22 outubro 2012

Próxima parada, Recife!

Estarei em Recife para o pré-lançamento da Vinacc, em novembro! Confira as datas e os temas:


21 setembro 2012

Fala, Schaeffer!

Essa declaração de Francis Schaeffer, em uma de suas cartas pessoais, é tão importante que decidi traduzi-la e postá-la aqui, enquanto estou às voltas com minha mudança para Natal. Boa leitura e boas reflexões!

"Acredito que, quando a Bíblia diz que Deus é o Deus da verdade, essa afirmação é muito mais profunda do que geralmente alcançamos. Está dito ali que Deus é a verdade no sentido de que é o Deus da realidade - que há apenas um Deus e uma realidade. E quem não conhece Deus nem a realidade que advém desse conhecimento (inclusive o mundo tal como Ele fez e tal como é agora debaixo do pecado) não tem Deus e vive em um universo que de fato não existe, um universo não verdadeiro no sentido profundo de não real. Creio que foi isso o que levou a filosofias como o existencialismo e o positivismo lógico. E mais, acredito que esse universo de 'não Deus' e de irrealidade é um produto da 'grande mentira' do pai da mentira, o Diabo: uma completa perversão."
Letters of Francis A. Schaeffer

18 setembro 2012

Atenção leitores de Curitiba!

Estarei em Curitiba no dia 3 de outubro, na companhia honrada de Luiz Sayão, para a Conferência de Teologia Vida Nova, na Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Ministrarei uma palestra sobre a formação da cosmovisão cristã. Compareçam! Será muito bom abraçar leitores curitibanos e, de quebra, curtir um friozinho! :-)

Mais informações aqui.


05 setembro 2012

Trinta conselhos

Encontrei no blog de Daniel Santos Jr. a tradução (feita por ele mesmo) de uma entrevista de John Frame sobre "conselhos para seminaristas e teólogos iniciantes". Como já era de se esperar - toda boa teologia é abrangente -, os conselhos são valiosíssimos para qualquer cristão. Selecionei aqui, entre os trinta conselhos, os que me deixaram impressões mais profundas.

Um conselho fundamental para nossa cultura:

2. Valorize seu relacionamento com Cristo, com sua família e com a igreja mais do que a sua carreira. Você influenciará mais pessoas por meio de sua vida do que pela sua teologia. As deficiências em sua vida acabarão negando a influência de suas ideias, mesmo as ideias que são verdadeiras.

Um conselho ao qual preciso especialmente prestar atenção, sobretudo nos debates por escrito:
11. Numa controvérsia, nunca se posicione, precipitadamente, de um lado do debate. Faça um trabalho analítico de ambas as partes. Considere estas possibilidades: a) os dois lados podem estar olhando para o mesmo assunto de perspectivas diferentes, mas não pensando de maneira diferente; b) ambos os labos podem estar despercebidamente desprezando um ponto que poderia fazê-los pensar em harmonia; c) eles estão tendo dificuldade de se comunicar um com o outro porque estão usando termos que têm sentidos múltiplos; d) pode haver uma terceira alternativa melhor do que as duas posições que estão sendo defendidas; e) ambas as opiniões na controvérsia, mesmo que genuínas, devem ser toleradas na igreja, assim como as diferenças entre vegetarianos e não vegetarianos em Rm 14.

Um conselho sempre presente em meus textos:
23. Tenha sempre um pé atrás com todas as “tendências” em teologia.  Quando você vir todo mundo entrando no mesmo vagão, seja feminismo, liturgia, pós-modernismo, ou qualquer outro “ismo”, este é o momento para você abrir os olhos e usar sua capacidade crítica. Não embarque em qualquer uma destas tendências antes de fazer a sua sondagem.

Um conselho que tenho verbalizado com frequência quando converso com amigos de outras denominações, e com o qual ainda tenho a aprender:

14. Esteja preparado para avaliar criticamente a sua própria tradição. É uma ilusão pensar que uma tradição religiosa tem todas as verdades ou está sempre certa. Não seja um daqueles teólogos conhecidos por tentar fazer arminianos se transformarem em calvinistas (ou vice-versa).

Um conselho que me divertiu:

28. Teólogos iniciantes geralmente se veem como o próximo Lutero. Olhe, é muito provável que Deus não o tenha escolhido para ser o líder de uma nova reforma, como nos dias de Lutero. Mesmo se este for o caso, nunca se intitule como "o reformador"; deixe que os outros decidam se isso é realmente o que você é.

Uma frase que me fará pensar para o resto da vida:

Nada é mais importante em teologia do que o senso de proporção.

30 agosto 2012

Five Hundred Miles, The Brothers Four



Em meio ao milhão de tarefas - e com mais uma mudança interestadual à frente - , tem sido difícil escrever regularmente para o blog. Mas há outro fator importante em jogo: esta blogueira que virou escritora precisa parar de postar tudo no Facebook reaprender a fazer posts despretensiosos. Então vamos lá.

Five Hundred Miles (Quinhentas milhas) é um clássico do folk americano. É a primeira música em inglês que aprendi na vida, quando criança, e nunca mais esqueci dela. E eu estava na classe de alfabetização! Apaixonei-me por folk e ainda sou apaixonada. Se eu tivesse nascido nos EUA, o apelo para virar cantora folk teria sido grande!

Ouvindo hoje os Brothers Four, não pude deixar de exclamar: COMO eu queria que eles fossem crentes! Imagino Deus sendo louvado com essas vozes e tenho vontade de chorar.

A letra é o lamento de alguém que saiu de casa, perdeu tudo o que tinha e está muito envergonhado para voltar:
Not a shirt on my back, not a penny to my name
Lord, I can't go back home this a way
Sim, é ele mesmo: se o Filho Pródigo tivesse um violão e talento musical, talvez tivesse composto algo bem parecido. No vídeo, as pessoas ouvem emocionadas e cantam junto, como se participassem dos sentimentos desamparados do rapaz. E a gente, pensando em Lucas 15.11, tem vontade de responder: pode voltar sim, não importa como você está, sempre pode voltar para os braços do Pai.

29 julho 2012

Os livros das palestras, enfim!

Na sexta-feira passada, ministrei uma palestra no Acampamento do GAP, chamada "A secularização do sagrado e a espiritualização do secular". No sábado, para os jovens da Assembleia de Deus em Jaguaretama (interior do Ceará), falei sobre "Fé e razão" e dei uma palavra sobre Romanos 12.1-2. Agradeço muito a Bruno Lima, líder do GAP, e Rudson Almeida, de Jaguaretama, pelos convites que tanto me alegraram nesses dias!

Prometi aos jovens do GAP e de Jaguaretama que iria postar no blog a lista dos livros que usei para as palestras. Aqui vai, com comentários:

Calvinismo, Abraham Kuyper

Predestinação e eleição? Nada disso: esse livro vai impactar qualquer cristão, mesmo o não-calvinista, pois seu foco é outro. Afirmando que "não há um centímetro desta vida que não pertença a Cristo", o autor explora as características de uma cosmovisão genuinamente orientada pela Bíblia e pelo senhorio de Cristo em cada aspecto: cultura, política etc. Imperdível e já mudou a vida de muitos cristãos. Foi o livro que me abriu as portas para a teologia reformada, que, como vim a descobrir depois com Dooyeweerd e Van Til, trabalha de um modo ímpar com a questão das relações entre a fé cristã e tudo o mais, ajudando-nos a olhar para tudo no mundo de uma forma teorreferente (termo do professor Davi Charles Gomes), ou seja, tendo o Deus da Bíblia como referência principal. Tenho percebido que a teologia reformada é a que mais nos orienta para que não vivamos nossa fé debaixo de uma redoma, pois devemos obedecer a Cristo quanto a amar a Deus com TODO o nosso entendimento, além de nosso coração e nossa força.

A morte da razão, O Deus que intervém, O Deus que se revela, O grande desastre evangélico etc., de Francis Schaeffer

Recomendo todos os livros de Schaeffer. De modo especial, os três primeiros analisam com exemplos da cultura contemporânea o grande problema que o pecado nos legou: a fragmentação de nossa cosmovisão. Esses livros também têm o grande potencial de mudar vidas. Li A morte da razão quando nova convertida e desde então tenho visto o quanto as pessoas assumem as divisões artificiais que caracterizam a mente caída: entre natureza e graça, razão e fé, religião e ciência etc. O grande desastre evangélico trata da invasão do liberalismo teológico nas igrejas americanas e das duas formas erradas com que a igreja encara tanto o liberalismo quanto a cultura em geral: ou acatando sem reservas (mundanismo) ou se fechando sem confrontação (redoma).

Ídolos do coração e feira das vaidades, David Powlison

Outro livro que muda vidas! Esse só vende pela internet, no site da editora Refúgio. Demonstrando um conhecimento impressionante das várias vertentes em psicologia e psicanálise, Powlison descreve os mecanismos da idolatria em suas implicações sociopsicológicas. Orienta-nos a identificar em primeiro lugar os ídolos do coração, de acordo com a ênfase bíblica de que, depois da queda, estamos sujeitos à idolatria. Será especialmente útil para quem estuda psicologia ou se interessa por aconselhamento bíblico - mas recomendo a todos, pois a questão da idolatria é central para a cosmovisão cristã.

Criação restaurada, Albert Wolters

Sobre cosmovisão cristã e suas implicações. Didático e bíblico, traz muito material para se pensar a vida toda.

Verdade absoluta, Nancy Pearcey

Outro livro imperdível sobre cosmovisão, também didático e com muitos exemplos da contemporaneidade. Pearcey foi aluna de Francis Schaeffer. Também recomendo A alma da ciência, mais específico, sobre as relações entre ciência e cristianismo.

A busca pela justiça cósmica, Thomas Sowell

Sowell descreve as consequências de uma justiça que, em vez de aplicar as leis, transforma os juízes em heróis do politicamente correto. Uma boa análise da contemporaneidade em suas obsessões políticas muitas vezes autoritárias. Essencial para quem está estudando Direito.

A infelicidade do século, Alain Besançon

O historiador Besançon explica por que, para ele, comunismo e nazismo são, nas palavras de Pierre Chaunu, "gêmeos heterozigotos". Excelente introdução ao tema do totalitarismo e vacina fundamental para nós que, no Brasil, vivemos num "mar" de propaganda comunista. Recomendo cuidado, pois a tradução é de Emir Sader e contém alguns erros que dizem o contrário do que Besançon queria dizer. O melhor seria encontrar uma edição em inglês (o original é em francês). Para aprofundar o assunto, O livro negro do comunismo, de Stéphane Courtois, e o bem mais denso Origens do totalitarismo, da filósofa Hannah Arendt.

Tempos modernos, Paul Johnson

Paul Johnson é um historiador católico conservador que está em franco contraste com o bem mais famoso (no Brasil) Eric Hobsbawn. Enquanto Hobsbawn subscreve todos os massacres da ex-União Soviética (em meu livro, faço menção a isto), Johnson descreve de modo vívido os principais acontecimentos do século XX. A parte sobre a ex-União Soviética me fez chorar algumas vezes.

Onde é que Cristo está ainda a ser perseguido?, Richard Wumbrandt; O homem do céu, Irmão Yun; Torturado por sua fé, Haralan Popov Nada mais instrutivo que conhecer o que os regimes comunistas podem fazer à igreja cristã. Relatos tocantes de irmãos que sofreram muito sob perseguição estatal na Romênia, na China e na Bulgária.

Cuba, a tragédia da utopia, Percival Puggina Conservador católico, Puggina esteve em Cuba e desmente todas as maravilhas que a propaganda castrista divulga sobre o regime.

E, claro, não poderia deixar de recomendar meu livro A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã, que não deixa de ser uma introdução a todos esses temas, muitas vezes de um modo bastante pessoal. Ontem estive com Yago Martins, que me disse que o livro era como "a cosmovisão cristã em prática". Adorei a descrição e acho que de fato caracteriza muito bem o que tentei fazer.

Podem ler e comentar aqui, que eu respondo! :-)

10 julho 2012

Um só livro

Não entendo que muitos que se denominam "cristãos" hoje consigam tranquilamente negar a base de toda a nossa fé: a unidade da Bíblia.

Em primeiro lugar, eles demonstram com isso uma tremenda falta de confiança nos irmãos que tanto trabalharam, antes deles, durante séculos, nas mais variadas áreas, para reconhecer e confirmar a autenticidade de todos os 66 livros das Escrituras. Exibem-se assim não só como pretensos "descobridores da pólvora" - e Deus sabe o quanto a tentação do ineditismo, em nossos dias, é avassaladora - , mas sobretudo como desdenhosos (e, não duvido, ignorantes) de todo o generoso encaminhamento investigativo que Deus permitiu para que tivéssemos esse impressionante Livro, coeso, em nossas mãos.

Em segundo lugar, fazem com a Bíblia algo que jamais fariam com seu autor literário predileto: ignoram pedaços inteiros como "corpos estranhos" para dar coerência a uma ideia previamente estabelecida por eles, imputando-a ao todo como uma camisa-de-força. Agem assim como verdadeiros Jacks Estripadores do livro que sustenta todo o cristianismo. Fico imaginando um crítico literário que, diante de um romance de Albert Camus como A peste, tentasse provar intenções espúrias do personagem principal, doutor Rieux, argumentando que todas as páginas que descrevem seus esforços contra a praga "não foram, na verdade, escritas por Camus e não pertencem ao livro". Será que daríamos tanta atenção a esse crítico quanto damos aos teólogos universalistas, por exemplo - que, contra toda palavra do próprio Cristo sobre o inferno, preferem "pular" os trechos que os tiram de sua zona de conforto ou, pior, preferem interpretá-los esotericamente? Por que levaríamos as Escrituras menos a sério, em sua inteireza, do que consideramos uma obra de literatura? Posso entender essa leitura afrouxada por parte de um descrente, mas não de um crente em Cristo, sobretudo quando pensamos o quanto Cristo conhecia, estudava e amava a Palavra que tinha em suas mãos: o Antigo Testamento.

Diante de qualquer texto, requer-se do leitor que não projete seus próprios anseios e preconceitos por sobre a leitura. Caso proceda assim, será um mau leitor e não conseguirá formar uma ideia adequada do que está lendo, seja uma narração, uma descrição ou uma peça argumentativa. A Bíblia precisa de leitores que a abordem, no mínimo, como a um texto coerente, não um amontoado de frases ou livros sem conexão entre si. Mas, sobretudo, precisa de leitores que se aproximem dela como se aproximariam do próprio Cristo: com "ouvidos para ouvir", ou seja, humildade para aprender e coração fértil para as mudanças que Deus quer operar em nós, para a Sua glória. Só para esse leitor humilde a Bíblia será, como foi para Timóteo, "as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus" (2Tm 3.15).


Saiba mais: Augustus Nicodemus trata da autoridade das Escrituras; A Palavra, não a tradição.

02 julho 2012

Textos no Teologia Brasileira!

O reino da interioridade é meu primeiro artigo publicado no site Teologia Brasileira. É parte de meu livro A mente de Cristo, apenas levemente adaptado. Confira um trecho:
“Missão” é primordialmente oferecer-se a Deus, todos os dias, para ser santificado. Também é guiar espiritualmente a família e os mais próximos, em um trabalho lento, cotidiano e interior. Quando as “missões” são consideradas apenas em uma dimensão exterior, em que não se contempla a interior, somos como pobres legalistas pragmáticos, orientados somente para o fazer, imprestáveis para adorar a Deus e pôr em prática o amor ao próximo, algo só possível com paciência e olhos atentos. Porém, quando privilegiamos o alvo correto, não somos tão ativistas, mas vivemos a missão primordialmente onde deve ser vivida: dentro de nós, em nossos corações, onde está o trono de Deus; e, dali, espraiando-se para fora. É nesse reino da interioridade, habitação do Espírito Santo, que serão esmagados, pela graça de Deus, todos os pecados graves que nos impedem de ter a disposição para amar. É ali que tudo começa; se não começar ali, não terá começado de modo algum (e precisa recomeçar a cada dia!).
Aproveitem para ler também o artigo importantíssimo de Franklin Ferreira, Uma resposta ao artigo de Jung Mo Sung, muito bem documentado e argumentado. Uma das impressões mais vívidas que o artigo me deixou é que o teólogo coreano entende bem pouco de Bíblia. Boa leitura!

28 junho 2012

Da série "O que Deus fez por você através da cultura" II

Continuando a série com base em Como o cristianismo mudou o mundo (How christianity changed the world), do PhD luterano Alvin J. Schmidt, apresento uma impressionante citação do poeta polonês Czeslaw Milosz (1911-2004). Em Mente cativa, com as análises vívidas de uma sensibilidade poética que não perdeu o contato com a realidade, Milosz denuncia os horrores nazistas e comunistas que submergiram a Polônia em destruição e desumanização. Em dado momento do livro, recorrendo ao discurso indireto livre, o narrador se coloca na pele de um nazista que se revolta com os obstáculos representados pelo cristianismo à "salvação da Alemanha" e à "reconstrução do mundo". Esse personagem exclama:
Nesse único momento - um momento que acontece a cada mil anos -, esses crentes melindrosos daquele Jesus ousavam mencionar seus insignificantes escrúpulos morais! Quão difícil era lutar por uma nova e melhor ordem - se entre seu próprio povo ainda era possível encontrar tamanho preconceito! (p. 137)

É inegável que, nesse trecho, o poeta (que retornou ao catolicismo de sua infância apenas no fim da vida) demonstra saber algo que, infelizmente, muitos cristãos de nossa era não sabem: o cristianismo é um grande obstáculo - como cristã, eu diria: o único eficaz - à ganância de controle absoluto, concretizada de modo máximo nos regimes totalitários. O cristianismo é o único fator a impedir a submissão total (portanto, a idolatria) de quem é submetido. Leia 1984 sob essa ótica e você perceberá, leitor: Winston sucumbiu ao Grande Irmão porque, como não era convertido, não pôde deixar de desejar que sua amada estivesse em seu lugar no momento crucial da tortura. O verdadeiro cristão, imbuído da graça de Deus, saberia, a exemplo do Mestre, sacrificar-se por ela ali, mesmo diante de seu maior pesadelo. Ainda hoje, os verdadeiros cristãos espalhados pelo mundo, perseguidos por ditaduras muçulmanas e comunistas, continuam sacrificando-se por seu Amor Maior, recusando-se a negar a fé.

Schmidt conta que, em Roma, o indivíduo só valia alguma coisa se fosse parte do tecido social e pudesse oferecer alguma contribuição para seus usos, como se seu fim maior fosse engrandecer o Estado. Com a vinda de Cristo, isso começou a mudar, pois Deus abençoou as nações através da graça comum. Passamos a gozar de relativa paz após a conversão do imperador Constantino, no ano de 312, e a penetração do cristianismo na cultura promoveu sua "abertura" (cf. o filósofo reformado Dooyeweerd), o que culminou em conceitos até então inéditos e libertadores baseados nos ensinamentos de Cristo, tais como a unicidade do indivíduo em sua relação com Deus e a inviolabilidade da consciência individual.

Hoje, tem sido empreendido o movimento inverso, de descristianização da cultura, e os mais sensíveis, como Milosz, conseguem perceber que o cristianismo é um freio para a máxima opressão do homem pelo homem. São os poderosos que, impulsionados pelo mesmo descontentamento do personagem nazista, empreendem esse movimento, os que abominam todo limite interior e exterior para o mal que perpetuam. O apologeta Francis Schaeffer afirmou que Deus deixou claro o que ocorre quando as nações o rejeitam: são vencidas e destruídas pelo poder humano. Essa é uma das lições que as guerras do século passado nos deixaram. Nesses tempos difíceis, em que o ressurgimento do nazismo e a sobrevida do comunismo parecem provar que os horrores do século XX já foram esquecidos, precisamos mais que nunca salgar a terra, de todos os modos possíveis - agindo, falando e raciocinando na contracultura saudável, bíblica -, com dois objetivos em mente: que não venha julgamento severo sobre nosso povo e que alguns possam receber com alegria e liberdade a Palavra da salvação.

21 junho 2012

A ceia acridoce (2): os fatos


Recebi no Facebook críticas de participantes da Consulta da Fraternidade Teológica Latino-Americana (dias 7 a 9 de junho em BH). São críticas superficiais e tolas como essas: eu não estava lá, eu não vi o ritual todo, eu não ouvi as palavras que foram proferidas, eu não conheço a Fraternidade etc. São alegações que desqualificariam qualquer pessoa a dizer qualquer coisa sobre eventos nos quais não esteve presente, pois ignoram a função descritiva e narrativa da testemunha. Sim, eu me baseei no relato de uma só testemunha, conforme afirmei na postagem anterior. No entanto, à medida que recolho mais informação de mais testemunhas ou de quem conversou diretamente com testemunhas, não encontro nenhum motivo para modificar meu texto original, pelo contrário. Querem ver?

O primeiro relato: Na consulta da FTL, em um culto, o pastor distribuiu limões e doces atribuindo outro significado a eles logo antes da ceia do Senhor. Consta que o pastor teria dito: “Não vou consagrar esses elementos (os limões e os doces) porque alguns podem não entender.”

O relato mais completo: Durante a consulta da FTL, percebendo que as pessoas estavam muito tristes pela morte recente de Robinson Cavalcanti, o Pr. Carlos Queiroz pensou em fazer uma “dinâmica” durante o culto. Na mesa da comunhão, colocou bandejas com fatias de limão e doces de leite (ou, segundo uma testemunha, doces de amendoim). Nessa “dinâmica”, ele fez alusão às ervas amargas e ao mel do Pessach judeu, explicando que o limão representava o amargo da vida, e o docinho, o doce da vida. Mencionou que não iria “consagrá-los” porque muitos poderiam não entender. E, por fim, distribuiu-os, todos comeram e a “dinâmica” acabou. Em seguida, da mesma mesa, foi ministrada a ceia normalmente.

Todos os aspectos de minha postagem anterior estão presentes no relato expandido. Na verdade, o relato expandido confirma alguns aspectos percebidos no relato menor. Vejamos. Como ministrante, logo antes da ceia, o pastor apresentou à igreja reunida elementos novos e significados inventados por ele mesmo, utilizando como referência para tal um evento do Antigo Testamento que prefigura a ceia (e que, como a ceia, também foi uma ordenança de Deus, não de homens). Com isso, o pastor “mimetizou” a cena da ceia antes da ceia original para comunicar um ensinamento que não coincide com o ensinamento da ceia. Além disso, ao afirmar que só não consagraria os elementos porque "alguns poderiam não entender", deixou clara a analogia com a ceia (somente pão e vinho são "consagrados"), já que o impedimento era apenas por evitação do escândalo.

Esse mimetismo é idólatra por modificar o significado original da comunhão. Na ceia de Cristo, somos irmãos em torno do partilhar do corpo e do sangue de Cristo, que apontam para seu sacrifício redentor. Na “ceia” do Pr. Carlos Queiroz, houve o partilhar dos “acontecimentos doces e amargos da vida”. Simbolicamente, o resultado é desastroso: os presentes foram levados a comer e beber juntos os “acontecimentos da vida” do mesmo modo com que comem e bebem o sangue de Cristo. O consolo pretendido pelo pastor consistiu em aproveitar o formato da ceia para comunicar algo como “nós estamos juntos para o que der e vier e nos alimentamos desse sentimento” e não “nós estamos unidos por Cristo e nos alimentamos de Cristo”. A equiparação, produzida durante o culto e logo antes da ceia, gerou o equivalente a um outro evangelho.

Diante disso, pouco importa se “a dinâmica foi uma parte separada da ceia”, como também me disseram alguns. As semelhanças dessa “dinâmica” com a ceia são muito mais numerosas que as diferenças: as palavras e os elementos foram inseridos em contexto de culto; os elementos foram colocados juntos na mesma mesa; os elementos seriam consagrados caso não houvesse possibilidade de escândalo; o procedimento consistiu em comer e beber ritualmente como expressão de comunhão e amor fraterno. Além disso, muitas pessoas de fato interpretaram a “dinâmica” como algo que fez parte da ceia, o que aponta, no mínimo, para uma confusão teológica “dos diabos”. Tudo isso se configura um atentado ao sentido da ceia, que tirou Cristo do centro no espírito dos presentes.

Se o pastor estava consciente de tudo isso? Não tenho a menor ideia, e até acredito que não estava. O diabo certamente estava e se divertiu muito com o episódio.

Meu marido André Venâncio analisou com muita pertinência as críticas recebidas por mim no Facebook aqui.  

Adendo: Como já percebeu certamente o leitor atento, o problema que descrevi vai muito além de uma mera troca de elementos, razoável e necessária no contexto missionário, em regiões onde simplesmente não há nem uva, nem trigo.

14 junho 2012

A ceia acridoce

O jejum de postagens que me impus por ora devido à tendinite e à enxaqueca precisou ser quebrado quando vi no meu Facebook uma notícia sobre evento da Fraternidade Teológica Latino-Americana, em Belo Horizonte. Era sobre a ceia, com fotos estranhas: em vez do pão, duas bandejas, uma com limão fatiado e outra com quadradinhos marrons. Dizia a legenda: "Compartilhamos o amargo e o doce da vida simbolizados pelo limão e pelo doce de leite."

Não sei se algum dos participantes conseguiu perceber ou intuir isto, mas a mudança inserção de outros elementos à ceia, aos quais foi atribuído outro simbolismo, perverteu tudo. A ceia é o sacramento instituído pelo próprio Jesus Cristo para lembrarmos que só estamos vivos porque nos alimentamos dele, ou seja, do corpo e do sangue que ele entregou em sacrifício vicário por nós. Nesse memorial solene, não lembramos os acontecimentos bons ou ruins que nos sobrevêm (ênfase no “eu”), mas sim o acontecimento único e irrepetível do sacrifício de Cristo, que “matou a nossa morte” na cruz.

Dividida entre o riso da presença inusitada (limões e doces!) e a tristeza pelos profundos rasgos no significado do sacramento, acabei me decidindo por admirar a mente por trás disso. Afinal, não é realização pequena desvirtuar todo o sentido da ceia de Nosso Senhor apenas com uma troca um acréscimo de alimentos. Tremi ao pensar que, reunidos ali, em vez de contemplarem a Cristo e sua obra, os que tomaram parte nesse ritual torcido foram inevitavelmente, em primeiro lugar, levados a emocionar-se a partir de uma pura autocontemplação. A cruz ficou em segundo plano. E admirei o feito como quem se depara com um espetacular e horrível monumento idolátrico: os limões e os doces de leite foram servidos antes do pão e do vinho, mas no mesmo ritual, e foram comidos com o mesmo espírito de união. O alcance simbólico disso é claro: o doce e o amargo da vida nos alimentam, unem e vivificam tanto quanto Cristo. Ora, isto é outro evangelho!

Ao mesmo tempo, não pude deixar de pensar que talvez, no caso da Fraternidade Teológica Latino-Americana, o simbolismo seja exato: quando se acomoda no cerne das ênfases cristãs, o esquerdismo dá as mãos ao velho liberalismo e adquire a mesma função idolátrica, transformando algo único e celestial, doador de vida, em uma estéril e autolaudatória amenidade humanista.

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Atualização importante: O texto foi modificado depois que Alex Fajardo explicou no Facebook, e aqui nos comentários, que não ocorreu uma substituição dos elementos, mas sim um acréscimo.

No entanto, o acréscimo não muda em nada a substância do que escrevi: houve uma modificação fundamental no sacramento instituído por Cristo, uma modificação que tirou o foco da obra de Cristo na cruz e enfatizou "o doce e o amargo da vida", ou seja, o ser humano e suas vicissitudes. Conta-se que o celebrante, pr. Carlos Queiroz, passou dez minutos explicando o significado que ele atribuía ao limão e ao doce, e ainda observou que "não iria consagrar os elementos, pois alguns poderiam não concordar com ato que ele iria realizar". Isso significa que ele estava ciente de que aquilo poderia chocar alguns. Como expliquei ao Alex, em primeiro lugar, ceia não é momento para se arriscar a ferir ou escandalizar algum irmão. Ao escolher o momento da ceia para trazer uma novidade dessas, o celebrante não pensou que a ceia é um sacramento de COMUNHÃO e esse tipo de proposta diferente subverte esse propósito. Em segundo lugar, a primeira nota do Alex, que apenas mencionou a novidade (e realmente deu a entender a substituição), demonstra que o que mais marcou os participantes dessa ceia foi o acréscimo, e não o que se faz usualmente. Claro: é da natureza humana que nos lembremos especialmente do novo. E esse "novo", no caso, tirou do ritual a centralidade de Cristo. Em terceiro lugar, e supremamente importante: QUEM deu autoridade aos ministrantes da ceia para ACRESCENTAR outros elementos ao pão (corpo) e ao vinho (sangue)? Isso é muito sério. Nenhum pastor ou líder religioso tem autoridade para modificar o que Jesus instituiu como sacramento e memorial. Somos irmãos e estamos vivos espiritualmente não por causa das "vicissitudes da vida", mas pelo corpo e pelo sangue de Cristo, UNICAMENTE. Além disso, qualquer acréscimo arbitrário à simbologia da comunhão sugere que não estamos mais no espírito bíblico, mas sim no de seita.

02 maio 2012

O terceiro gato

Mais de uma vez ensaiei um texto contando a história de meu terceiro gato, o Chocolate. Não sei por que motivo, nunca consegui terminá-lo. Ontem, depois de um segundo período de doença mais devastador que o primeiro, nós o perdemos. André escreveu sobre ele aqui - um texto que é uma verdadeira ação de graças por nosso gatinho. Há os que falam para aliviar e há os que se recolhem. Eu me recolhi, mas, além de mostrar o texto do André, decidi publicar uma foto recente (janeiro deste ano) para registrar no blog um pouco da doçura desse bichinho tão querido.


11 abril 2012

Leia um trecho do meu livro!


Surpresa! A editora Vida Nova disponibilizou em seu site um trecho grande de meu livro, A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã, a sair no final de abril (tá pertinho!). A capa está bonita, não está? Assim que eu tiver a confirmação das datas e dos locais do lançamento, aviso aqui!

Boa leitura!

31 março 2012

48 anos depois: notas sobre a ditadura militar

Hoje faz 48 anos que foi deflagrada a ditadura militar. E a polarização geral em torno do tema tem me desagradado profundamente.

Neste blog, e em meu livro a sair no final de abril pela editora Vida Nova - A mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã -, discuto a impossibilidade de enxergar nuances, típica do pensamento de esquerda. Ora, muitas vezes os próprios conservadores não se isentam desse mal.  No Brasil, o espírito da cordialidade convive paradoxalmente com uma adesão festiva ou raivosa (ou ambos!) a extremos. Análises comedidas, não; endossos apaixonados a qualquer tema, não importa sua complexidade. A politização do pensamento, a que espero, contraculturalmente, aderir cada vez menos, pede que a humanidade se divida em dois partidos opostos sobre tudo, sempre.

Tendo dito isto, vamos ao que penso. A ditadura militar foi um mal menor? Sim. O país estava prestes a se tornar uma sucursal da antiga União Soviética. Terroristas treinados agiram para implantar o comunismo no Brasil. Plantaram bombas, assaltaram bancos, mataram gente. Diante dessa situação, os militares usaram técnicas de guerra, com o apoio popular. Seria possível reagir de outra maneira? Creio que não, infelizmente.

Agora, devemos "comemorar" o acontecimento? Sim e não. O golpe, que impediu o mal maior, sim. O regime, com todos os seus desmandos e excessos, certamente não. Um mal menor deve ser encarado como o que é: um mal. Sim, o totalitarismo de esquerda é o inferno na terra em grau elevado. Mas uma ditadura deixa marcas difíceis de serem curadas e esquecidas. Por todos os que sofreram de verdade naquele contexto (não incluo nisto quem se exilou em Paris e hoje vive de indecorosas indenizações), prefiro não comemorar. 

O que fica mais patente, porém, é que aqueles jovenzinhos vociferantes - com seus mestres e tutores partidarizados - que se levantaram contra o evento sobre a ditadura no centro do Rio, desprezando e cuspindo nos militares que dali saíram, precisam urgentemente se despir da sua capa de falso moralismo, de inocência fingida, e compreender que, no mesmo instante em que condenam a ditadura, defendem e promovem um sistema maldito que, em nome do amorrrrrr, matou cem milhões de pessoas em todo o mundo. Os militares cometeram erros, mas buscavam coibir terroristas, assassinos e assaltantes de bancos; os comunistas são muito mais democráticos em seus alvos e exterminam "classes" inteiras, levas e levas de pessoas, sem olhar a quem. Vamos deixar de hipocrisia e acabar de uma vez por todas com esse mimimi em relação a 1964: esquerdista, o que você quis para o Brasil naquele tempo (e ainda quer hoje!) é pior, muito pior, do que qualquer coisa que os militares possam ter feito. Quantitativa e qualitativamente.

Termino assim este texto: com todo o respeito pela dor das vítimas involuntárias da ditadura e com a mais profunda compaixão por aqueles que de fato confundiram o comunismo com o sonho por um mundo melhor; mas muito pouco respeito, muito pouco mesmo, pelos novos totalitários, comunistas de ontem e de hoje, que acusam os militares ao mesmo tempo em que ainda exaltam, depois de toda aquela matança comprovada, os demônios Lênin, Stálin, Pol Pot, Mao e Fidel Castro.