Um esforço, com a graça de Deus, de recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais. Não por pedantismo ou orgulho, mas por uma necessidade quase física de dar nomes às minhas intuições e contornar o status quo das idéias hegemônicas deste mundo.
26 fevereiro 2007
Post-Enquete: O que é o céu?
Com licença:
O que é o céu?
Gostaria de ter uma resposta tua para esta pergunta.
Oi, Marcos!
A sua pergunta me faz sonhar com alguns trechos bíblicos preferidos (palavras de Jesus, palavras de Paulo, trechos de Gênesis e Apocalipse) de onde tiro essas expectativas maravilhosas:
- O céu é como o dia-a-dia de um casamento perfeito e maravilhoso (Cristo e a Igreja) onde não há dor, mal entendidos nem possibilidade de separação;
- O céu é onde não precisaremos de sol, pois Deus será o próprio sol, e Dele virá toda luz de que viveremos;
- O céu é onde todos seremos íntegros: apareceremos uns aos outros tal como somos, sem precisar tomar o cuidado de nos fecharmos ou nos escondermos, pois o mal não será mais uma realidade e poderemos exercer plenamente nosso amor uns com os outros, em total liberdade e transparência;
- O céu é onde "conheceremos tal como somos conhecidos": assim como todos seremos íntegros com todos, Deus também terá conosco uma intimidade total, e nós O conheceremos tal como Ele nos conhece: totalmente.
Cara, obrigado pela resposta. Gostei muito.
Mas quero mais indagar:
Só podemos falar do céu por meio de metáforas?
Do céu somente podemos ter expectativas?
Como captar das metáforas uma realidade objetiva?
Pois é, acho difícil fugir das metáforas quando se trata do céu, pois é uma realidade que vivemos apenas em parte quando nos convertemos e conhecemos o amor de Deus nas nossas vidas. Por isso eu amo as palavras de Paulo em 1 Coríntios 13: 10: "Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. (...) 12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido."
Como ainda estamos em carne, é difícil tratar de uma realidade espiritual sem ser por comparações imperfeitas. É como falar da vida adulta para um menino - de fato, é a analogia que Paulo faz. Ou, imagino, para tentar outra analogia, é como falar do casamento feliz e do amor físico para alguém que nunca amou: há como ter idéias da coisa, mas não como saber de fato. Mas isso também é motivo para alegria: podemos ter expectativas, mas a realidade vindoura superará todas elas.
22 fevereiro 2007
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Nesse filme, o personagem de Jim Carrey é o oposto de todos os anteriores: tímido, calado, fechado, contido até nos movimentos. Não há comicidade alguma nele, o que só o faz contrastar mais ainda com a garota de cabelos azuis/verdes/vermelhos/cor-de-rosa vivida por Kate Winslet. Um casal que tem tudo para dar certo não pelas identificações, mas pela complementaridade – algo que ainda não decidi se existe, se é bom, se quero para mim. Mas deve haver algum engano no desejo por alguém tão igual, é minha desconfiança. Fico no meio: Deus pode prover a medida certa.
O relacionamento, no entanto, não corre bem, e logo a impulsiva moça do casal – e isso está na sinopse, não corro o risco de estragar o filme para quem não viu – decide lançar mão dos serviços de uma empresa que “apaga memórias”. Até aqui, nada de tão criativo: já fomos apresentados à idéia da manipulação de conteúdos do cérebro em outros filmes. O que comove neste é que o amor supera a tecnologia, a ciência, as predições e mesmo a relutância humana em enfrentar as más lembranças. Prevalece um violento desejo de recomeçar não do zero, mas dos fracassos. Everybody's got to learn sometime.
Da história, ficaram-me dois sentimentos bem marcados: um, mais evidente, a ausência de alguém em quem depositar as esperanças de uma cumplicidade e uma intimidade totais; outro, aliviador, a alegria de saber que minhas memórias jamais serão tiradas de mim – e que em Deus, o Pai de todo sentido, as dores não foram em vão.
19 fevereiro 2007
FLORLETTER: caixa do Google à direita
18 fevereiro 2007
Da série Soco no Estômago II – Amebas que amam
P.S.1 Esse texto é uma homenagem às avessas ao pior livro de auto-ajuda que li nos últimos tempos, de Henri Nouwen. Como a expectativa com relação ao autor era grande – criada artificialmente por recomendações de amigos e conhecidos – , a queda foi revoltante e dolorosa. A linguagem é bem mais apurada do que a que costuma freqüentar o estilo; porém, como uma “pegadinha”, é justamente isso que eleva a potências inimagináveis o grau de irritação do leitor esperando por substância: simplesmente não há. Lugares-comuns e banalidades em um tom pomposo ultrapassaram o limite do que eu podia suportar. Nouwen, nunca mais.
P.S.2 Não me julguem mal. Não sou elitista e também consumo textos populares (embora, confesso, não preferencialmente). No mesmo dia em que terminei o malfadado opúsculo nouweniano, li por diversão o Psico-gato, de Pam Johnson-Bennett, uma “consultora de comportamento felino” que conta suas experiências com os gatos de que tratou. Como gateira assumida, devorei suas páginas em duas horas de puro prazer quase ronronante. Pois o fato, que conto sem o mínimo constrangimento, foi que o livreto me fez chorar de emoção feliz no final. Bom, não vou estragar as coisas: leia e descubra por quê.
13 fevereiro 2007
Artigo no MSM - O pequeno Judas às avessas
Lemos estarrecidos que um grupo de homens, entre eles um menor, rendeu a mãe e a irmã de João Hélio e as tirou do carro sem se importar com o fato de que o menininho, de seis anos, continuara preso à cadeira de trás pelo cinto de segurança. O carro arrancou com o corpinho pendurado do lado de fora e continuou rodando por alguns quilômetros, uma versão urbana e macabra da morte arrastada por mula. Houve quem testemunhasse que, ao gritar para o grupo na rua sobre o que acontecia, a resposta foi acompanhada de risos: “É o nosso Judas.”
“É o nosso Judas.” Essa é a fala da turba ensandecida, da voz sem rosto das massas, do espírito coletivo assassino que faz encarnar o bode expiatório até mesmo em crianças inocentes. É a fala de quem decide arbitrariamente, como um deus, quem representa o mal e como purgar esse mal, passando ao ato sem remorso porque não duvida de seu próprio julgamento.
O artigo continua no site Mídia sem Máscara
12 fevereiro 2007
Da série Soco no Estômago I
Não por acaso, o primeiro Soco trata também da questão do aborto, em um dia triste para os cristãos pró-vida: este domingo, o povo português votou pelo sim em referendo para legalização do aborto. Se a decisão se confirmar, Portugal será mais um daqueles países em que o número de abortos é incrivelmente alto. Que os cristãos de todo o mundo possam prantear os filhos que não nascerão, o decréscimo da sensibilidade humana e a desvalorização da vida em mais um canto da Europa.
O primeiro Soco
Com freqüência, quem adota uma atitude cínica com relação à virtude requerida por Deus – compaixão, sinceridade, castidade, firmeza na ortodoxia cristã, postura anti-aborto – é quem desistiu do aprendizado da santidade e agora busca ou justificar racionalmente essa desistência, ou argumentar para tornar em bem o mal que não pôde rejeitar.
03 fevereiro 2007
Três assuntos
Na hidroginástica, o professor declara que vai trazer para a aula os mesmos movimentos de vários esportes. Depois do vôlei, em que fizemos o saque Jornada nas Estrelas (viva Bernard!), várias manchetes e várias defesas de cortadas, foi a vez do kick-boxing. “Pense em alguém que você detesta! Os políticos, seu chefe, sua sogra”, animou-nos o professor. Depois de alguns minutos sem me concentrar em ninguém – eu digo que não faço desafetos e as pessoas não acreditam – , veio-me a imagem de Hugo Chávez; principalmente agora, o Hugo Chávez do socialismo declarado e deslavado.
Ah! Mas ele apanhou muito. Socos e chutes de frente, socos e chutes de lado, todos dirigidos a ele. “Tome isso, por cercear a liberdade de imprensa na Venezuela! Tome mais isso, por ter tentado impedir o Alejandro Peña Esclusa de vir ao Brasil! Mais isso, por bancar o Hitler latino e abusar da democracia para implantar a ditadura! Mais isso, por querer transformar a América Latina em uma Cuba...”
Inútil dizer que, quando o kick-boxing da aula acabou, reclamei junto com a turma: “Aaaahhh....”
Disputas por minha alma
“Acontece com todos aqueles que buscam o diálogo”, solucionou a questão um grande amigo meu. É fato: a real abertura que tenho dedicado a pessoas queridas com uma visão do cristianismo diferente da minha tem suscitado oração, exortação e/ou argumentação incessantes, da parte delas, para que eu migre da fé protestante presbiteriana calvinista para a católica, a ortodoxa, até a swedenborguiana (sim, existe!). Que Deus me ajude: é preciso mil vidas para estudar cada um desses assuntos devidamente, mas só um coração amoroso e sincero para receber do Pai a orientação no caminho da verdade. Eu me aquieto: Ele sabe como apascentar suas ovelhas. Não se preocupem, pois, amigos: minha alma é de Jesus. Amém!
Pertencer
Para quem já leu com atenção a maioria dos profetas do Antigo Testamento, há uma imagem recorrente que compara o povo israelita à mulher adúltera, quando os judeus esquecem o Deus verdadeiro, que os libertou da escravidão do Egito, para adorar entidades estranhas. É como se Deus, nosso querido Deus, fosse o bom marido que é vítima de traição, perdoando muitas e muitas vezes quando a esposa volta, arrependida e precisando de cuidados.
Uma passagem em especial me chama a atenção, em Jeremias 2:25, quando Deus, como um marido desalentado, pede à esposa: “Guarda-te de que teus pés andem desnudos e a tua garganta tenha sede.” Ele já sabe que não será atendido: “Mas tu dizes: Não, é inútil; pois amo os estranhos e após eles irei.”
Não consigo deixar de pensar que a lascívia, pulsão por trás de todos os adultérios compulsivos, é essa gana de amar os estranhos, colecionar pessoas não-pessoas, em uma paixão pelo desconhecido que faz o homem ou a mulher adúlteros suspirarem pela variedade de gostos, cheiros, toques, caras, jeitos. Logo que se torna mais familiar, o objeto de lascívia perde a atração, e a busca recomeça: não por pessoas, mas por corpos vazios que portem o novo. A intimidade e o bem que permanecem são trocados pela excitação aventuresca de momentos isolados e frágeis. O mesmo mecanismo da droga: a surpresa do instante em lugar da vida em continuidade. E a mesma conseqüência: morte e perda de sentido, pois momentos soltos não constroem uma história nem solidificam o amor verdadeiro, possível apenas quando conhecemos e reconhecemos o ser amado, devotando-lhe a presença permanente.
Não vou após os estranhos; quero pertencer, pois não há outra forma de amor. Nem entre homens e mulheres, nem entre a humanidade e Deus.
26 janeiro 2007
"Epitáfio": artigo não-publicado no Jornal Palavra
Epitáfio
Sei que esse é assunto um tanto tenebroso para se tratar aos 35 anos – e imagino que Deus ainda me permitirá algumas boas décadas de vida a mais. Porém, se uma idéia surge e precisa ser registrada, qual o melhor momento para fazê-lo, senão agora? Sendo assim, aí vai: meu desejo para epitáfio se inspira em uma de minhas passagens bíblicas preferidas, I Coríntios 13:12, em que Paulo trata da excelência do dom do amor acima de todos os outros. O argumento? No céu apenas o amor será necessário: não precisaremos de dom de profecias, línguas estranhas ou ciência, pois nada haverá de encoberto que precise ser desvelado. Tampouco de fé, pois a fé é “certeza das coisas que não se vêem” (Hebreus 11:1), e lá veremos a tudo. Apenas o amor restará: Dele por nós, em uma presença constante, e nosso por Ele, em uma adoração perpétua.
Esse é meu maior consolo e minha maior esperança, sobretudo quando me sobrevêm o desânimo de vacilar na fé, a impaciência de me ver pecadora, a inconstância no amor, na oração, nos pensamentos. Glorifico a Deus porque, através das palavras do apóstolo, entrevemos um pouquinho do que seremos quando estivermos frente a frente com Ele. Ali não mais precisaremos vencer os duros obstáculos que a semente da fé cristã enfrenta para germinar: a falta de receptividade e entendimento, a superficialidade e o conforto a qualquer preço, os obsessivos cuidados com o mundo. Não mais sofreremos tentação, não mais teremos nossa fé provada.
No entanto, acima de tudo – minha maior alegria – , a revelação sobre o ser de Deus será plena. Saberemos quem Ele é, assim como hoje Ele sabe quem nós somos, ou seja: totalmente. Não parece a esperança mais louca? Mas é essa mesma a esperança de que nos fala o apóstolo:
Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
Conforme a essa palavra que amo, gostaria então que a inscrição fosse:
“Agora conheço tal como sou conhecida.”
29 dezembro 2006
Saudades de blogar, ou: Mensagem de Ano-Novo
Mas Cassandra Wilson me pegou, Affonso Romano de Sant'Anna apareceu na tv e eu me vi aqui, querendo fazer o que mais gosto de fazer na vida, exercendo um dos poucos talentos que tenho sem expectativa alguma de recompensa a não ser o prazer, a alegria, a satisfação com o que surge depois do esforço. Mostrando a mim mesma e aos que me lêem o lugar central que este blog tem na minha vida - por me possibilitar, apenas, a prática daquilo para o que (imagino, Senhor) fui talhada acima de tudo.
O que me desvia deste blog é um trabalho de poesia e música, exatamente aquilo que me fez voltar hoje aqui, sem que eu tivesse a mais remota possibilidade de resistência. Poesia e música, juntas, um casal inseparável, segundo o meu Meschonnic. Tenho que dar conta disso. E da minha escrita, dos meus desenvolvimentos, minhas leituras.
É assim que eu ameaço começar meu ano de 2007: com a conciliação e o esforço conjunto de poesia e música trabalhando ouvidos, olhos e intuições. Seus e meus. E é assim que desejo seu ano de 2007: ano de consciência e centralidade de seu talento (sempre os há), junto a uma necessidade imperiosa de clareza interna e externa. Clareza tal como a define João: "a verdadeira luz, que ilumina a todos os homens" (Jo 1:9)
Feliz Ano-Novo!
24 dezembro 2006
Mensagem de Natal 2006
Inspirada por Desert Song, de Stanley Clarke, e por uma versão swingada e alegrinha de White Christmas, rompo o recesso - que deve se estender por mais seis meses, mas não se preocupem, eu volto - para escrever esta mensagem de Natal a todos os meus queridos amigos e leitores que me acompanharam neste ano de 2006.
O que mais posso lhes desejar? O que desejo para mim mesma: que a Verdade, que é Jesus Cristo, jamais seja perdida de vista. Que, em meio a presentes mil, Papais Noéis e penduricalhos de Natal, você possa imaginar aquele bebê na manjedoura e pensar no que seríamos sem Ele. Que você possa sobretudo meditar nas afirmações graves e extraordinárias Daquele que se dizia Filho de Deus, enviado pelo próprio Pai para salvar o mundo:
"Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei." (João explica: Ele se referia ao santuário de seu próprio corpo.)
"Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida."
"Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva."
"Se vós permanecerdes em minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. (...) todo o que comete pecado é escravo do pecado; (...) se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
"Quem crê em mim crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem vê a mim vê aquele que me enviou. Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo, porque eu não vim para julgar o mundo, e sim para salvá-lo. Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia. Porque eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e anunciar."
"Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por mim. (...) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Se me amais, guardareis os meus mandamentos."
"Como o Pai me amou, assim eu vos amei; permanecei no meu amor. (...) O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei."
E muitos dos que O ouviam diziam:
"Sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo."
Que neste Natal esta também seja a sua certeza, arraigada no fundo do coração!
Um abraço caloroso!
Norma Braga
31 outubro 2006
Recesso
Quem me conhece sabe o motivo. Nada sério. Apenas preciso de todo o tempo possível para completar uma tarefa sumamente importante. E cada post aqui me toma horas de reflexão, pesquisas, burilamento textual. O que faço sempre com grande alegria e prazer, mas tenho estado culpada por deixar a tarefa de lado.
Você pode continuar postando comentários. Há muita coisa para se ler. Aliás, você já deu uma olhadinha na coluna à direita? Alguns artigos ali estão entre os textos de que mais gosto.
Tenho uma mailing list em que aviso sobre as postagens. Se quiser ser incluído nela para saber quando o blog entrará de novo na ativa (entre janeiro e fevereiro), você pode escrever seu mail nos comentários que enviar a este post. Eu os recusarei para que seu endereço não seja divulgado, e o incluirei na mailing list.
Mal posso esperar para voltar a escrever no blog sem culpa! :-)
Aos leitores queridos (eles sabem), um grande abraço e até o ano que vem!
Norma Braga
P.S.1 Não deixe de ler dois de meus blogs preferidos: Reinaldo Azevedo (que está animadíssimo no papel da oposição) e O Tempora, O Mores (sempre pertinente em teologia).
P.S.2 Se houver algo importante que eu não consiga deixar de registrar aqui, o recesso será rompido. Mas apenas em caso especialíssimo.
P.S.3 E que Halloween, que nada! VIVA O DIA DA REFORMA!
28 outubro 2006
Contra Lula, confiem no polonês
Por amor e não pela força
Inteiramente pacífica, a virada polonesa para a democracia já foi citada como uma das grandes vitórias sem o uso da violência de que se tem notícia na história mundial, ao lado da luta pelo fim do apartheid sul-africano (que só deu certo depois que se substituíram os tiros por boicotes econômicos) e norte-americano.
O caso norte-americano merece um parágrafo. Para acabar com a delimitação racista de espaços – e com a terrível tradição das placas em que se dizia “Proibida a entrada de cachorros e negros” –, o Rev. Lawson, pastor batista, bolou em setembro de 1959 uma incrível estratégia não-violenta: a ocupação silenciosa de lugares públicos permitidos apenas a brancos. Antes das ações, membros da igreja eram treinados durante algum tempo por voluntários brancos que se dispusessem a xingá-los e até empurrá-los, para que eles conseguissem ficar emocionalmente imunes às reações. O movimento cresceu, e foi tanta gente “invadindo” tranqüilamente restaurantes e lojas que, assim que a polícia, atônita, conseguia retirar dos locais aquelas pessoas mudas e quase inermes, uma nova e vasta leva tomava os mesmos locais minutos depois das prisões. Em menos de um ano, a segregação começou a ruir por si.
Com Lech Walesa não foi diferente. Em pleno regime comunista na Polônia, o cristão Walesa criou o movimento sindicalista Solidariedade para tentar restabelecer a democracia no país. (Observação: não confundir a acepção universal de “democracia” com o simulacro petista do termo, que geralmente significa “política revanchista com base no ódio de classes”.) Não foi uma “anti-revolução” por meio de armas, mas sim de um programa bem-sucedido de greves continuadas e muita mobilização popular. Mais tarde, ele diria em entrevista no Brasil que é muito mais difícil criar o capitalismo a partir do comunismo que o contrário. "O capitalismo não é um bom sistema, mas ninguém inventou coisa melhor", fez a ressalva. Essa tem sido também minha posição neste blog.
O fato é que Walesa foi coerente com seu anticomunismo e sua defesa do mercado. Quando assumiu a presidência, foi assessorado por Jeffrey Sachs, economista americano, para dar um verdadeiro “banho” de capitalismo na Polônia, de uma vez só: era a teoria do “big bang”, segundo Sachs. Assim, o presidente Walesa cortou todos os subsídios industriais, implodiu tarifas de importação, privatizou bancos e criou instituições capitalistas. Se o resultado imediato foi desastroso – a produção caiu, o desemprego dobrou – , hoje se reconhecem os resultados positivos dessas medidas: média de crescimento do PIB próxima a 5% ao ano, renda per capita de US$ 4,3 mil e inflação, que era de 70% ao ano, totalmente controlada, passando a 5% em 2001.
"Até hoje só a economia de livre mercado provou funcionar”, afirmou ele ao entrevistador brasileiro. “O que não significa que tudo nela seja bom. A sociedade polonesa não quer construir o capitalismo sem crítica. A Polônia quer fazer o sistema polonês, sem os erros nem do sistema capitalista, nem do socialista."
Quanto a Lula, Walesa declarou em 2005: "Eu previ que Lula seria presidente. Eu o conheço, nós já conversamos, mas sempre caminhamos em direções contrárias." Acrescentou ainda, inequivocamente, que Lula quer implantar o comunismo no Brasil.
É estranho que tantos brasileiros se recusem a acreditar em algo que um ex-sindicalista, expert em assuntos de comunismo, afirma com tanta tranqüilidade e certeza. Os dois se conheceram em 1981 em Roma, e Walesa já falara a Lula sobre sua aversão a regimes comunistas, sem encontrar eco no sindicalista brasileiro.
De lá para cá, Lula também tem sido coerente em seu comunismo. Dizem que a política econômica ainda não sofreu mudanças significativas, mas são muitas as atitudes do governo brasileiro que corroboram o totalitarismo sempre presente nesses regimes: o centralismo, o aparelhamento do Estado pelo partido, as políticas restritivas para calar a oposição – proposta da ANCINAV, controle da internet, ameaças e sanções a jornalistas como Boris Casoy, repressão ao homescholing, compra de deputados e veículos de comunicação – e o mistério que cerca casos como o assassinato do prefeito petista Celso Daniel, que segundo a própria família foi “apagado” por se recusar a participar de um esquema de corrupção. Essa história é especialmente horripilante: boa parte da família de Daniel mudou-se para outro país e nada menos que sete testemunhas morreram em circunstâncias estranhas. Isso tudo é conhecido do país, mas uma nuvem de silêncio e indiferença paira sobre esses fatos.
Se tudo indica que Lula será reeleito, este post é uma tentativa de contribuir para que o brasileiro pense ainda mais uma vez antes de colaborar para a reeleição de um homem no mínimo controverso, não só figura de proa em um partido que não conhece limites para se manter no poder – e dificilmente alheio a seus métodos escusos – , mas defensor de um regime que a tantos calou e matou através da história, ao lado de expoentes como Fidel Castro e Hugo Chávez. Se você preza pela verdadeira democracia, aquela que não usa de força nem desonestidade e tampouco criminaliza a expressão individual, não vote em Lula.
Leia ainda: Cem motivos para não votar em Lula. Os itens em vermelho são os fatos que se correlacionam mais intimamente com o totalitarismo comunista.
20 outubro 2006
A multidão manda pular
A fé cristã exalta o indivíduo que resiste ao contágio vitimário.
Hoje, o pensamento de esquerda é obrigatória unanimidade, e a simples menção favorável à “direita” ou o mais leve sinal de recusa a conteúdos sinistros, mesmo quando acompanhados de argumentos, atraem reações padronizadas: “nazista”, “fascista”, “reacionário”. É quando a boca se presta a obedecer ao automatismo de uma programação feita em tempos imemoriais, na escola, na mídia. O sujeito que pronuncia os impropérios não se dá conta do despropósito de chamar de seguidor de Hitler ou Mussolini, ou retrógrado, quem quer que denuncie a imposição estatal sobre a liberdade individual ou reclame do domínio de mentes e corações por uma ideologia monocromática, cega para a singularidade e para as nuances. Diante de alguém único, a ideologia de esquerda sempre mandará exclamar: antes de ser humano, você é pobre, ou mulher, ou negro, ou gay, e deve servir aos interesses da luta de classes, do feminismo, da ação afirmativa, do politicamente correto.
Satisfeito por “pertencer”, quem recebe esse mandato se refestela na agradável sensação de conforto e legitimidade que o grupo confere, servindo como simulacro de família e causa ao mesmo tempo. Não é nem necessário estar filiado a um algum partido de esquerda: de fato, a pressão mais eficaz é a distraída, impensada, fiel a regras quase indefiníveis. É assim que o corpo do militante inconsciente reverbera a reação aprendida com sincera indignação, o que deixa o outro ainda mais confuso. A repetição das palavras a cada idéia expressa – nazista, fascista, reacionário;nazista, fascista, reacionário – só condensa no espírito do alvo dissidente a óbvia conclusão: superou-se o regime totalitário explícito, que usa violência física, pelo regime totalitário implícito, por meio da programação mental (neurolingüística?). Cada cidadão se torna, nessa segunda modalidade, o vigia e cruel verdugo do outro, tal como no mundo imaginado por George Orwell. Facilmente manejável, a multidão é uma força imbatível contra o indivíduo, que pode recuar por puro mecanismo de auto-sobrevivência emocional.
Mas a Bíblia não é coletivizante. Pelo contrário, nela se denunciam as coletividades como fomentadoras da uniformização do mal. Em Êxodo 23: 2, Deus diz: “Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda darás testemunho, acompanhando a maioria, para perverteres a justiça.”
De fato, a multidão estava presente como força coativa na negação de Pedro; estava presente para mandar matar Jesus aos alegres gritos de “crucifica! crucifica!”. A multidão está sempre presente quando alguém arrisca suicidar-se pulando de um prédio. É quando todos gritam: “pula!”.
Para desafiar o impulso homicida da multidão, Deus nos alcança individualmente, através da vitória pessoal de um único, Jesus Cristo. Em João 16:33, Jesus diz: “No mundo tereis aflições, mas eu venci o mundo.” O “mundo”, força uniformizante do pecado, é confrontado por sal e luz (Mateus 5:13-15): a luz ilumina e dissipa mentiras, dissimulações, confusões mentais; o sal não só dá sabor, transformando a adesão automática em firmeza de postura, mas, em pleno mundo caído, impede o avanço da destruição.
Mas isso só é feito a partir da renovação interior – “novo nascimento” – que o próprio Cristo opera em cada um que se propõe a colocar sua vida nas mãos Dele, a única autoridade absoluta e boa. Nele, nós nos libertamos do poder que as multidões têm sobre nós, pois só Ele é nosso mediador com o Pai, mais ninguém. Nele, não somos engolidos pelo grupo: o equilíbrio entre individualidade e vida em comunidade é restaurado pela unidade em Cristo, na medida em que, ao imitá-Lo, não estamos mais submissos ao imperioso impulso de ser igual ao outro para pertencer. Somos de Cristo, e isso nos basta. A programação uniformizante perde assim seu sentido, sendo substituída por vida verdadeira.
Leia mais: Entrevista sobre René Girard e o desejo mimético
15 outubro 2006
Da série Posts Comentados I – Ed René Kivitz
Fiz visitas pastorais a duas mulheres que vestem luto. Lá pelas tantas uma delas disse entre lágrimas: “Deus deve ter as razões dele para levar meu filho, mas está difícil de entender”. Após um silêncio cauteloso e respeitoso, perguntei se ela considerava a possibilidade de Deus não ter tido razão alguma na morte de seu filho. Ela aquiesceu e enxugou os olhos, como quem diz, “é, você tem razão, Deus não tem nada com isso”.
O quadro que Ed René nos apresenta nesse post é mesmo desalentador. Tendo sofrido males semelhantes, no momento da tragédia penso: eu confiava em Deus, mas Ele permitiu que coisas horríveis acontecessem comigo, tal como permitiu a Jó – morte de parentes, destruição do meu corpo por meio de doenças ou acidentes, perdas financeiras devastadoras, encontros com pessoas que puseram minha vida de cabeça para baixo e quase me levaram à loucura. Tais coisas acontecem mesmo com quem coloca sua confiança Nele, é o meu escândalo.
O momento me apresenta duas opções. Na primeira, eu me conformo com minha ignorância: Deus é soberano e eu não conheço Suas razões. Mas O amo, e um dia saberei. Precisarei de paciência e uma confiança quase cega – semelhante à que levou Abrãao ao monte com seu único filho para ser sacrificado a Deus, que o pedia; semelhante à que levou Jó a não seguir o conselho cruel de sua esposa, “Amaldiçoa Deus e morre”; semelhante à de Paulo quando foi preso, chicoteado, desprezado até por irmãos de fé. Em tudo isso, entrego o sentido da minha vida Àquele que a possui, Àquele que a tudo possui.
Nessa primeira opção, descanso nas palavras sagradas:
“Porque o domínio é do Senhor, e Ele reina sobre as nações” (Salmos 22:28): Deus é o Senhor da história. Se Ele sabe administrar as nações, quanto mais minha própria vida, pois sou Dele.
“...no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles” (Salmo 139:16): Em Deus - criador e não criatura, único habitante da eternidade, para quem não há tempo - , todos os dias de minha vida estão debaixo de Seus olhos. Portanto, quando não compreendo por que o mal me sobrevém, espero, e deixo que minha vida faça sentido Nele.
“Não se vendem dois passarinhos por um asse? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos” (Mateus 10:29-31). Jesus nos dá a garantia de que mesmo os menores fatos de nossa vida – simbolizados aqui pelos “cabelos contados” – estão debaixo do domínio do Pai.
“Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33). Jesus não nega que o sofrimento virá, mas garante a vitória final por causa de Sua vitória. Deus não deseja intencionalmente que o homem sofra, mas vivemos em um mundo caído: nem Seu próprio Filho foi poupado de passar por aflições. Nossa garantia não é a ausência do mal, mas a vitória final do bem, garantida na vitória de Jesus sobre os poderes das trevas e sobre o mal maior, a morte.
Porém, há a segunda opção: declarar que Deus não é soberano e que Ele fechou os olhos no momento da minha tragédia, deixando-me sem proteção alguma, entregue a um mal sem sentido. Acolho assim, nessa hipótese, um Deus menor que meu próprio pai terrestre – que, se pudesse ter feito algo para evitar minha dor, não hesitaria. Assim, o autor dessas linhas diminui Deus ao dizer:
Assim acredito. Afirmar que Deus tem lá suas razões por trás das tragédias equivale a atribuir a Deus a causa de tais tragédias. Algo como Deus decidir dia e hora de virar nosso mundo de pernas para o ar, movido pela firme convicção de que tem algo a nos dar ou ensinar ou um lugar onde deseja chegar às custas de nosso sofrimento.
Afirmar isto é negar o Senhor da história. Ora, Ele não é a causa das tragédias: o mal que veio ao mundo por causa do pecado, sim. O papel de Deus em um mundo caído não é retirar todo mal deste mundo imediatamente – isto é para o fim dos tempos – , mas sim administrá-lo segundo seus desígnios, aos quais muitas vezes não temos acesso.
A pergunta que me faço é, afinal de contas, o que Deus quer fazer em mim, comigo, por mim, através de mim ou contra mim que pode ser mais importante do que a vida do meu filho? Não encontro qualquer resposta suficientemente razoável para acreditar que Deus precise sacrificar vidas por minha causa. Aliás, Deus já sacrificou a única vida que precisava de fato ser sacrificada por minha causa. O Calvário foi testemunha.
A vida de Jesus foi sacrificada aos homens desde a fundação do mundo, não só para que a criação fosse garantida após da queda, mas para que houvesse redenção. Crer em um Deus que não administra o mal nas vidas individuais também é crer em um Deus impotente para livrar o mundo inteiro do mal. Ou Ele é soberano de verdade, ou não é Deus. A vinda de Seu Filho é o fato mais importante que atesta Sua soberania: Ele sabia que o mal e a morte entrariam no mundo por causa do pecado e providenciou sua retirada. É quando nos convida para desviar os olhos das tragédias que ainda ocorrem e contemplar a redenção final – algo difícil, sim, mas não impossível. É por Sua graça que recebemos as palavras de Jesus: “Tende bom ânimo, eu venci o mundo.”
Jó
Negar a soberania de Deus porque não entendemos o que nos acontece é o mesmo que dizer: "Se não entendo o sentido disso, é porque não há." É sobretudo admitir a falha de Deus: não na causa do mal, mas na ausência.
Essa recusa de reconhecer e descansar na incognoscibilidade dos desígnios de Deus é muito emblemática no Livro de Jó. Depois que os amigos de Jó tentaram convencê-lo de que seu sofrimento se devia a pecados ocultos, Deus se revela e diz a eles: "não tendes falado de mim o que era reto" (Jó 42:7). O que exatamente não era reto nas palavras dos amigos? Eles diminuíram Deus ao dizer que Ele só agiria em correspondência aos atos de Jó. Em suma, é como se tivessem dito que Deus só poderia agir assim: "Se fores bom, Ele te abençoa; se fores mau, Ele te pune." Crendo assim, tornavam a independência de Deus em dependência do homem, como se Deus só agisse em conformidade com o que o homem faz. Negavam assim não só a existência do Deus da graça comum, que "faz chover sobre justos e injustos" (Mateus 5:45), mas do próprio Deus da redenção: se Ele premia os bons e pune os maus, não há esperança para os maus, e todos somos maus - eis a verdade do pecado original que ressurge com força em Paulo: "Todos pecaram, todos carecem da glória de Deus" (Romanos 3:23).
Por isso Deus se revela em toda a Sua força e poder para Jó, que exclama: "...falei do que não entendia; coisas que para mim eram demasiado maravilhosas, e que eu não conhecia. (...) Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora te vêem os meus olhos." (Jó 42:2-5) A visão de Jó sobre Deus ganha assim um foco mais acurado: Ele é muito maior que nossas ações humanas, e age conforme crê necessário. Não tem prazer no mal, mas o administra de um modo que "tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus" (Romanos 8:28). Essa é nossa real esperança diante do sofrimento.
"Falei do que não entendia; coisas que para mim eram demasiado maravilhosas, e que eu não conhecia": que o autor do blog "Outra Espiritualidade" possa um dia exclamar isto a Deus, é minha sincera oração.
09 outubro 2006
A história se repete: Outra Espiritualidade
Hoje de tarde, dia em que trabalho em casa, Gustavo Nagel me escreveu sobre o novo blog do Ed René Kivitz, Outra Espiritualidade (é uma verdadeira obsessão essa coisa do outro), para mostrar os comentários dele e do André Scordamaglio, além da reação das kivitzetes de plantão. Animei-me e resolvi postar um comentário também, com algumas perguntas. Qual não foi a minha surpresa quando, apenas horas depois, Gus me chama no messenger para dizer “Ele acabou com os comentários!”, em um post chamado Bem-vindos à mesa. A contrapartida nada sutil é que os que chegam para questionar não são bem-vindos. Bonito, hein?
Bom, os fatos falam por si. Mas não resisto e acrescento: tanta insistência em “outro” – “Outro Deus”, “Outra Espiritualidade” – e tanta adesão ao discurso moderno da alteridade não significam nada para nenhum dos dois. Quando se trata de pôr as idéias à prova e confrontar mesmo os “outros outros” que eles rejeitam, Gondim e Kivitz fogem correndo da raia, mostrando que não pretendem retribuir a mesma abertura que advogam para si. Apóiam-se em declarações como a de Brennan Manning, “amar aos outros independentemente de religião ou cultura”, mas, na hora de um simples confronto de idéias por internet, agem como puros stalinistas, limando peremptoriamente do território deles a palavra do argumentador que incomoda. Depois, queixam-se do tratamento que recebem do meio evangélico, dizendo-se “vítimas do sistema” em seus artigos. Ou seja, produzem repetidamente um discurso provocador contra o status quo tradicional protestante, ganhando ampla adesão por isso (hoje em dia, o “rebelde” tem fama imediata), mas não são corajosos o suficiente para sustentar as bravatas teológicas em seus próprios blogs - algo que qualquer seminarista de vinte e poucos anos consegue fazer. É assim que querem pregar sobre alteridade?
Mas chega de lenga-lenga e vamos aos textos:
Nosso destino (posto na íntegra porque, nunca se sabe, Kivitz pode ainda querer acabar com o blog):
Uma das coisas mais estúpidas que já acreditei em termos de religião foi que a composição da população do céu podia ser mensurada pelo número de pessoas que dissessem sim a um apelo de conversão a Jesus Cristo feito nas bases da tradição do cristianismo protestante evangélico anglo-americano. Traduzindo: se você acredita que irão para o céu somente as pessoas que aceitam a Jesus como salvador depois de ouvir o evangelho pregado a partir da cultura anglo-americana, então você está em apuros: o seu céu é pequeno demais; o seu Deus é pequeno demais; o seu Cristo é pequeno demais; o seu evangelho é pequeno demais; o seu Espírito Santo é pequeno demais; o seu universo de comunhão é pequeno demais; seu projeto existencial é pequeno demais; sua peregrinação espiritual é pequena demais.É urgente que se articule uma outra maneira de convocar pessoas para que se coloquem a caminho do céu. Uma convocação que considere que “nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus” – palavras de Jesus. Uma convocação que re-signifique o conceito de céu, que deve deixar de ser um lugar geográfico em outro mundo para onde se vai após a morte, para significar uma dimensão de relacionamento com o Deus Eterno para a experiência contínua do processo de humanização: estar em Cristo, ser como Cristo, ser Cristo. Com isso quero dizer que o convite para aceitar Jesus como salvador como credencial para ir para o céu não é a melhor convocação. A melhor convocação é um chamado para se tornar uma outra pessoa. A peregrinação espiritual cristã não é uma migração de um lugar para outro, mas de um estado de ser para outro. Nosso destino não é o céu. Nosso destino é Cristo. E tenho certeza de que muita gente vai chegar lá mesmo sem nunca ter ouvido o plano de salvação desenvolvido pelos teólogos sistemáticos anglo-americanos.
Meu comentário (que refiz de cabeça):
Para mim, foi uma surpresa negativa o fim do blog Outro Deus, onde postei algumas perguntas que jamais foram respondidas. Parece que Gondim e Kivitz, seus autores, não costumam ser como a maioria dos blogueiros. Porém, se Kivitz comparecesse aqui para dialogar com seus leitores, eu lhe faria algumas perguntas:
- O que é exatamente “o evangelho pregado a partir da cultura anglo-americana”?
- Será mesmo que todo mundo na igreja pensa que o céu é um lugar? E, ainda que isso seja verdade, a Bíblia não dá margem para isso nas próprias palavras de Jesus: “Irei preparar-vos lugar”, “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”? Assim, qual seria a vantagem de suprimir essa interpretação de “lugar”, já que a outra, de mudança interior na conversão e presença de Cristo, também é abundante na Bíblia?
- Considerando que "aceitar Jesus como salvador como credencial para ir para o céu" é uma simplificação da conversão cristã (e não acredito que muitos neguem isso), você não acha que sua proposta para um melhor chamado, "para se tornar uma outra pessoa", é redução maior ainda, por confundir-se com a transformação interior que todas as religiões costumam reclamar para si? Não estaria, assim, advogando a troca de uma simplificação por outra menos rica ainda e de difícil identificação com a fé cristã? A salvação ainda se relaciona com a necessidade de arrependimento; a transformação interior é apenas uma necessidade íntima, subjetiva, que não se associa a uma dívida real que temos com Deus por causa do pecado. Será que sua proposta de mudança discursiva não aponta para uma rejeição dessas noções básicas do cristianismo?
Não tenho como especular muito sobre a teologia kivitziana e seu possível distanciamento do cristianismo bíblico. Porém, tenho todo o direito de perguntar: será que a ausência de resposta à última pergunta significa um relutante "sim"? Como saber com certeza, se o autor do blog se recusa ao diálogo? E sim, para todos os efeitos, isso aqui é um desafio ao debate.
04 outubro 2006
James Houston ao vivo na internet

James Houston é um dos pensadores evangélicos que mais admiro, e realmente o tenho como um grande modelo. Muito erudito, trabalha com o que chamamos de cosmovisão cristã e crítica da cultura, um terreno ainda pouco explorado pelos evangélicos. Suas palestras costumam ser um verdadeiro caldo grosso de explanação teórica dos autores mais importantes de todos os tempos. Realmente não creio que o mundo evangélico hoje conte com alguém como James Houston. Ele se assemelha a um C.S. Lewis quanto à apologética e à relevância universal das grandes questões humanas, sempre presentes no que diz ou escreve.
Apesar da idade avançada e da saúde frágil, ele sempre viaja ao Brasil para conferências. Está esses dias em São Paulo para palestras a partir de hoje, às 16h, até o dia 6 de outubro. E essas palestras serão transmitidas ao vivo pela internet, através do site http://www.lifestream.com.br, sempre nos mesmos horários:
Dias 4, 5 e 6 de outubro
início 16h
retorno do coffee-break às 18h
intervalo às 19:00
retorno às 20:00
final 22:30
Não perca a chance ímpar de ouvi-lo! E depois venha postar comentários aqui.
02 outubro 2006
Post comemorativo pós-eleições

A capa de Veja que todos gostaríamos de ver.
Vamos às boas notícias!
Jandira Feghali perdeu, e perdeu feio, para Dornelles: 45,86% contra 37,54%. Já era uma senadora a favor do aborto! Viva!!!
Gosto de pensar que o Flor ajudou nesse feliz resultado, mas creio mesmo que foi a repercussão negativa do episódio do Arcebispo do Rio de Janeiro que empurrou Jandira ladeira abaixo. O povo brasileiro não gosta dessa história de aborto por qualquer motivo, e o atentado à liberdade de expressão religiosa só contou pontos contra ela. Bem-feito! Foi conseqüência do próprio veneno. Que sofra ainda muitas derrotas políticas e nunca, jamais, tenha a chance de ver implementado aquele nefasto projeto. É minha sincera oração.
Outro motivo para festa é o segundo turno para presidente! Em média com 48% dos votos contra 40% para Alckmin, Lula terá de se conformar em competir uma segunda vez. Ufa!
Para presidente, os números da última apuração a que assisti impressionam: Lula perdeu de lavada no Sul (54,9% X 34,9%) e no Centro-Oeste (51,6% X 38,5%), mas é suplantado com pouca diferença por Alckmin no Sudeste (45,2% X 43,3); analistas na TV já falam em maior "frouxidão moral" nessa região. O petismo por aqui é um monstro difícil de abater, principalmente entre a elite universitária; mas eu ainda espero que esteja agonizando. Já no Norte e no Nordeste, Lula tem perigosas vitórias (56,1% X 36,2% e 66,7% X 26,1%), o que só prova a tendência populista desse governo (que alardeia ser "mais fácil governar para pobre") e a importância da internet. Se essas duas regiões não fossem as mais pobres do país - e portanto sem a cultura da internet - , duvido que haveria tal resultado. Isso, sem contar com a triste realidade dos votos de cabresto.
No total, porém, excelentes notícias para nós, conservadores. Quanto à derrota de Lula, não custa sonhar e manter a esperança. Continuemos pedindo a Deus para zelar por nosso país.
Notinha maldosa mas necessária: Deu na imprensa que uma manifestante idosa (60 anos) está agora à noite (uma hora da manhã) em frente ao Palácio da Alvorada, protestando contra "a lama do governo", segundo declarou. Aborrecendo e assustando a pobre senhora, um carro prateado cheio de bandeiras e adesivos do PT fica dando voltas em torno dela, fazendo-a gritar com medo de ser atropelada. Que vândalo! Bom, pensando bem, só podia mesmo ser coisa de petista: falta de respeito aos mais velhos, descaso com a vida dos outros, encheção de saco e muita movimentação sem sair do lugar. Eu disse petista? Comunista-socialista!
01 outubro 2006
A lógica torcida do aborto
Dentre os argumentos existentes para mascarar a crueldade do procedimento, o mais utilizado é aquele que afirma a impossibilidade de se saber a partir de quando o feto pode ser considerado “gente”.
É um disparate em toda a linha. Ponha de lado as elucubrações sem fim sobre óvulos e as novas descobertas da ciência, e argumente assim:
- Mas vem cá, mesmo se não podemos determinar quando o feto pode ser considerado “gente”, vamos supor que a mulher não faça o aborto.
- Certo.
- Se correr tudo bem durante a gestação – e hoje em dia geralmente corre tudo bem – , o que acontece?
- ...
- Nasce gente depois de nove meses, não nasce?
- (Contrariado) Nasce...
- Então, se você fizer o aborto (não importa quando), gente deixa de nascer, não deixa?
- (Contrariadíssimo) Deixa.
- Qual a diferença então, se fizer agora ou depois? O resultado é o mesmo: alguém deixa de nascer. Se alguém deixa de nascer, quem comete aborto necessariamente suprime um ser do mundo.
Palavras fortes chamam a atenção para decisões fortes. Insista que abortar é o mesmo que suprimir um ser do mundo, e que isso é assassinato. E que ninguém deveria ter tamanho poder sobre a vida de outra pessoa, nem mesmo um genitor.
Foi por isso que um dia desses eu escrevi uma frase assim:
“Argumentar contra o aborto é colocar-se na estranha situação de tentar proteger um filho contra o impulso homicida dos próprios pais.”
Que Deus chame à responsabilidade os pais deste país, ainda que a lei brasileira um dia se posicione a favor dessa loucura assassina do aborto.
29 setembro 2006
Não vote - continuação

Não vote em Jandira Feghali. Veja por quê:
- Jandira é a autora do projeto de lei para a legalização geral e irrestrita do aborto no Brasil. Se aprovado, toda mulher poderá abortar por qualquer motivo e a qualquer tempo, até mesmo poucos dias antes do nascimento do bebê. A razão para isso é que o projeto revoga todos os artigos anteriores, que limitavam o procedimento.
- Jandira é contra a liberdade de expressão religiosa: moveu uma ação judicial contra dois sacerdotes católicos porque eles estavam fazendo na igreja (espaço deles!) o que eu estou fazendo neste blog (espaço meu!): recomendando a não votar em uma candidata que apóia o aborto.
E por que ela entrou na justiça contra os sacerdotes? Simplesmente porque não quer que seu nome seja vinculado a uma causa impopular - o povo brasileiro ainda é bastante conservador - na propaganda eleitoral. Está agindo de má-fé, portanto, pois quem diz "não vote em Jandira Feghali porque ela é uma lutadora ferrenha pelo 'direito' de abortar" está apenas falando a verdade. E ninguém pode ser punido pela lei por falar a verdade.
Repito isso porque os números apontam para uma vitória dessa senadora no Rio de Janeiro. Se você compartilha da minha preocupação, use a internet para tentar evitar que ela seja eleita.
27 setembro 2006
Não vote em quem luta pela legalização do aborto
Foi com choro e ira que me dirigi ao Senhor anteontem para pedir que a sanha dos juristas - que sabem torcer leis para favorecer decisões contrárias não só às leis eternas de Deus, mas ao bom senso - não alcançasse esses dois sacerdotes, o que feriria toda a comunidade religiosa. Ora vejam, se um sacerdote religioso não puder mais incluir em suas funções o aconselhamento dos fiéis sobre este mundo - como rejeitar o mal e favorecer o bem - , então para que servirá a religião? O juiz que estrilou porque os sacerdotes estavam tratando de política em ambiente religioso não entendeu que sua sentença significava o fim da relevância da fé. E Jesus recomendou que não nos escondêssemos, mas sim que fôssemos luz e sal - ou seja, atuarmos contra a corrente, se necessário, para que permaneça o que é correto. Entre obedecer ao juiz e obedecer a Jesus, com quem deve ficar o cristão?
Vejam o absurdo que Jandira e seus amigos socialistas-comunistas queriam impingir aos sacerdotes, e louve a Deus porque o TRE não aprovou a determinação:
“Determino a notificação do Cardeal D. Eusébio Oscar Scheid, assim como do Bispo Auxiliar, D. Dimas Lara Barbosa, no sentido de que orientem a todos os Párocos, Vigários Paroquiais e Diáconos ou a eventuais celebrantes de ofícios religiosos, no sentido de que se abstenham de qualquer tipo de comentário ou referência político-ideológica, sob pena de caracterizar-se desobediência à presente ordem judicial.”
É isso aí! Coligação PT/PC do B: muito mais censura para você. Principalmente se você for cristão!
Por isso, depois desse desfecho, abro ainda mais a minha boca, não só continuando a instar os cristãos a não votarem em candidatos que militam a favor da legalização do aborto - uma luta permanente e acirrada entre as fileiras do PT - , mas pedindo explicitamente para que não votem em Jandira Feghali. Dessa vez, por dois motivos: 1- É de autoria dela o projeto que legalizaria o aborto por qualquer motivo e a qualquer tempo, até minutos antes do nascimento; esse projeto ainda pode retornar à baila. 2- Entrou na justiça contra a Arquidiocese do Rio de Janeiro por causa da postura política pró-vida, exigindo a apreensão dos cartazes e um calaboca dos sacerdotes, que apenas estavam sendo fiéis. Portanto, não vote em Jandira: além de continuar a batalhar para liberar o aborto sem limites no Brasil, ela é dessas pessoas que jogam com a lei para atentar contra a liberdade de expressão religiosa, e isso dentro de nossos templos, o que não podemos aceitar em hipótese alguma.