27 agosto 2005

Amenidades 2: Mel, vulgo Gatolino


Não poderia deixar de postar aqui essa linda surpresa: eu achei que tivesse perdido para sempre a oportunidade de registrar o meu gatico Mel Brooks ainda pequenininho, quando descobri que a Steh havia tirado uma foto dele, no dia em que foi resgatado das ruas de Curitiba. A foto é linda! O olhinho assustado é por conta não da festa enorme em torno dele - todos querendo pegar no colo essa fofura de gato-e-sapato, nunca vi mais mimado e derretido - , mas da algazarra que o cachorrão oficial da casa estava fazendo. Nós nos distraímos, o Mel acabou ganhando umas sacudidas a dente do Robin, foi salvo pelo Pedro (graças a Deus) e hoje vive pacificamente, deleitosamente, aqui em casa, com direito a uma ração diária de muitos carinhos, muitos "eu te amo" e muitos beijinhos na barriga. (Detalhe: Mel é por conta da Steh, já que no início achamos que ele era "ela", e Brooks foi batismo posterior da Inês - para justificar o Mel masculino e, segundo ela, porque fica mais engraçado que "Mel Gibson".)

Amenidades, para variar: foto nova


Essa fotinha foi tirada pelo Dudu, irmão da Jackitz, em janeiro deste ano, e foi editada e colorida pela Inezinha. Olha só, quanta gente cuidando da minha imagem! Gostei tanto que queria colocar no profile. Não deu: o Blogger achou muito grande. Paciência. Pelo menos, fica por aqui.

24 agosto 2005

O marxismo e a teoria girardiana do bode expiatório (3)

Esse é o mesmo Lênin que as esquerdas moderninhas gostam de citar, um excelente exemplo de uma mente estragada pela belicosidade do bode expiatório:

"Lênin odiava a essência da democracia e encarava seus contornos apenas como um meio de legitimar a violência e a opressão. Em 1917, ano em que tomou o poder, definiu o Estado democrático como 'uma organização para o uso sistemático da violência de uma classe contra a outra, de uma parte da população contra a outra' (O Estado e a revolução, 1917). Quem para quem? era o seu critério supremo. Quem estava fazendo o que a quem? Quem estava oprimindo quem; explorando ou matando quem? Um homem que pensava assim e que não imaginava que se pudesse pensar de outra forma, como conseguiria vislumbrar um conjunto de medidas políticas que não fosse o despotismo, conduzido por uma autocracia e governado pela violência?"

Fonte: Tempos modernos, Paul Johnson

O marxismo e a teoria girardiana do bode expiatório (2)

No marxismo, um exame detalhado sobre a teoria de classes – em que uma explora e a outra é a explorada – bastaria para desbancar toda a doutrina. Não posso fazê-lo aqui, mas sei de alguns de seus furos. O filósofo Olavo de Carvalho chama a atenção para o fato de que, embora Marx tivesse atrelado a identidade individual à classe de origem, afirmando categoricamente que só o proletário poderia fazer a revolução, tal idéia básica de sua doutrina não se aplica a ele mesmo, que apesar de oriundo da burguesia teria "percebido" a opressão de uma classe sobre a outra. Esse tipo de alienação da realidade, em que o teórico não consegue nem enxergar a discrepância entre suas teorias e o que acontece em sua própria vida, é típica dos filósofos do século XX. Não é à toa que se trata do século pródigo em teorias atéias ou predominantemente anticristãs, filhotes de um processo em curso desde o Iluminismo. Nessas correntes, a enfática negação do cristianismo acaba funcionando como uma apologia ao mecanismo do bode expiatório – vide os exemplos de Maquiavel, que defendia a condenação à morte de antigos aliados assim que o Príncipe chegasse ao poder (sugestão fielmente seguida por líderes comunistas como Fidel e Lênin), e Nietzsche, que via nos "fracos" o mal da sociedade, em contraposição ao "super-homem". Todos eles, de uma forma ou de outra, são fabricantes de culpados, ao pregar que a eliminação do mal está não no sacrifício do inocente Jesus, mas na condenação de segmentos inteiros da sociedade, sejam eles representados pelos inimigos do poder, pelos judeus ou pela tal "classe dominante". É por isso que não há exagero em dizer que, assim como o nazismo, o marxismo levado às últimas conseqüências sempre gera assassinatos em massa, como forma de "purgar o mal" no melhor estilo do mecanismo do bode expiatório. Rússia, Cuba e China não me deixam mentir.

O marxismo e a teoria girardiana do bode expiatório (1)

René Girard é um dos autores que mais admiro no mundo. Ele é um dos raros pensadores cristãos da atualidade cuja fé não é acessória em suas teorias, mas central, atestando o quanto está mergulhado de mente, corpo e alma naquilo em que acredita. Seu conceito de “mecanismo do bode expiatório” é um verdadeiro tesouro para quem quer que sinta a necessidade de compreender tanta matança, tanto ódio justificado racionalmente, em pleno século XX, o século de duas guerras mundiais.

Segundo Girard, todos nós sabemos da existência do mal e sentimos a urgência de uma solução para ele. Para os cristãos, Jesus trouxe essa solução, ao levar embora nossos pecados sacrificando-se Ele mesmo por nós – fazendo-se "maldito" em nosso lugar, como nos diz o apóstolo Paulo. Foi o sacrifício de um inocente, e nós, que cremos nele, é que nos declaramos culpados (o arrependimento cristão é nada menos que isso). Porém, para quem não crê, o problema do mal resta irresolvido, e a solução social que todos encontram – todos, sem exceção, segundo Girard, que pesquisou muitas civilizações antigas e o comprovou – é o "mecanismo do bode expiatório": fazer com que alguém encarne o mal e acreditar de verdade que esse alguém é culpado, eliminando-o em seguida. Tal processo funciona como apaziguador temporário, já que se trata de um falso fator de união entre os demais - em ódio, não em amor. Enquanto a Bíblia enfatiza que o sacrifício de Jesus é eterno, nas sociedades que expiam o mal por si mesmas é necessária a instauração contínua de novos bodes, em uma cadeia de sacrifícios sem fim.

Isso se verifica facilmente nas grandes tragédias do século. O povo judeu foi o bode expiatório da Alemanha de Hitler, e durante todo o regime nazista o ódio aos judeus fez parte, sem contradições aparentes, de um só projeto nacionalista e unificador. Do mesmo modo, o vago conceito de "classe dominante" tem servido como base para a condenação de levas inteiras de bodes expiatórios nos países comunistas e nas organizações de esquerda em geral, que querem enxergar na extinção de classes um ideal de paz. No cristianismo, há a compreensão de que não há quem possa particularmente encarnar o mal, pois todos o reconhecem, de forma estrutural, em si mesmos ("todos pecamos, todos carecemos da glória de Deus", afirma o apóstolo); em Jesus, o cristão encontra ainda a resposta única e definitiva para o problema do mal. Já a sociedade que sustenta seus valores sobre o mecanismo do bode expiatório é sempre uma sociedade polarizada, que fornece subsídios ao infinito para a hostilidade entre seus membros, apresentando em seguida como solução dos conflitos o fim dos que representam o mal – por morte social ou física. Ao endossar a tal “luta de classes”, quem colabora com isso ajuda a perpetuar um ciclo verdadeiramente diabólico, pois não há sacrifícios que cheguem para a sanha dos que pensam combater o mal dessa maneira.

26 julho 2005

Os fatos, os fatos, por favor!

Quase não acompanho mais o noticiário da CPI. Os depoimentos e as discussões em torno do assunto são tão disgusting que estão fora da realidade. Melhor ver um filme, ler um bom romance, ouvir uma sinfonia... Afinal, já que o ambiente no Brasil de hoje nos afasta da realidade, para ter contato com ela precisamos fugir para a obra de arte, a ficção! Eu já cansei de acompanhar, não os fatos, mas a conversação em torno. Para mim, todos os implicados na história se comportam como personagens inverossímeis, máscaras malfeitas, e qualquer personagem de ficção é mais real que eles.

Delcídio Amaral dando entrevista no Jô, por exemplo. Muito tranqüilo, dizendo que é "religioso", que é chegado numa "energia" etc. Reclama da atmosfera da CPI no melhor estilo bicho grilo new age: "Culpados ou não, o clima lá é tããããão pesado..." (Poderia escrever vários parágrafos utilizando essa pérola como um ótimo exemplo do quanto o brasileiro deixou de se preocupar com o certo e o errado e passou a privilegiar o "agradável" em suas relações... mas deixo para uma outra vez.) A determinada altura, afirma categoricamente (com concordância também categórica de Jô) que não estava preocupado porque conseguia perceber a inocência de muitos dos depoentes na CPI apenas pela expressão do rosto: "o olhinho fala" etc. Cúmulo da alienação ou do cinismo mesmo? Não sei... Mas enfim, ele acha que está falando com quem, com 180 milhões de bobos?

Nessas horas, alguém tinha de lembrar a ele com uma cotovelada discreta que muitos (inclusive eu) acreditaram no "olhinho" do Maníaco do Parque - o motoboy serial killer de jovens mulheres. Aquela carinha redondinha, cheia de sardas, o ar absolutamente infantil, tudo apontava para uma figura acima de qualquer suspeita. E era justo o olhinho dele que mais chamava a atenção, feito de uma sinceridade cristalina ao garantir em frente às câmeras que era inocente. Sei de gente que chorou quando soube, pela posterior apuração dos fatos, que ele era culpado de todos aqueles assassinatos. Pois o brasileiro já cansou de "olhinho" e de "promessinha". A gente quer mesmo é a graninha no lugar certo, onde deve estar, não no bolso largo de quem nos rouba. E isso só os fatos serão capazes de dizer - os fatos, esses seres que vêm sendo tão menosprezados pelos bem falantes da mídia no decurso dessa CPI.

11 julho 2005

Show de Truman à brasileira

Hoje eu estava no táxi indo para casa e o rádio estava sintonizado em uma dessas estações brega-desafinadas. Tocou então um "pagode" assim: "Tira essa mulher de mim, tira essa mulher de mim..." O sentido era: o cara estava apaixonado e não podia estar, precisava esquecer a mulher; vejam com que belíssimas palavras e com que sutileza isso foi expressado na "música"!

E aí me veio a certeza fulminante: o que falta para estarmos em pleno 1984? NADA! Temos a indigência cultural, fabricada especialmente para o povão e consumida unanimemente - escapar disso requer um esforço quase arqueológico; temos a diferença absurda entre quem trabalha para o Governo-Estado-Partido e quem não trabalha, em termos de remuneração, segurança e status; temos a invasão estúpida e absoluta de privacidade, feita por quem tem meios para isso, basta querer. Está tudo (com o perdão do cacófato) aí! A grande diferença, e que só torna a coisa toda milhões de vezes mais eficaz e perversa, é que a maior parte da situação não é imposta, mas consentida. É o sistema perfeito: as pessoas estão esmagadas, sentem-se esmagadas, mas jamais o diriam, porque a coerção não é visível, e não conhecem algo mais humano que isso.

Enquanto isso, a beleza natural do país vai fazendo o papel de um estupefaciente. Onde moro, por exemplo, as vistas são belíssimas, mas eu me sinto esquisita - como se soubesse que aqui é o lugar exato para passar o finalzinho da vida. Estaria feliz se só me restasse curtir a aposentadoria, devorando a literatura que ainda não conheço, passeando no calçadão, comendo nos ótimos restaurantes, fazendo amizade com os vizinhos, tomando banho de piscina na AABB (se eu fosse uma aposentada do Banco do Brasil). Por isso me sinto sufocada, sabendo que tenho tanto o que produzir e por aqui não há meios, não há estímulos, não há quem me ensine e sequer quem me ouça com interesse. Não consigo deixar de me lembrar do Raul Seixas: "Eu é que não me sento no trono deste apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a mooorte chegaaaaar!"

Quando a gente compreende o que está se passando, é inevitável essa sensação de figurante do Show de Truman!

07 julho 2005

Livramento de Deus em Londres!

Uma amiga cristã, a Gabriela, acaba de me contar que acordou espontaneamente às quatro da manhã de hoje, sem sono nenhum, com a urgência de orar. Ficou meia hora pedindo sem parar a Deus pela proteção da irmã que está em Londres. O atentado estava prestes a acontecer e ela não sabia de nada! Depois, soube da tragédia pela internet e ligou uma coisa à outra. A irmã logo telefonou contando que estava no ônibus que ia para o metrô quando um policial tirou todo mundo de dentro por causa dos rumores das bombas. Ela chegou a ver depois, mais adiante, o mesmo ônibus destroçado. Foi um grande livramento de Deus!

Ele nunca é louvado sem razão, nunca!

26 junho 2005

Conhecimento X Revelação

Teólogos se ocuparam por séculos com a questão da obtenção da fé cristã: seria por revelação ou por conhecimento? Creio que a discussão se torna um quebra-cabeças insolúvel se tomada desta forma, "ou conhecimento, ou revelação". O ideal é deixarmos de antagonizar essas duas instâncias para entendermos que todo conhecimento verdadeiro também vem de Deus. A Bíblia diz que são culpados os homens que, ao olharem para tudo o que existe no mundo - a criação - , não louvam o autor, o criador. O que significa que as coisas criadas também falam de Deus, e sobre isso existe um salmo lindíssimo que diz: "Os céus proclamam a glória de Deus / E o firmamento anuncia a obra de Suas mãos". Para reconhecer essa glória visível no mundo, precisamos dos dois lados: o sensível, para chegar às coisas, e o inteligível, para fazer uma ponte entre elas e Deus. Tudo se faz assim, nada é apenas "revelação" solta, sem nossa participação, ou "conhecimento puro", com nossa mente em atividade no vazio ou apenas consigo própria.

Logo, como protestante, acredito firmemente na ênfase na revelação de Deus como modo de se obter a fé, mas não tomo a revelação como oposta ao conhecimento. Para mim, a melhor maneira de se entender isto é o seguinte: Ele começou primeiro. Ele já existia antes de tudo, Ele imaginou, Ele criou. Assim, a iniciativa é sempre Dele em tudo. Isto se chama, afinal, graça: diante de Deus, seremos sempre os agraciados, aqueles que recebem. Logo, recebemos: revelação e conhecimento, sempre. E o antagonismo revelação x conhecimento parece perder todo o sentido se pensamos na infalível graça de Deus. Pois, no final das contas, tudo é revelação no sentido lato, começando pela revelação de si e de seu amor: "Ele nos amou primeiro."

Acredito então que, ao se fundarem necessariamente no antagonismo, os defensores de ambas as posições incorrem em erro. Os cristãos protestantes tendem a privilegiar tanto a revelação "pura" que acabam menosprezando a razão como se esta fosse intrinsecamente separada de Deus. Logo, acabam sendo anti-intelectualistas. Já os gnósticos enfiam os pés pelas mãos porque, ao privilegiarem a razão (ou o que entendem ser razão - uma razão cartesiana, mutilada do sensível, já que se concentra em excesso na mente humana, nos processos interiores), subordinam-lhe a graça, e acabam prescindindo do verdadeiro iniciador de todo processo de conhecimento. As duas posturas geram doença: a primeira diz "só Deus", e a segunda diz "só o homem".

A doutrina protestante oferece uma boa dimensão da graça. Evangélicos em geral crêem certo quanto a Deus como o grande iniciador, mas têm um medo irracional de interferir no processo e gerar orgulho - o que é uma tolice, porque a graça de Deus não significa passividade humana. Ele nos chama para sermos co-participantes de sua glória, não para recebermos Dele de forma estática. Um dos mais belos detalhes na história de Moisés é quando Deus diz para ele tocar o cajado no mar. Deus não poderia ter simplesmente mandado o mar se abrir? Não poderia ter ecoado uma voz do céu assim: "Abre-te, mar"? Mas não: delega o gesto a Moisés, e o mar se abre. É óbvio que não foi Moisés quem abriu o mar, foi Deus; mas Ele o chamou para participar do milagre. A Bíblia inteira nos chama a essa co-participação dos milagres divinos, parecendo afirmar que somos mais humanos - somos plenamente humanos - quando agimos em conjunto com Deus, porque afinal Ele nos criou para isso. Jesus o mostrou perfeitamente, sendo o melhor ser humano que chegou ao mundo por estar em perfeita sintonia com Deus.

19 junho 2005

Uma historinha filosófica

Uma historinha filosófica, de André de Oliveira - ótimo texto! Resume de forma anedotária toda a minha linha principal de esforços investigativos, hoje.

Só discordo de um pequeno detalhe: no final, em vez de sorriso maroto, garanto que o que os três anciãos trocaram foi mesmo uma bela careta de horror...

15 junho 2005

Lama em ouro: a Estetização Total

De Charles London:

"Agente Smith - Vocês viram o Dirceu, com aqueles óculos de agente do Matrix? É a melhor dele, sem dúvida! Nunca uma fotografia foi tão fiel ao caráter de uma personagem; nunca uma personagem foi tão fiel a uma fotografia. Nem a SS hitlerista com aquelas caveirinhas tinha estética mais apropriada! É tese nossa - atenção aí, patrulheiros rodoviários e universitários! -, que o fenômeno petista e hitlerista era essencialmente estético, isto é, ele não era para funcionar, mas para impressionar! Não se pode cobrar funcionalidade de um regime que só tem sentido estético mesmo quando por causa dele milhões vão pras cucuias. Precisamos é de uma CPE (Comissão Parlamentar de Estética) para avaliar isso, porque o que vemos agora, e que muitos insistem em chamar de corrupção, é na verdade um arsenal de recursos artísticos, de criatividade, de poiesis (humm!)! Aqueles óculos do Dirceu dizem tudo – Matrix é tudo isso aí; é a nossa maya!"

É isso aí: hoje, estamos vivendo em plena era da Estetização Total, impulsionadíssima já no século dezenove por Charles Baudelaire e seu recueil de poemas As Flores do Mal. Sobre a obra, ele mesmo a descreve assim ao leitor: "você me dá lama, eu lhe devolvo ouro". É a nossa época, é o nosso Brasil: ouro por fora, lama por dentro. Afinal, é impossível crer que, com lama como matéria-prima, o ouro seja verdadeiro, sem ter perdido quase que por completo a noção de realidade. A transmutação da lama em ouro só pode se dar na visão interior (e apenas interior!) do "sujeito moderno".

Uma pausinha para falar de política brasileira

Sim, há uma mistureba danada nas motivações de Jefferson: vingança, com certeza, por ter sido desapachado como bode expiatório na CPI dos correios ; talvez ódio pela desfaçatez do mensalão, que compra consciências e poder de fogo, e nem todos os políticos põem o dinheiro acima da ambição do poder; talvez, também, um desejo real de moralizar parte da quadro político, um patriotismo tardio enfim em operação. O modo como estão presentes e entrelaçadas todas essas motivações tão desencontradas, nunca saberemos. O fato é que ele mesmo disse que não é nenhum santo. E a imagem que usou da historinha do sapo (o PTB) que atravessa o escorpião (a bancada do PT) pelo rio e acaba ferroado por ele é ótima, porque como sapo reconhece que, já que a morte pelas ferroadas é certa, está se afundando para afundar junto o escorpião. Nisso, fica transparentíssimo o seu intento: um suicídio que arrasta consigo os inimigos, tal como os homens-bomba. Em tudo isso, moralmente condenável, sim. Mas acredito que está, tal como deu no detector de mentiras, falando a verdade em quase todo o seu depoimento. E por isso me alegro: não pela pessoa de Roberto Jefferson, suas motivações, suas intenções. Mas pela verdade que está sendo posta à luz.

Embora, no fundo, saiba que podemos esperar tudo - absolutamente tudo - a partir dessa grande movimentação.

Por isso me divido: alegria pela verdade que vem à luz de modo inaudito em tantos anos de politicagem no Brasil; e um grande temor pelas conseqüências das sacudidas, que são, a meu ver, impossíveis de serem previstas.

13 junho 2005

O socialismo como seita

Se dizemos para as pessoas que este país está uniformemente à esquerda, que os ideais socialistas invadiram maciçamente a educação e a mídia, que mesmo quem não se diz “de esquerda” fica horrorizado diante de afirmações contrárias à agenda socialista, não nos acreditam. No entanto, elas mesmas são a maior prova disso. Seja sob a forma de um questionamento racional de pilares do pensamento de Marx, como por exemplo a luta de classes, ou através da sugestão do mais leve arranhado na imagem de ídolos da esquerda como Che Guevara, a mera proposta de pôr em arena tais idéias é algo que para elas cheira tanto a “direitismo” que não conseguem conter um misto de indignação e sentimento de religião ofendida – esquecendo-se de que os verdadeiros religiosos nunca se negam a debater sua fé, pois não a contrapõem à razão. Desta forma, os mesmos que silenciam sobre questões de política quando contrariam suas crenças – e o fazem quase em desespero, implorando para que não insistamos, quando não recorrem a expedientes toscos para nos dissuadir a continuar, como digressões ou chantagem emocional – são os que confirmam a uniformidade esquerdista em que o povo brasileiro está imerso: uniformidade que, longe de caracterizar “maturidade política”, testemunha a condição coletiva de aderência cega a um conjunto de dogmas impenetráveis, típica, isso sim, de cooptados por estranhas seitas religiosas.
Essa "condição coletiva de aderência cega" não é à toa no Brasil, mas atesta o pleno funcionamento do ideal de Antonio Gramsci: a revolução não pelas armas, mas por um investimento pesado na cultura e na educação. Se está com preguiça de ler Gramsci, leia pelo menos isto aqui, e depois venha me contar o que achou:

http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=3760

05 junho 2005

Questionário português

Claudinho Téllez me enviou algumas perguntas que circulam por esta Terra dos Blogs. Como chegou até mim em português de Portugal, chamo-o "questionário português", por causa do uso do pronome "tu" e de outras particularidades de linguagem do adorável país de meus antepassados.

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
O Livro de Jó, da Bíblia. Maravilhosa ilustração sobre a graça de Deus, ainda que às avessas, poderia ser chamado: "Deus age independentemente dos esforços e méritos humanos."

2. Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Muitos, mas o que mais me marcou foi Winston, de 1984 (George Orwell). No final do livro, eu chorava em desespero por causa do destino do personagem, pego para sempre nas malhas da possessão total, de corpo e espírito, pelo Big Brother (ah, sim. O mesmo que dá nome ao programa da Globo. Ou você não sabia que o título do reality show era uma piadinha de mau gosto?).

3. O último livro que compraste?
De Corrie Ten Boom, escritora evangélica, sobre sua infância: In my Father's House. Muito tocante. Conta como seus pais não negaram ajuda aos muitos judeus holandeses que precisaram de abrigo em plena vigência do nazismo. Adolescente, Ten Boom foi uma das únicas da família a sobreviver à horrível experiência de um campo de concentração. Nunca perdeu nem a doçura, nem a fé; pelo contrário, é grata não só pelo amor que recebeu nos primeiros anos de vida, mas também pelo sentido maior por trás dos fatos e das dores, que só Deus pode nos fazer enxergar.

4. Os últimos livros que leste?
Literature Lost, John M. Ellis; Como vencer um debate sem precisar ter razão, Schopenhauer, com prefácio e generosas notas do Olavo de Carvalho (o must do livro é o texto do Olavo, não o do Schopenhauer).

5. Que livros estás a ler?
- Mensonge romantique, verité romanesque, René Girard, antropólogo católico maravilhoso; esse livro é sub-utilizado pela Letras, que vê nele pouco mais que um anti-romantismo militante, bem de acordo com um certo espírito "moderno" francês na literatura. Na verdade, é uma introdução maravilhosa à obra de Girard, e pode ser lido como num espelho, mostrando o que somos, como agimos, com relação ao que ele chama de desejo triangular: o desejo não legítimo, surgido de um desvalor de si mesmo e da vontade de ser o outro.
- As seis doenças do espírito contemporâneo, Constantin Noica; imperdível! Com três paradigmas - carência ou recusa de generalidade, individualidade e determinações - , Noica discrimina com pinça as nossas mazelas interiores. Gosto especialmente da descrição da Catolite (carência do geral), que descreve tão bem tanto o Brasil de hoje quanto a mentalidade moderna francesa nas artes, que quer que tudo seja reduzido ao singular, proclamando o fim da verdade (que é, em essência, universal).
- Tempos modernos, Paul Johnson; estou no comecinho. O livro tem observações que nos ajudam muito a entender o cerne totalitário dos regimes socialistas, tais como: "Lênin trocou uma classe dominante por outra: o partido" (p.64).
- Les justes, Albert Camus; revolucionários terroristas em crise desnudam a louca lógica por trás de seus atos. "Aceitamos ser criminosos para que a terra se cubra enfim de inocentes" (p.37), declaração que revela, nessa lógica, a transformação do assassinato em martírio. Muito atual.
- Foucault o el nihilismo de la catedra, J. G. Merquior. Ainda no início. Foucault foi o grande inspirador das correntes americanas e canadenses dos Cultural Studies na literatura, cujas questões de cunho político, ligadas a classe, gênero e raça, obliteram a riqueza da área e monopolizam as discussões nas universidades. Paradoxalmente, essas correntes costumam ser odiadíssimas pela teoria literária francesa, que não atina com essa filiação. Duvida? Então leia o livro de Ellis que citei aí em cima, e argumente contra, se for capaz.

6. Que livros levarias para uma ilha deserta?
A obra toda de René Girard e muita literatura que deixei de ler por ter de me concentrar na literatura francesa (meu objeto de pós): Shakespeare, Dostoiévsky, Camões... Ah, e as gravações dos seminários do Olavo, para ouvir no Notebook (quando eu tiver um).

7. Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e por quê?
Aos blogueiros que conheço - Roney, Luís - e a dois queridos amigos proprietários de site, o Henri e o Julio.

02 junho 2005

"A fé faz bem à saúde", afirmam cientistas

Mês passado, diversas revistas e sites veicularam reportagens de teor parecido, cuja idéia básica poderia se resumir na afirmação: “Os cientistas já admitem que as práticas espirituais fazem bem à saúde.”

Ainda que adepta de uma fé, estou longe de ver nisso uma boa coisa. A declaração, quase unânime entre cientistas modernos, não vem do nada, pura conclusão de pesquisas objetivamente científicas, como quer parecer; mas é de fato resultado de um longo processo de desmoralização das religiões.

O que está na base desse discurso, acredito, é um olhar científico que se quer autoridade sobre toda e qualquer área do conhecimento humano, como se a ciência fosse "o conhecimento" e o resto precisasse de seu carimbo de autenticidade. Desde que Descartes reduziu o objeto do olhar humano à matéria, a ciência se arvora em autoridade absoluta sobre tudo. Assim, esse tipo de reportagem funciona como um carimbo: a grande mestra Ciência atesta cientificamente que a fé pode ser benéfica sobre a saúde, e por isso todos podem recorrer livremente a ela – é quase um selo de “bom para consumo”, destinado a aplacar o medo daqueles que pretendem lançar mão de tais benefícios.

Este pensamento, por ter quebrado a anti-religiosidade dominante na ciência em geral principalmente nos séculos XVIII e XIX, pode até parecer mais favorável à espiritualidade; porém, se olhado mais de perto, é só um prolongamento de um plano diabólico: depois de proclamar que só é real o tipo de conhecimento que é "provável cientificamente" – ou seja, relacionado à matéria – e de assim subordinar a religião e as ciências humanas à ciência tal como conhecemos hoje, o discurso científico do novo século, ao abrir generosos "parênteses" para afirmar que a saúde das pessoas melhora quando crêem em alguma coisa, reduz drasticamente a fé a uma terapia banal. As perguntas que realmente importam – em que medida as "fés" em questão representam o real, quais são seus argumentos para que clamem ser a verdade – são todas sufocadas por baixo deste "fazer bem" estritamente pessoal, na maioria das vezes superficial e até perigoso, já que nem tudo com que temos prazer é realmente bom para nós. Tudo isso faz parte, creio, do impulso para um apego cada vez maior a necessidades pessoais como um fim em si, promovendo o afrouxamento dos laços coletivos com noções de dever, verdade, real, que apontam para finalidades maiores, para destinos comuns.

Ou seja, “a fé não precisa ser verdadeira, basta fazer bem" – é isso que parecem sustentar os médicos que apregoam tal discurso, afigurando-se assim mais anti-religiosos que os ferrenhos cientistas ateus dos séculos anteriores ao tornarem nula a real fé religiosa, que sempre se relaciona com a honestidade intelectual e a busca sincera da verdade. Eu preferia que continuassem hostilizando a religião, pois pelo menos não a estariam desvirtuando tanto.

Quem crê precisa ficar especialmente atento para isso, pois essa pessoalidade absoluta da fé está presente também nas igrejas, quando a felicidade pessoal (e muitas vezes imediata, e muitas vezes superficial) é mais importante para o cristão que o cumprimento da vontade de Deus. Ao entrarem para a igreja, muitos crentes buscam menos a finalidade de suas vidas em Deus que a realização de seus desejos particulares. E essa capa de fé sufoca a verdadeira fé, que para o cristão verdadeiro implica também o despojamento de prazeres sem grandes significados em prol do que realmente importa, em nossa vida, para Deus – o chamado especial de Deus para nós – , e que precisa ser buscado até morrermos.

22 maio 2005

Conhecer a Deus

Muitas das mais inspiradoras lembranças da minha vida constituem os momentos pontuais em que Deus interveio nitidamente para fechar um ciclo ou estabelecer um sentido que eu não via. Sem esses momentos em que Deus se revela diretamente (fora as leituras, as palavras de outras pessoas que eu percebo serem inspiradas por Deus), eu já seria uma morta-viva espiritual. E digo mais: isto tem a ver infinitamente mais com Sua graça imensa do que com qualquer pretensa qualidade, savoir-faire ou "bom comportamento" meus. Saber disso (e confirmar isto a cada passo) me deixa muito mais receptiva a Ele, na medida em que me sinto segura por Ele me amar por quem eu sou, não pelo que faço - e na medida em que sei que, sem Ele, sem sua orientação, minha vida é só um triste arremedo do que deveria ser.

Acho que Ele se revela àqueles que se sentem tão perdidos, tão maus, tão errados, tão pequenos, tão fracos que a simples idéia de que nada faz sentido lhes parece desesperadora como a própria morte - e esses sabem que não podem construir seu próprio sentido, porque se entendem pequenos e fracos. Eles intuem que há algo maior e o buscam como o faminto busca por alimento. A busca vem a partir de uma pequenina certeza de que há algo bem acima de nós, bem maior que nós. Vem de nos sabermos pequenos - o famoso "humilhar" da Bíblia. O resto do conhecimento sobre Ele - que Ele é bom, é pessoal, é pai - vem depois, mas o primeiro ponto é esse.

Muitos crentes começam certo, mas depois não conseguem se ver continuamente pequenos na presença Dele e começam a querer controlar os processos espirituais - seja intelectualmente, pela teologia, seja "magicamente", por regrinhas neopentecostais. E aí Deus se cala. Descobre-se então que essas pessoas estavam buscando a Deus não porque reconheciam a necessidade absoluta de se renderem a algo maior que elas, mas porque queriam que algo dentro delas, que crêem como qualidade intrínseca e não (também) dom de Deus, fosse confirmado. Passada essa necessidade de confirmação daquilo que no fundo é a vontade delas, perdem a proporção e voltam a se sentir tão grandes ou até maiores que Deus. Tenho certeza de que isso acontece com muitos cristãos e líderes religiosos que, no início, estavam humildes, mas depois Deus pareceu confirmar tanto o que eles tinham em si que eles perdem a proporção e Deus passa a ser um justificador de seus atos e vontades. Toda alegria então se converte em peso.

Por isso a ênfase na criança é tão linda na Bíblia: diante Dele, não passamos mesmo de crianças, e a abertura a Ele é pela consciência contínua de que somos pequenos. Então Ele cresce no nosso campo de visão - e isso é "conhecer a Deus".

18 maio 2005

Aborto de anencéfalos e o direito à vida

Aborto é aborto em qualquer circunstância, condenado por Deus em qualquer situação. Certo? Bem... Alguns parlamentares evangélicos não concordam com isto. De acordo com a notícia abaixo (um pouco antiguinha), pelo menos um deles aprova a decisão quanto ao aborto de fetos anencéfalos. Confira:

[Um deputado evangélico] parabenizou o ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), por conceder liminar autorizando a interrupção da gestação quando existir laudo médico que ateste a anencefalia do feto, independentemente de a gestante dispor de ordem judicial. A autorização, na opinião do parlamentar, além de suprimir a angústia e a frustração da gestante, mantém sua integridade física. “Sou pastor evangélico, no entanto, não posso misturar as coisas aqui. A vida humana e o bem-estar da população são muito mais importantes do que o apego a crenças sem que se olhe o contexto.” (Jornal da Câmara. Brasília, 11 de agosto de 2004, pág. 5)

Como vemos, o pastor justifica sua decisão com o argumento de que "não pode misturar as coisas" e de que a medida "suprime a angústia e a frustração da gestante, mantendo sua integridade física".

Em primeiro lugar, a postura "sou pastor, mas..." já revela uma nítida divisão no interior desse homem, que parece supor o chamado de Deus insuficiente para arbitrar questões humanas fundamentais. Ele crê, portanto, que até nessas questões precisa deixar o pastorado (e o que parece chamar pejorativamente de "crenças"!) lá fora. Só que não lhe passa pela cabeça que foi Deus quem lhe deu este dom. A mínima controvérsia sobre esse ponto deveria fazê-lo renunciar ao pastorado.

Na Bíblia não encontro semelhante cisão interior. Imagine se lêssemos Paulo dizendo: “Sou apóstolo, no entanto, fico a favor da decisão de César com relação a isto ou aquilo...” Não há como ignorar que, ao isentar o “lado pastor” da posição que toma, o homem em questão descarta, ainda que temporariamente, um chamado feito pelo próprio Deus apenas para flexibilizar a postura com relação ao aborto – como se fosse mais sábio e mais tolerante que Ele no assunto. Porém, cabe-nos perguntar: ao se colocar lado a lado com os autores da medida, se não é como pastor, é como o que então? Que outra função seria obviamente mais importante que essa para julgar a vida ou a morte de outro ser humano? Impossível não pensar que, se não foi capaz de se posicionar como pastor para se pronunciar sobre tal questão fundamental, esse homem terá perdido há muito a centralidade de sua fé.


Uma vez, li em um site a história da mãe de uma bebezinha com anencefalia. Mesmo ciente do diagnóstico, sob os protestos estupefatos dos médicos, essa mãe a deixa nascer, passa poucas horas com ela e a vê morrer. Ela mesma conta essa emocionante história, com fotos mostrando a carinha da criança. Além de recusar-se a optar pela morte provocada de sua filhinha, permitiu-se gozar da companhia dela, ainda que por pouco tempo, debaixo de muita oração. Ah, sim, porque ela era cristã. Foi bonito ver que, em vez de descartá-la como a um corpo defeituoso incapaz de um bom funcionamento, a família lhe deu direito a uma certidão de nascimento, um nome, a certeza de ser amada, antes que finalmente esta incapacidade lhe tirasse a vida.

Como, então, alguém pode associar as belas expressões “integridade física”, “bem-estar” e até “vida humana” (!) a algo tão nitidamente destrutivo como o aborto? E como esse alguém pode se considerar, nem digo pastor, mas cristão, depois de um posicionamento como esse?

A família que deixou a criança vir ao mundo nos deixa uma incrível lição de coragem, respeito à vida humana e amor filial. Não digo que isto tenha sido fácil; mas, se como cristãos não fizermos diferença radical neste mundo, ainda com grande custo emocional, de que nos servirá estar nele, a não ser para sermos pisados e ridicularizados, como nos diz Jesus?

Quanto a mim, como mulher e cristã, talvez eu escandalize pessoas que não crêem como eu, mas aí vai: eu JAMAIS abortaria NEM MESMO em caso de estupro, simplesmente porque não suporto a idéia de um assassinato, dentro do meu corpo, de um ser que me é destinado para cuidar e amar. A gravidez nessas situações é uma dura prova que Deus nos envia para nos dar a oportunidade de amar acima do que nos é ordinariamente pedido. Por que recusaríamos essa dádiva?

E last but not least: longe de questões sobre quando o bebê pode ser considerado realmente um “bebê”, afirmo que, se há controvérsias sobre o número de semanas, é melhor não interrompermos o processo, pois o custo de assassinar um ser humano será sempre maior que qualquer outro. Pôr isto em dúvida significa abrir precedentes para emendas a nada mais, nada menos que o direito incondicional à vida, algo que ninguém deveria arriscar a perder. Sob que pretexto for.

16 maio 2005

O novo mandamento

Jesus estava perto de ser preso para julgamento, perto de ser condenado à morte, quando, ciente do fato, prepara o coração de seus discípulos, ao mesmo tempo em que ainda aproveita o tempo que resta para lhes ensinar: ele fixa algumas lições, desenvolvendo-as, e exerce o ministério de profeta, embora em grande parte os discípulos não entendam o que quer dizer. É neste contexto que Jesus apresenta o que seria considerado a pedra de toque do cristianismo, chamado por ele de “novo mandamento”:

Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros. (João 13:34)

Através da história das religiões, todo mestre espiritual se propõe a ser modelo de comportamento. Jesus também fez isto: ensinou a orar, a expulsar demônios, a servir. No entanto, ao propor o novo mandamento, Jesus vai além: coloca-se não apenas como modelo de comportamento, mas como modelo de amor, o que é muito mais profundo e impalpável. “Assim como eu vos amei, que também ameis uns aos outros”: imagine o choque que os discípulos tiveram ao ouvirem essas palavras. Devem ter se perguntado: “Como assim, amar como ele amou? O que é que eu preciso fazer? Como aplicar esse ensinamento?” Jesus diz que, assim como os discípulos são amados por ele, assim eles devem amar, propondo-se então a ser o grande modelo de amor que os discípulos jamais tiveram. Em outras palavras, se o amor de Jesus é o grande modelo de amor, com isto quis dizer que seu amor era maior que o próprio amor das esposas, dos filhos, dos amigos, de qualquer outra pessoa na vida de cada um dos discípulos. Que outro mestre espiritual se colocaria como aquele que mais amou seus próprios discípulos? Vê-se então que Jesus não se coloca como um simples mestre espiritual, mas como aquele que mais amou aqueles a quem ensinou. E se nós hoje somos seus discípulos, pois cremos na sua palavra séculos depois e queremos aplicá-la, entendemos que este professor que temos é muito mais que um professor: é simplesmente aquele que mais nos amou, cujo amor não encontra e nunca encontrará comparação possível na nossa vida.

Pouco depois, Jesus mostra que a extensão desse amor vai bastante além de uma relação entre mestre e discípulo, e bastante além do que qualquer um poderia imaginar. Mais adiante no evangelho de João, encontramos:

Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. (João 15:12-13)

A palavra “discípulos” foi então substituída por “amigos”, termo mais pessoal, mais íntimo. É então que Jesus revela a natureza do relacionamento que ele propõe aos discípulos: tendo caminhado com eles e partilhado coisas preciosas – “tudo quando ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (v.15) – , Jesus já não os chama servos, pois “o servo não sabe o que faz o seu senhor” (v. 15), mas amigos. É nesta palavra que ele demonstra a qualidade de seu amor por nós, aproximando-nos de si mesmo; mas é principalmente no “dar a vida” que ele expõe o tamanho deste amor.

Todos nós sabemos a continuação desta história, de como, por escolha própria, Jesus se oferece em sacrifício expiatório por cada um de nós que guardamos sua palavra. Pouco antes, portanto, de ir à cruz, ele estava preparando os discípulos (amigos!) não só para a morte dele, mas para o que significaria esta morte: o maior ato de amor da história. O maior ato, por aquele que teve e tem o maior amor que nenhum ser humano teria: morrer pelo pecador, morrer por aqueles que estão longe de amar tão perfeitamente como ele amou. Mas é para isto que ele nos chama, para amar como ele amou. Se é em dar a vida pelo pecador que reside seu amor maior, é nisto que ele quer que o imitemos: que nosso amor uns pelos outros seja semelhante ao dele, amor que não se poupa, que sacrifica a própria vida por aqueles que ama.


Não posso deixar de acrescentar aqui uma das maiores e mais belas ênfases da trilogia O Senhor dos Anéis. Depois de ter visto os três filmes - de fiel inspiração na obra do católico e professor universitário Tolkien - , com todos aqueles maravilhosos personagens que não hesitam em lançar-se aos mais terríveis riscos em nome da amizade uns pelos outros, não pude deixar de confirmar para mim mesma que, contrariando o senso comum, a pior coisa que pode acontecer a alguém não é a morte, mas a anulação dos valores da amizade e da lealdade. Quem nisso se deixou corromper já está morto em vida e mal sabe disso.

Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Mateus 16:25)

Mensagem de Natal não enviada

Queridos amigos,

Neste Natal, desejo que, contra todas as expectativas deste mundo consumista, o mito de Papai Noel e seu saco de presentes seja suplantado pela história daquele que deu a si próprio pela humanidade: aquele que, sendo Deus, veio ao mundo como homem para provar a verdadeira natureza de seu amor.

Grande beijo a todos,
Norma

15 maio 2005

Pink Floyd sinfônico e minhas percepções

Eu não sabia que, ao me apresentar o cd com a música sinfônica de Pink Floyd, Deus estava me mostrando o que em breve faria comigo: aumentar radicalmente os limites das minhas percepções, alargando-as quanto a altura, largura e profundidade, em proporções abismais.

Obrigada, Senhor.