por que não, de ouvir John Pizzarelli e Kings of Convenience no You Tube.

Aos poucos retomo a regularidade. Não vos deixarei órfãos, prometo. :-)