03 novembro 2014

Reeleição e lições de Downton Abbey

Fiquei em silêncio durante a maior parte da fase de propaganda eleitoral. Não acompanhei debates, nem dos candidatos, nem dos formadores de opinião. Considerei que já havia falado tudo o que se havia para falar, em todos esses anos de blog. Munidos dos princípios expostos ali, meus leitores saberiam o que fazer; eu não precisaria ser explícita. E assim procedi. Cuidando das necessidades mais concretas de minha casa, permaneci calada, aguardando qual seria a vontade de Deus para o país.

E, nos momentos de descanso, comecei a assistir à série britânica Downton Abbey. Justo no dia das eleições, terminei a primeira temporada e vi o primeiro episódio da segunda, em que se inicia a Primeira Guerra Mundial. Emblemático. [Atenção: segue SPOILER do final da primeira temporada] Na casa de Lady Grantham, um dos personagens que se mostram mais vis, o volante Thomas, alegra-se porque vê no caos uma oportunidade de mudança. Sua visão pragmática e egoísta combina com seu comportamento até ali: valia tudo para conseguir alguma ascensão social. Tentara chantagear o amante aristocrata e derrubar com mentiras o colega que o vira roubando vinho. Sem sucesso, sente-se atraído pelo trabalho no corpo médico do exército. Não dá mostras de patriotismo nem solidariedade: sua esperança é deixar de ser criado. O sofrimento que advém do conflito não parece comovê-lo - assim como não o comovem minimamente as mortes da criança que nasceria na casa, nem da mãe de outro dos criados.

Mais matizadas são as personagens Mary e Edith, filhas do casal Grantham. São moças com seus caprichos, mas capazes de atos desinteressados. Porém, a rivalidade que nutrem entre si é tão grande (Mary é a preferida e provoca a desdenhada Edith) que as leva a decisões odiosas. Antes de deflagrada a guerra, Edith havia conseguido estragar a reputação de Mary espalhando um segredo; em retaliação, Mary conta uma mentira ao pretendente da irmã que o faz desistir da proposta. Quando vem a grande guerra, ambas estão sozinhas e sem perspectivas - a guerra menor entre elas havia promovido destruição. 

Nesses tempos de coletivismo e acirramento de conflitos, eu queria que não esquecêssemos que, para Deus, todas as guerras têm a mesma importância. Ou melhor: que todas as guerras derivam daquela fundamental, inaugurada na Queda e travada no coração contra o próprio Deus. Sim, precisamos nos engajar, de modo honesto e sem pecado, na "guerra" da oposição a este mundo, e isto inclui lutar contra as cosmovisões que mentem sobre Deus e os homens - a mais poderosa delas, hoje, insiste que o Estado deve ter o poder sobre tudo, inclusive a consciência, ideia encarnada, infelizmente, pelo partido que venceu esta eleição. Por outro lado, nada nos fará mais infelizes e nos deixará mais longe da vontade de Deus que enxergar somente as guerras exteriores, fantasiando-nos de soldados enquanto permanecemos alheios à inimizade que faz cama dentro de nós, solapando crescimento espiritual, relacionamentos e atos de bondade.

Um dos primeiros atos da presidente reeleita foi retirar símbolos cristãos de seu gabinete - um sinal inequívoco de que a cordialidade forçada com católicos e protestantes logo cederia a declarações de guerra. Visto que boa parte dos evangélicos se opôs ao partido governista, podemos esperar vislumbres da face irada de Leviatã. Na série, Matthew diz a Thomas: "A guerra tem um jeito de separar as coisas que importam daquelas que não importam." Grande pensamento para nós, cristãos, diante da perspectiva de mais quatro anos de PT no governo.

Acima de tudo, lembrar-se disso a partir deste fatídico outubro de 2014 - "aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor" (1Jo) - será um antídoto poderoso contra o esfacelamento social e moral promovido pelas convicções socialistas do governo reeleito. Nada de ecoar as inimizades entre ricos e pobres, brancos e negros, heterossexuais e homossexuais, paulistas e nordestinos, mas sim repudiar com todo conhecimento de causa o "politicamente correto", produtor de bodes expiatórios e violência. Se não queremos sucumbir em uma atmosfera de perpetuação de conflitos e fortalecimento estatal, devemos orar e buscar que toda ação, toda palavra, todo desejo e todo pensamento brotem de um interior renovado por Deus. Só assim nossa oposição terá chances de êxito.


* * *

Em um blog petista, as coisas são ditas às claras: o Estado se apresenta como o deus mais poderoso, que deve controlar as instituições religiões de um país. Isso você não vai ouvir tão cedo da presidente, nem do líder do partido, mas quem estuda de fato o socialismo sabe que é assim. Veja:
Precisamos salvar o Brasil do atraso, e fazer a defesa enfática de um Estado laico, que só será possível com a eleição de Dilma Rousseff. A Igreja é que deve se submeter ao Estado, e não o contrário. Este caminho já foi traçado pelo companheiro Hugo Chávez na Venezuela: depois de sofrer uma campanha sórdida como a que estamos sofrendo agora, decretou a laicidade do Estado, e agora é o governo venezuelano que controla sua própria Igreja.
Tempos difíceis se delineiam à frente. É hora de apegar-se à Rocha com todas as nossas forças.

6 comentários:

Marcio Pereira Gonçalves disse...

Excelente! E acredito sim, que você nos traz através deste texto, uma visão profética para a Igreja Brasileira. Que Deus nos abençoe diante do que há de porvir em nosso Brasil!

Norma disse...

Obrigada, Marcio! Fiquemos atentos e confiantes.

cristianismo-relevante disse...

Excelente texto, Norma. Sou pastor e vejo o quanto isso tem sido desafiador para nós. O pior é ver que este pensamento foi abraçado por muitos dos que, todo domingo, se assentam em nossas fileiras. O desafio de amar e manter-se fiel torna-se ainda maior...

Marcelo Maia disse...

Um dos textos mais lúcidos,simples e necessários para o tempo da igreja hoje. Parabéns.

Walber disse...

Também sou fã da série britânica (já estou assistindo a 5ª temporada!!!) e o paralelismo foi perfeito. Sinto um misto de preocupação, apreensão e esperança, porque, afinal de contas, o que foi profetizado acontecerá, mas precisamos ter bem firmes as promessas que o Senhor da Igreja nos fez. O mundo passará!

Fábio Cardoso disse...

Bravo!!!