Autores evangélicos da tão popular tendência de auto-ajuda insistem no amor e na compaixão, na abertura de mente, na revisão dos conceitos e preconceitos, na meditação perigosamente próxima às práticas panteístas – Simone Weil diz que “estar atento” para Deus é “suspender nosso pensamento, deixando-o desligado, vazio e pronto para ser penetrado pelo objeto” – e raramente falam daquilo de que a igreja evangélica brasileira realmente precisa: discernimento, espírito crítico, leitura, aprimoramento das faculdades intelectuais. É por causa dessa “abertura” acrítica e cheia de empatia que tantos líderes inescrupulosos têm levado multidões no bico. Enquanto isso, continuam chovendo no mercado as publicações de auto-ajuda que promovem e reforçam um ideal de espírito contemplativo sem a ênfase em sua contrapartida, o conhecimento bíblico e a reflexão, sem os quais toda contemplação se perde no vazio. Não adianta criminalizar a rapidez do mundo moderno, o excesso de informações, a correria do cotidiano, a tendência workaholic, para pregar em seu lugar uma ascese apática com ênfase em um amor sem conteúdo racional, cujo objetivo parece mais a transformação dos ávidos e desatentos consumidores de novidades em sorridentes amebas que amam.
P.S.1 Esse texto é uma homenagem às avessas ao pior livro de auto-ajuda que li nos últimos tempos, de Henri Nouwen. Como a expectativa com relação ao autor era grande – criada artificialmente por recomendações de amigos e conhecidos – , a queda foi revoltante e dolorosa. A linguagem é bem mais apurada do que a que costuma freqüentar o estilo; porém, como uma “pegadinha”, é justamente isso que eleva a potências inimagináveis o grau de irritação do leitor esperando por substância: simplesmente não há. Lugares-comuns e banalidades em um tom pomposo ultrapassaram o limite do que eu podia suportar. Nouwen, nunca mais.
P.S.2 Não me julguem mal. Não sou elitista e também consumo textos populares (embora, confesso, não preferencialmente). No mesmo dia em que terminei o malfadado opúsculo nouweniano, li por diversão o Psico-gato, de Pam Johnson-Bennett, uma “consultora de comportamento felino” que conta suas experiências com os gatos de que tratou. Como gateira assumida, devorei suas páginas em duas horas de puro prazer quase ronronante. Pois o fato, que conto sem o mínimo constrangimento, foi que o livreto me fez chorar de emoção feliz no final. Bom, não vou estragar as coisas: leia e descubra por quê.