14 fevereiro 2006

Marxismo, islamismo e os progressistas brasileiros


Texto do balão da charge: "Você tem idéia do quanto isso aí é ofensivo?" Dizeres no chapéu do desenho maior: "O judeu." Legenda no desenho menor: "Maomé." Repare que o personagem louro tem na camisa a bandeira da Dinamarca, enquanto o outro traz na sua o símbolo islâmico.

Recomendo dois textos para reconhecer e ajudar a entender o aparentemente estranho fenômeno de associação entre marxismo e islamismo. O primeiro, de Reinaldo Azevedo, trata da incoerência de um Carlos Heitor Cony, autor esquerdista e beneficiário de uma pensão-monstro por ter sido vítima da censura militar, sair de caneta em punho relativizando a liberdade de expressão no episódio das charges dinamarquesas. É até engraçado testemunhar gente de prestígio na mídia - invariavelmente esquerdista - defendendo a ofendida truculência islâmica; logo eles, que são os primeiros a fazer troça do judaísmo e do cristianismo, a usar termos pejorativos com relação às igrejas católica e evangélica (lembrem-se da reação indignada à nomeação do novo papa conservador) e a ignorar solenemente insultos anti-semitas e anticristãos muito piores que as gracinhas veiculadas no jornal dinamarquês. No Brasil, quem é evangélico sequer precisa pensar muito para enumerar as referências hostis e as piadinhas de mau-gosto que tem de agüentar estoicamente na tv, nos jornais, na rádio, em salas de aula. Eu mesma posso citar umas dez assim que me perguntarem. Não, senhores bem-pensantes, não venham posar agora de guardiães da sensibilidade religiosa. Temos todos os dias o testemunho de uma fila gigantesca de religiosos sinceros prestes a desmentir sua repentina boa-vontade.


A opinião maciça da mídia esquerdista mundial a favor da ira islâmica (e de seus arroubos de depredação) e contra a liberdade de expressão na imprensa não é mera coincidência. Leiam o segundo texto, uma análise acurada que Olavo de Carvalho faz da articulação mundial entre marxismo e islamismo ao explicar o marxismo não como um simples "sistema econômico" (que fracassou no mundo todo), mas essencialmente como uma cultura, mutante e parasitária. O mil vezes mais poderoso marxismo cultural é autor e propagador milionário da agenda politicamente correta em todo o globo, ganhando profissionais midiáticos do mundo inteiro. Ele se associa mais estreitamente não só com o islamismo, mas, dentro das igrejas, com o liberalismo teológico, pois afinal ambos os grupos, marxistas e liberais, são antigos companheiros na aversão ao cristianismo, acusado por eles de precário, estreito, inimigo da liberdade. Os progressistas no Brasil têm se deixado seduzir cada vez mais por esse marxismo, assimilando o discurso "libertário" da modernidade que o alimenta e insurgindo-se, tal como zumbis hipnotizados, contra a teologia clássica cristã, engrossando as fileiras dos mortos-vivos liberais. É precisamente aí que a igreja brasileira corre o risco de esfriar, passando por processo semelhante ao das igrejas européias; não seria por acaso que, aproveitando o vazio deixado pelo cristianismo, o islamismo vale-se do estímulo que os governos de esquerda lhe proporcionam para se expandir assustadoramente rápido na Europa "secular".

Que os progressistas brasileiros saibam, portanto, que adotar o marxismo como um "ideal" é assinar embaixo de uma cultura anticristã, satanista, destrutiva, relativista, mentirosa e totalitária - além de impulsionadora da intolerância islâmica em todo o mundo.

13 fevereiro 2006

O materialismo e a negação de Deus

O autor francês Jean-Paul Sartre defendia o ateísmo sem esconder a intrínseca aridez do sistema, reconhecida por ele ao confessar (creio que com algum orgulho) a dificuldade sofrida por quem quer que almejasse rejeitar todo sentimento do absoluto. Afirmava que o ateísmo é “a convicção de que o homem é um criador e que está abandonado, sozinho no mundo” e “no seu sentido mais profundo, um desespero”. O ateu, para ele, era como o cavaleiro solitário a pregar a esperança apesar de toda ausência de garantias. Esse discurso ainda sobrevive e dá muito ibope entre os teóricos modernos; mas pergunto-me: quem é o ateu "puro", principalmente no Brasil, terra das religiosidades várias e pululantes?

Hoje, em uma época de poucos aspirantes a heróis solitários e de uma certa obsessão pelo conforto (sobretudo espiritual), o ateísmo tout court e sua negação de Deus parece ser tendência menos popular que a de diminuí-Lo sob vários aspectos, segundo cada corrente: humanizá-lo para se declarar “seu inimigo” (satanistas), retirar dele atributos inerentes como a soberania e a presciência (liberalismo teológico, teísmo aberto ou relacional), reduzi-lo a uma “força” impessoal pronta a ser utilizada (esoterismo, paganismo, paulocoelhismos em geral). Face a essa ampla gama de maneiras de negar indiretamente o Deus cristão, podemos pensar que o ateísmo puro funcionou menos como uma opção válida de explicação para a condição humana que uma preparação da abertura de comportas para essa salada mística que caracterizará a era do Anticristo – em que cada ingrediente, por mais díspare do outro, contribuirá para um só objetivo comum, qual seja, o deslocamento da religiosidade para a força do próprio homem.

Assim como a noção de Deus não desaparece mas é vilipendiada através da inflação do poder humano, nas mais variadas áreas do pensamento é fomentada a idéia de uma “transcendência imanente”. O roteiro desse fomento ecoa as sucessivas mutações da negação de Deus: primeiro, nega-se toda transcendência, sobretudo no meio científico; depois, admite-se alguma, mas sempre pelas mãos humanas, e sobretudo nas artes. (Já ouvi em sala de aula, pela boca de uma estudante de pós-graduação em Letras, a pomposa frase “só a arte pode dar conta da religiosidade”, a que todos assentiram silenciosamente – apenas a minha voz se fez ouvir, “como assim?”, e não obtive resposta direta.) Aos poucos, um materialismo mutante se imiscui em todas as áreas – categórico nas ciências, travestido de “condição humana” na filosofia e nas artes – , enquanto, em paralelo, as transcendências imanentes proliferam em idolatrias artísticas e sistemas pseudo-religiosos facilmente adaptáveis ao gosto do cliente. Desse modo, onde o materialismo não pode anular por completo a sede humana de transcendência, ele a desloca para objetos finitos e fins imediatos.

Mas a verdadeira finalidade do materialismo – a negação direta ou indireta do Deus cristão, pessoal e soberano – nunca pode ser totalmente ocultada. Isso é patente na descoberta que nos apresenta o pastor Richard Wurmbrand em seu livro sobre o pensador que construiu todo o seu sistema sobre o materialismo: Karl Marx. Segundo Wurmbrand, nem Marx era ateu, mas sim satanista. Não admira, nem um pouco. Leia um trecho de Marx & Satan em inglês, aqui. E leia um artigo sobre o assunto, em português, aqui.

09 fevereiro 2006

O marxismo na genealogia do Anticristo

Esse post faz pendant, como se dizia antigamente, com o do meu amigo Eliot D. Chambers, Os evangélicos brasileiros e as causas do Anticristo.

Como já afirmei aqui, o marxismo é pai ou avô de muitas correntes teóricas em voga na academia, sobretudo na área de humanas. Na filosofia, de forma direta, a Escola de Frankfurt; na letras, a Análise do Discurso, as correntes de Estudos Culturais e autores do pós-estruturalismo como Michel Foucault; na história e nas ciências sociais, então, é difícil dizer de fato o que não vem do marxismo!

No Brasil de hoje, é fundamental entendermos o papel do marxismo como o maior fomentador de um anticristianismo que chega a ser tendência geral entre os bem-pensantes. Marxismo e descendentes não sobrevivem, como teoria, sem o imanentismo e a luta contra a transcendência que os caracterizam – luta que empreendem para melhor dirigir as pessoas para sua utopia socialista de poder total exercido por homens. Nada me dissuade do fato de que o marxismo estará na "árvore teórico-genealógica" da humanidade como um dos importantes antepassados da ideologia que permitirá a adoração ao Anticristo. Um dos primeiros nomes a constar nessa árvore seria com certeza Epicuro, o idealizador de uma "filosofia" tão louca (algo como a apologia de um sistema baseado na assistematização total da existência) quanto parece ser a mente dos amantes da modernidade que confessam gostar dele, tal como o professor de filosofia e organizador da coleção Os Pensadores citado por Olavo de Carvalho em Jardim das Aflições. (Diante disso, como confiar no ensino de filosofia no Brasil? Tenho para mim que Olavo de Carvalho é o único autor brasileiro de peso hoje a tratar a filosofia como busca real da verdade objetiva. Se o leitor conhecer mais um, avise-me!)

Assim, que nenhum cristão se engane: o marxismo é anticristão e, por onde quer que tenha se imiscuído, tem se engajado em uma persuasiva apologia à destruição do cristianismo e dos valores que fundaram a civilização judaico-cristã. Quem duvida disso pode ficar com as palavras do próprio Marx:

“O comunismo começa pelo ateísmo.”

"Quero me vingar Daquele que reina lá em cima."


“Com desprezo, bato no rosto deste mundo com minha luva e observo a queda deste anão-gigante, sem que esse fato possa sufocar meu ódio. Tal como Deus, vitorioso, caminharei através dos escombros deste mundo, atribuindo à minha palavra um poder ativo. Sinto-me tal como o Criador.”

“Em uma palavra, odeio todo Deus.”

“O que é verdadeiro não é a realidade, mas o que me é útil.”

“Há verdades eternas como a liberdade, a justiça etc., que o comunismo destruirá. Ele suprimirá a religião, a moral, em vez de reorganizá-la. Sei que estamos em contradição com relação à evolução histórica, tal como a conhecemos até aqui. Qualquer que seja a forma que uma exploração tenha adotado, ela é um fenômeno constante em todas as épocas. A revolução comunista é a ruptura mais radical com todas as formas tradicionais de propriedade; não nos espantemos, portanto, se ela liquidar também, de forma radical, com as idéias tradicionais.”


Lênin também era bastante eloqüente ao demonstrar o tamanho da hostilidade que está no coração do comunismo:

"Eu sou inimigo pessoal de Deus."

"Prefiro um milionário ou um capitalista que negue Deus a um camponês ou operário que creia Nele."

Hoje, na época das espertas sutilezas, não dá mais tanto ibope pintar tão vivamente esses ódios. Mas eles estão bem atuantes por trás das palavras adocicadas. Sob as cores mais suaves das recomendações de Antonio Gramsci – que pregava uma revolução light, não pelas armas, mas através da ocupação de espaços na mídia, na educação, na cultura – , o marxismo está mais forte que nunca no Brasil. Nas escolas, ensina-se que a guerrilha é linda e que o socialismo é bom, idealista, preocupado com o homem. Nas universidades, as teorias mais ensinadas são sempre as de fundo ou inspiração marxista – o que é muito diferente disso sequer é conhecido. Nas igrejas, os evangélicos reproduzem a tônica esquerdista, e seus pastores se formam em seminários cujos professores, na maioria neoliberais, têm as mesmas leituras relativistas da academia. Isso explica por que o esquerdismo é a tônica de todas as vozes mais ouvidas no país. Mas o principal interesse do esquerdismo nunca é revelado: negar Deus com o objetivo de desviar todo impulso religioso para instâncias de poder humano, que passam a manipular de modo transcendente, sem limites, até mesmo a alma do povo. Diante disso, os cristãos não devem se espantar com o pesado clima que têm de suportar há décadas. Devem, sim, procurar se informar e orar, orar muito, para que não sejam pegos de surpresa quando a adoração ao Anticristo estiver totalmente às claras.

05 fevereiro 2006

O Antianticristo

Querido amigo e irmão em Cristo, além de companheiro de ênfases antiesquerdistas, Henri Levinspuhl passou de discípulo de Nietzsche a seu mais diligente detrator ao se converter. Escreveu O Antianticristo, em que combate aforismo por aforismo da obra do filósofo. Não deixe de ler. Aqui, deixo aos leitores um trecho do prólogo, que trata do desprezo pela verdade que caracteriza nossa época. Fica como um aviso sobre a triste possibilidade de adesão involuntária aos conteúdos que eu denuncio neste blog: o esquerdismo, que corrompe o desejo transcendente pelo bem ao positivar meios escusos para fins imaginários e reforçar maximamente o poder humano; o imanentismo, que declara a ausência de valores eternos e, imune a todo modelo, chama belo ao feio; e o relativismo, que destrói a inteligência ao atentar, em linguagem e em atos, contra o verdadeiro.

É um tenebroso momento na história da humanidade, com populações inteiras convertidas em esquadrões inconscientes na luta para extirpar, do coração humano, o apreço pelo que mais lhe convém. E quem ainda não notou o quanto interessa à astúcia alistar a sinceridade no exército da mentira, deve começar a precaver-se, não lhe suceda confiar na astúcia, e assim propagar a calúnia; não lhe suceda transmitir, e como se fora a maior das verdades, o engano que o calunioso sabe fraudulento. Porque deveras convém à maquinação que, em seu lugar, alguém transmita a mentira sinceramente, e mesmo inflame-se com sentimento de justiça inconformado, ao passo que imputa à verdadeira justiça algo medonho. E embora atrair a sinceridade para o apostolado da calúnia seja a obra de uma velhacaria rematada, a sinceridade só se entrega a um servicinho sujo desses se contaminada de malícia.

04 fevereiro 2006

A mentira do golpe de 64

O golpe militar de 1964 foi arquitetado pela CIA, certo? É o que pensa a maioria dos brasileiros. No entanto, esse mito foi desmascarado pelo ex-espião Ladislav Bittman, que revelou em livro que tudo não passou de um bem articulado projeto de desinformação de autoria da KGB. Duvida? Então leia até o fim.

Bittman foi membro do Partido Comunista da Tchecoslováquia desde a juventude. Entrou para o departamento de desinformação tcheca, órgão sob a direta supervisão soviética, e lá ficou durante 14 anos. Decepcionado com o comunismo, ele deixou a função e o partido em 1968, tendo que fugir para o estrangeiro com a família e pedir asilo aos Estados Unidos, país que havia aprendido com os comunistas a odiar. Mora lá desde então, e só pôde rever sua cidade natal, Praga, em 1994, quando seu decreto de morte foi revogado. Trabalha como professor na Boston University, onde leciona a cadeira “Disinformation and the Press”, relatando os planos comunistas que ajudou a implantar em seus anos como agente. No país que o acolheu, ele já é considerado uma das maiores autoridades em desinformação.

A América Latina foi um dos grandes alvos de desinformação pelo comunismo soviético. Em seu livro
The KGB And Soviet Disinformation. An Insider's View (Washington, Pergamon-Brassey's, 1985), Bittman conta que na época o alvo geral era disseminar e reforçar o anti-americanismo de forma artificial em todo o continente. Para isso, as metas específicas principais eram: virar a opinião pública contra o secretário-assistente de Estado, Thomas A. Mann, convencendo os latino-americanos de que sua política era de interferência e pressão econômica sobre seus países, e criar a impressão de que a CIA planejava golpes contra os governos do Chile, Uruguai, Brasil, México e Cuba. O autor relata em detalhes como foi forjado, no Brasil, o mito de que a inteligência americana foi a grande responsável pelo golpe militar de 1964. O processo foi o seguinte:

1- A agência de desinformação pôs para circular três falsificações:

- um press-release com o carimbo da Agência de Informação dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, “denunciando” a política imperialista de Thomas Mann

- panfletos de uma organização inventada, "Comitê para a Luta contra o Imperialismo Ianque", “denunciando” a presença no Brasil de agentes da CIA, do DOD e do FBI disfarçados de jornalistas, diplomatas e homens de negócio

- a mais ousada: uma carta que dava crédito ao FBI e à CIA pela execução bem-sucedida do golpe militar, “assinada” por J. Edgar Hoover, diretor do FBI

2- O jornal brasileiro O Semanário – que depois Bittman confessou ser de
propriedade da KGB – publicou notícia sobre a falsificação, atacando Mann.

3- O embaixador americano no Rio de Janeiro negou a existência de tal política e a emissão, pela embaixada, daqueles press-releases. Mas as mentiras continuaram a circular.

4- Jornais em toda a América Latina publicaram as “notícias” sobre a suposta política linha-dura de Mann de “favorecimento de golpes de Estado” e “enfraquecimento de Cuba”. Thomas Mann se tornou um símbolo do imperialismo americano. Estava criado o mito.


Já faz 20 anos que o livro foi publicado. Mas nenhum jornal brasileiro noticiou o fato ou procurou Bittman para uma entrevista - nem na época, nem depois. Professores continuam ensinando que a inteligência americana planejou e executou o golpe militar. E o governo ainda quer que continuemos enviando nossas crianças às escolas, proibindo os pais de educá-las em casa. A quantidade de distorções que os alunos precisam engolir parece alarmante para qualquer pai que, por estar um pouquinho mais informado que os outros, tenha a paciência de folhear os livros didáticos de história. A mentira de que a CIA foi está por trás de 1964 é apenas uma delas.

Bittman é enfático ao afirmar em suas aulas que as estratégias de desinformação continuam a vigorar em todo o mundo. Talvez até mais sofisticadas, imagino – por exemplo, com técnicas de Programação Neurolingüística e semelhantes. Assim, quem reclama da baixa qualidade de nossa mídia – jornalismo uniforme e mal escrito, televisão insossa, revistas com pouca informação relevante – está sendo gentil demais. Povoada, no mínimo, de simpatizantes do comunismo, nossa mídia é mentirosa mesmo. O único veículo que teve a coragem de romper o silêncio sobre Bittman e suas estrondosas revelações para a história brasileira foi o
Mídia sem Máscara, cujo editor, Olavo de Carvalho, também tratou do assunto na revista Época e no Globo, mas não foi ouvido ao sugerir que os jornalistas brasileiros fossem atrás da informação. Se eles fossem imparciais como todo jornalista deve ser, teriam entrevistado Ladislav Bittman. Teriam buscado a verdade. Mas “verdade” hoje, para a mídia e a educação brasileiras, parece ser um conceito absolutamente maleável – tal como para os agentes da desinformação comunista.

Não faça como a maioria dos brasileiros. Digite "Ladislav Bittman" no Google. Leia o livro. Agora que estamos passando por um furor esquerdista na América Latina, capitaneado por Hugo Chávez, não ajude a reforçar mentiras destinadas a favorecer o regime político mais centralizador, sanguinário e corrupto de todos os tempos, que ainda podem nos custar muito em nosso continente. Informe-se e tome posição o quanto antes.

01 fevereiro 2006

Novo artigo no MSM

Saiu artigo meu no Mídia sem Máscara:

O pastor brasileiro e a "direita religiosa fundamentalista"

É uma pena que a quase totalidade (pelo menos, sua parcela midiatizada) dos pastores do Brasil comungue com os ideais e propósitos das esquerdas. Um misto de doutrinação escolar, falta de informação e preconceito com relação à "direita" - temperado ainda, por que não dizer, por um certo infantilismo intelectual (dominante entre nós evangélicos, infelizmente) - os leva a isso. Tomara que esse texto os alcance. Pode incomodar um pouquinho, mas talvez seja útil para, ao provocar questionamentos, pelo menos equilibrar entre nós o debate político e matizar tais adesões, ajudando ainda a precaver os mais teoréticos contra as empulhações relativistas que costumam acompanhar todo filhote de marxismo.

Boa leitura!

29 janeiro 2006

"Felix Culpa"

Uma vez, preguei todo o plano da salvação a um amigo em uma mesa de restaurante. Comecei pelo significado de pecado original, que consistia no rompimento do homem com Deus, e de como, a partir daí, a morte havia entrado no mundo. Ponderei que, afastado de Deus (que é vida), o homem passou a ser como um morto-vivo, necessitando reconciliar-se com Ele. Falei de como o próprio Deus havia amorosamente preparado essa reconciliação, mandando seu Filho para morrer a morte que nos estava destinada, em nosso lugar – e que era por isso que a Bíblia afirmava que Cristo “morreu por nós” e “matou a morte na cruz”, assim como diz aquela conhecida ladainha católica, “Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós”. E que era precisamente nessa reconciliação oferecida a nós pelo próprio Deus, um perdão incondicional de todos os nossos pecados, que consistia o que costumamos chamar “graça”. Bastava o homem assumir seu mal, assumir que sem Deus sua vida orienta-se mais para o mal que para o bem, arrepender-se desse estado-de-ser longe de Deus (que é um estado de falsidade, já que Ele nos criou para sermos com Ele) e receber a reconciliação como um presente de vida eterna – o maior que alguém pode receber.

Foi uma longa explanação e, justiça seja feita, ele me ouviu atentamente. No final, porém, confessou-me com simplicidade:

– Faz sentido e é uma história bonita, mas não me diz nada pessoalmente.

Na hora voltei meus olhos (interiores) para Deus. O que mais posso fazer, Senhor? Fiz minha parte, agora é contigo. Isso faz uns seis anos e esse meu amigo não se converteu.

Outra vez, falei da graça a uma amiga, com quem tinha compartilhado vários anos de crença comum no espiritismo. Eu havia me convertido recentemente e estava louca para conversar com ela sobre minhas descobertas. Quando mencionei a salvação pela graça, ela pareceu de súbito ficar furiosa:

– Que absurdo! E onde ficam os méritos da pessoa? Que Deus injusto é esse?

Calei-me. Não havia mais o que dizer depois dessa. Aquilo que havia sido uma verdadeira libertação, para mim, soava como “injustiça” para minha amiga.

Nunca me vi como uma pessoa boa. Nunca fui capaz de nenhuma maldade intencional ou visível, mas, sempre atenta ao que ia dentro de mim, sabia que, de acordo com as circunstâncias, nem eu nem ninguém estaríamos livres de cometer grandes males. Essa sensação me acompanhava desde criança: a consciência do mal. De modo que, há dez anos, quando pregaram de forma bem simples a graça de Deus para mim – o perdão incondicional de todos os meus pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz – , minha reação foi de grande surpresa e alegria. Pensei, na hora: “Por que é que não me disseram isso antes? Então é isso o cristianismo? Se eu soubesse, já era cristã há muito tempo!”

Jesus disse uma vez à multidão que o acompanhava (em Mateus 5:20): “Se vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.” Porque Ele sabia que os escribas e fariseus, apesar de sua erudição religiosa e seu vasto conhecimento bíblico, não se viam como pecadores, mas tinham a si próprios em alta conta. Não enxergavam mal algum em aproveitar-se das viúvas pobres. Não expunham suas fraquezas, mas alardeavam uma falsa piedade orando em lugares públicos. Contentavam-se com a aparência do bem - e, por estarem de olhos fechados para o próprio mal, eram “cegos guias de cegos”. Não sei até que ponto eles estavam conscientes da mentira em que viviam. Porém, a aguda consciência do mal é o primeiro passo para a reaproximação de Deus. A esse abençoado sentimento, os católicos chamam de “felix culpa”: culpa feliz, a culpa que nos leva a Deus para sermos perdoados. É quando sabemos que a nossa justiça, nossos atos, nossas autojustificações nada são diante da Bondade Suprema que é Deus, e nos rendemos a Ele para que Ele nos salve de nossa inclinação sempre perversa e nos guie em Seu caminho.

Sabemos então que esse é o único modo de vida possível: com Ele. É Jesus que expõe da forma mais contundente aos discípulos essa co-participação e dependência de Deus ao afirmar categoricamente “Sem mim nada podeis fazer”, presentificando-se como “o caminho, a verdade e a vida”. Sem Ele não passamos de mortos-vivos fingindo que estamos vivos; com Ele, temos a vida plena e verdadeira, pois Ele é a vida e jamais planejou que fôssemos coisa alguma sem Ele. Essa descoberta é o que nos faz sentir incompletos em nossa humanidade e, ao identificar a causa da incompletude, exclamar como Santo Agostinho no início de suas Confissões: “Tu nos criaste para ti, Senhor, e nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.”

25 janeiro 2006

Momento Plim-Plim

O editor do ótimo site Teologia Brasileira, Omar de Souza, me escreve para avisar sobre a referência ao Flor de Obsessão em matéria sobre o blog Outro Deus. Como vêem, esta flor já está ficando famosa! Estou na excelente companhia de Gilson Santos e de meu amigo Felipe Sabino, do generoso site Monergismo.

Notinha confessional: Quando postei os comentários no blog dos dois pastores, nem de longe imaginei que fosse haver essa repercussão toda. Lembro que alguém me escreveu mencionando as polêmicas teológicas do blog, e eu, um tanto despretensiosamente, fui lá e comentei um monte de coisas para sacudir o debate. Tomei um grande susto quando o blog acabou e achei uma pena, pois gostaria de continuar discutindo. Alguns amigos me disseram que foi melhor o blog ter acabado, pois era visível que as opiniões ali causariam crise em algumas pessoas. Não sei. Pode até ser, mas, de minha parte, sempre prefiro os argumentos todos postos à mesa, endossados ou contestados abertamente, em vez do mais freqüente protecionismo presente nas igrejas. Na verdade, fico na dúvida: até que ponto os membros da igreja brasileira estão preparados para debater certos assuntos? Por outro lado, se nunca o fizerem, quando e como irão aprender a se defender de desvios doutrinais ou lógicas falaciosas? Esse é o ponto.

Há pregações e obras suficientes para incrédulos e novos convertidos. Creio que a igreja deve se ocupar mais com o crescimento dos que já estão maduros em Cristo para que se fortaleçam e, como diz Paulo em um de meus versículos favoritos, não se conformem com o mundo, mas se transformem pela renovação da mente para experimentar "a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2). Com a graça Dele, quero contribuir para isso.

24 janeiro 2006

Artigo no MSM sobre a lei da palmada

Saiu artigo meu no Mídia sem Máscara - O Estado educa - sobre essa lei absurda, prestes a ser aprovada no Senado, que proíbe os pais de aplicarem qualquer tipo de castigo físico aos filhos. A lei traz em si o germe de sérias cisões familiares e faz avançar, mais uma vez, a voraz máquina estatal para cima do direito dos pais, tal como na última constituição, que criminalizou a educação em casa (homeschooling). Pouco importa se você é a favor ou não da palmadinha educativa: o Estado resolveu decidir por você.

O tema também é tratado na segunda parte deste artigo de Olavo de Carvalho. A primeira, obrigatória para todos os cristãos, descreve as estratégias para a incansável guerra moderna contra as religiões, principalmente o judaísmo e o cristianismo. O texto está imperdível e ainda traz, no final, várias sugestões de leitura e links importantes sobre os dois assuntos.

22 janeiro 2006

Políticos e a verdade

"O mundo encantado da enganação tucana". Leiam esse texto do Elio Gaspari no Globo de hoje. Funciona como um termômetro do quanto os brasileiros (no caso, dois políticos) perderam toda consciência de que além de si mesmos há mundo exterior, com pessoas de verdade.

Os dois políticos fizeram visitas ao posto de saúde de Cidade Tiradentes e ao hospital Souza Aguiar, no Rio. Foi como se desfilassem por um palco: um pediu para a enfermeira fingir que estava funcionando o aparelho de pressão que lhe colocaram no braço, para não fazer feio diante dos jornalistas e fotógrafos; o outro alugou aparelhos de ar-condicionado só para a visita, dando a entender que os eminentes ocupantes de cargos distintos merecem ficar no fresquinho - o povo que se dane.

O título da reportagem é bastante expressivo. Afinal, a postura dos dois políticos em tudo nos faz lembrar uma peça de teatro. O papel dos que estavam à volta, para aqueles dois, era eminentemente decorativo - parte da bela imagem que deveriam mostrar aos eleitores-espectadores. Trataram os doentes que vinham ali buscar socorro como bonecos de plástico, que poderiam muito bem passar sem aparelhos de pressão e sem ar-condicionado. Isso é que é negar a realidade fora de si.

É isso aí, acadêmicos, continuem dizendo que toda verdade é uma construção. Os políticos agradecem.

21 janeiro 2006

A teologia da modernidade

A politização de todas as teorias, principalmente nas áreas de humanas, é uma das mais fortes marcas da modernidade, quase invariavelmente comprometida com o esquerdismo. Na literatura, a vertente "Estudos Culturais", inspirada em Foucault, reduz todos os movimentos, estilos e autores a expressões de "minorias"; é assim que surgem os inacreditáveis rótulos como literatura feminina, literatura gay. Seus adeptos elegem o grau de comprometimento político como critério máximo de valor litérario e até Shakespeare é julgado negativamente por não pôr em suas peças palavras libertárias na boca de criadas e demais “oprimidos do sistema”. (Quem não acredita, leia Literature Lost, de John M. Ellis.) Fora dessa vertente, há outra linha falsamente rival, também toda embebida de Foucault. Seus partidários fingem uma postura mais blasé e cospem de lado ao mencionar os Estudos Culturais como "redutores da literatura", mas acabam adotando a mesma politização ao proclamarem, foucaultianamente, que todo discurso sobre a verdade é uma tentativa de dominação política - e com base nisso não só negam a existência da verdade, mas condenam com vigor doutrinas que a defendem, principalmente o cristianismo. Não admira, diante desse quadro, que a academia seja predominantemente anticristã.

É quase tedioso verificar o quanto essa tendência uniformiza os discursos nas salas de aula e nos corredores das universidades. A mim só não me entedia porque sofro há anos com essa situação. Porém, tenho sofrido muito mais ao ser obrigada a reconhecer que a politização esquerdista, com seus irmãos naturais imanentismo e relativismo, enraizou-se – e há muito! – no ambiente em tese menos propício a ela: igrejas e seminários, mesmo os que se confessam, de boca, ortodoxos.

Sobre isso, o abençoado blog O Tempora O Mores tem trazido análises acuradas sobre a infiltração desse amálgama de política, imanentismo e relativismo na teologia, que é a nova forma que muitos encontraram para se dizerem protestantes – “nova” para quem não conhece a história, plena de mistificadores. Em teologuês, esse caldeirão funesto se chama liberalismo, ou neoliberalismo – que é o liberalismo mais sutil e mais esperto, travestido não só de alta intelectualidade e liberdade de pensamento, mas, muito pior, de fé verdadeira. É assim que pastores e professores de seminários têm estragado a fé sincera e simples de muitos estudantes e, graças a Deus, indignado a outros que não caem em suas armadilhas verbais. Um dos leitores do blog citado, Josaías, trouxe nos comentários a um post de Solano Portela um impressionante exemplo do quanto o (neo)liberalismo e o esquerdismo estão intimamente associados ao contar a história de professores que gostam de tratar o Antigo Testamento como ficção, reduzindo-o a irrelevantes manifestos sociopolíticos. E ainda o fazem de forma profundamente desonesta, ao posarem de verdadeiros convertidos.

Diante disso tudo, dá até para brincar de matemática:

esquerdismo = relativismo = imanentismo = anticristianismo = desonestidade intelectual = fingimento = enganação do povo = NEOLIBERALISMO TEOLÓGICO

Precisamos orar muito para Deus tocar esse pessoal para longe dos seminários e trazer para dentro os cristãos verdadeiros. Um grande movimento de denúncia na internet, nas igrejas e nos seminários também seria uma ótima opção. Não suporto mais a idéia de que o ensino da Bíblia esteja vinculado a ideologias do Anticristo. Isso se chama prevaricação. E seus autores não sairão disso impunes se deixarem de se arrepender, pois, como diz a Palavra cuja verdade eles desprezam, nosso Deus é fogo consumidor.

17 janeiro 2006

Reter o que é bom

Ouvi com certa tristeza um amigo contar que, ao saberem que o autor Henri Nouwen (que ainda não li, mas encabeça minha lista) é católico, alguns evangélicos se levantam, indignados, para protestar junto à livraria que lhes vendeu o livro ou à editora que o publicou. Sentem-se ludibriados, pois. Ora, eu costumo circular entre gente que conhece bem o evangelho, pastores e professores de seminário (cristãos de verdade, não liberais), e só ouço elogios rasgados a Nouwen. O que me leva a pensar: os cristãos protestantes que rejeitam Nouwen somente por ele ser católico, sem lê-lo, estão ignorando um dos mais elementares princípios paulinos, provar de tudo e reter o que é bom – recomendação que nos encoraja a buscar o discernimento em vez de nos fecharmos para o mundo, em vez de colocar apressadamente em tudo rótulos maniqueístas com base em primeiras impressões ou em uma cultura evangélica excessivamente voltada para si.

Por outro lado, há muitos cristãos que abusam do princípio, retendo mais do que se deve a partir de conteúdos claramente anticristãos. É o caso de quem vai estudar filosofia e presta mais atenção a um Nietszche que a um Voegelin. Enquanto o primeiro exalta valores claramente contrários ao que Jesus ensina, o segundo realiza um esforço monumental para repor a transcendência no centro de seus estudos – tentando reverter aquilo que pode ser atribuído a boa parte dos filósofos franceses desde a Revolução, que declararam guerra à metafísica e se nutrem de um fundo imanente para todas as suas teorias. Por causa disso, essa tendência imanentista é hoje tão dominante nos cursos universitários que menções ao transcendente não são bem-vindas em aulas e trabalhos acadêmicos, mas rechaçadas como algo ultrapassado ou restritivo à liberdade – no melhor estilo revolucionário, com sua forçada construção do ateísmo como intrinsecamente “libertário”, orientação seguida à risca por Marx, Foucault, Deleuze e outros, e adotada por muitos estudantes universitários que não têm acesso a outras leituras.

Algumas dessas leituras, tão contrárias ao ateísmo quanto ao esquerdismo, são esquecidas pelo meio educacional brasileiro por causa da pecha de “direitismo”. Ora, sem se livrar desse tamanho preconceito, a intelectualidade evangélica dificilmente sairá do atoleiro dos autores imanentistas, porque grande parte dos autores que os contestam é mesmo anti-esquerdista – mas com grande conhecimento de causa. Aos progressistas evangélicos, uma sugestão, portanto: que tal aplicar o princípio do “reter o que é bom” ao que tão desdenhosamente tem sido chamado de “conservadorismo” ou “fundamentalismo”? Garanto que mais pérolas seriam achadas ali onde mais se despreza, enquanto o resultado de leituras marxistas e nietszcheanas descuidadas costuma ser a confusão mental, quando não o esfriamento da fé. Afinal, não se pode esperar muito de quem nega todo princípio transcendente, colocando o homem como fim e medida de todas as coisas.

Sugestão de autores: Eric Voegelin, René Girard, Louis Lavelle, Paul Johnson, Olavo de Carvalho, Mário Ferreira dos Santos, Ortega y Gasset, Viktor Frankl, Hannah Arendt, Martin Buber, Constantin Noica, Julián Marías, Xavier Zubiri, Chesterton, Dostoiévsky. Nenhum deles imanentista. Todos de inestimável valor. Para saber mais, vale a pena uma olhada no blog da minha amiga Isabela, Virtue.

P.S. Nunca é tarde para se corrigir. Meses mais tarde, em fevereiro de 2007, li um livro de Nouwen pela primeira vez. Trata-se de um dos piores livros que já tive o desprazer de ler em toda a minha vida. Confira por quê nesse post.

Regras para comentários

Devido às más experiências com comentários inarticulados ou desagradáveis dirigidos a mim e também a leitores do blog, decidi acionar o esquema de moderação. Aqui estão os critérios:

1. Educação. Mensagens com palavras ou conteúdos ofensivos ou beirando a ofensa - por exemplo, com acusações sem explicação ou insinuações gratuitas - serão deletadas sem dó nem piedade.

2. Articulação. Mensagens com tantos erros de português que chegam a impedir sua compreensão serão ignoradas, até que seu autor se esmere mais para se fazer ouvido.

3. Relevância. Há mensagens que deixam a gente sem vontade de responder, porque parecem mais motivadas por implicância gratuita que por desejo de diálogo. Se houver discordância do conteúdo postado, prefiro receber comentários que argumentem de modo devido, e não simplesmente joguem ao léu afirmações sem explicação como "Norma interpretou mal o texto de Fulano, ponto".

4. Autoria. Não aceitarei comentários de anônimos, a não ser que a pessoa tenha dificuldades técnicas para postar com seu nome e o faça no final do texto.

Creio que é só. Ufa! Demora, mas a gente aprende com as experiências negativas. :-)

Ordem na casa

Tenho me ausentado bastante do blog por causa de problemas com a internet, mas pelo que estou vendo a casa está precisando de uma boa arrumação. Os comentários ao post sobre o falecido blog de Gondim e Kivitz "Outro Deus" têm ultrapassado limites que, dada a natural polidez dos meus textos, nunca pensei que pudessem ultrapassar. Há pessoas que têm publicado uma quantidade impensável de comentários, algo como cinco ou seis por dia no mesmo post! Mas o problema não é só esse. Indignados com o que eu disse sobre o blog deletado, os comentadores têm argumentação capenga, erros de português, palavras atravessadas a mim e a outros leitores - de modo que começa a se tornar penosa, para mim, sua leitura, e mais: essa enxurrada de comentários salgados pode desestimular a voz de outros leitores, e isto é o que quero evitar mais que qualquer outra coisa.

Sendo assim, a partir de hoje tomo a iniciativa de moderar os comentários, que para serem aceitos precisarão demonstrar educação e cuidado. A partir de hoje, na medida do possível com minha internet deficiente, deletarei comentários mal-educados ou pobres de conteúdo. O macete é o seguinte: os leitores deverão imaginar que estão na minha casa, em uma festa, numa animada roda de amigos; assim, serão ouvidos segundo a polidez e a relevância do que disserem. Não deletarei nenhum dos comentários até então, para que fiquem como exemplo para os outros; mas, a partir de hoje, quem vier aqui para dizer que eu me acho "a dona da razão", para dizer que eu tenho "um grave problema de interpretação de texto" ou para acusar leitores de "orgulho" deverá: 1. Moderar suas palavras. Esses comentários chegam muito perto do insulto e não irei mais tolerar isso. 2. Embasar suas opiniões com argumentos. Por exemplo, quem acha que eu interpretei mal o texto de Gondim deverá dizer, de modo bem explicado, por quê. Senão, seu comentário perde a relevância e, mesmo que contenha palavras moderadas, torna-se um insulto à inteligência de quem lê meu blog. Essas são as regras. Quem desrespeitá-las ficará falando no vazio e perderá seu tempo ao postar aqui.

Observação aos leitores polidos: não reparem no tom irritado deste texto; é porque as coisas saíram um pouco do controle sobre o blog Outro Deus e agora estou tentando usar de um pouco de mão firme para evitar (ou diminuir) a bagunça.

02 janeiro 2006

Aos leitores, Feliz 2006!

Aos leitores do blog, quero agradecer o carinho expresso não só nos comentários, mas também nos e-mails que recebo. Tenho para mim que a internet potencializa de modo maravilhoso o contato entre autor e leitor, algo que vislumbro como um ideal e desfruto com grande alegria.

Quero também partilhar com cada um de vocês uma reflexão de ano-novo. Se o ano começou bem para você, agradeça a nosso querido Deus, que Dele vêm todas as bênçãos; se começou não tão bem quanto você queria, não se preocupe: Ele não permite sequer que um fio de cabelo nos caia da cabeça sem que seja dado previamente o Seu sim (Lucas 12:7). Somos limitados e frágeis, não podemos controlar nosso destino; mas o cristão sabe que é justamente naquilo que não podemos controlar que Ele costuma mexer de modo mais profundo. Assim, quando me sinto impotente, é quando mais posso descansar - descansar Nele, e confiar que Ele é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo que pedimos, pensamos, esperamos.

Feliz 2006, com a paz que excede a todo entendimento e a esperança que só o Senhor pode proporcionar a seus filhos amados! É o que desejo de todo coração.

Grande abraço a todos!

Norma

31 dezembro 2005

História triste de bailarinos


Eles se viam ao longe e já se amavam. Admiravam o contraste recíproco dos gestos - doces, para a bailarina, viris, para o bailarino - e ansiavam por dançar juntos um dia.

Naquele que seria, finalmente, seu primeiro ensaio com a bailarina, o bailarino, muito nervoso, subiu ao palco percebendo-se de súbito despreparado e sem vigor suficiente para uma dança com ela. Não lhe disse nada, mas levou adiante seus movimentos e intenções de movimentos. A bailarina, no entanto, sentiu a hesitação do parceiro. Diante disso, ela se viu invadida por um ímpeto de indignação e não se furtou a continuar a dança, mas quis intensificá-la lançando-se com fúria na direção do bailarino para que ele a tomasse nos braços e a transportasse pelo ar. Assustado com a força desmedida da parceira em sua direção, o bailarino não pôde erguê-la graciosamente, mas a conteve com as mãos estendidas, interrompendo toda promessa de movimento conjunto. Tão rápido quanto começou, o ensaio estava terminado.

Depois do esforço, a bailarina confessou que não poderia ter agido diferente, pois precisava da segurança do parceiro para continuar dançando com leveza. Com os dedos machucados, o bailarino prometeu a si mesmo que jamais dançaria com ela novamente. Ela acha que ele poderia tê-la segurado apesar do impulso desmedido; ele crê que ela não poderia ter saltado para ele daquele jeito. Separaram-se sem compreenderem exatamente no que consistira o drama. Ainda se admiram e se amam ao longe, mas já não ousam dançar juntos. Ele ainda esfrega os dedos de nervoso, ela teme ser deixada no chão quando queria voar em seus braços.

28 dezembro 2005

Protestantes e católicos

À parte algumas diferenças doutrinais importantes, muitos evangélicos crêem que há católicos salvos (e vice-versa). Incluo-me entre tais evangélicos. Porém, uma experiência recente me fez chegar a uma conclusão: não há como ter uma comunhão tão profunda entre os cristãos dos dois "braços" como há entre os cristãos de mesma igreja. Infelizmente. Há concessões muito pesadas para ambos os lados.

É significativo que o papa João Paulo II tenha afirmado sobre os protestantes que eles são "nossos irmãos separados". Filhos de mesma mãe, sim, mas para os católicos a mãe é a Santa Igreja. Esta é a questão: para os católicos, os protestantes serão sempre os filhos ingratos, que saíram do lar e rejeitaram a própria Mãe. A coisa só piora se pensamos em Maria, a quem não prestamos a mesma reverência que eles. E que filho teria uma boa convivência com um irmão que negou seu berço em comum? De onde, para minha tristeza, concluo: um católico sincero não pode ver com bons olhos seu irmão separado protestante. Podem sair para almoçar de vez em quando, podem trocar conversas agradáveis sobre Deus, podem até ser excelentes amigos; mas há limites dolorosos que não devem ser ultrapassados. Portanto, projetos em comum, só até certo ponto. As diferenças surgirão fatalmente e eles terão que fazer como Barnabé e Paulo, que se separaram no trabalho de evangelização por não concordarem em alguns pontos, ainda que não centrais para a fé cristã.

Sobre casamentos entre protestantes e católicos? Não me perguntem; para funcionar, talvez um dos dois deva ceder bem mais que o outro. Ou seja: se ambos forem fervorosos e convictos adeptos de sua fé, não dá jeito. Não há coração aberto que resolva isso. Só no céu, acredito. O que não é solução, mas consolo.

27 dezembro 2005

Marx logofóbico

Não é à-toa que as teorias modernas em voga nas áreas humanas, sempre imanentistas, costumam ter um pezinho ancorado no marxismo. De acordo com Eric Voegelin, Karl Marx teria sido o responsável por um verdadeiro sistema doutrinário-religioso, centrado em um logos "intramundano", ou seja, na divinização do homem e na auto-salvação.

Segundo Voegelin, Marx afirma que sua dialética supera a de Hegel. Porém, para o autor, na prática Marx ignora conscientemente em seus escritos o problema hegeliano da realidade, recusando-se a teorizar. Ou seja, onde ele diz que é "anti-hegeliano", está sendo apenas antifilosófico, tão antifilosófico como a grande maioria das (anti)filosofias ditas "modernas" - que também recusam-se a lidar com o problema da realidade e, conseqüentemente, do conhecimento. Pretendem-se teorias e de fato teorizam, mas seu conteúdo costuma tratar da impossibilidade de teorizar - decorrente da impossibilidade de conhecer a realidade, decorrente, por sua vez, do niilismo que se apossou da filosofia desde o século XVIII, inspirado por Descartes, que inaugura a dúvida radical ao deslocar o mundo (a realidade) e o homem, separando-os. Pretensamente fora da realidade, flutuando em um espaço vazio de dúvidas criadas por sua mente, o antifilósofo descrê em tudo - menos em seu próprio pensamento, autor da dúvida. O que ele pensa passa a ser a realidade última, e tudo que vê e experiencia é mergulhado definitivamente em uma nuvem de irrealidade. A mente do antifilósofo é seu Deus, e em sua direção o mundo se curva devotadamente.

Marx foi um dos apóstolos desse Deus, ensinando a milhares que o mundo não passa de matéria moldável pela mente. Não admira que tenha ajudado a implantar sistemas que atribuíram tão pouco valor à vida humana: se o mundo se curva ao Deus-pensamento, as pessoas que passam pela nossa janela podem muito bem ser apenas projeções de nossa imaginação... Assim é a gênese de um sistema teórico que promove a autoglorificação como meta - um modo de ser que a todo instante precisa negar qualquer experiência de limitação humana, um ilusionismo perpétuo.

Por isso Voegelin trata a teoria marxista como antifilosofia e logofobia - uma aversão a conceitos que hoje está muito viva e atuante através da ênfase moderna na inexistência da verdade. Voegelin não exagerava ao dizer que Marx possuía uma verdadeira doença espiritual, caracterizada pela revolta da consciência imanente contra a ordem espiritual do mundo. Pois bem, essa doença é altamente contagiosa. Um cristão que siga Marx está abrindo portais gigantescos para sérios danos à sua mente e à sua fé.

Este post foi inspirado nos excertos de Voegelin publicados pelo blog Simply the Truth.
Mais sobre Descartes aqui.

18 dezembro 2005

Mensagem de Natal

"Não peço que os tire do mundo, e sim que os guarde do mal", roga Jesus ao Pai pouco antes de ser entregue às autoridades para ir à cruz, conforme nos narra João (17:15). Ele sabia que o que estava pedindo era indissociável de Seu ato de amor, ao oferecer-se voluntariamente para matar os pecados da humanidade com Sua própria morte. Sem Ele, jamais poderíamos alcançar esse estar no mundo sem ser do mundo – como Ele mesmo descreve Sua trajetória até ali.

Não podemos aceitar o mundo sem reservas, por causa do mal que encontramos nele; também não podemos recusá-lo por completo, pois isto seria recusar a própria existência. No entanto, sem Jesus o homem se vê obrigado a uma das alternativas: conformar-se ao mundo (tomar sua forma, explica-nos o apóstolo Paulo) e perder-se, perdendo a capacidade de discernir e ser diferente; ou desistir de tudo e sair do mundo, seja pela via direta do suicídio, seja pelos caminhos mais doces da fantasia indolente, das drogas, das utopias mortíferas, do isolamento, do trabalho excessivo, do sexo sem freios. E, ainda que não recorramos a nenhuma dessas maneiras brandas de autodestruição, sem Jesus somos do mundo mesmo quando queremos fugir do mundo, pois de alguma forma nos vemos obrigados a recorrer ao que nos está disponível, alinhando-nos na frente que tivemos de escolher por pura inevitabilidade.

No entanto, Jesus nos oferece algo que não está no mundo, mas se coloca infinitamente superior a tudo que nos é apresentado aqui – Ele mesmo, a transcendência verdadeira e pessoal. Com Ele a saída do dilema não se dá nem por um sempre desvantajoso pacto com o mal, nem por dissolução ou morte auto-infligida. Dá-se, sim, por morte simbólica: ao morrer concretamente na cruz e ressuscitar em seguida, Jesus nos convida a traçarmos com Ele o mesmo processo de morte e ressurreição. A morte simbólica de que sofremos é a morte para o mal que há no mundo – é o que a Bíblia quer dizer com "morrer para o mundo". A ressurreição é um renascimento em Cristo – é o que a Bíblia quer dizer com "viver para Ele". É assim que não recusamos a existência, mas a aceitamos como mortos para o mundo, ao matarmos em nós as duas pontas da idolatria e deixarmos de enxergar na não-transcendência o ápice de nossos desejos. Em Jesus, morrem a concupiscência e a soberba: desaparecem tanto o idólatra que compactua avidamente com o mal, olhando a tudo com olhos cobiçosos – como se esta fosse a realidade última – , quanto o desiludido que a tudo desdenha, de olhos que nada mais amam.

É Jesus quem nos livra desses dois extremos ao realizar essa tremenda façanha: dar-nos meios de matar em nós o cobiçoso e transformar o soberbo no amador, o que ama apesar, assim como o próprio Deus nos amou. Por isso dizemos com Paulo que, ao morrer para o mundo, não somos nós mesmos que vivemos, mas Cristo vive em nós. E, como Ele é a própria vida, sabemos que só Nele temos a vida plena e verdadeira.

Que neste Natal o Verbo que se fez carne realize mais uma vez o milagre do nascimento no homem que está perdido, e que renove em todos nós de modo maravilhoso as esperanças do amor incondicional – Seu grande e insubstituível presente para a humanidade.

16 dezembro 2005

Ainda "outro deus" e a tarefa de minha vida

Mataram o blog Outro Deus (ou deus). Eu e outros leitores perguntamos por quê, mas não fomos respondidos. Os dois pastores disseram que "aprenderam lições", mas não explicaram quais... Bom, eu, que não me conformo de ter perdido esse espaço de discussão (que prometia), vou ter de me contentar com explanar mais sobre o que já foi dito. (Ok, isso é uma ironiazinha boba.) Falei pouco sobre o post de Gondim que trata da Bíblia, e acho que o assunto merece mais. Vamos lá. (O que ele escreveu está em vermelho.)

1. A Bíblia não pode ser lida cientificamente. É preciso aprender a lê-la como narrativa simbólica da história, mítica e poética.

Até aí, tudo bem. O cartesianismo - que originou o pensamento científico - é ruim para a filosofia e para qualquer reflexão teológica, porque separa o racional do emocional, a mente do coração, o sujeito que pensa da coisa pensada, engendrando oposições falsas. E a Bíblia é mesmo recheada de símbolos, sobretudo Gênesis, Jó, Cantares. Mas essa afirmação deveria ter sido matizada, porque há uma grande distância, por exemplo, entre o livro de Cantares e as cartas de Paulo. Não há como ler as cartas de Paulo como "narrativa simbólica da história, mítica e poética", porque são textos argumentativos com um objetivo muito preciso: conclusões teóricas e práticas do AT e dos ensinamentos de Jesus. Paulo fez um esforço maravilhoso para sistematizar o que Cristo ensinou oralmente aos apóstolos, alicerçando a fé e a justificação na graça de Deus e ampliando Suas palavras para a organização da igreja, a vida conjugal, o trato com os irmãos. Os textos argumentativos falam mais à mente que à imaginação, organizando e estruturando o pensamento. Se tiverem conteúdos "simbólicos e míticos", eles visam a reforçar uma idéia, não constituindo a característica principal desse tipo de texto.

O esforço de tornar os Livros Sagrados um só texto é irreal. Não se pode querer fazer Abraão concordar com Paulo, e nem o Qohélet - Eclesiastes - com Tiago. A Bíblia não é só um livro, mas vários e eles não são homogêneos entre si. Seus autores discordam em vários assuntos.

Aqui já temos cheirinho de heresia. Se a Bíblia não é só um livro (o que aliás é ridículo, pois ela é, sim: senão, teríamos que desmontá-la toda), seguem-se várias conclusões que abalam o que estrutura nossa fé: por que ler a Bíblia como um livro só (começo e fim)? por que considerar a Bíblia Palavra de Deus, se ela contém contradições? Se eu levar esse raciocínio ao absurdo - isto é, for até o fim em todas as suas possíveis conclusões - , acabarei afirmando que não vale a pena crer em Cristo, porque a Bíblia inteira aponta para Cristo: se ela não é "uma só", as palavras contidas nela podem muito bem estar todas erradas, e eu estou perdendo meu tempo acreditando ter vindo da parte de Deus um livro que é apenas de homens. Em resumo: questionar a unidade da Bíblia é questionar a revelação divina sobre os homens que a escreveram. Desmonta todo o alicerce da nossa fé. Depois disso, como assistir tranqüilamente a uma pregação de Gondim, visto que ele vai abrir a Bíblia lá na frente crendo que ela não é uma só? Não sei se ele pensou direitinho em todas as conclusões possíveis do que afirmou.

2. A Bíblia não é um livro que se propõe uma revelação codificada e sistematizada de Deus. Ela mostra as percepções de pessoas, tribos, povos e, principalmente, do povo judeu sobre o cuidado de Deus para com seu povo. Ela não revela como Deus construiu a história, mas como os homens o fizeram e como Deus não os abandonou quando agiram mal. Muitas vezes, a compreensão do povo sobre Deus se mostrará ambígua, porque os homens são contraditórios.

"Codificada e sistematizada" realmente não, porque ela não é um tratado de filosofia - ela é bem mais que isso, pois um tratado de filosofia só pode apresentar conceitos, enquanto a Bíblia se propõe a apresentar uma pessoa: Deus, na figura de Jesus Cristo. A revelação de Deus na Bíblia é a revelação de uma pessoa que se apresenta aos homens, dizendo e fazendo coisas fantásticas. As "percepções" dos homens na Bíblia apontam todas para o Deus que hoje pudemos conhecer: onisciente, onipresente, onipotente, apaixonado pela humanidade, bom, gracioso, misericordioso, tardio para irar-se e disposto até a morrer por nós. Tais percepções se unem naquilo que é importante sabermos de Deus, e nisso a Bíblia é de uma unidade impressionante. Toda ambigüidade só se encontra na cabeça de Gondim, que, tal como Voltaire sobre uma tragédia de seu tempo, ficou questionando os desígnios de Deus sobre o Tsunami: "Como pôde um Deus de amor permitir uma coisa dessas?" Ora, bastava ele ir à Bíblia, que ele vê como fragmentária, e se render à evidência: o Deus do AT e o Deus do NT são um só. Deus é ao mesmo tempo criador e pai. Ele nos criou, Ele dispõe de nós como quer, de acordo com Sua infinita sabedoria. Trememos diante do criador e quedamos tranqüilos diante do Pai: eles são a mesma pessoa, mas com esses dois aspectos, que não são opostos, mas complementares. "Deus deu, Deus tomou: bendito seja o nome do Senhor." Como pode a compreensão de Deus Pai abalar a compreensão do Deus criador? Não entendo: para mim, são um só, e se um dia Ele resolvesse fazer um Tsunami na minha vida, eu seria muito burra de questionar Seu amor e bondade. Eu sofreria muito, tal como Jó, mas lhe pediria todos os dias para me explicar o sentido daquele Tsunami, em um esforço de integrá-lo na compreensão de minha vida como um todo.

3. A essência do ser de Deus continua um mistério para a humanidade. O que se conhece é seu cuidado - pathos - divino. Portanto, toda especulação sobre o ser absoluto de Deus deve ser considerada apenas especulação.

Gondim sofre de uma doença do pensamento, descrita por John M. Ellis em Literature Lost como "lógica do tudo ou nada". Nesse raciocínio ela se expressa assim: “se eu não posso saber tudo sobre Deus, logo tudo o que disser sobre Ele não passará de mera especulação”. O caminho do meio - posso não saber tudo sobre Ele, mas algo de objetivo e verdadeiro é possível saber - não lhe passa pela cabeça. Não admira: Ellis expõe essa lógica para afirmar que todo o pensamento moderno está tomado por ela. Os principais autores da modernidade teórica têm a mente estragada por essa incapacidade de enxergar nuances, e por isso dizem e repetem besteiras sem fim como "a verdade não existe", "tudo é subjetivo", "o sentido nunca é um só" etc. etc. Leio e ouço isso há mais de dez anos de educação superior. Ora, Gondim gosta de Marx, Nietzsche, Freud, Sartre "e outros"; Gondim se afina com a Teologia da Libertação; logo...

Mas não preciso ir tão longe: basta dizer que "especulação sobre o ser absoluto de Deus" faz tanto sentido como "especulação sobre o ser absoluto de Norma Braga". Uma pessoa está aí para ser conhecida, não para se oferecer como objeto teórico.
Gondim, se você puder me ler agora, entenda, por favor, algo que tem sido uma conclusão minha depois de anos estudando os autores modernos: a fragmentação da modernidade não é um antídoto para o cartesianismo. Os autores modernos propõem que seja assim, mas não é. A modernidade apenas aprofunda o fosso que Descartes cavou, só que, em vez de exaltar a razão, como era antes, resolve exaltar o outro lado, o lado desprezado pelo cartesianismo. A única coisa que enfrenta o cartesianismo com vigor é a unificação daquilo que ele separou. É saber que o universal não prescinde do particular, o objetivo do subjetivo, o abstrato do concreto, mas que são duas pontas da estrutura do pensamento humano. Escolher uma delas é aleijar a mente. Veja: a modernidade escolhe sempre o particular, o subjetivo, o concreto. É por isso que ela aceita um Deus pessoal, mas não um Deus que traz princípios morais objetivos para a humanidade. É por isso que hoje entendemos com facilidade um Deus de amor, mas não um Deus irado (antigamente era o oposto). É por isso que precisamos, hoje, com a mente de Cristo (presente da salvação), jogar fora esse lixo moderno que é apenas a doença vista por outro lado, e trabalhar com a pessoalidade de mãos dadas com a universalidade. Precisamos elaborar teoricamente, com a ajuda de outros autores, aquilo que restabelece a saúde do pensamento e dá suporte à nossa fé, para nosso próprio bem e o bem de muitos que virão depois de nós. Se Deus assim o quiser e permitir, essa será a tarefa de minha vida.