12 agosto 2013

O falso meio


Percival Puggina conta nesse artigo que o apresentador de tv Pedro Bial, depois de resumir todas as situações de perversão sexual que haviam passado por aquele episódio de seu programa, convidou os telespectadores a também quebrarem os limites do casamento com uma frase:

- Que tal ser fiel ao desejo?

Tratei do que ocorre quando o prazer é alçado à categoria de valor preponderante numa sociedade em meu livro A mente de Cristo. Não é disso que quero falar, mas imaginar aqui três reações possíveis ao convite.

Na primeira reação, o telespectador concorda com Bial e pensa, satisfeito: "Eu já sou fiel ao desejo." Ainda que ele esteja em uma relação monogâmica, em um casamento estável, caso pense que está ali só por ser "fiel a seu desejo", acabou de glorificar o prazer em seu coração, confirmando mais uma vez uma das maiores idolatrias socialmente partilhadas de nossa época.

Em oposição frontal a ele, na segunda reação que imagino, outro telespectador pensa: "Eu sou fiel a Deus em primeiro lugar. Meu desejo é pecaminoso e me levará para onde nem eu vou querer ir. Deus me transformou para que eu pudesse colocar a vontade Dele, revelada em Sua Palavra, em primeiro lugar na minha vida. É por isso que não traio minha esposa." Esse, pelo menos nesse aspecto específico, confirma a adoração ao único Deus.

Mas haverá aquele que parecerá "entre" ambas as reações, ao exclamar mentalmente: "Esse negócio de ser fiel ao desejo é bobagem. Puro subjetivismo. Para tudo há limites. A pessoa precisa manter o casamento, ter autocontrole e não trair."

É a este que me dirijo agora: amigo conservador, não existe "autocontrole". Assim como não existe essa posição mediana em que você pensa se situar. Se você não está agora mesmo se esbaldando em uma relação fora do casamento e fora de todo padrão, não é porque conseguiu se controlar, mas porque, de alguma forma, Deus não permitiu que você participasse do culto ao prazer acima de tudo. Reconheça isto, seja humilde e grato, pois Ele pode nos livrar das loucuras coletivas, mesmo quando não O vislumbramos em nosso horizonte. Fazendo assim, quem sabe também não se libertará das inúmeras outras idolatrias que você tem acalentado, ocultas ou não, ao conhecer o único Deus verdadeiro, o único que pode debelar, em nós, todo tipo de mal.

09 agosto 2013

Castelo forte é nosso Deus

Hoje, fui inspirada por Ein feste Burg ist unser Gott ("Castelo forte é nosso Deus", cantata BWV 80), de Johann Sebastian Bach, composta com base no coral de Martinho Lutero. Bem ao estilo de Bach, a música é diferente do hino, não dá para cantar junto. Mas sua beleza complementa a beleza da letra, que sempre me faz chorar nos últimos versos:

Castelo forte é nosso Deus,
Espada e bom escudo!
Com seu poder defende os seus
Em todo transe agudo.

Com fúria pertinaz
Persegue Satanás
Com ânimo cruel!
Mui forte é o Deus fiel,
Igual não há na terra.

A força do homem nada faz,
Sozinho está perdido!
Mas nosso Deus socorro traz
Em seu Filho escolhido.

Sabeis quem é? Jesus,
O que venceu na cruz,
Senhor dos altos céus,
E sendo o próprio Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos iriam derrotar
Nem ver-nos assustados.

O príncipe do mal,
Com seu plano infernal,
Já condenado está!
Vencido cairá
Por uma só palavra.

De Deus o verbo ficará,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa!

Se temos de perder
Família, bens, prazer
Se tudo se acabar
E a morte enfim chegar,
Com ele reinaremos!
Que também lhe seja inspiradora para este fim de semana e a nova semana que se iniciará!

08 agosto 2013

Marxismo Cultural na IP de Santo Amaro

Leitor de São Paulo, o que você vai fazer no dia 23 de agosto, sábado, às 19h30? Estarei na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro - a igreja de meus queridos amigos Betty e Solano Portela - palestrando sobre Marxismo Cultural. Não perca! E não deixe de conferir, aqui no blog, a bibliografia que vou listar sobre o assunto alguns dias antes da palestra.

Update: será transmitido ao vivo! Confira:
Canal Ustream: http://ustre.am/Y6BH
Twitter: https://twitter.com/umpipsa
Youtube: http://www.youtube.com/user/umpipsa

07 agosto 2013

Recheando a teologia (2)


Como seria se, em nossas salas de aula, na igreja mesmo, "recheássemos" nossa teologia com boa literatura? Por exemplo, usando um poema tão pungente de Fernando Pessoa como este, abaixo, para iniciar uma discussão (com a Bíblia em primeiro lugar, sempre) sobre o pecado original e a hipocrisia? Sem vergonha nem medo de colocar a arte a serviço da verdade naquilo que a arte sabe melhor fazer: através da beleza, instigar uma resposta pessoal, do coração. Que tal?

Será que posso sonhar com aulas assim na igreja?



06 agosto 2013

D. A. Carson sobre 1Coríntios 12-14

Coisa boa a gente precisa divulgar. Hoje o Jonas Madureira anunciou no Facebook um futuro lançamento da editora Vida Nova - o livro Showing the Spirit: a Theological Exposition of 1 Corinthians, 12-14 - , com direito a tradução de um trechinho:
Um dia, todos os carismáticos que conhecem o Senhor e todos os não carismáticos que conhecem o Senhor não terão motivo algum para contender, pois os assim chamados dons carismáticos passarão para sempre. Naquele momento, esses dois grupos de crentes olharão para trás e contemplarão conscientemente o fato de que o que os liga ao mundo passado não é o dom de línguas, nem a animosidade para com o dom de línguas, mas o amor que eles conseguiram demonstrar um para com o outro, apesar do dom de línguas.”
Tive que trazer essa citação para cá, pois é sumamente importante. A primeira epístola aos Coríntios é um dos livros bíblicos mais conhecidos e lidos; o capítulo 13, então, serviu até de inspiração para uma música do Renato Russo (não há desculpa para "nunca ter ouvido falar", pelo menos no Brasil). Nem sempre, porém, os irmãos brasileiros aplicam as verdades contidas ali: há pentecostais que desqualificam todo crente que não fala em línguas e há reformados que desprezam o crente que crê que ainda existe dom de línguas hoje. Ambas as posturas subordinam o essencial (logo, eterno) ao periférico (logo, provisório). A dica do apóstolo é: o AMOR é eterno! Que Deus nos ajude a identificar corretamente o essencial e ater-se a isso acima de tudo.

05 agosto 2013

Mais sobre arte moderna

Da última vez em que estivemos no Rio de Janeiro, eu e André fomos a uma exposição de mulheres artistas no CCBB, vinda do Centre Georges Pompidou, na França. Vi o cartaz enquanto voltava do aeroporto e propus a visita a meu marido. Fiquei animada sobretudo com a presença de obras de Frida Kahlo, que eu nunca tinha visto pessoalmente. Mas eu deveria ter desconfiado que do Pompidou não viria muita coisa boa, pois o museu é conhecido por sua modernidade - essa palavrinha tão abusada.

Pois é, além de um quadro de Frida Kahlo (que nem era tão bom assim) e outro muito impressionante (uma atmosfera sombria e um Jesus crucificado em uma árvore - eu queria encontrar o nome da autora para postar aqui, mas na internet só achei referências à festa de abertura da exposição), todo o evento nos decepcionou, e mais, enfureceu esta que vos fala. Os quadros eram relativamente poucos em comparação aos vídeos, que exibiam o pior do espaço. Como uma mulher cristã se sentiria quando, acreditando proporcionar um momento cultural agradável a seu marido que não conhece bem o Rio, acaba o expondo não só a um monte de nulidades com nome de "arte", mas a incontáveis cenas de nudez feminina? Por aí você pode imaginar em que estado eu fui embora de lá.

Já no hall, um vídeo todo desfocado e com defeitos na imagem - irritante de se ver - mostrava uma mulher descabelada se jogando de lá para cá e cantando sem parar, na primeira pessoa, a linha inicial de Happiness is a Warm Gun, dos Beatles: "I'm not a girl who misses much." Tive que discordar: she missed a lot, principalmente equilíbrio corporal, bom gosto e bom senso. Mais interessante teria sido assistir ao vivo a um bêbado chato cantando; pelo menos a imagem estaria boa.

Outros vídeos também torturavam pela via do enfado: imagens ao ar livre onde nada ou quase nada acontecia, acompanhadas de textos que muito dificilmente poderiam ser classificados como literatura. Em outra sala, André me chamou para ver cenas de um gato - "Olha, querida, esse não tem mulher pelada" - , mas, quando olhei, para a consternação dele, uma mulher pelada estava abraçando o gato.

Já contei aqui uma vez que uma professora minha da Letras havia comentado com uma colega: "O estudo da literatura e o cristianismo são incompatíveis." (Para fazer justiça com a faculdade, meu orientador discordaria dessa apreciação.) Eu me pergunto se a própria arte dos séculos XX e XXI também não estaria se tornando incompatível, não com o cristianismo, mas com a noção de arte que produziu tantas maravilhas nos séculos anteriores e nos fez pensar e sonhar, em vez de responder com tédio, irritação ou vergonha. Desprovida de forma e conteúdo feitos para dizer, boa parte da arte e da cultura modernas (pinturas, filmes, peças de teatro) se viciaram na apresentação de uma nudez muito diferente da grega e da renascentista, uma nudez que, em vez de graciosa e arquetípica como suas predecessoras, é puro atentado ao pudor. O problema, o leitor já adivinhou qual é: atentados ao pudor dificilmente podem ser considerados arte. A arte até pode chocar, mas precisa ser bela antes de tudo. Faltam não só beleza, criatividade e sentido, mas sobretudo amor pelos espectadores, e aqui entram as costumeiras considerações deste blog sobre a cultura pautada pelo politicamente correto: nessa exposição, acredito que o ódio feminista enganou a maioria daquelas mulheres a tal ponto que foram convencidas de que qualquer coisa de suas mãos, só por serem mãos de mulheres, mereceria destaque como obra de arte. Em resultado, parece que só às feministas - e aos masoquistas - foi permitido sentir-se bem ali (e quem não reclamou certamente não o fez por pura culpa, a reação obrigatória exigida pelo feminismo).

E quando o masoquista é a própria arte? O vídeo que trago abaixo não foi retirado da exposição - claro! - , mas é uma sátira muito inteligente da arte moderna. Imagino que o roteiro foi inspirado em uma história terrível sobre a qual escrevi aqui. Também falo de arte moderna aqui. Modifiquei e ampliei esses dois textos para integrar meu livro A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã.

02 agosto 2013

Você está pronto?

Ontem eu estava distraída, ouvindo uma entrevista com o José Dirceu no computador, quando percebi que a voz dele é bem bonita. Foi inevitável pensar no quanto o Brasil teria ganho - e deixado de perder! - se, em vez de guerrilheiro e político, o Dirceu resolvesse ter seguido a carreira de cantor...

                                                                         * * *

Em Romanos 13.3-4 (uso aqui a versão NVI), a função retributiva da justiça é sancionada pela Bíblia. Para isso, Deus proíbe a vingança pessoal e incumbe as autoridades constituídas:

"os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal."

Igualmente, 1 Pedro 2.13-14:

"Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes, como por ele enviados para punir os que praticam o mal e honrar os que praticam o bem."

O problema é que, hoje, os governantes têm deixado de punir o mal e recompensar o bem. Pelo contrário: deixam de condenar os maus (impunidade! banditismo! violência!), praticam e aprovam publicamente o mal (corrupção financeira e moral! aborto no SUS! bolsa-família eterna e indiscriminadamente!) e ainda buscam punir o bem (impostos abusivos! controle da educação! lei da palmada! proibição do homeschooling! lei da homofobia! tentativa de controle da internet!). Caem assim na condenação de Isaías 5.20:

"Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo. Ai [...] dos que por suborno absolvem o culpado, mas negam justiça ao inocente. Por isso, assim como a palha é consumida pelo fogo e o restolho é devorado pelas chamas, assim também as suas raízes apodrecerão e as suas flores, como pó, serão levadas pelo vento; pois rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, desprezaram a palavra do Santo de Israel."

Diante disso, a regra é clara: não podemos ser levados pelas autoridades a deixar de fazer o bem ou a fazer o mal. Como está em Atos 5.59:

"É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!"

Você está pronto para a perseguição?

31 julho 2013

Empobrecendo o Ocidente

Herbert Schlossberg, em Idols for Destruction (sobretudo nas páginas 282-3), retraça em linhas gerais o processo de empobrecimento e crise dos países do Ocidente cuja economia se vale da ideia da "soma zero": ganha-se apenas com a perda de outros. Com base na progressão que ele oferece, esbocei o seguinte esquema:

1- Imbuído da ideologia marxista, que prega uma ideia equivocada de “igualdade”, o Estado se incumbe do que chama “redistribuição de renda”, com impostos abusivos e políticas humanitárias que transformam pobres, imigrantes e desempregados em eternos dependentes.

2- A redistribuição afeta negativamente a produção: há menos trabalho, menos investimentos, menos poupança e cada vez mais consumo, pois quem não trabalha não produz (e vive do dinheiro alheio) e quem trabalha se sente desestimulado a produzir, investir e poupar para ter que entregar grande parte dos frutos de seu esforço nas mãos do Estado.

3- Cria-se assim um ambiente psicológico de “carpe diem”, com toda uma população sendo estimulada à irresponsabilidade e ao imediatismo. (E ainda culpa-se o "capetalismo" pelo consumo desenfreado!)

4- Os ideólogos, sempre a serviço do Estado, contemplam esse estado de coisas e culpam automaticamente outros fatores: o planeta tem gente demais, não há recursos para todos, produzir gera poluição, desmatamento e destruição...

5- Logo, o que é necessário? Sem alternativa à vista, a resposta deles é: mais controle estatal. As “soluções”, sendo erradas, só pioram o problema e empurram as nações – financeira e moralmente – mais para baixo. (Políticas estatais de estímulo ao aborto e ao homossexualismo talvez sejam propostas como medidas de controle populacional...)

6- O Estado reforça as políticas de redistribuição. Tudo recomeça, e a máquina estatal se torna cada vez mais poderosa, angariando mais dependentes, inibindo as iniciativas privadas e emperrando a produção.

Tudo isso poderia ser evitado se nossa sociedade tivesse adotado como base alguns princípios bíblicos: limitação do poder do Estado, redenção somente através de Cristo (e não pela economia, como ocorre no marxismo), responsabilidade individual, caridade com discernimento etc.

O livro de Schlossberg é imperdível! Devo publicar citações dele aqui esta semana.

30 julho 2013

De evento em evento

A Escritura se refere ao relacionamento entre Cristo e a igreja como um noivado. Imagine agora que você só se encontre com seu noivo em festas com muita gente e nunca, jamais, consiga conversar direito com ele. Desesperador, não é? Pois é, muita gente acha que esse é o jeito certo, ou o único, de relacionar-se com Cristo: cantar louvores, ouvir pregações e palestras, orar - tudo isso em grupos, em eventos especiais. No dia-a-dia, é como se Cristo estivesse muito longe para ser alcançado...

Quando eu era nova convertida, acredito que me sentia um pouco assim. Ia toda empolgada para esses eventos - retiros, acampamentos, conferências - esperando que Deus fizesse grandes coisas. De fato, raramente Ele me decepcionava. Mas, à medida que fui crescendo na fé, entendi que há muitas outras "grandes coisas" que Deus faz na mente e no coração de Seus filhos, que se manifestam, como na história de Elias, no "cicio do vento". E as grandes coisas, muitas vezes, não são as que causam maior impacto em determinado local, deixando-nos boquiabertos, mas são aquelas que vão se desenvolvendo ao longo da caminhada com Deus, de pouquinho em pouquinho, e vão constituindo essa nova pessoa que Deus está levantando na gente, arraigada em Cristo. 

O mesmo Cristo que está nos ajuntamentos da igreja é o Cristo com quem você fala de portas fechadas em casa, que está com você no trabalho, nas aulas da escola e da faculdade, ao seu lado enquanto você assiste à tv, lê um livro ou conversa com incrédulos. É Ele que dará o tom a tudo o que entra por seus olhos e ouvidos, para sua edificação. Por isso, para crescer na fé, você precisa depender de Cristo em primeiro lugar, momento a momento, como diria Francis Schaeffer. Essa consciência se aprofunda com a maturidade cristã e é essencial para que os eventos especiais, junto com seus pregadores, não sejam idolatrados.

26 julho 2013

Ei você, que defende o "Estado laico"...

Entenda bem isso agora: quando você defende o "Estado laico" como se quisesse tirar a religião da esfera de influência pública - em vez de simplesmente afirmar a separação entre Estado e religião - , você está contribuindo para que o Estado se torne cada vez mais autônomo e poderoso em todas as áreas da vida humana: leis, educação, cultura, até os recônditos privados do lar e da consciência. O cristianismo dava limites ao Estado de um modo que nada mais poderá dar, porque o colocava sujeito à autoridade do Deus cristão, com suas leis eternas, que atribuem uma dignidade ao ser humano que está ausente na política. Sem isso, nós nos tornamos peças de tabuleiro sob o monstruoso deus estatal e ficamos sujeitos ao consenso dos poderosos da vez. Depois você não poderá reclamar se for vítima de abuso estatal: não haverá quem o ouça.

25 julho 2013

Recheando a teologia

Um amigo querido que tem a vocação, como a minha e do André, de relacionar cristianismo e cultura - visite o blog recém-aberto dele, que promete! - escreveu para Andrew Basden, professor cristão, sobre tecnologia. Basden respondeu com algo poderosamente motivador: que Deus está movendo seus filhos de um jeito novo, hoje, para quebrar a divisão entre o sagrado e o secular. Creio nisso! E hoje, dia do escritor, trago até vocês uma reflexão que faço a partir dessas palavras e do que entendo ser uma vocação imprescindível em qualquer época, mas sobretudo nos dias de hoje.

A correlação entre cristianismo e cultura é algo que está engatinhando entre nós. Nossa teologia, mesmo que correta, em grande parte ainda se relaciona mal com a realidade, com o que existe; ainda contempla demais o próprio umbigo. Precisamos com urgência nos lançar seriamente à dupla tarefa que consiste em, sempre sob a luz do Evangelho, enxergar o mal e o erro como realmente são, descrevendo suas variedades e profundidades (psicológica, sociológica, política, cognitiva, tecnológica, existencial), para assim enxergar e descrever aspectos verdadeiros da redenção, por contraste. Isso é primordial para fugirmos das expressões da fé que, mesmo sendo bíblicas, se repetidas muitas vezes sem o "recheio" da vida real, acabam se tornando palavras vazias: Jesus salva do quê? Não é de um pecado conceitual, abstrato, mas bem real, com efeitos reais, destrutivos e dolorosos! E em quê especificamente nos redime? Para algo que podemos começar a provar, saborear, ainda aqui neste mundo! Isso significa que a mente de Cristo de fato orienta a aplicação da teologia no reconhecimento e na solução do mal, em todas as áreas do saber.

Schaeffer chama muito a atenção da gente para isso: a falta de realidade na pregação e no ensino da Palavra, gerando igrejas cheias de crentes que vivem e pensam como zumbis. Boa parte da angústia que podemos sentir quando vemos o quanto estamos longe de uma cosmovisão genuinamente cristã em ação, nas nossas igrejas e nos meios seculares, talvez esteja relacionada com o fato de sentirmos que estamos diante de um caminho quase fechado no mato. Ainda bem que é quase: há décadas Deus tem impulsionado cristãos de gerações seguidas nessa vocação de rechear a teologia e fazê-la colocar os pés no chão; Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd, Cornelius Van Til, Francis Schaeffer, só para citar alguns. Aqui no Brasil, também não estamos órfãos: Wadislau Gomes, Davi Charles Gomes e Fabiano Almeida têm feito um trabalho excelente nesse sentido. Ainda há muito o que fazer. Se você me entende e sente que essa também é sua vocação, mãos à obra! Estamos juntos nisso!

04 julho 2013

Manifestar-se como Jeremias

Faz tempo que não posto, seja por causa da enxaqueca (e outras indisposições: tontura, dores de estômago, fraqueza), seja porque quero me guardar do impulso de repetir o que já afirmei tantas vezes. Dedico-me agora mais a aprender, processar, ampliar percepções e a postar no Facebook. Mas queria contar ao leitor hoje um sonho que tive há alguns dias, e que me pareceu significativo.

Eu estava experimentando um mix de sentimentos durante as manifestações do mês de junho: alegria (porque o que nasceu de modo calculado, com o Passe Livre, tornou-se uma explosão de indignação espontânea), tristeza (por causa da violência de alguns), apreensão (ao pensar no que o governo poderia fazer para se apropriar dos acontecimentos ou retaliá-los), perplexidade (porque é muito difícil analisar os fatos e suas múltiplas correlações). Nesse ambiente emocional, tive um sonho em que participava de um almoço com os membros muitos simpáticos de um coral evangélico. Depois de comer, fomos cantar juntos e eles iniciaram aquele cântico que usa a letra do Salmo 108: "Firme está, firme está meu coração, oh Deus". Quando elevei a voz para a frase seguinte, "Cantarei e entoarei louvores", vi que eles foram em uma direção totalmente oposta. Ri comigo e parei, só ouvindo. O que se seguiu foi uma paródia do cântico, que usava a ironia de um modo inteligente para denunciar as práticas idolátricas da igreja. O coração não pode estar "firme" quando tantos cristãos adotam costumes animistas (como a crença no poder de objetos ungidos) ou se alienam diante de novelas de televisão - só para citar algumas das críticas levantadas ali. Depois que a apresentação acabou, eu tive muita dificuldade para segurar as lágrimas - e acordei inevitavelmente chorando, como me acontece em alguns sonhos. Em seguida, lembrei-me do blog de meu amigo Renato Vargens, que tem denunciado sem cessar essas práticas absurdas, e ponderei sobre o quanto podemos estar tão satisfeitos com nossa igreja local, ou nossa denominação, que passamos a dar de ombros para esses desvios em outras igrejas, como se não nos dissessem respeito... Trata-se de um pecado, ou vários - conformismo, individualismo, sectarismo - , de que precisamos nos arrepender.

E, enquanto escrevo esta postagem, dois textos bíblicos me vêm à mente: Lucas 6.41-42 (em que é necessário reconhecer os próprios pecados antes de identificar e tratar os alheios) e 1 Pedro 4.17 (em que seremos julgados primeiro). Será que temos chorado o suficiente pela igreja antes de fornecer soluções para o mundo? Será que temos condenado o mundo sem perceber o quanto compartilhamos das mesmas idolatrias? Será que entendemos o quanto a purificação da igreja é fundamental para salgar e iluminar o mundo? Evidentemente, não condeno quem escreveu análises sobre as manifestações, de modo algum, e li algumas delas; o trabalho de crítica cultural à luz da cosmovisão bíblica é muito importante. Mas o sonho, de alguma forma, colocou as coisas em perspectiva, não necessariamente quanto à ordem das tarefas, mas quanto ao espírito com que as cumprimos: implicando-nos na crítica, como alvos da Palavra, jamais juízes. Se tantos cristãos têm energia suficiente para sair às ruas e clamar contra a corrupção reinante, imagino que podemos fazer como Jeremias e começar a nos lamentar coletivamente, em nossas igrejas, pelo estado da doutrina e da mentalidade evangélicas no Brasil. Ao contrário das manifestações, cujo resultado é incerto e talvez até negativo, a lamentação dos filhos de Deus, com verdadeiro arrependimento, nunca é vã.

28 maio 2013

O patético resultado do assistencialismo (II): o caso sueco

Foto: Carro incendiado no subúrbio de Estocolmo, Suécia, dia 21 de maio de 2013 (JONATHAN NACKSTRAND / AFP). Tirada desse site.


Você certamente já ouviu aquele amigo que se diz social-democrata citar o exemplo da Suécia como de um socialismo bem-sucedido. Bom, faça-lhe dois favores: dê a ele de presente o livro do Janer Cristaldo (já desatualizado, pois é de 1973: procure em sebos) O paraíso sexual democrata, e mostre-lhe o artigo de Gary North (teólogo e economista presbiteriano) do dia de hoje, O estado assistencialista sueco está em chamas. Isso vai funcionar como um panorama bastante amplo da situação daquele país, que de paraíso não tem nada. As “chamas” do título são literais: faz seis dias que a Suécia vem sofrendo na mão de incendiários.

Dois fatores contribuíram para essa situação de guerra civil: uma grave crise econômica desde os anos 1990 (obrigatória em países com governos que se encarregam pesadamente da “justiça social”) e a imigração em massa de gente do Iraque, do Afeganistão, da ex-Iugoslávia, da Somália, da Síria, para o que é considerado um país preferencial em toda a Europa. Alocados em guetos no subúrbio, sem perspectivas e sem desejo de integração (o governo fornece até cursos gratuitos de sueco), esses imigrantes fomentam um enorme ressentimento contra o Estado Papai – ressentimento que um dia explode. Perfazem 15% da população e são os mais atingidos pelo desemprego. (Mais sobre isso, em francês, aqui e aqui.) Gary North sentencia: "Um arranjo que combina imigração livre com Estado provedor está propenso ao desastre."

Deveria ser o contrário? Não! O Estado é um mau criador de empregos e oportunidades. Ele é como um pai que mima os filhos ao ponto de assumir todas as rédeas da vida deles. Não sabe dar o “empurrãozinho” de que precisam desde crianças para crescerem por si. Depois, o pai se lamenta quando precisa sustentar adultos dependentes pelo resto da vida. A metáfora dá conta somente das boas intenções, que podem até existir (muitas vezes duvido), mas nunca vêm sozinhas: governos socialistas assumem tarefas demais, via de regra, para embriagar os governantes de poder e dinheiro público. Desestimulando ou até inibindo a iniciativa privada com assistencialismo, leis abusivas e impostos altos, o Estado socialista diminui drasticamente o número de empregadores e, logicamente, o de empregos. Resultado: a desigualdade social aumentou muito na Suécia desde 1995. E toda a culpa recai agora sobre o costumeiro bode expiatório das esquerdas, claro, na figura do primeiro-ministro Frederik Reinfeldt, eleito em 2006 e decidido a fazer alguns cortes no benefício da galera. Uma reportagem desinformativa, certamente desejando salvaguardar a (ainda) boa fama da social-democracia sueca no Brasil, afirma que os próprios incendiários são de “extrema-direita” (direita contra direita?) e completa: “Os subúrbios afetados pela onda de violência têm em comum uma alta concentração de imigrante e problemas sociais, que se viram agravados pela política de cortes implementada há sete anos pelo governo de direita liderado pelo primeiro-ministro conservador Fredrik Reinfeldt.” Pois é. Se a mamata diminuiu e o povo resolveu tacar fogo nas ruas, a culpa é de quem reduziu a mamata, não é? Lógica perversa!

Trazida por North, achei tocante a fala de Marc Abramsson, líder do Partido Nacional Democrata:

Nós somos o país que mais se esforçou para integrar essas pessoas, muito mais do que qualquer outro país europeu; gastamos bilhões em um sistema de bem-estar que foi criado para ajudar imigrantes desempregados e garantir a eles uma boa qualidade de vida. Ainda assim, temos áreas em que existem grupos étnicos que simplesmente não se identificam com a sociedade sueca.  Eles veem a polícia e até mesmo as brigadas de incêndio como parte do aparato repressor, e os atacam.  Já tentamos de tudo, de tudo mesmo, para melhorar as coisas, mas nada funcionou.  Não se trata de racismo; a questão é simplesmente que o multiculturalismo não reconhece como os humanos realmente funcionam.

Ele chegou ao ponto: como os humanos realmente funcionam? Eis a resposta bíblica: eles são pecadores, naturalmente inclinados ao mal. Um sistema de governo que não considere essa verdade revelada (e provada no dia-a-dia), buscando continuamente fazer surgir a bondade interior do povo por meio de privilégios de todo tipo, como se a gratidão pudesse ser acionada automaticamente, está fadado ao esgotamento. Não existe a associação – tão cantada entre os poetas românticos do século XIX – entre pobreza e bondade. Dentre os imigrantes pobres que recebem assistência especial do governo sueco, alguns serão gratos e procurarão andar com as próprias pernas depois de algum tempo; mas outros, muitos outros, serão cruéis, nunca dispostos a ganhar o pão com o suor do rosto, mas, humilhados, sempre prontos a morder a mão que os ajuda. São esses que contribuindo para a destruição do país, de dois jeitos: inércia e, agora, fogo. Inutilizam a própria vida e a dos outros. O sistema não funciona, e mais: produz espertalhões, como aquela mulher que queria o Bolsa Família para dar à filha uma calça de trezentos reais.

Volto à frase do apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 3.10: “Quem não quer trabalhar, que também não coma.” A aplicação da Bíblia ultrapassa nosso egoísmo comezinho: o amor de Deus não se deixa confundir com sentimentalismos destrutivos. O princípio enunciado por Paulo não se esgota no indivíduo que queria viver às custas da igreja congregada dos primeiros séculos da era cristã, mas tem profundidade e amplitude na sociologia, na psicologia, na política. Quem deseja se empenhar na formação da cosmovisão cristã falhará estrondosamente se continuar lendo a Palavra e mirando somente seu próprio umbigo – ou o umbigo dos pobres idealizados pela cultura socialista.

21 maio 2013

O patético resultado do assistencialismo

Tenho alguns textos para postar, mas estou chocada com esse vídeo desde o primeiro momento em que o vi. Esse é o patético resultado do assistencialismo: as pessoas passam de fato a crer que o dinheiro que recebem do governo é um direito, assim como os filhos acham natural (e realmente é) que os pais os sustentem até certa idade. São adultos infantilizados e sem limites que obtiveram o status mitificado, heroico, sublime de "pobre" (o "pobre" dos românticos socialistas, não o pobre real) e querem que a sociedade pague caro por esse status, que ostentam quando convém (e escondem quando não convém).

Continue assim, Governo Brasileiro, solapando com suas decisões toda noção de responsabilidade individual e incentivando os imaturos e folgados deste país. É assim que o Brasil vai pra frente!

P.S.1 Leitor(a), aproveite e dê uma olhada nesse artigo oportuno do economista Rodrigo Constantino, que compara a postura da brasileira com outra, bem diferente, de um jovem de Portugal, e também nesse outro de Reinaldo Azevedo sobre os "excluídos não tão excluídos" que recebem o Bolsa Família.

P.S.2 Para quem está chocado com esta postagem, vale aqui a advertência do apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 3.10: "quem não quer trabalhar, que também não coma". Há quem cite a igreja primitiva como um exemplo de comunismo, infelizmente. Mas quem lê a Bíblia toda sabe que ali, entre os primeiros cristãos que se inspirassem em Paulo, o folgado irresponsável não tinha vez. Nada de se aproveitar do amor dos irmãos para parasitagem, nada de deixar de trabalhar para viver do governo! Essa é a ética bíblica aplicada ao mundo atual: é nossa responsabilidade divulgá-la e vivê-la!

16 maio 2013

A mesma face

Quando pequena, eu costumava me inquietar com a opinião de Deus sobre mim. Estaria Ele feliz comigo? Será que me amava ou me odiava? Aprovava minhas escolhas?

Já convertida, entendi que eu era rebelde e que somente Cristo podia transformar essa condição. Sabia, agora, que estávamos reconciliados, eu e Deus. Mas o questionamento, adaptado, prosseguiu. Estava claro que Ele me amava em Cristo, mas será que aprovava minhas escolhas?

Quando consigo enxergar melhor, desdobrada do anseio pelo amor total e sem máculas entre mim e Deus, percebo que a face do Deus irado contra meus pecados (que ainda existem) e a face do Deus feliz comigo (por causa de Cristo) são a mesma e única Face. O "já/ainda não" da Bíblia se manifesta também na relação que Ele estabelece conosco, de modo que não nos livramos da incômoda sensação de que Ele se ira contra nós - felizmente, pois é essa sensação que nos impulsiona na luta com o pecado.

Mas essa ira é acomodada no sacrifício de Cristo, e, contida, em vez de nos destruir, é como um sussurro doce em nossos ouvidos, um sussurro que diz "continue, continue". Senhor, caso seja necessário, dá-me uma resposta emocional mais adequada aos teus sussurros.

25 março 2013

Pela liberdade de brasileiros inocentes

A ONG Rio de Paz está promovendo um abaixo-assinado em favor da libertação de um casal de missionários presos injustamente no Senegal. Vamos participar?

Para saber mais, clique aqui e aqui
Para assinar, clique aqui

Eu não os conheci, mas eles são da Igreja Presbiteriana Betânia, em Niterói, onde fui batizada.

08 março 2013

Ester

Não ligo para o "Dia da Mulher" e acho complicadas as circunstâncias que o originaram... Mas não há momento melhor para compartilhar o texto de um belíssimo sermão que muito me edificou, na Igreja Presbiteriana do Cambeba, em Fortaleza, pelo pr. Francisco Macena da Costa. Sim, é sobre o Livro de Ester. É por causa desse sermão que, nesses tempos de totalitarismo montante, sempre que temo desagradar pessoas com o que escrevo, penso na frase dela: "Se morrer, morri." Que grande confiança em Deus!
Nos momentos de perigo, perseguição, tristeza, insultos e dedos apontados, Deus quer que nos lembremos que Ele é o único a ser louvado e temido, pois é soberano e nada nos acontece que não esteja sob Suas mãos. "Reconhece-o em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas" (Pv 3.6). Que a frase de Ester também possa ser seu lema, junto com a exortação de Jesus em Mateus 10.28: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.

28 fevereiro 2013

Pausa para cuidar da saúde

Amigos leitores,

Agradeço infinitamente aos que têm orado por mim e torcido para que eu me recupere da enxaqueca persistente. É especialmente para vocês que eu escrevo aqui. Há alguns dias, descobri que tenho Síndrome de Hashimoto, uma doença autoimune que ataca as células da tireóide e provoca cansaço, lentidão, dor de cabeça e dor muscular, pele seca, queda de cabelo. Tenho todos esses sintomas. Não há nódulos, mas a glândula já demonstra inchaço (ao ponto de um ligeiro bócio difuso, perceptível ao especialista) e desgaste. Já estou tomando a medicação correta e comecei uma dieta bastante rígida, com nutricionista, para ajudar a reequilibrar hormonalmente meu organismo. Não me foi dada nenhuma promessa de prazo quanto à melhora da dor de cabeça especificamente, mas estou confiante de que não deve demorar. Por enquanto, estou em uma fase ruim, com crises todos os dias e graus variáveis de dor. Por isso, o blog vai ficar em banho-maria até que eu comece a demonstrar uma reversão significativa de todos os sintomas de Hashimoto. Por isso também, junto com meu marido, tomei a decisão de recusar convites para palestras e viagens até pelo menos o meio do ano, pois estou recuperando as forças e privilegiando meu tratamento. Isso inclui a viagem para São Luís, anunciada na postagem anterior, pois não estou em condições agora.

Continuo pedindo suas orações! Estamos no caminho certo, graças a Deus.

Muito obrigada,

Norma

08 fevereiro 2013

VINACC 2013

E não vos conformeis com este mundo - esse é o lema da Visão Nacional para a Consciência Cristã deste ano, parte de um dos versículos que mais amo na Bíblia (Rm 12.2) e que está presente na abertura de meu blog, aí do seu lado direito. E, é claro, estarei lá, participando do I Seminário sobre Literatura, Bíblia e Cristianismo e do I Enblogue (Encontro de Blogueiros Evangélicos). Minha programação total pode ser acessada aqui, bem como a de todos os palestrantes.

Para não romper as atualizações do blog, deixei programada uma postagem para segunda-feira sobre Romanos 12.1 e 2, versículos que certamente serão lembrados muitas vezes ao longo do evento! Esse texto que postarei é um pequeno trecho de meu capítulo do livro a ser lançado no sábado durante o Enblogue, com a participação de vários blogueiros cristãos. Com o livro em mãos, contarei mais novidades!

Que este Carnaval seja ocasião para crescimento diante do Senhor para você! A maior folia estará no céu, e já experimentamos um pouquinho dele aqui. :-) Que Deus o abençoe!


04 fevereiro 2013

Anteparo contra a verdade

Todo comportamento está escorado por um conjunto de crenças; todo modo de agir se reporta a uma cosmovisão específica, seja declarada, seja inconsciente. E as cosmovisões não surgem no vácuo, mas são parte do tecido de ideias que sustenta determinada sociedade. Ninguém é um núcleo absolutamente original e imprevisível de pensamentos; sempre reproduzimos em alguma medida as ênfases de nosso tempo. Essas percepções me parecem estar desaparecendo das mentes contemporâneas, à medida que a descontinuidade ganha terreno sobre a continuidade e oferece a sensação de que é impossível um desenho nítido do que vivemos.

Assim, um dos maiores problemas de nossa época é que as pessoas se acostumaram a um afrouxar de laços entre o crer e o agir. Não sabem mais no que creem e por quê, e não sabem o que as motiva em suas decisões práticas. A proliferação de analistas parece ter coincidido com o abandono de um autoexame informado culturalmente: buscam soluções tão individualizadas, tão personalistas, que perdem de vista o todo que poderia fornecer-lhes explicações para esse estado de divisão interior. Embriagadas da ilusão romântica (Girard), esquecem-se de que são seres de imitação.

Um dado que me parece óbvio nesse quadro é que as crenças partilhadas, hoje, são de fato desconectadas da realidade, tão incapazes de escorar ações efetivas no mundo que passam a compor apenas uma atmosfera indiscernível, uma bruma difusa, que só obscurece o caminho em vez de apontar direção. Acreditar que a moralidade é relativa mas continuar vivendo de modo compatível com a existência do bem e do mal (porque não se pode viver de outro modo, a não ser como sociopata) é um dos exemplos mais recorrentes dessa dissociação. A frequência com que o discurso nega a vida é tão grande que o pensar não só deixa de acompanhar a experiência, mas a atomiza ainda mais.

E há outro exemplo que nos diz respeito diretamente. Você fala a alguém de sua fé em Cristo e narra algum fato miraculoso ou extraordinário relacionado a sua fé, e imediatamente seu interlocutor proclama com seus botões, ou até em alta voz, que você só pode ter um parafuso a menos. Porém, ao mesmo tempo, nada em seu comportamento ou suas atitudes mudarão em relação a você. Em 99% das vezes, você continuará sendo, aos olhos dele, uma pessoa amiga e confiável. A presumida "loucura" que ele lhe imputa, nesse caso, é operacional e só funciona para que se mantenha a salvo da ameaça da crença.

Eis a marca de nossos dias: antes, as cosmovisões davam identidade, ainda que uma identidade idólatra e inconsistente; hoje, foi dado um passo para trás:  o relativismo engole toda possibilidade de um posicionamento público que esteja de acordo com a cosmovisão, persistindo, como forte anteparo, contra qualquer tentativa de organizar mentalmente o real. Lamentamos essa situação, mas ao mesmo tempo podemos nos indagar se um mecanismo que se afigura claramente como proteção contra a verdade não seria mais fácil de desmascarar, já que resulta (ou deveria resultar) em maior desconforto existencial. Por outro lado, assusta que nossos contemporâneos se mostrem tão voluntários em preferir a ilusão e permanecer nela, ainda que em tudo se assemelhe de fato ao que é: uma ilusão.

Só Deus poderá nos comunicar com eficácia as reações adequadas aos desafios que a igreja está prestes a enfrentar nesse novo século. Estejamos atentos.

28 janeiro 2013

Enquanto não venho

Estou com crises diárias de enxaqueca há alguns dias, o que me impediu de escrever a postagem desta semana. Peço suas orações e, enquanto não venho, para não romper com a atualização semanal do blog, deixo com vocês o artigo de Solano Portela sobre a tragédia de Santa Maria, postado hoje, que espelha exatamente o que penso sobre o assunto. Boa leitura!



21 janeiro 2013

Quero trazer à memória


Há muito do velho paganismo em nós. Mesmo o mais racionalista dos seres pode manifestar uma ponta de irracionalismo quando, por exemplo, adia ad infinitum a visita ao dentista esperando inconfessadamente que o problema se resolva por si.

Mas, ao contrário do racionalista que às vezes se comporta de modo irracional, tenho uma personalidade naturalmente inclinada para o irracionalismo. Foi o que me levou a buscar Deus nos meios esotéricos, por exemplo, antes de me converter. Uma das manifestações mais dolorosas dessa inclinação é a presença de medos obscuros e inconfessáveis cuja irrealidade só é percebida com muito custo.

Cito alguns. Um pavor antigo, desde criança, era a possibilidade de ficar louca do nada, ou de bater a cabeça no chão em algum acidente e perder as faculdades mentais mais básicas. Derivava de uma pregação comum no esoterismo: a mente podia transformar os pensamentos em realidade. Uma vez convencido disso, tente dormir à noite enquanto seu cérebro fabrica os acontecimentos mais indesejados de sua vida.

Boa parte disso foi debelada com o trabalho do Espírito Santo em mim. Com poucos anos de conversão, pude identificar de imediato um inacreditável twist argumentativo em uma irmã que citou Jó para confirmar o ensinamento esotérico: “Aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece” (Jó 3.25) – um desabafo evidentemente descritivo. Se Deus não tivesse me transformado, sabe-se lá que tipo de síntese mística eu teria feito com o cristianismo.

Deus continua debelando em mim os medos mais tenazes. O processo de cura, como descobri, é exemplificado em Lamentações 3: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21). Assim como o versículo de Jó, essa frase tem sido retirada de seu contexto para justificar uma esperança mundana, baseada na lembrança de “tempos melhores”. Mas relembrar o passado feliz em um contexto infeliz, além de nada garantir para o futuro, é uma verdadeira tortura autoinfligida. E pior: às vezes não há o que lembrar. Uma infância infeliz, uma cadeia de insucessos amorosos, o cotidiano de pobreza que atravessa gerações... Nesses casos, como o versículo se aplicaria? Percebe-se então que a ênfase do texto não pode estar nos fatos da vida. Mas onde estará?

Vejamos. Jeremias relembra o passado, mas um passado nada glorioso: “Eu sou o homem que viu a aflição pela vara do furor de Deus” (Lm 3.1), resume ele seus infortúnios. Todo o livro é uma grande lista de infortúnios, resultantes dos contínuos pecados do povo de Israel. Até que o versículo 21 do capítulo 3 inaugura a mudança de foco:
Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se a a cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele.
Onde Jeremias foi buscar esperança? Nenhum acontecimento pessoal é evocado, mas sim essa característica divina: o Deus de Israel é misericordioso. Caso haja arrependimento, Sua ira não dura para sempre. Jeremias sabia disso a partir do registro de tudo o que havia sido feito a seu povo até então. Hoje, também sabemos disso, primordialmente, pelo registro bíblico de tudo o que Deus fez nas vidas de Abraão, Moisés, Josué, Isaías, Paulo e de todos aqueles que, tendo sido alvo da grande misericórdia do Senhor, andaram com Ele. Assim como somos “enxertados” na família da fé (Rm 11), também ocorre conosco essa apropriação da vivência de outros: todo novo cristão, inicialmente sem referenciais para pensar e enxergar Deus, apropria-se das maravilhas do passado e as integra a seu horizonte. Quando não há lembrança pessoal dos feitos de Deus, a fé inaugura o processo e a Palavra entra como experiência adquirida.

Nova convertida, eu não tinha acesso à experiência direta com a cura divina de meus temores. Foi trazendo à memória o caráter de Deus, com o poder do Espírito Santo, que meu coração foi orientado para a segurança da onipotência do Pai sempre que pseudoverdades, tais como a do pensamento mágico e do poder da mente, ameaçavam me submergir. Em um processo longo, que durou anos (e ainda continua em alguma medida), grandes medos foram vencidos com a lembrança – em meio a grande choro e oração – de que toda a realidade está nas mãos dele. Diante de pecados recém-descobertos, é a partir da experiência adquirida biblicamente que precisamos clamar: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” Não algum ponto de nosso passado, que no caso sequer existe, mas o foco no contínuo educar da mente para pensar toda a realidade – inclusive a realidade mais apavorante dos medos obscuros – segundo os conteúdos expressos em Sua Palavra: o que pode – é capaz – de nos dar esperança é o maravilhoso caráter de nosso Deus, atestado nos relatos de nossa fé e posteriormente, se o provamos (Sl 34.8), na nossa vida.

Racionalista ou irracionalista, sejam quais forem os males que o assediam, você deve se apropriar conscientemente dessa Palavra que agora, por causa do nosso enxerto na família de Deus, pertence-nos por completo, como parte da própria seiva que nos alimenta como galhos enxertados. Se não o fizer, sua esperança será puro saudosismo, sem apoio consistente algum.

Oro para que você faça isso, aplicando-a contra todos os seus pecados e em todas as suas aflições.

14 janeiro 2013

Resultado do Concurso Apologético!

Eis o resultado, enfim! Pedi a meu marido que me ajudasse na escolha. Selecionei as seis melhores e lhe mostrei, sem os devidos autores, para que ele não fosse influenciado por algum nome conhecido. Fiquei feliz ao ver que, das seis, a escolha dele foi a mesma que a minha.

Repito e expando aqui os critérios para a escolha, sobretudo por um propósito didático: quem sabe um dia você não será convidado para falar na televisão?

- Brevidade. Todos nós sabemos o quanto o Jô gosta de interromper os entrevistados e fazer piada. Aproveitar a "deixa" teológica da pergunta dele e falar o mínimo possível era fundamental. Li as melhores respostas em voz alta e percebi que alguns textos bons e coerentes não funcionariam ao vivo, na língua oral, por serem extensos demais.

- Linguagem acessível. Crente não resiste a um "teologuês". Precisamos tomar cuidado com isso: diante de uma plateia não-evangélica, o uso do nosso "jargão" só contribui para afastar o público do interlocutor.

- Foco na teologia. As perguntas do Jô foram eminentemente teológicas. Era o momento para colocar a preocupação com a alma dele (e dos espectadores) em primeiro lugar, deixando de lado as questões sobre a política, a liberdade de expressão religiosa ou as explicações científicas para o comportamento homossexual, por exemplo.

- Conteúdo essencial. Como as perguntas do Jô versavam sobre o que é o pecado, era necessário que a resposta mostrasse o esquema essencial do Evangelho (criação, queda e redenção) por dois motivos: mostrar que o pecado original se deu depois que Deus disse que "tudo era bom" (a criação) e apresentar a redenção como o único antídoto possível para o pecado.

Por isso, anuncio aqui que a resposta breve, acessível, isenta de digressões e fiel ao essencial do Evangelho (criação, queda e redenção) foi a do...

Thiago McHertt!

Parabéns, Thiago! Por favor, poste um comentário com seu endereço para envio do livro (não o publicarei).

Quero agradecer muito a todos os participantes! Foi uma honra receber tantas entradas em apenas uma semana. Também foi gratificante ler respostas que manifestaram a criatividade de alguns (Roberto Vargas Jr., Yago Martins, Hugo, Jônatas, Antônio Brito), a firmeza de outros (João, Luiz Renato, Cristiano), o carinho de outros (Pr. Samuel, Pr. Macena, Ivonete). Nenhuma resposta foi rejeitada para publicação.

Daqui a algum tempo, aparecerei com um novo Concurso Apologético. Não percam!

Republico aqui a resposta do Thiago:
Jô, tudo o que Deus faz é bom por definição. Logo, a criação é boa. Mas desobedecemos a Deus, e isso é pecado - e mau. Todos os homens nascem em pecado, ou seja, nascem da natureza caída de Adão. O pecado é o fruto da natureza caída do homem. Nesse sentido, se é verdade que alguém nasce homossexual, isso não o isenta do pecado, mas o confirma. E é nessa condição humana caída e pecaminosa que Deus ordena a mim, a você - Jô -, aos homossexuais e a todos os outros seres humanos "que se arrependam e creiam no evangelho".

Update importante: Um dos pontos mais fortes da resposta do Thiago ao Jô foi o fato de implicá-lo diretamente ("Deus ordena a você"), e isso é bacana porque gera uma reação pessoal. Creio que a apologética jamais deve esquecer que lida primariamente com pessoas, não com conceitos, ideias ou argumentos. Essa pessoalidade está presente em obras imprescindíveis dos maiores apologistas com quem podemos contar: Francis Schaeffer, C. S. Lewis, Cornelius Van Til e muitos outros.

07 janeiro 2013

Concurso: evangelize o Jô e ganhe um livro!

                                  Nesse trecho da conversa, Jô Soares questiona a "veemência" e a "postura quase medieval" da igreja de Crivella em relação ao homossexualismo. O entrevistado tenta permanecer no âmbito político, referindo-se à lei da homofobia e ao direito de expressão, mas Jô insiste no aspecto teológico do tema: "Se o homossexual já nasceu assim, como pode isso ser contra a natureza, se tudo o que Deus fez é bom?"

Agora é com você, leitor! Está lançado o Primeiro Concurso Apologético do blog! Coloque-se no lugar do entrevistado a partir do final do vídeo. Esqueça a política e transforme a entrevista em um encontro apologético. O que você diria ao Jô? Responda nos comentários - mas não esqueça, seja breve, pois você está na televisão! O autor da melhor resposta ganhará um livro meu autografado, A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã. Ou, se já tiver meu livro, ganhará outro, que é surpresa!

Espero suas respostas!

Atualização: Postei nos comentários os critérios para desclassificar uma resposta. Se alguém tiver dúvidas, poste ali e eu responderei. Amigos também podem participar, mas prometo que tentarei ser imparcial na escolha da melhor resposta!

Atualização 2: NÃO DEIXE de ver o vídeo! Em um encontro apologético, você precisa prestar muita atenção ao que a outra pessoa diz para responder com sensibilidade e conhecimento de causa. Não elabore uma resposta somente com base na frase que eu transcrevi acima.

31 dezembro 2012

Vantilianas (I)

Junto com um Feliz Ano-Novo, revelo no blog uma das melhores descobertas livrescas de 2012: Cornelius Van Til, responsável não só pelo aprofundamento de algumas de minhas intuições mais caras, mas também, e sobretudo, por respostas preciosas a questões muito antigas e cruciais. "Vantilianas" é o título que inaugura aqui, às portas do novo ano, uma série de pequenos textos inspirados na leitura deste filósofo reformado. Um 2013 recheado de autores crentes sensacionais para você! E não deixe de ler a recente postagem de meu marido André Venâncio, também bastante vantiliana.

Com Van Til, percebemos o quanto o racionalismo e o irracionalismo, esses dois extremos tão presentes no pensamento de nosso século, são faces da mesma moeda. Quando pensamos ter escapado de uma dogmática crença no poder da razão lógica para formular universais, logo caímos em uma não menos dogmática crença de que a existência de particulares é o único absoluto possível. Em ambas as pontas, ainda ocupamos indevidamente a poltrona de legisladores do que existe. A única solução para esse dilema é transferir para Deus a prerrogativa de criar e prescrever absolutos, permanecendo na posição relativa que é a nossa, mas sempre referente a Ele.

Claro, esse Deus precisa ser o Deus da Bíblia, o único que não participa de nenhum dos extremos, pois é transcendente e imanente ao mesmo tempo: o único que mantém sua onipotência enquanto invade nosso mundo e se torna um de nós, em Cristo, e que, por ser quem é, fornece ao homem um modelo correto para a correlação entre universais e particulares.

24 dezembro 2012

É Natal!

Enquanto andou entre nós, Cristo foi um habitante da eternidade que veio ao tempo; através dele e com ele, por sua morte e ressurreição, somos libertos do pecado e seremos, por fim, criaturas do tempo habitando na eternidade. Essa é a extraordinária boa nova que comemoramos a cada ceia, quando nos alimentamos de seu corpo e seu sangue, e que podemos também comemorar no Natal, suposto dia de sua vinda.

* * * 

Natal de 2011. André e eu ainda sem amigos mais chegados em Fortaleza, sozinhos em casa, encomendamos uma ceia da confeitaria Fiorella (éramos fregueses assíduos do sushi – nem sempre tinha leite em saquinho ou em caixa, mas se podia contar sem falta com um sushi excelente e barato de segunda a sábado). Foi um arranjo simples, com peru fatiado e alguns breguetinhos para enfeitar (cereja, passas, essas coisas), junto com uma bandeja de queijos que durou mais de uma semana (eu ainda não tinha descoberto a intolerância absoluta a lactose). E uma sobremesa sob medida, sem glúten: um pudim de claras. Tudo isso porque minha enxaqueca estava diária (teria sido a reação à lactose?) e não queríamos arriscar o dia de Natal com todas as tarefas da cozinha em minhas mãos. Fiz apenas o arroz. Coloquei um cd do Josué Rodrigues no som e fomos cear quando sentimos fome. Orações de gratidão e letras de hinos antigos emolduraram aquele momento. Preciso fazer um esforço para lembrar os presentes que ganhei, mas até hoje não esvaneceu minha memória emocional da alegria e da paz que preencheram nosso jantar a dois. Que seu 25 de dezembro de 2012 seja assim, leitor, leitora: simples, belo e focado em Jesus.

* * *

Quero pedir mais por vocês neste dia. Que Deus, através de seu Espírito, possa convencê-los de uma só vez (conversão) e um pouco a cada dia (santificação) do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), até que, transformados de glória em glória (2 Co 3.18), vocês cheguem à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus (Ef 4.13).Esse é o lindo desejo de nosso Pai para cada um de nós. Feliz Natal!

17 dezembro 2012

Revolucionários e conservadores

                                    "Precisamos viver uma vida mais revolucionária que a dos revolucionários." Irmão André

Vamos pensar nesses termos em seu sentido mais básico e universal. O que são as tradições em si? Apenas o saber humano acumulado ao longo do tempo e cristalizado em linguagens, costumes, valores morais, comportamentos, leis. Nada são, se Deus não as sanciona, ou seja, se não procedem da sabedoria divina. E o que são as revoluções? Apenas as mudanças radicais e corajosas.

Nessa apreciação mais ampla da palavra, Jesus foi, sim, um grande revolucionário em sua época. Ele desafiou e aboliu as tradições vazias do judaísmo que vigorava então, oferecendo a quem desejasse um relacionamento profundo e verdadeiro com Ele, a fonte de vida. Da mesma forma, podemos dizer que nossa fé é revolucionária: enquanto todas as demais religiões enaltecem o mérito humano, pois procedem do coração enganoso, viver na graça de Deus será sempre novidade de vida enquanto estivermos neste mundo. Por outro lado, Jesus deixou muito claro que não vinha para abolir a Lei judaica, mas para a cumprir. Reportava-se sempre ao Antigo Testamento como fonte de verdade, assim como fazemos hoje em relação à Bíblia inteira. Ele não jogou tudo fora, muito pelo contrário: seus embates com os fariseus objetivavam restabelecer o espírito original e legítimo da Lei. Assim, Jesus também foi um conservador, afirmando o sentido correto de uma tradição que não vinha de mãos humanas, mas havia sido entregue aos homens pelo próprio Deus.

A questão central, como o leitor já deve ter percebido, não é a postura conservadora ou a postura revolucionária em si, mas a boa triagem do que se deve conservar e do que se deve abolir - um equilíbrio que deve ser mantido tanto no nível individual quanto no da sociedade, já que tal equilíbrio é responsável pelo progresso. Não se consegue muito na vida apegando-se demais ao passado, sem critério algum; muito menos projetando tudo para o futuro, sem o devido apreço por aquilo que funciona adequadamente há gerações.

Tendo dito isso, passo a considerar o sentido moderno e contextualizado no mundo ocidental dos termos "conservador" e "revolucionário". Afinal, palavras e conceitos não são unívocos, mas ganham sentidos específicos de acordo com cada tempo e cultura. Assim, há certo consenso em torno dos termos "conservador" e "revolucionário" hoje quando usados como "termos técnicos", ou seja, por gente que entende minimamente de política.

Esse sentido, moderno e contextualizado, obviamente tem história, e sua história se confunde com a do próprio cristianismo ocidental. Através da graça comum de Deus, o Ocidente passou a moldar-se pela ampla influência da igreja cristã, desde os tempos do primeiro imperador cristão, Constantino (272-337), dando um fim aos aspectos mais cruéis dos costumes romanos. Esse processo gerou aos poucos um consenso cultural em torno de valores legitimamente bíblicos, tais como: a apreciação incondicional pela vida humana independentemente de status social; o amor como mais alto ideal; o amor pelos inimigos; a importância da interioridade; a inviolabilidade da consciência; o cuidado com os mais fragilizados da sociedade (pobres, estrangeiros, órfãos e viúvas); a valorização da mulher e da criança, e muitos outros. Se você abre sua Bíblia, encontra nela esses valores e concorda com eles de imediato, como se respondesse "é óbvio" à Palavra de Deus, não se engane: foram necessários séculos para que você chegasse a esse estado. A graça comum de Deus gerou consensos na cultura e você, leitor, como ser social, também é fruto desses consensos.

No século XIX, Karl Marx (1818-1883) definiu toda a realidade em torno do conceito de luta de classes. Para ele, uma sociedade igualitária seria desprovida de classes sociais, diferenças econômicas e divisão do trabalho. Ora, tal nivelamento não-natural dos indivíduos só pode ser conseguido através de um poder gigantesco que atue em duas frentes: coerção violenta (prisões arbitrárias, execuções sumárias, instituição do crime de consciência) e pressão ideológica onipresente (controle estatal da mídia e da educação). Assumido como tarefa do Estado, tamanho ideal aniquilava as vocações pessoais, as benesses merecidas por esforço, o livre pensar, a individualidade.  O povo precisava deixar seus princípios mais básicos de lado e consentir com assassinato, roubo, mentira, manipulação, tudo em nome da idolatria ao Estado. Quem não se adaptasse seria suprimido - por isso os regimes comunistas e socialistas mataram tanto na antiga União Soviética, na China, e ainda matam em Cuba e na Coreia do Norte.

Nos países mais democráticos, imaginava-se que, expandindo-se o marxismo pelo mundo, o proletariado se levantaria naturalmente para lutar pela causa socialista. Tal não ocorreu, e os ideólogos da Escola de Frankfurt culparam os valores cristãos pela ausência de um espírito revolucionário espontâneo. O Deus cristão, zeloso e exclusivista, passou a ser novamente o alvo maior por parte de poderosos e aspirantes ao poder, tal como havia sido na época do Império Romano. A diferença é que, enquanto a ambição dos ditadores romanos não era totalitária, a nova ideologia coletivista demandava que essa idolatria fosse prestada de coração, substituindo por completo tanto a consciência individual inviolável perante Deus quanto os limites morais em conformidade com os dez mandamentos e os ensinamentos de Jesus. Para isso, em prol da revolução por vir, conforme concluíram esses ideólogos, a "cultura judaico-cristã" teria de ser combatida. Sob as bandeiras da modernidade, do progressismo, da juventude e do amor, as mentes revolucionárias de nosso tempo buscam solapar toda ideia do Deus cristão, negando o certo e o errado, a moral sexual, os laços familiares, a noção dos deveres. Intentam criar uma geração de pessoas vazias, mesquinhas e devassas, mais facilmente corruptíveis ou manipuláveis.

Esses são os "revolucionários" de hoje, que, além da revolução socialista propriamente dita, geralmente defendem causas relacionadas ao marxismo cultural, ou pensamento politicamente correto, aferrando-se ao feminismo, ao movimento gay, às ações afirmativas, à negação de qualquer autoridade (divina ou constituída por Deus), a projetos de descriminalização do aborto, do infanticídio (cf. Peter Singer) etc. Em contraste, os conservadores ocidentais (sempre nessa segunda acepção, mais específica) são os não-socialistas que se importam com a manutenção do substrato cristão na cultura, cujos ideais são frontalmente opostos aos anteriores. Esses sabem que a preservação dos valores cristãos que compõem a civilização judaico-cristã é fundamental para impedir a morte e a destruição  de pessoas e sociedades - em um sentido literal. Sabem que, quando abençoa a cultura, o cristianismo:

- protege o indivíduo, impedindo a injustiça e a opressão máxima, inclusive a estatal (pois estamos todos igualmente debaixo de autoridade divina e a ela respondemos);

- protege os laços familiares (pois milita contra o divórcio e o adultério);

- protege a mulher do abandono e  da maternidade enquanto solteira (pois a ajuda a guardar-se para um homem que realmente se comprometa com ela);

- protege a criança no ventre e fora do ventre (pois abomina o aborto, o infanticídio e os abusos sexuais).


Esses são aspectos concernentes à graça comum. Mas sabemos que o cristianismo ultrapassa em muito os benefícios para esta vida, iniciando-se com a morte do velho homem e o renascimento espiritual em Cristo. Assim, caso sejam cristãos verdadeiramente convertidos, os conservadores conseguirão escapar ao moralismo raivoso e infrutífero que por vezes os caracteriza, salgando e iluminando a terra, ao mesmo tempo em que apontarão para a necessidade de conservar, sem tradicionalismos vãos, mas de modo vívido e atento, todas as bênçãos advindas da graça comum de Deus para a sociedade, através da infusão da Bíblia na cultura. E é por amor que o farão.

É claro que, na prática, o espectro de variações é enorme. Há os conservadores naturais, pouco afeitos a mudanças, e os revolucionários naturais, muitas vezes "rebeldes sem causa". No âmbito político, além de conservadores e revolucionários, há os liberais, que defendem o Estado mínimo mas, presas de um economicismo que é quase a outra face da moeda marxista, não se importam com o fim dos valores cristãos na cultura; nos EUA, há os "neocons", menos apegados ao cristianismo. Mas atenção: no Brasil, "direita" é coronelismo e militarismo; nunca houve um verdadeiro conservadorismo histórico em nosso país. Existem esquerdistas moderados, não totalitários, mas são bichos raros na América Latina, continente rico de vitimizações e antigos complexos de colônia, onde se espera que tudo venha do governo. O Brasil, infelizmente, tende à esquerda "deixe que o governo faça por você". Entre os cristãos, além dos conservadores convictos, há muitos conservadores inconscientes que simpatizam de longe com a esquerda somente pela "causa social". Conheço alguns deles e, quando encontro abertura, procuro ajudá-los a compreenderem melhor sua posição. E há muitos esquerdistas cristãos que tentam, sem sucesso, preservar a ideologia, rejeitando o relativismo moral que lhe é inerente e adotando apenas o amor aos pobres e o sonho de uma sociedade igualitária. O problema é que, ao sancionarem regimes como o de Cuba ou demonstrarem indiferença diante das matanças comunistas, aderem ao relativismo moral inescapavelmente (em outras questões também, via de regra - e quanto mais socialistas, mais tenderão a confundir revolução com Reino de Deus).

Ainda uma nota sobre Francis Schaeffer. Quando o grande apologista escreveu isto,
 

A maior injustiça que se pode pedir a um jovem é pedir que ele seja conservador. O cristianismo não é conservador, mas revolucionário. Ser conservador é não entender o principal, pois o conservadorismo significa permanecer na corrente do status quo, e isso não mais nos pertence

espero que tenha ficado claro agora, com meu artigo, que ele se referia ao sentido universal de "conservador", e não ao sentido moderno, político. Na política, Schaeffer era indiscutivelmente conservador, ou seja, não comungava de modo algum com os ideais esquerdistas. Se você não leu o suficiente de sua obra para constatar isso, fique atento, pois pretendo escrever mais sobre o tema "Schaeffer conservador" no futuro. Se tiver pressa, porém, leia O grande desastre evangélico e Como viveremos, e depois venha falar comigo nos comentários.

Por fim, uma observação pessoal. É no sentido político que me considero conservadora, e não no sentido amplo. Nunca deixei de ter coragem para mudar, e quem me conhece há muitos anos sabe disso. Aliás, minhas inclinações naturais sempre foram progressistas em vários aspectos, mas foi Deus que me ensinou a abandonar os deslimites tão daninhos incentivados hoje pela cultura e a abraçar Seus limites protetores. Glória a Ele por isto!