05 junho 2005

Questionário português

Claudinho Téllez me enviou algumas perguntas que circulam por esta Terra dos Blogs. Como chegou até mim em português de Portugal, chamo-o "questionário português", por causa do uso do pronome "tu" e de outras particularidades de linguagem do adorável país de meus antepassados.

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
O Livro de Jó, da Bíblia. Maravilhosa ilustração sobre a graça de Deus, ainda que às avessas, poderia ser chamado: "Deus age independentemente dos esforços e méritos humanos."

2. Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Muitos, mas o que mais me marcou foi Winston, de 1984 (George Orwell). No final do livro, eu chorava em desespero por causa do destino do personagem, pego para sempre nas malhas da possessão total, de corpo e espírito, pelo Big Brother (ah, sim. O mesmo que dá nome ao programa da Globo. Ou você não sabia que o título do reality show era uma piadinha de mau gosto?).

3. O último livro que compraste?
De Corrie Ten Boom, escritora evangélica, sobre sua infância: In my Father's House. Muito tocante. Conta como seus pais não negaram ajuda aos muitos judeus holandeses que precisaram de abrigo em plena vigência do nazismo. Adolescente, Ten Boom foi uma das únicas da família a sobreviver à horrível experiência de um campo de concentração. Nunca perdeu nem a doçura, nem a fé; pelo contrário, é grata não só pelo amor que recebeu nos primeiros anos de vida, mas também pelo sentido maior por trás dos fatos e das dores, que só Deus pode nos fazer enxergar.

4. Os últimos livros que leste?
Literature Lost, John M. Ellis; Como vencer um debate sem precisar ter razão, Schopenhauer, com prefácio e generosas notas do Olavo de Carvalho (o must do livro é o texto do Olavo, não o do Schopenhauer).

5. Que livros estás a ler?
- Mensonge romantique, verité romanesque, René Girard, antropólogo católico maravilhoso; esse livro é sub-utilizado pela Letras, que vê nele pouco mais que um anti-romantismo militante, bem de acordo com um certo espírito "moderno" francês na literatura. Na verdade, é uma introdução maravilhosa à obra de Girard, e pode ser lido como num espelho, mostrando o que somos, como agimos, com relação ao que ele chama de desejo triangular: o desejo não legítimo, surgido de um desvalor de si mesmo e da vontade de ser o outro.
- As seis doenças do espírito contemporâneo, Constantin Noica; imperdível! Com três paradigmas - carência ou recusa de generalidade, individualidade e determinações - , Noica discrimina com pinça as nossas mazelas interiores. Gosto especialmente da descrição da Catolite (carência do geral), que descreve tão bem tanto o Brasil de hoje quanto a mentalidade moderna francesa nas artes, que quer que tudo seja reduzido ao singular, proclamando o fim da verdade (que é, em essência, universal).
- Tempos modernos, Paul Johnson; estou no comecinho. O livro tem observações que nos ajudam muito a entender o cerne totalitário dos regimes socialistas, tais como: "Lênin trocou uma classe dominante por outra: o partido" (p.64).
- Les justes, Albert Camus; revolucionários terroristas em crise desnudam a louca lógica por trás de seus atos. "Aceitamos ser criminosos para que a terra se cubra enfim de inocentes" (p.37), declaração que revela, nessa lógica, a transformação do assassinato em martírio. Muito atual.
- Foucault o el nihilismo de la catedra, J. G. Merquior. Ainda no início. Foucault foi o grande inspirador das correntes americanas e canadenses dos Cultural Studies na literatura, cujas questões de cunho político, ligadas a classe, gênero e raça, obliteram a riqueza da área e monopolizam as discussões nas universidades. Paradoxalmente, essas correntes costumam ser odiadíssimas pela teoria literária francesa, que não atina com essa filiação. Duvida? Então leia o livro de Ellis que citei aí em cima, e argumente contra, se for capaz.

6. Que livros levarias para uma ilha deserta?
A obra toda de René Girard e muita literatura que deixei de ler por ter de me concentrar na literatura francesa (meu objeto de pós): Shakespeare, Dostoiévsky, Camões... Ah, e as gravações dos seminários do Olavo, para ouvir no Notebook (quando eu tiver um).

7. Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e por quê?
Aos blogueiros que conheço - Roney, Luís - e a dois queridos amigos proprietários de site, o Henri e o Julio.

Um comentário:

Claudio Tellez disse...

Ah, sim, o René Girard. Simplesmente indispensável.