23 agosto 2013

Lista de livros - Marxismo cultural

Amanhã, dia 24 de agosto, estarei na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, às 19h30, ministrando uma palestra sobre Marxismo CulturalVai ser bacana!

Para quem não está em São Paulo, há links para assistir ao vivo:
Canal Ustream: http://ustre.am/Y6BH
Twitter: https://twitter.com/umpipsa
Youtube: http://www.youtube.com/user/umpipsa


Como prometi, publico aqui uma lista heterogênea - autores cristãos e não-cristãos, ficção e não-ficção, especificamente sobre o tema ou não - dos livros que me ajudaram ou têm me ajudado a compreender nossa época. Quem quiser saber um pouco mais sobre cada um deles pode me perguntar nos comentários.

Em português
Calvinismo, Abraham Kuyper
A infelicidade do século, Alain Besançon
Tempos modernos, Paul Johnson
Cuba, a tragédia da utopia, Percival Puggina
Mente cativa, Czeslaw Milosz
Verdade absoluta, Nancy Pearcey
O grande desastre evangélico, Como viveremos? e outros, Francis Schaeffer
1984, George Orwell
Admirável mundo novo, Aldous Huxley
Arquipélago Gulag, Alexander Soljenítsin
A rebelião da massas, José Ortega y Gasset
As duas culturas, C.P. Snow
A condição humana e Origens do totalitarismo, Hannah Arendt
Vinte cartas a um amigo, Svetlana Alliluyeva
O Estado babá, David Harsanyi
O eixo do mal latino-americano, Heitor de Paola
Gulag, Anne Applebaum
Passado imperfeito, Tony Judt
Cisnes selvagens, Jung Chang
O óbvio ululante, Nelson Rodrigues

Jardim das aflições, O imbecil coletivo I e II e outros, Olavo de Carvalho
Lágrimas na chuva, Sérgio Faraco
Onde é que Cristo está ainda a ser perseguido?, Richard Wumbrandt
O homem do céu, Irmão Yun
Torturado por sua fé, Haralan Popov

Mentira romântica, verdade romanesca, Quando começarem a acontecer essas coisas, O bode expiatório, René Girard

Em inglês
Idols for Destruction, Herbert Schlossberg 
The Quest for Cosmic Justice, Thomas Sowell
Literature Lost, John M. Ellis
How Christianity Changed the World, Alvin Schmidt
Main Currents of Marxism, Leszek Kolakovski
Gentle Regrets, Roger Scruton

22 agosto 2013

Autores para o estudo do comunismo

Como quarta-feira não houve postagem, hoje compenso com duas: a anterior e esta.

Trago uma lista para quem deseja estudar o comunismo. Estou longe de tê-la completado, mas fico feliz (não satisfeita, mas feliz) com o que alcancei, visto que me converti aos 24, virei conservadora aos 34 e ainda estou lutando com problemas de saúde que me atrapalham bastante (enxaqueca, síndrome de Hashimoto), como vocês bem sabem. Além disso tudo, tenho priorizado o estudo da teologia (reformada, calvinista) e creio firmemente que todo estudante cristão deve fazer o mesmo, pois não há como entender uma religião secular (ver a postagem anterior) sem compreender e viver a religião verdadeira. A boa teologia fornece o quadro maior em que precisa ser examinado o simulacro de teologia.

Aqui vai a lista, elaborada por Olavo de Carvalho:
(1) Os clássicos do marxismo: Marx, Engels, Lênin, Stálin, Mao Dzedong.
(2) Os filósofos marxistas mais importantes: Lukács, Korsch, Gramsci, Adorno, Horkheimer, Marcuse, Lefebvre, Althusser.
(3) “Main Currents of Marxism”, de Leszek Kolakowski.
(4) Alguns bons livros de história e sociologia do movimento revolucionário em geral, como “Fire in the Minds of Men”, de James H. Billington, “The Pursuit of the Millenium”, de Norman Cohn, “The New Science of Politics”, de Eric Voegelin.
(5) Bons livros sobre a história dos regimes comunistas, escritos desde um ponto de vista não-apologético.
(6) Livros dos críticos mais célebres do marxismo, como Eugen von Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, Raymond Aron, Roger Scruton, Nicolai Berdiaev e tantos outros.
(7) Livros sobre estratégia e tática da tomada do poder pelos comunistas, sobre a atividade subterrânea do movimento comunista no Ocidente e principalmente sobre as “medidas ativas” (desinformação, agentes de influência), como os de Anatolyi Golitsyn, Christopher Andrew, John Earl Haynes, Ladislaw Bittman, Diana West.
(8) Depoimentos, no maior número possível, de ex-agentes ou militantes comunistas que contam a sua experiência a serviço do movimento ou de governos comunistas, como Arthur Koestler, Ian Valtin, Ion Mihai Pacepa, Whittaker Chambers, David Horowitz.
(9) Depoimentos de alto valor sobre a condição humana nas sociedades socialistas, como os de Guillermo Cabrera Infante, Vladimir Bukovski, Nadiejda Mandelstam, Alexander Soljenítsin, Richard Wurmbrand
 Amanhã trarei uma lista mais heterogênea, feita por mim.

E não esqueça: sábado, dia 24 de agosto, às 19h30, estarei na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro para uma palestra sobre Marxismo Cultural. Os links para assistir ao vivo:
Canal Ustream: http://ustre.am/Y6BH
Twitter: https://twitter.com/umpipsa
Youtube: http://www.youtube.com/user/umpipsa

Kolakovski e o marxismo como religião

Uma citação reveladora de Leszek Kolakovski, Main Currents of Marxism, p. 1208. A tradução é minha:

O marxismo é uma doutrina de confiança cega de que um paraíso de satisfação universal espera por nós na próxima esquina. Quase todas as profecias de Marx e seus seguidores já se provaram falsas, mas isso não perturba a certeza espiritual dos fiéis [...], pois trata-se de uma certeza não baseada em premissas empíricas ou supostas "leis históricas", mas sim em uma simples necessidade psicológica de certeza. Nesse sentido, o marxismo cumpre a função de religião e sua eficácia reside em seu caráter religioso. Mas é uma caricatura, uma forma falsa de religião, já que apresenta sua escatologia secular como um sistema científico, algo que as mitologias religiosas não pretendem ser.

O prof. Davi Charles Gomes, que foi diretor do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (onde eu estudo) e hoje é chanceler do Mackenzie, costuma dizer que o marxismo realiza uma presdigitação: com uma das mãos, mostra sua face "científica" (materialismo); se a plateia torcer o nariz, ele esconde essa mão e, com a outra, mostra sua face "humanitária", para comover as pessoas com a causa do pobre (e hoje, com o marxismo cultural, das demais "eternas vítimas": mulheres, negros, homossexuais). Ambas são falsas, evidentemente: o materialismo não é científico e o humanitarismo não é caridoso. Apresentando-se como obra de mágico, o marxismo se assenta na FÉ de que a realidade é do jeito mostrado e de que o futuro será como dizem que será. Enquanto isso, destrói os valores da sociedade e produz vítimas bem reais pelo caminho.

20 agosto 2013

Amebas que amam (2)

Essa citação lembrou minha postagem antiga Amebas que amam. Sim, a mentalidade de ameba que os livros de autoajuda refletem é o arremedo de amor que uma sociedade longe de Deus consegue produzir: "amorrrrr" que se opõe a racionalidade, diálogo e confrontação. 
Assistimos, de fato, a uma modificação substancial de sentido do conceito de "tolerância". Ele já não designa aceitação do "outro", da opinião diferente, mas pura e simplesmente ignorância (amável) da opinião diferente, a suspensão da diferença como diferença. Disso resulta que: 1) não tenho necessidade de te entender para te aceitar; 2) não tenho necessidade de discutir contigo para te dar razão. Dito de outro modo, estou de acordo com as coisas que não entendo e estou, em princípio, de acordo com os coisas com que não estou de acordo. O senhor tem direito à opinião do senhor. Respeito-a. Eu tenho direito a minha opinião e espero que ela seja respeitada. É inútil a dialética. A tolerância recíproca termina numa mudez universal, sorridente, pacífica, uma mudez porque o diálogo é uma interferência radiofônica indesejável. Nessas condições, a tolerância tem efeitos mais do que discutíveis: ela amputa o apetite de conhecimento, de compreensão real da alteridade, e dinamita a necessidade de debater. Para que negociarmos mais, se o resultado é, de qualquer modo, o consentimento mútuo ao direito do outro? Num mundo governado por tais regras, Sócrates ficaria desempregado. Não se encontra nenhuma verdade, não se faz nenhum raciocínio. Não se exige senão que respeitemos, educados, as convicções do interlocutor.
Andrei Pleșu, Da alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental. Trad. Elpídio Mário Dantas Fonseca. São Paulo, É Realizações, p. 72.

19 agosto 2013

Meditações matutinas - Romanos 2

É impressionante o quanto nos deixamos levar pelas exterioridades. Por isso, a Palavra nos chama o tempo todo para atentar ao que vai no coração, "de onde procedem as fontes de vida" (Pv 4.23). Deus não vai julgar somente as ações exteriores, mas "os segredos dos homens" (Rm 2.16), pois Ele nos vê por completo. A quem estamos tentando impressionar? Há questões irresolvidas (pecados não reconhecidos ou não enfrentados, confusão em pontos de doutrina, dificuldades relacionais) que temos buscado empurrar para baixo enquanto fingimos que estamos bem? Aquilo que sempre surge meio enevoado e que adiamos vez após vez? Precisamos tomar cuidado. Aqui, Paulo está se dirigindo aos fariseus que se gloriam na lei e rejeitam Cristo, mas, muitas vezes, não é justamente isso que fazemos? Colocamos nossa segurança em tudo - tempo de igreja, saber teológico, elogios alheios - , menos em Cristo. E nem desconfiamos de que, mesmo crentes, estamos nos deixando aprisionar de novo.

"Deus, sonda meu coração, vê se há em mim algum caminho mau e me guia pelo caminho eterno." (Sl 139)

16 agosto 2013

Um aconselhamento de John Piper

Inspirada por esse vídeo de John Piper, compartilho-o aqui, junto com uma oração:

Senhor, que ao aconselhar alguém possamos sempre, em primeiro lugar, pedir-te de modo humilde por ajuda, já que é o Espírito Santo que convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), e não nós. Aumenta nossa relação de afeto e confiança fundamentais com a tua Palavra, para que ela não nos falte. Que possamos sempre comunicar as tuas verdades de um modo visceral, meigo e vivido: visceral, porque por elas nós vivemos; meigo, porque elas te pertencem, e não a nós; e vivido, porque, deixando para trás o sabor de morte que acompanha todo pecado, já as teremos experimentado em nossas vidas. Ensina-nos a ensinar tuas verdades sem moralismo, sem farisaísmo, mas cientes de que elas vêm do Autor da Vida e foram impressas em nosso coração por meio do preço caríssimo do sacrifício de Cristo. Que o teu amor, a tua pessoalidade e a tua força possam infundir nossas palavras na hora difícil do aconselhamento, alcançando do modo necessário a quem precisa. Muito obrigada! Amém.

15 agosto 2013

Fala, Schlossberg!

"As pessoas desejam os falsos ensinos porque estes as capacitam a absolutizar os sistemas contingentes aos quais elas prestaram lealdade. Elas buscam líderes religiosos que abençoarão a idolatria da nação, ou do estado, ou da busca irrestrita de riqueza e poder, ou sua ira e seu resentiment* transformados em políticas humanitárias. As teologias 'relevantes' da esquerda e da direita conferem borrifos batismais em suas porções respectivas do espectro cultural e político. Um conservadorismo religioso estéril idolatra a cultura do século XIX em todas as suas expressões: hinos, educação, inimigos, vocabulário, e é por isso que soa como uma peça de museu. Um esquerdismo estéril idolatra o presente, brandindo triunfante suas credenciais progressivas, enquanto sua destrutividade e sua vacuidade se tornam evidentes até mesmo para quem os levava a sério. [...] Todas essas associações ilegítimas servem para 'civilizar' o cristianismo e fazê-lo caber em esquemas que os apóstolos jamais reconheceriam."

Idols for Destruction, p. 255-6, tradução minha. Fiquem de olho: a editora Monergismo planeja publicar esse título no Brasil!

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*Resentiment é um termo francês que o autor usa para significar "um sentir-se ofendido que pode até ter base em fatos concretos, mas que em geral decorre da inveja das posses ou das qualidades de outra pessoa. Se o sentimento não é sublimado nem aliviado por algum ato que atinja aquele que é a fonte do sentimento, o resultado é uma condição mental persistente que decorre da repressão de emoções que não são aceitáveis quando expressas abertamente. O resultado é ódio e impulso de vingar-se e dizer coisas que diminuam o outro. [...] O resentiment se origina da tendência de fazer comparações entre si e os demais: posses, riqueza, aparência, inteligência, personalidade, amigos, filhos. Qualquer diferença é suficiente para ativar a patologia" (p. 51-2). Isto tem um papel central, como o leitor já deve ter percebido, no pensamento politicamente correto, cujas políticas humanitárias só trazem destruição para a sociedade (Schlossberg trata abundantemente delas no capítulo sobre Ídolos da Humanidade, logo após essa definição, diferenciando o altruísmo humanista do amor cristão).

14 agosto 2013

Escassez na Venezuela

Já há escassez de alimentos na Venezuela. Ao lado, no You Tube, há vários outros vídeos semelhantes: brigas e filas imensas, com pessoas reclamando que não há mais alimentos básicos à venda. Não se iludam: socialismo é isso. Aconteceu igual na Rússia, na China, em Cuba etc. Por que não aconteceria de novo?

13 agosto 2013

VINACC: Inscrições abertas!

Você vai à VINACC do ano que vem? Estarei lá, falando novamente sobre literatura! Aproveite e faça logo sua inscrição para as palestras!

12 agosto 2013

O falso meio


Percival Puggina conta nesse artigo que o apresentador de tv Pedro Bial, depois de resumir todas as situações de perversão sexual que haviam passado por aquele episódio de seu programa, convidou os telespectadores a também quebrarem os limites do casamento com uma frase:

- Que tal ser fiel ao desejo?

Tratei do que ocorre quando o prazer é alçado à categoria de valor preponderante numa sociedade em meu livro A mente de Cristo. Não é disso que quero falar, mas imaginar aqui três reações possíveis ao convite.

Na primeira reação, o telespectador concorda com Bial e pensa, satisfeito: "Eu já sou fiel ao desejo." Ainda que ele esteja em uma relação monogâmica, em um casamento estável, caso pense que está ali só por ser "fiel a seu desejo", acabou de glorificar o prazer em seu coração, confirmando mais uma vez uma das maiores idolatrias socialmente partilhadas de nossa época.

Em oposição frontal a ele, na segunda reação que imagino, outro telespectador pensa: "Eu sou fiel a Deus em primeiro lugar. Meu desejo é pecaminoso e me levará para onde nem eu vou querer ir. Deus me transformou para que eu pudesse colocar a vontade Dele, revelada em Sua Palavra, em primeiro lugar na minha vida. É por isso que não traio minha esposa." Esse, pelo menos nesse aspecto específico, confirma a adoração ao único Deus.

Mas haverá aquele que parecerá "entre" ambas as reações, ao exclamar mentalmente: "Esse negócio de ser fiel ao desejo é bobagem. Puro subjetivismo. Para tudo há limites. A pessoa precisa manter o casamento, ter autocontrole e não trair."

É a este que me dirijo agora: amigo conservador, não existe "autocontrole". Assim como não existe essa posição mediana em que você pensa se situar. Se você não está agora mesmo se esbaldando em uma relação fora do casamento e fora de todo padrão, não é porque conseguiu se controlar, mas porque, de alguma forma, Deus não permitiu que você participasse do culto ao prazer acima de tudo. Reconheça isto, seja humilde e grato, pois Ele pode nos livrar das loucuras coletivas, mesmo quando não O vislumbramos em nosso horizonte. Fazendo assim, quem sabe também não se libertará das inúmeras outras idolatrias que você tem acalentado, ocultas ou não, ao conhecer o único Deus verdadeiro, o único que pode debelar, em nós, todo tipo de mal.

09 agosto 2013

Castelo forte é nosso Deus

Hoje, fui inspirada por Ein feste Burg ist unser Gott ("Castelo forte é nosso Deus", cantata BWV 80), de Johann Sebastian Bach, composta com base no coral de Martinho Lutero. Bem ao estilo de Bach, a música é diferente do hino, não dá para cantar junto. Mas sua beleza complementa a beleza da letra, que sempre me faz chorar nos últimos versos:

Castelo forte é nosso Deus,
Espada e bom escudo!
Com seu poder defende os seus
Em todo transe agudo.

Com fúria pertinaz
Persegue Satanás
Com ânimo cruel!
Mui forte é o Deus fiel,
Igual não há na terra.

A força do homem nada faz,
Sozinho está perdido!
Mas nosso Deus socorro traz
Em seu Filho escolhido.

Sabeis quem é? Jesus,
O que venceu na cruz,
Senhor dos altos céus,
E sendo o próprio Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos iriam derrotar
Nem ver-nos assustados.

O príncipe do mal,
Com seu plano infernal,
Já condenado está!
Vencido cairá
Por uma só palavra.

De Deus o verbo ficará,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa!

Se temos de perder
Família, bens, prazer
Se tudo se acabar
E a morte enfim chegar,
Com ele reinaremos!
Que também lhe seja inspiradora para este fim de semana e a nova semana que se iniciará!

08 agosto 2013

Marxismo Cultural na IP de Santo Amaro

Leitor de São Paulo, o que você vai fazer no dia 23 de agosto, sábado, às 19h30? Estarei na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro - a igreja de meus queridos amigos Betty e Solano Portela - palestrando sobre Marxismo Cultural. Não perca! E não deixe de conferir, aqui no blog, a bibliografia que vou listar sobre o assunto alguns dias antes da palestra.

Update: será transmitido ao vivo! Confira:
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07 agosto 2013

Recheando a teologia (2)


Como seria se, em nossas salas de aula, na igreja mesmo, "recheássemos" nossa teologia com boa literatura? Por exemplo, usando um poema tão pungente de Fernando Pessoa como este, abaixo, para iniciar uma discussão (com a Bíblia em primeiro lugar, sempre) sobre o pecado original e a hipocrisia? Sem vergonha nem medo de colocar a arte a serviço da verdade naquilo que a arte sabe melhor fazer: através da beleza, instigar uma resposta pessoal, do coração. Que tal?

Será que posso sonhar com aulas assim na igreja?



06 agosto 2013

D. A. Carson sobre 1Coríntios 12-14

Coisa boa a gente precisa divulgar. Hoje o Jonas Madureira anunciou no Facebook um futuro lançamento da editora Vida Nova - o livro Showing the Spirit: a Theological Exposition of 1 Corinthians, 12-14 - , com direito a tradução de um trechinho:
Um dia, todos os carismáticos que conhecem o Senhor e todos os não carismáticos que conhecem o Senhor não terão motivo algum para contender, pois os assim chamados dons carismáticos passarão para sempre. Naquele momento, esses dois grupos de crentes olharão para trás e contemplarão conscientemente o fato de que o que os liga ao mundo passado não é o dom de línguas, nem a animosidade para com o dom de línguas, mas o amor que eles conseguiram demonstrar um para com o outro, apesar do dom de línguas.”
Tive que trazer essa citação para cá, pois é sumamente importante. A primeira epístola aos Coríntios é um dos livros bíblicos mais conhecidos e lidos; o capítulo 13, então, serviu até de inspiração para uma música do Renato Russo (não há desculpa para "nunca ter ouvido falar", pelo menos no Brasil). Nem sempre, porém, os irmãos brasileiros aplicam as verdades contidas ali: há pentecostais que desqualificam todo crente que não fala em línguas e há reformados que desprezam o crente que crê que ainda existe dom de línguas hoje. Ambas as posturas subordinam o essencial (logo, eterno) ao periférico (logo, provisório). A dica do apóstolo é: o AMOR é eterno! Que Deus nos ajude a identificar corretamente o essencial e ater-se a isso acima de tudo.

05 agosto 2013

Mais sobre arte moderna

Da última vez em que estivemos no Rio de Janeiro, eu e André fomos a uma exposição de mulheres artistas no CCBB, vinda do Centre Georges Pompidou, na França. Vi o cartaz enquanto voltava do aeroporto e propus a visita a meu marido. Fiquei animada sobretudo com a presença de obras de Frida Kahlo, que eu nunca tinha visto pessoalmente. Mas eu deveria ter desconfiado que do Pompidou não viria muita coisa boa, pois o museu é conhecido por sua modernidade - essa palavrinha tão abusada.

Pois é, além de um quadro de Frida Kahlo (que nem era tão bom assim) e outro muito impressionante (uma atmosfera sombria e um Jesus crucificado em uma árvore - eu queria encontrar o nome da autora para postar aqui, mas na internet só achei referências à festa de abertura da exposição), todo o evento nos decepcionou, e mais, enfureceu esta que vos fala. Os quadros eram relativamente poucos em comparação aos vídeos, que exibiam o pior do espaço. Como uma mulher cristã se sentiria quando, acreditando proporcionar um momento cultural agradável a seu marido que não conhece bem o Rio, acaba o expondo não só a um monte de nulidades com nome de "arte", mas a incontáveis cenas de nudez feminina? Por aí você pode imaginar em que estado eu fui embora de lá.

Já no hall, um vídeo todo desfocado e com defeitos na imagem - irritante de se ver - mostrava uma mulher descabelada se jogando de lá para cá e cantando sem parar, na primeira pessoa, a linha inicial de Happiness is a Warm Gun, dos Beatles: "I'm not a girl who misses much." Tive que discordar: she missed a lot, principalmente equilíbrio corporal, bom gosto e bom senso. Mais interessante teria sido assistir ao vivo a um bêbado chato cantando; pelo menos a imagem estaria boa.

Outros vídeos também torturavam pela via do enfado: imagens ao ar livre onde nada ou quase nada acontecia, acompanhadas de textos que muito dificilmente poderiam ser classificados como literatura. Em outra sala, André me chamou para ver cenas de um gato - "Olha, querida, esse não tem mulher pelada" - , mas, quando olhei, para a consternação dele, uma mulher pelada estava abraçando o gato.

Já contei aqui uma vez que uma professora minha da Letras havia comentado com uma colega: "O estudo da literatura e o cristianismo são incompatíveis." (Para fazer justiça com a faculdade, meu orientador discordaria dessa apreciação.) Eu me pergunto se a própria arte dos séculos XX e XXI também não estaria se tornando incompatível, não com o cristianismo, mas com a noção de arte que produziu tantas maravilhas nos séculos anteriores e nos fez pensar e sonhar, em vez de responder com tédio, irritação ou vergonha. Desprovida de forma e conteúdo feitos para dizer, boa parte da arte e da cultura modernas (pinturas, filmes, peças de teatro) se viciaram na apresentação de uma nudez muito diferente da grega e da renascentista, uma nudez que, em vez de graciosa e arquetípica como suas predecessoras, é puro atentado ao pudor. O problema, o leitor já adivinhou qual é: atentados ao pudor dificilmente podem ser considerados arte. A arte até pode chocar, mas precisa ser bela antes de tudo. Faltam não só beleza, criatividade e sentido, mas sobretudo amor pelos espectadores, e aqui entram as costumeiras considerações deste blog sobre a cultura pautada pelo politicamente correto: nessa exposição, acredito que o ódio feminista enganou a maioria daquelas mulheres a tal ponto que foram convencidas de que qualquer coisa de suas mãos, só por serem mãos de mulheres, mereceria destaque como obra de arte. Em resultado, parece que só às feministas - e aos masoquistas - foi permitido sentir-se bem ali (e quem não reclamou certamente não o fez por pura culpa, a reação obrigatória exigida pelo feminismo).

E quando o masoquista é a própria arte? O vídeo que trago abaixo não foi retirado da exposição - claro! - , mas é uma sátira muito inteligente da arte moderna. Imagino que o roteiro foi inspirado em uma história terrível sobre a qual escrevi aqui. Também falo de arte moderna aqui. Modifiquei e ampliei esses dois textos para integrar meu livro A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã.

02 agosto 2013

Você está pronto?

Ontem eu estava distraída, ouvindo uma entrevista com o José Dirceu no computador, quando percebi que a voz dele é bem bonita. Foi inevitável pensar no quanto o Brasil teria ganho - e deixado de perder! - se, em vez de guerrilheiro e político, o Dirceu resolvesse ter seguido a carreira de cantor...

                                                                         * * *

Em Romanos 13.3-4 (uso aqui a versão NVI), a função retributiva da justiça é sancionada pela Bíblia. Para isso, Deus proíbe a vingança pessoal e incumbe as autoridades constituídas:

"os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal."

Igualmente, 1 Pedro 2.13-14:

"Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes, como por ele enviados para punir os que praticam o mal e honrar os que praticam o bem."

O problema é que, hoje, os governantes têm deixado de punir o mal e recompensar o bem. Pelo contrário: deixam de condenar os maus (impunidade! banditismo! violência!), praticam e aprovam publicamente o mal (corrupção financeira e moral! aborto no SUS! bolsa-família eterna e indiscriminadamente!) e ainda buscam punir o bem (impostos abusivos! controle da educação! lei da palmada! proibição do homeschooling! lei da homofobia! tentativa de controle da internet!). Caem assim na condenação de Isaías 5.20:

"Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo. Ai [...] dos que por suborno absolvem o culpado, mas negam justiça ao inocente. Por isso, assim como a palha é consumida pelo fogo e o restolho é devorado pelas chamas, assim também as suas raízes apodrecerão e as suas flores, como pó, serão levadas pelo vento; pois rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, desprezaram a palavra do Santo de Israel."

Diante disso, a regra é clara: não podemos ser levados pelas autoridades a deixar de fazer o bem ou a fazer o mal. Como está em Atos 5.59:

"É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!"

Você está pronto para a perseguição?

31 julho 2013

Empobrecendo o Ocidente

Herbert Schlossberg, em Idols for Destruction (sobretudo nas páginas 282-3), retraça em linhas gerais o processo de empobrecimento e crise dos países do Ocidente cuja economia se vale da ideia da "soma zero": ganha-se apenas com a perda de outros. Com base na progressão que ele oferece, esbocei o seguinte esquema:

1- Imbuído da ideologia marxista, que prega uma ideia equivocada de “igualdade”, o Estado se incumbe do que chama “redistribuição de renda”, com impostos abusivos e políticas humanitárias que transformam pobres, imigrantes e desempregados em eternos dependentes.

2- A redistribuição afeta negativamente a produção: há menos trabalho, menos investimentos, menos poupança e cada vez mais consumo, pois quem não trabalha não produz (e vive do dinheiro alheio) e quem trabalha se sente desestimulado a produzir, investir e poupar para ter que entregar grande parte dos frutos de seu esforço nas mãos do Estado.

3- Cria-se assim um ambiente psicológico de “carpe diem”, com toda uma população sendo estimulada à irresponsabilidade e ao imediatismo. (E ainda culpa-se o "capetalismo" pelo consumo desenfreado!)

4- Os ideólogos, sempre a serviço do Estado, contemplam esse estado de coisas e culpam automaticamente outros fatores: o planeta tem gente demais, não há recursos para todos, produzir gera poluição, desmatamento e destruição...

5- Logo, o que é necessário? Sem alternativa à vista, a resposta deles é: mais controle estatal. As “soluções”, sendo erradas, só pioram o problema e empurram as nações – financeira e moralmente – mais para baixo. (Políticas estatais de estímulo ao aborto e ao homossexualismo talvez sejam propostas como medidas de controle populacional...)

6- O Estado reforça as políticas de redistribuição. Tudo recomeça, e a máquina estatal se torna cada vez mais poderosa, angariando mais dependentes, inibindo as iniciativas privadas e emperrando a produção.

Tudo isso poderia ser evitado se nossa sociedade tivesse adotado como base alguns princípios bíblicos: limitação do poder do Estado, redenção somente através de Cristo (e não pela economia, como ocorre no marxismo), responsabilidade individual, caridade com discernimento etc.

O livro de Schlossberg é imperdível! Devo publicar citações dele aqui esta semana.

30 julho 2013

De evento em evento

A Escritura se refere ao relacionamento entre Cristo e a igreja como um noivado. Imagine agora que você só se encontre com seu noivo em festas com muita gente e nunca, jamais, consiga conversar direito com ele. Desesperador, não é? Pois é, muita gente acha que esse é o jeito certo, ou o único, de relacionar-se com Cristo: cantar louvores, ouvir pregações e palestras, orar - tudo isso em grupos, em eventos especiais. No dia-a-dia, é como se Cristo estivesse muito longe para ser alcançado...

Quando eu era nova convertida, acredito que me sentia um pouco assim. Ia toda empolgada para esses eventos - retiros, acampamentos, conferências - esperando que Deus fizesse grandes coisas. De fato, raramente Ele me decepcionava. Mas, à medida que fui crescendo na fé, entendi que há muitas outras "grandes coisas" que Deus faz na mente e no coração de Seus filhos, que se manifestam, como na história de Elias, no "cicio do vento". E as grandes coisas, muitas vezes, não são as que causam maior impacto em determinado local, deixando-nos boquiabertos, mas são aquelas que vão se desenvolvendo ao longo da caminhada com Deus, de pouquinho em pouquinho, e vão constituindo essa nova pessoa que Deus está levantando na gente, arraigada em Cristo. 

O mesmo Cristo que está nos ajuntamentos da igreja é o Cristo com quem você fala de portas fechadas em casa, que está com você no trabalho, nas aulas da escola e da faculdade, ao seu lado enquanto você assiste à tv, lê um livro ou conversa com incrédulos. É Ele que dará o tom a tudo o que entra por seus olhos e ouvidos, para sua edificação. Por isso, para crescer na fé, você precisa depender de Cristo em primeiro lugar, momento a momento, como diria Francis Schaeffer. Essa consciência se aprofunda com a maturidade cristã e é essencial para que os eventos especiais, junto com seus pregadores, não sejam idolatrados.

26 julho 2013

Ei você, que defende o "Estado laico"...

Entenda bem isso agora: quando você defende o "Estado laico" como se quisesse tirar a religião da esfera de influência pública - em vez de simplesmente afirmar a separação entre Estado e religião - , você está contribuindo para que o Estado se torne cada vez mais autônomo e poderoso em todas as áreas da vida humana: leis, educação, cultura, até os recônditos privados do lar e da consciência. O cristianismo dava limites ao Estado de um modo que nada mais poderá dar, porque o colocava sujeito à autoridade do Deus cristão, com suas leis eternas, que atribuem uma dignidade ao ser humano que está ausente na política. Sem isso, nós nos tornamos peças de tabuleiro sob o monstruoso deus estatal e ficamos sujeitos ao consenso dos poderosos da vez. Depois você não poderá reclamar se for vítima de abuso estatal: não haverá quem o ouça.

25 julho 2013

Recheando a teologia

Um amigo querido que tem a vocação, como a minha e do André, de relacionar cristianismo e cultura - visite o blog recém-aberto dele, que promete! - escreveu para Andrew Basden, professor cristão, sobre tecnologia. Basden respondeu com algo poderosamente motivador: que Deus está movendo seus filhos de um jeito novo, hoje, para quebrar a divisão entre o sagrado e o secular. Creio nisso! E hoje, dia do escritor, trago até vocês uma reflexão que faço a partir dessas palavras e do que entendo ser uma vocação imprescindível em qualquer época, mas sobretudo nos dias de hoje.

A correlação entre cristianismo e cultura é algo que está engatinhando entre nós. Nossa teologia, mesmo que correta, em grande parte ainda se relaciona mal com a realidade, com o que existe; ainda contempla demais o próprio umbigo. Precisamos com urgência nos lançar seriamente à dupla tarefa que consiste em, sempre sob a luz do Evangelho, enxergar o mal e o erro como realmente são, descrevendo suas variedades e profundidades (psicológica, sociológica, política, cognitiva, tecnológica, existencial), para assim enxergar e descrever aspectos verdadeiros da redenção, por contraste. Isso é primordial para fugirmos das expressões da fé que, mesmo sendo bíblicas, se repetidas muitas vezes sem o "recheio" da vida real, acabam se tornando palavras vazias: Jesus salva do quê? Não é de um pecado conceitual, abstrato, mas bem real, com efeitos reais, destrutivos e dolorosos! E em quê especificamente nos redime? Para algo que podemos começar a provar, saborear, ainda aqui neste mundo! Isso significa que a mente de Cristo de fato orienta a aplicação da teologia no reconhecimento e na solução do mal, em todas as áreas do saber.

Schaeffer chama muito a atenção da gente para isso: a falta de realidade na pregação e no ensino da Palavra, gerando igrejas cheias de crentes que vivem e pensam como zumbis. Boa parte da angústia que podemos sentir quando vemos o quanto estamos longe de uma cosmovisão genuinamente cristã em ação, nas nossas igrejas e nos meios seculares, talvez esteja relacionada com o fato de sentirmos que estamos diante de um caminho quase fechado no mato. Ainda bem que é quase: há décadas Deus tem impulsionado cristãos de gerações seguidas nessa vocação de rechear a teologia e fazê-la colocar os pés no chão; Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd, Cornelius Van Til, Francis Schaeffer, só para citar alguns. Aqui no Brasil, também não estamos órfãos: Wadislau Gomes, Davi Charles Gomes e Fabiano Almeida têm feito um trabalho excelente nesse sentido. Ainda há muito o que fazer. Se você me entende e sente que essa também é sua vocação, mãos à obra! Estamos juntos nisso!

04 julho 2013

Manifestar-se como Jeremias

Faz tempo que não posto, seja por causa da enxaqueca (e outras indisposições: tontura, dores de estômago, fraqueza), seja porque quero me guardar do impulso de repetir o que já afirmei tantas vezes. Dedico-me agora mais a aprender, processar, ampliar percepções e a postar no Facebook. Mas queria contar ao leitor hoje um sonho que tive há alguns dias, e que me pareceu significativo.

Eu estava experimentando um mix de sentimentos durante as manifestações do mês de junho: alegria (porque o que nasceu de modo calculado, com o Passe Livre, tornou-se uma explosão de indignação espontânea), tristeza (por causa da violência de alguns), apreensão (ao pensar no que o governo poderia fazer para se apropriar dos acontecimentos ou retaliá-los), perplexidade (porque é muito difícil analisar os fatos e suas múltiplas correlações). Nesse ambiente emocional, tive um sonho em que participava de um almoço com os membros muitos simpáticos de um coral evangélico. Depois de comer, fomos cantar juntos e eles iniciaram aquele cântico que usa a letra do Salmo 108: "Firme está, firme está meu coração, oh Deus". Quando elevei a voz para a frase seguinte, "Cantarei e entoarei louvores", vi que eles foram em uma direção totalmente oposta. Ri comigo e parei, só ouvindo. O que se seguiu foi uma paródia do cântico, que usava a ironia de um modo inteligente para denunciar as práticas idolátricas da igreja. O coração não pode estar "firme" quando tantos cristãos adotam costumes animistas (como a crença no poder de objetos ungidos) ou se alienam diante de novelas de televisão - só para citar algumas das críticas levantadas ali. Depois que a apresentação acabou, eu tive muita dificuldade para segurar as lágrimas - e acordei inevitavelmente chorando, como me acontece em alguns sonhos. Em seguida, lembrei-me do blog de meu amigo Renato Vargens, que tem denunciado sem cessar essas práticas absurdas, e ponderei sobre o quanto podemos estar tão satisfeitos com nossa igreja local, ou nossa denominação, que passamos a dar de ombros para esses desvios em outras igrejas, como se não nos dissessem respeito... Trata-se de um pecado, ou vários - conformismo, individualismo, sectarismo - , de que precisamos nos arrepender.

E, enquanto escrevo esta postagem, dois textos bíblicos me vêm à mente: Lucas 6.41-42 (em que é necessário reconhecer os próprios pecados antes de identificar e tratar os alheios) e 1 Pedro 4.17 (em que seremos julgados primeiro). Será que temos chorado o suficiente pela igreja antes de fornecer soluções para o mundo? Será que temos condenado o mundo sem perceber o quanto compartilhamos das mesmas idolatrias? Será que entendemos o quanto a purificação da igreja é fundamental para salgar e iluminar o mundo? Evidentemente, não condeno quem escreveu análises sobre as manifestações, de modo algum, e li algumas delas; o trabalho de crítica cultural à luz da cosmovisão bíblica é muito importante. Mas o sonho, de alguma forma, colocou as coisas em perspectiva, não necessariamente quanto à ordem das tarefas, mas quanto ao espírito com que as cumprimos: implicando-nos na crítica, como alvos da Palavra, jamais juízes. Se tantos cristãos têm energia suficiente para sair às ruas e clamar contra a corrupção reinante, imagino que podemos fazer como Jeremias e começar a nos lamentar coletivamente, em nossas igrejas, pelo estado da doutrina e da mentalidade evangélicas no Brasil. Ao contrário das manifestações, cujo resultado é incerto e talvez até negativo, a lamentação dos filhos de Deus, com verdadeiro arrependimento, nunca é vã.

28 maio 2013

O patético resultado do assistencialismo (II): o caso sueco

Foto: Carro incendiado no subúrbio de Estocolmo, Suécia, dia 21 de maio de 2013 (JONATHAN NACKSTRAND / AFP). Tirada desse site.


Você certamente já ouviu aquele amigo que se diz social-democrata citar o exemplo da Suécia como de um socialismo bem-sucedido. Bom, faça-lhe dois favores: dê a ele de presente o livro do Janer Cristaldo (já desatualizado, pois é de 1973: procure em sebos) O paraíso sexual democrata, e mostre-lhe o artigo de Gary North (teólogo e economista presbiteriano) do dia de hoje, O estado assistencialista sueco está em chamas. Isso vai funcionar como um panorama bastante amplo da situação daquele país, que de paraíso não tem nada. As “chamas” do título são literais: faz seis dias que a Suécia vem sofrendo na mão de incendiários.

Dois fatores contribuíram para essa situação de guerra civil: uma grave crise econômica desde os anos 1990 (obrigatória em países com governos que se encarregam pesadamente da “justiça social”) e a imigração em massa de gente do Iraque, do Afeganistão, da ex-Iugoslávia, da Somália, da Síria, para o que é considerado um país preferencial em toda a Europa. Alocados em guetos no subúrbio, sem perspectivas e sem desejo de integração (o governo fornece até cursos gratuitos de sueco), esses imigrantes fomentam um enorme ressentimento contra o Estado Papai – ressentimento que um dia explode. Perfazem 15% da população e são os mais atingidos pelo desemprego. (Mais sobre isso, em francês, aqui e aqui.) Gary North sentencia: "Um arranjo que combina imigração livre com Estado provedor está propenso ao desastre."

Deveria ser o contrário? Não! O Estado é um mau criador de empregos e oportunidades. Ele é como um pai que mima os filhos ao ponto de assumir todas as rédeas da vida deles. Não sabe dar o “empurrãozinho” de que precisam desde crianças para crescerem por si. Depois, o pai se lamenta quando precisa sustentar adultos dependentes pelo resto da vida. A metáfora dá conta somente das boas intenções, que podem até existir (muitas vezes duvido), mas nunca vêm sozinhas: governos socialistas assumem tarefas demais, via de regra, para embriagar os governantes de poder e dinheiro público. Desestimulando ou até inibindo a iniciativa privada com assistencialismo, leis abusivas e impostos altos, o Estado socialista diminui drasticamente o número de empregadores e, logicamente, o de empregos. Resultado: a desigualdade social aumentou muito na Suécia desde 1995. E toda a culpa recai agora sobre o costumeiro bode expiatório das esquerdas, claro, na figura do primeiro-ministro Frederik Reinfeldt, eleito em 2006 e decidido a fazer alguns cortes no benefício da galera. Uma reportagem desinformativa, certamente desejando salvaguardar a (ainda) boa fama da social-democracia sueca no Brasil, afirma que os próprios incendiários são de “extrema-direita” (direita contra direita?) e completa: “Os subúrbios afetados pela onda de violência têm em comum uma alta concentração de imigrante e problemas sociais, que se viram agravados pela política de cortes implementada há sete anos pelo governo de direita liderado pelo primeiro-ministro conservador Fredrik Reinfeldt.” Pois é. Se a mamata diminuiu e o povo resolveu tacar fogo nas ruas, a culpa é de quem reduziu a mamata, não é? Lógica perversa!

Trazida por North, achei tocante a fala de Marc Abramsson, líder do Partido Nacional Democrata:

Nós somos o país que mais se esforçou para integrar essas pessoas, muito mais do que qualquer outro país europeu; gastamos bilhões em um sistema de bem-estar que foi criado para ajudar imigrantes desempregados e garantir a eles uma boa qualidade de vida. Ainda assim, temos áreas em que existem grupos étnicos que simplesmente não se identificam com a sociedade sueca.  Eles veem a polícia e até mesmo as brigadas de incêndio como parte do aparato repressor, e os atacam.  Já tentamos de tudo, de tudo mesmo, para melhorar as coisas, mas nada funcionou.  Não se trata de racismo; a questão é simplesmente que o multiculturalismo não reconhece como os humanos realmente funcionam.

Ele chegou ao ponto: como os humanos realmente funcionam? Eis a resposta bíblica: eles são pecadores, naturalmente inclinados ao mal. Um sistema de governo que não considere essa verdade revelada (e provada no dia-a-dia), buscando continuamente fazer surgir a bondade interior do povo por meio de privilégios de todo tipo, como se a gratidão pudesse ser acionada automaticamente, está fadado ao esgotamento. Não existe a associação – tão cantada entre os poetas românticos do século XIX – entre pobreza e bondade. Dentre os imigrantes pobres que recebem assistência especial do governo sueco, alguns serão gratos e procurarão andar com as próprias pernas depois de algum tempo; mas outros, muitos outros, serão cruéis, nunca dispostos a ganhar o pão com o suor do rosto, mas, humilhados, sempre prontos a morder a mão que os ajuda. São esses que contribuindo para a destruição do país, de dois jeitos: inércia e, agora, fogo. Inutilizam a própria vida e a dos outros. O sistema não funciona, e mais: produz espertalhões, como aquela mulher que queria o Bolsa Família para dar à filha uma calça de trezentos reais.

Volto à frase do apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 3.10: “Quem não quer trabalhar, que também não coma.” A aplicação da Bíblia ultrapassa nosso egoísmo comezinho: o amor de Deus não se deixa confundir com sentimentalismos destrutivos. O princípio enunciado por Paulo não se esgota no indivíduo que queria viver às custas da igreja congregada dos primeiros séculos da era cristã, mas tem profundidade e amplitude na sociologia, na psicologia, na política. Quem deseja se empenhar na formação da cosmovisão cristã falhará estrondosamente se continuar lendo a Palavra e mirando somente seu próprio umbigo – ou o umbigo dos pobres idealizados pela cultura socialista.

21 maio 2013

O patético resultado do assistencialismo

Tenho alguns textos para postar, mas estou chocada com esse vídeo desde o primeiro momento em que o vi. Esse é o patético resultado do assistencialismo: as pessoas passam de fato a crer que o dinheiro que recebem do governo é um direito, assim como os filhos acham natural (e realmente é) que os pais os sustentem até certa idade. São adultos infantilizados e sem limites que obtiveram o status mitificado, heroico, sublime de "pobre" (o "pobre" dos românticos socialistas, não o pobre real) e querem que a sociedade pague caro por esse status, que ostentam quando convém (e escondem quando não convém).

Continue assim, Governo Brasileiro, solapando com suas decisões toda noção de responsabilidade individual e incentivando os imaturos e folgados deste país. É assim que o Brasil vai pra frente!

P.S.1 Leitor(a), aproveite e dê uma olhada nesse artigo oportuno do economista Rodrigo Constantino, que compara a postura da brasileira com outra, bem diferente, de um jovem de Portugal, e também nesse outro de Reinaldo Azevedo sobre os "excluídos não tão excluídos" que recebem o Bolsa Família.

P.S.2 Para quem está chocado com esta postagem, vale aqui a advertência do apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 3.10: "quem não quer trabalhar, que também não coma". Há quem cite a igreja primitiva como um exemplo de comunismo, infelizmente. Mas quem lê a Bíblia toda sabe que ali, entre os primeiros cristãos que se inspirassem em Paulo, o folgado irresponsável não tinha vez. Nada de se aproveitar do amor dos irmãos para parasitagem, nada de deixar de trabalhar para viver do governo! Essa é a ética bíblica aplicada ao mundo atual: é nossa responsabilidade divulgá-la e vivê-la!

16 maio 2013

A mesma face

Quando pequena, eu costumava me inquietar com a opinião de Deus sobre mim. Estaria Ele feliz comigo? Será que me amava ou me odiava? Aprovava minhas escolhas?

Já convertida, entendi que eu era rebelde e que somente Cristo podia transformar essa condição. Sabia, agora, que estávamos reconciliados, eu e Deus. Mas o questionamento, adaptado, prosseguiu. Estava claro que Ele me amava em Cristo, mas será que aprovava minhas escolhas?

Quando consigo enxergar melhor, desdobrada do anseio pelo amor total e sem máculas entre mim e Deus, percebo que a face do Deus irado contra meus pecados (que ainda existem) e a face do Deus feliz comigo (por causa de Cristo) são a mesma e única Face. O "já/ainda não" da Bíblia se manifesta também na relação que Ele estabelece conosco, de modo que não nos livramos da incômoda sensação de que Ele se ira contra nós - felizmente, pois é essa sensação que nos impulsiona na luta com o pecado.

Mas essa ira é acomodada no sacrifício de Cristo, e, contida, em vez de nos destruir, é como um sussurro doce em nossos ouvidos, um sussurro que diz "continue, continue". Senhor, caso seja necessário, dá-me uma resposta emocional mais adequada aos teus sussurros.

25 março 2013

Pela liberdade de brasileiros inocentes

A ONG Rio de Paz está promovendo um abaixo-assinado em favor da libertação de um casal de missionários presos injustamente no Senegal. Vamos participar?

Para saber mais, clique aqui e aqui
Para assinar, clique aqui

Eu não os conheci, mas eles são da Igreja Presbiteriana Betânia, em Niterói, onde fui batizada.

08 março 2013

Ester

Não ligo para o "Dia da Mulher" e acho complicadas as circunstâncias que o originaram... Mas não há momento melhor para compartilhar o texto de um belíssimo sermão que muito me edificou, na Igreja Presbiteriana do Cambeba, em Fortaleza, pelo pr. Francisco Macena da Costa. Sim, é sobre o Livro de Ester. É por causa desse sermão que, nesses tempos de totalitarismo montante, sempre que temo desagradar pessoas com o que escrevo, penso na frase dela: "Se morrer, morri." Que grande confiança em Deus!
Nos momentos de perigo, perseguição, tristeza, insultos e dedos apontados, Deus quer que nos lembremos que Ele é o único a ser louvado e temido, pois é soberano e nada nos acontece que não esteja sob Suas mãos. "Reconhece-o em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas" (Pv 3.6). Que a frase de Ester também possa ser seu lema, junto com a exortação de Jesus em Mateus 10.28: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.

28 fevereiro 2013

Pausa para cuidar da saúde

Amigos leitores,

Agradeço infinitamente aos que têm orado por mim e torcido para que eu me recupere da enxaqueca persistente. É especialmente para vocês que eu escrevo aqui. Há alguns dias, descobri que tenho Síndrome de Hashimoto, uma doença autoimune que ataca as células da tireóide e provoca cansaço, lentidão, dor de cabeça e dor muscular, pele seca, queda de cabelo. Tenho todos esses sintomas. Não há nódulos, mas a glândula já demonstra inchaço (ao ponto de um ligeiro bócio difuso, perceptível ao especialista) e desgaste. Já estou tomando a medicação correta e comecei uma dieta bastante rígida, com nutricionista, para ajudar a reequilibrar hormonalmente meu organismo. Não me foi dada nenhuma promessa de prazo quanto à melhora da dor de cabeça especificamente, mas estou confiante de que não deve demorar. Por enquanto, estou em uma fase ruim, com crises todos os dias e graus variáveis de dor. Por isso, o blog vai ficar em banho-maria até que eu comece a demonstrar uma reversão significativa de todos os sintomas de Hashimoto. Por isso também, junto com meu marido, tomei a decisão de recusar convites para palestras e viagens até pelo menos o meio do ano, pois estou recuperando as forças e privilegiando meu tratamento. Isso inclui a viagem para São Luís, anunciada na postagem anterior, pois não estou em condições agora.

Continuo pedindo suas orações! Estamos no caminho certo, graças a Deus.

Muito obrigada,

Norma

08 fevereiro 2013

VINACC 2013

E não vos conformeis com este mundo - esse é o lema da Visão Nacional para a Consciência Cristã deste ano, parte de um dos versículos que mais amo na Bíblia (Rm 12.2) e que está presente na abertura de meu blog, aí do seu lado direito. E, é claro, estarei lá, participando do I Seminário sobre Literatura, Bíblia e Cristianismo e do I Enblogue (Encontro de Blogueiros Evangélicos). Minha programação total pode ser acessada aqui, bem como a de todos os palestrantes.

Para não romper as atualizações do blog, deixei programada uma postagem para segunda-feira sobre Romanos 12.1 e 2, versículos que certamente serão lembrados muitas vezes ao longo do evento! Esse texto que postarei é um pequeno trecho de meu capítulo do livro a ser lançado no sábado durante o Enblogue, com a participação de vários blogueiros cristãos. Com o livro em mãos, contarei mais novidades!

Que este Carnaval seja ocasião para crescimento diante do Senhor para você! A maior folia estará no céu, e já experimentamos um pouquinho dele aqui. :-) Que Deus o abençoe!


04 fevereiro 2013

Anteparo contra a verdade

Todo comportamento está escorado por um conjunto de crenças; todo modo de agir se reporta a uma cosmovisão específica, seja declarada, seja inconsciente. E as cosmovisões não surgem no vácuo, mas são parte do tecido de ideias que sustenta determinada sociedade. Ninguém é um núcleo absolutamente original e imprevisível de pensamentos; sempre reproduzimos em alguma medida as ênfases de nosso tempo. Essas percepções me parecem estar desaparecendo das mentes contemporâneas, à medida que a descontinuidade ganha terreno sobre a continuidade e oferece a sensação de que é impossível um desenho nítido do que vivemos.

Assim, um dos maiores problemas de nossa época é que as pessoas se acostumaram a um afrouxar de laços entre o crer e o agir. Não sabem mais no que creem e por quê, e não sabem o que as motiva em suas decisões práticas. A proliferação de analistas parece ter coincidido com o abandono de um autoexame informado culturalmente: buscam soluções tão individualizadas, tão personalistas, que perdem de vista o todo que poderia fornecer-lhes explicações para esse estado de divisão interior. Embriagadas da ilusão romântica (Girard), esquecem-se de que são seres de imitação.

Um dado que me parece óbvio nesse quadro é que as crenças partilhadas, hoje, são de fato desconectadas da realidade, tão incapazes de escorar ações efetivas no mundo que passam a compor apenas uma atmosfera indiscernível, uma bruma difusa, que só obscurece o caminho em vez de apontar direção. Acreditar que a moralidade é relativa mas continuar vivendo de modo compatível com a existência do bem e do mal (porque não se pode viver de outro modo, a não ser como sociopata) é um dos exemplos mais recorrentes dessa dissociação. A frequência com que o discurso nega a vida é tão grande que o pensar não só deixa de acompanhar a experiência, mas a atomiza ainda mais.

E há outro exemplo que nos diz respeito diretamente. Você fala a alguém de sua fé em Cristo e narra algum fato miraculoso ou extraordinário relacionado a sua fé, e imediatamente seu interlocutor proclama com seus botões, ou até em alta voz, que você só pode ter um parafuso a menos. Porém, ao mesmo tempo, nada em seu comportamento ou suas atitudes mudarão em relação a você. Em 99% das vezes, você continuará sendo, aos olhos dele, uma pessoa amiga e confiável. A presumida "loucura" que ele lhe imputa, nesse caso, é operacional e só funciona para que se mantenha a salvo da ameaça da crença.

Eis a marca de nossos dias: antes, as cosmovisões davam identidade, ainda que uma identidade idólatra e inconsistente; hoje, foi dado um passo para trás:  o relativismo engole toda possibilidade de um posicionamento público que esteja de acordo com a cosmovisão, persistindo, como forte anteparo, contra qualquer tentativa de organizar mentalmente o real. Lamentamos essa situação, mas ao mesmo tempo podemos nos indagar se um mecanismo que se afigura claramente como proteção contra a verdade não seria mais fácil de desmascarar, já que resulta (ou deveria resultar) em maior desconforto existencial. Por outro lado, assusta que nossos contemporâneos se mostrem tão voluntários em preferir a ilusão e permanecer nela, ainda que em tudo se assemelhe de fato ao que é: uma ilusão.

Só Deus poderá nos comunicar com eficácia as reações adequadas aos desafios que a igreja está prestes a enfrentar nesse novo século. Estejamos atentos.

28 janeiro 2013

Enquanto não venho

Estou com crises diárias de enxaqueca há alguns dias, o que me impediu de escrever a postagem desta semana. Peço suas orações e, enquanto não venho, para não romper com a atualização semanal do blog, deixo com vocês o artigo de Solano Portela sobre a tragédia de Santa Maria, postado hoje, que espelha exatamente o que penso sobre o assunto. Boa leitura!



21 janeiro 2013

Quero trazer à memória


Há muito do velho paganismo em nós. Mesmo o mais racionalista dos seres pode manifestar uma ponta de irracionalismo quando, por exemplo, adia ad infinitum a visita ao dentista esperando inconfessadamente que o problema se resolva por si.

Mas, ao contrário do racionalista que às vezes se comporta de modo irracional, tenho uma personalidade naturalmente inclinada para o irracionalismo. Foi o que me levou a buscar Deus nos meios esotéricos, por exemplo, antes de me converter. Uma das manifestações mais dolorosas dessa inclinação é a presença de medos obscuros e inconfessáveis cuja irrealidade só é percebida com muito custo.

Cito alguns. Um pavor antigo, desde criança, era a possibilidade de ficar louca do nada, ou de bater a cabeça no chão em algum acidente e perder as faculdades mentais mais básicas. Derivava de uma pregação comum no esoterismo: a mente podia transformar os pensamentos em realidade. Uma vez convencido disso, tente dormir à noite enquanto seu cérebro fabrica os acontecimentos mais indesejados de sua vida.

Boa parte disso foi debelada com o trabalho do Espírito Santo em mim. Com poucos anos de conversão, pude identificar de imediato um inacreditável twist argumentativo em uma irmã que citou Jó para confirmar o ensinamento esotérico: “Aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece” (Jó 3.25) – um desabafo evidentemente descritivo. Se Deus não tivesse me transformado, sabe-se lá que tipo de síntese mística eu teria feito com o cristianismo.

Deus continua debelando em mim os medos mais tenazes. O processo de cura, como descobri, é exemplificado em Lamentações 3: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21). Assim como o versículo de Jó, essa frase tem sido retirada de seu contexto para justificar uma esperança mundana, baseada na lembrança de “tempos melhores”. Mas relembrar o passado feliz em um contexto infeliz, além de nada garantir para o futuro, é uma verdadeira tortura autoinfligida. E pior: às vezes não há o que lembrar. Uma infância infeliz, uma cadeia de insucessos amorosos, o cotidiano de pobreza que atravessa gerações... Nesses casos, como o versículo se aplicaria? Percebe-se então que a ênfase do texto não pode estar nos fatos da vida. Mas onde estará?

Vejamos. Jeremias relembra o passado, mas um passado nada glorioso: “Eu sou o homem que viu a aflição pela vara do furor de Deus” (Lm 3.1), resume ele seus infortúnios. Todo o livro é uma grande lista de infortúnios, resultantes dos contínuos pecados do povo de Israel. Até que o versículo 21 do capítulo 3 inaugura a mudança de foco:
Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se a a cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele.
Onde Jeremias foi buscar esperança? Nenhum acontecimento pessoal é evocado, mas sim essa característica divina: o Deus de Israel é misericordioso. Caso haja arrependimento, Sua ira não dura para sempre. Jeremias sabia disso a partir do registro de tudo o que havia sido feito a seu povo até então. Hoje, também sabemos disso, primordialmente, pelo registro bíblico de tudo o que Deus fez nas vidas de Abraão, Moisés, Josué, Isaías, Paulo e de todos aqueles que, tendo sido alvo da grande misericórdia do Senhor, andaram com Ele. Assim como somos “enxertados” na família da fé (Rm 11), também ocorre conosco essa apropriação da vivência de outros: todo novo cristão, inicialmente sem referenciais para pensar e enxergar Deus, apropria-se das maravilhas do passado e as integra a seu horizonte. Quando não há lembrança pessoal dos feitos de Deus, a fé inaugura o processo e a Palavra entra como experiência adquirida.

Nova convertida, eu não tinha acesso à experiência direta com a cura divina de meus temores. Foi trazendo à memória o caráter de Deus, com o poder do Espírito Santo, que meu coração foi orientado para a segurança da onipotência do Pai sempre que pseudoverdades, tais como a do pensamento mágico e do poder da mente, ameaçavam me submergir. Em um processo longo, que durou anos (e ainda continua em alguma medida), grandes medos foram vencidos com a lembrança – em meio a grande choro e oração – de que toda a realidade está nas mãos dele. Diante de pecados recém-descobertos, é a partir da experiência adquirida biblicamente que precisamos clamar: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” Não algum ponto de nosso passado, que no caso sequer existe, mas o foco no contínuo educar da mente para pensar toda a realidade – inclusive a realidade mais apavorante dos medos obscuros – segundo os conteúdos expressos em Sua Palavra: o que pode – é capaz – de nos dar esperança é o maravilhoso caráter de nosso Deus, atestado nos relatos de nossa fé e posteriormente, se o provamos (Sl 34.8), na nossa vida.

Racionalista ou irracionalista, sejam quais forem os males que o assediam, você deve se apropriar conscientemente dessa Palavra que agora, por causa do nosso enxerto na família de Deus, pertence-nos por completo, como parte da própria seiva que nos alimenta como galhos enxertados. Se não o fizer, sua esperança será puro saudosismo, sem apoio consistente algum.

Oro para que você faça isso, aplicando-a contra todos os seus pecados e em todas as suas aflições.

14 janeiro 2013

Resultado do Concurso Apologético!

Eis o resultado, enfim! Pedi a meu marido que me ajudasse na escolha. Selecionei as seis melhores e lhe mostrei, sem os devidos autores, para que ele não fosse influenciado por algum nome conhecido. Fiquei feliz ao ver que, das seis, a escolha dele foi a mesma que a minha.

Repito e expando aqui os critérios para a escolha, sobretudo por um propósito didático: quem sabe um dia você não será convidado para falar na televisão?

- Brevidade. Todos nós sabemos o quanto o Jô gosta de interromper os entrevistados e fazer piada. Aproveitar a "deixa" teológica da pergunta dele e falar o mínimo possível era fundamental. Li as melhores respostas em voz alta e percebi que alguns textos bons e coerentes não funcionariam ao vivo, na língua oral, por serem extensos demais.

- Linguagem acessível. Crente não resiste a um "teologuês". Precisamos tomar cuidado com isso: diante de uma plateia não-evangélica, o uso do nosso "jargão" só contribui para afastar o público do interlocutor.

- Foco na teologia. As perguntas do Jô foram eminentemente teológicas. Era o momento para colocar a preocupação com a alma dele (e dos espectadores) em primeiro lugar, deixando de lado as questões sobre a política, a liberdade de expressão religiosa ou as explicações científicas para o comportamento homossexual, por exemplo.

- Conteúdo essencial. Como as perguntas do Jô versavam sobre o que é o pecado, era necessário que a resposta mostrasse o esquema essencial do Evangelho (criação, queda e redenção) por dois motivos: mostrar que o pecado original se deu depois que Deus disse que "tudo era bom" (a criação) e apresentar a redenção como o único antídoto possível para o pecado.

Por isso, anuncio aqui que a resposta breve, acessível, isenta de digressões e fiel ao essencial do Evangelho (criação, queda e redenção) foi a do...

Thiago McHertt!

Parabéns, Thiago! Por favor, poste um comentário com seu endereço para envio do livro (não o publicarei).

Quero agradecer muito a todos os participantes! Foi uma honra receber tantas entradas em apenas uma semana. Também foi gratificante ler respostas que manifestaram a criatividade de alguns (Roberto Vargas Jr., Yago Martins, Hugo, Jônatas, Antônio Brito), a firmeza de outros (João, Luiz Renato, Cristiano), o carinho de outros (Pr. Samuel, Pr. Macena, Ivonete). Nenhuma resposta foi rejeitada para publicação.

Daqui a algum tempo, aparecerei com um novo Concurso Apologético. Não percam!

Republico aqui a resposta do Thiago:
Jô, tudo o que Deus faz é bom por definição. Logo, a criação é boa. Mas desobedecemos a Deus, e isso é pecado - e mau. Todos os homens nascem em pecado, ou seja, nascem da natureza caída de Adão. O pecado é o fruto da natureza caída do homem. Nesse sentido, se é verdade que alguém nasce homossexual, isso não o isenta do pecado, mas o confirma. E é nessa condição humana caída e pecaminosa que Deus ordena a mim, a você - Jô -, aos homossexuais e a todos os outros seres humanos "que se arrependam e creiam no evangelho".

Update importante: Um dos pontos mais fortes da resposta do Thiago ao Jô foi o fato de implicá-lo diretamente ("Deus ordena a você"), e isso é bacana porque gera uma reação pessoal. Creio que a apologética jamais deve esquecer que lida primariamente com pessoas, não com conceitos, ideias ou argumentos. Essa pessoalidade está presente em obras imprescindíveis dos maiores apologistas com quem podemos contar: Francis Schaeffer, C. S. Lewis, Cornelius Van Til e muitos outros.

07 janeiro 2013

Concurso: evangelize o Jô e ganhe um livro!

                                  Nesse trecho da conversa, Jô Soares questiona a "veemência" e a "postura quase medieval" da igreja de Crivella em relação ao homossexualismo. O entrevistado tenta permanecer no âmbito político, referindo-se à lei da homofobia e ao direito de expressão, mas Jô insiste no aspecto teológico do tema: "Se o homossexual já nasceu assim, como pode isso ser contra a natureza, se tudo o que Deus fez é bom?"

Agora é com você, leitor! Está lançado o Primeiro Concurso Apologético do blog! Coloque-se no lugar do entrevistado a partir do final do vídeo. Esqueça a política e transforme a entrevista em um encontro apologético. O que você diria ao Jô? Responda nos comentários - mas não esqueça, seja breve, pois você está na televisão! O autor da melhor resposta ganhará um livro meu autografado, A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã. Ou, se já tiver meu livro, ganhará outro, que é surpresa!

Espero suas respostas!

Atualização: Postei nos comentários os critérios para desclassificar uma resposta. Se alguém tiver dúvidas, poste ali e eu responderei. Amigos também podem participar, mas prometo que tentarei ser imparcial na escolha da melhor resposta!

Atualização 2: NÃO DEIXE de ver o vídeo! Em um encontro apologético, você precisa prestar muita atenção ao que a outra pessoa diz para responder com sensibilidade e conhecimento de causa. Não elabore uma resposta somente com base na frase que eu transcrevi acima.