Editorial do Estado de São Paulo - 07/11/05
Resumo (com as palavras do artigo)
A internet é gerida pela Icann (Corporação da Internet para a Designação de Nomes e Números), uma entidade privada, sem fins lucrativos, que funciona no Estado da Califórnia. Administrativamente, a Icann está vinculada ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Esse é um dos motivos pelos quais se atribui aos EUA a hegemonia sobre a internet. Na verdade, o governo americano sempre respeitou os termos do memorando de entendimento pelo qual cedeu a internet ao uso público, não se conhecendo um só caso de interferência sua nas decisões da Icann.
Há dias, numa reunião preparatória para a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, em Genebra, representantes de vários países lançaram uma ofensiva contra o que chamam de “hegemonia norte-americana sobre a internet”. Os países mais ativos desse grupo são o Brasil, a Arábia Saudita, o Irã e a China. Pretendem atribuir as decisões políticas da internet a um organismo intergovernamental – e dizem que, assim, reforçarão o multilateralismo, a transparência e a democracia. Desse grupo, no entanto, só o Brasil permite que seus cidadãos utilizem, sem restrições, a internet. Os demais proíbem o acesso ou impõem severas restrições ao uso da rede, submetendo seus súditos a pesadas penas, em caso de infração. Estão interessados em tudo – principalmente em exercer o controle político da internet, ou seja, poder censurar seus conteúdos –, menos em multilateralismo, transparência e democracia. O grupo que quer destituir os EUA do “controle” da internet é constituído por países sem vocação democrática – exceto o Brasil – e com forte vezo estatizante – e aí o governo brasileiro não é exceção. Daí quererem que a internet passe a ser administrada pela União Internacional de Telecomunicações, organismo da ONU que representa os interesses dos monopólios estatais – cuja existência é ameaçada pela própria internet. A sobrevivência de um sistema inovador e relativamente livre da interferência estatal está sendo seriamente ameaçada.
De fato, já tem gente por aí (como um certo professor da USP bastante badalado na mídia) falando a favor de uma "gestão multilateral da internet, transparente e democrática, com a plena participação dos governos, do setor privado e de organizações civis". Em Novilíngua (leia 1984 e desconfie cada vez que alguém de esquerda falar em "democracia"), isto significa controle, sobretudo estatal, sobre os conteúdos lidos. Quem não quer que a internet seja controlada pelo governo, tal como é na China, no Irã e na Arábia Saudita (o que o Brasil está fazendo no meio desse pessoal, meu Deus?), levante a mão e divulgue esse horror anunciado!
Um esforço, com a graça de Deus, de recolocar o cristianismo na via dos debates intelectuais. Não por pedantismo ou orgulho, mas por uma necessidade quase física de dar nomes às minhas intuições e contornar o status quo das idéias hegemônicas deste mundo.
08 novembro 2005
07 novembro 2005
Violência em Paris (III): evasivas de Villepin
Deu no Figaro:
À pergunta "Por trás disso tudo não está a mão dos islamismo?", o primeiro-ministro [Dominique de Villepin] respondeu: "Claro que há uma preocupação sobre isso, sobre o islamismo como uma influência radical. Mas não creio que seja o principal, ainda que não se possa deixar de levar em conta esse dado. É preciso considerar com cuidado o conjunto dessas ações, mas não é o principal", concluiu.
Então tá. Em sua grande maioria de origem islâmica, vindos de países como a Argélia, os jovens das periferias de Paris, sustentados pelo governo com o seguro social (sem nem precisar trabalhar), estariam fazendo tudo aquilo para chamar a atenção do país para sua desigualdade social? Ou por serem vítimas de racismo? Quer dizer que tamanho ódio - capaz de inspirar adolescentes a assassinar a pauladas um homem diante dos olhos da família, ou a jogar gasolina e tacar fogo em uma senhora aleijada olhando fixamente em seus olhos - deve-se a insatisfação com uma condição de vida precária? E por que a suposta falta de dinheiro não impediu a instalação de uma fábrica de bombas clandestina em um dos bairros de periferia - quase como nas favelas cariocas? Quem é capaz de explicar isso sustentando a tese da pobreza?
Incrível: o politicamente correto parece ter lobotomizado a França. Das duas, uma: ou as afirmações do primeiro-ministro são produções abobalhadas de uma mente doente ("não é o principal, não é o principal..."), ou ele tem contas a prestar ao mundo árabe - a quem o governo francês tem apoiado sistematicamente durante anos. Houve bastante coragem para vender armas a Saddam Hussein em pleno embargo da ONU, mas cadê a coragem para enfrentar a realidade sobre os levantes?
O pior é brasileiro acreditando nisso tudo... Leiam o Primeira Leitura! Leiam o MSM!
À pergunta "Por trás disso tudo não está a mão dos islamismo?", o primeiro-ministro [Dominique de Villepin] respondeu: "Claro que há uma preocupação sobre isso, sobre o islamismo como uma influência radical. Mas não creio que seja o principal, ainda que não se possa deixar de levar em conta esse dado. É preciso considerar com cuidado o conjunto dessas ações, mas não é o principal", concluiu.
Então tá. Em sua grande maioria de origem islâmica, vindos de países como a Argélia, os jovens das periferias de Paris, sustentados pelo governo com o seguro social (sem nem precisar trabalhar), estariam fazendo tudo aquilo para chamar a atenção do país para sua desigualdade social? Ou por serem vítimas de racismo? Quer dizer que tamanho ódio - capaz de inspirar adolescentes a assassinar a pauladas um homem diante dos olhos da família, ou a jogar gasolina e tacar fogo em uma senhora aleijada olhando fixamente em seus olhos - deve-se a insatisfação com uma condição de vida precária? E por que a suposta falta de dinheiro não impediu a instalação de uma fábrica de bombas clandestina em um dos bairros de periferia - quase como nas favelas cariocas? Quem é capaz de explicar isso sustentando a tese da pobreza?
Incrível: o politicamente correto parece ter lobotomizado a França. Das duas, uma: ou as afirmações do primeiro-ministro são produções abobalhadas de uma mente doente ("não é o principal, não é o principal..."), ou ele tem contas a prestar ao mundo árabe - a quem o governo francês tem apoiado sistematicamente durante anos. Houve bastante coragem para vender armas a Saddam Hussein em pleno embargo da ONU, mas cadê a coragem para enfrentar a realidade sobre os levantes?
O pior é brasileiro acreditando nisso tudo... Leiam o Primeira Leitura! Leiam o MSM!
Artigo no MSM sobre a violência em Paris
Entenda a articulação que tanto a mídia brasileira quanto a francesa negarão até a morte: esquerdismo e terrorismo - não só em idéias, mas também em atos, sendo a França um país socialista que apóia a causa palestina, tendo inclusive vendido armas a Saddam Hussein em pleno embargo oil for food.
Quem fala disso no Brasil? Ninguém. Mas leia o Mídia sem Máscara e você vai ficar sabendo de muito mais. "Ah", você deve estar pensando, "mas o MSM é um reduto de paranóicos!" Bom, então leia não só o meu artigo, mas o artigo de Heitor de Paola, e rapidinho você mudará de idéia ao descobrir que todos esses escândalos do PT que estão estourando agora já eram matéria de especulação dos "paranóicos" há muito tempo. Confira!
Em tempo: o artigo de Nelson Ascher, da Folha de São Paulo, sobre os conflitos em Paris também está muito bom. Para quem não tem como ler, ponho aqui os dados relevantes apontados por ele, que ora confirmam, ora complementam o que escrevi:
- A condição econômica dos jovens insurgentes é melhor que a de 2/3 dos brasileiros, pois eles contam com o seguro do governo, podendo até mesmo deixar de trabalhar.
- Em maioria, eles são jovens muçulmanos do sexo masculino.
- A palavra de ordem do quebra-quebra é Allah Akbar (“Alá é grande”, em árabe).
- Os subúrbios de Paris têm estado cada vez mais perigosos, assim como as favelas daqui, um território com entrada vigiada e leis próprias.
- Mesmo com sua política sistematicamente pró-causa palestina e pró-árabe, bem como anti-americana e anti-israelense (igualzinho à esquerda brasileira), a França não garante sua segurança. Quem então garantirá?
- O Estado francês, com suas políticas “sociais”, vem vetando a discussão sobre o assunto. Resultado: os franceses não têm a menor idéia do que está lhes acontecendo. Como poderão lidar com o problema?
Quem fala disso no Brasil? Ninguém. Mas leia o Mídia sem Máscara e você vai ficar sabendo de muito mais. "Ah", você deve estar pensando, "mas o MSM é um reduto de paranóicos!" Bom, então leia não só o meu artigo, mas o artigo de Heitor de Paola, e rapidinho você mudará de idéia ao descobrir que todos esses escândalos do PT que estão estourando agora já eram matéria de especulação dos "paranóicos" há muito tempo. Confira!
Em tempo: o artigo de Nelson Ascher, da Folha de São Paulo, sobre os conflitos em Paris também está muito bom. Para quem não tem como ler, ponho aqui os dados relevantes apontados por ele, que ora confirmam, ora complementam o que escrevi:
- A condição econômica dos jovens insurgentes é melhor que a de 2/3 dos brasileiros, pois eles contam com o seguro do governo, podendo até mesmo deixar de trabalhar.
- Em maioria, eles são jovens muçulmanos do sexo masculino.
- A palavra de ordem do quebra-quebra é Allah Akbar (“Alá é grande”, em árabe).
- Os subúrbios de Paris têm estado cada vez mais perigosos, assim como as favelas daqui, um território com entrada vigiada e leis próprias.
- Mesmo com sua política sistematicamente pró-causa palestina e pró-árabe, bem como anti-americana e anti-israelense (igualzinho à esquerda brasileira), a França não garante sua segurança. Quem então garantirá?
- O Estado francês, com suas políticas “sociais”, vem vetando a discussão sobre o assunto. Resultado: os franceses não têm a menor idéia do que está lhes acontecendo. Como poderão lidar com o problema?
06 novembro 2005
A violência em Paris (II) e a mídia brasileira
Ciente de que os jornais franceses têm omitido, por ideologia politicamente correta, a origem islâmica dos jovens revoltosos nos subúrbios de Paris, reviro a internet brasileira para saber o que vem sendo divulgado por aqui. Resolvi bancar o brasileiro monolíngüe, com o objetivo de saber o quanto de informação estará perdida para quem não lê francês ou inglês.
Ainda não encontrei, em nenhum dos sites brasileiros que pesquisei, o relato dos fatos que mais chocaram a população francesa no início dos conflitos: um homem de meia-idade, parando seu carro para tirar uma foto na periferia de Paris, é atacado sem piedade por grupos de jovens, e morto a pauladas diante dos olhos estupefatos da família; uma pessoa deficiente é cercada em um ônibus, encharcada de gasolina e finalmente queimada viva. Os franceses começam a comparar esses dias com os dias da Bastilha. O problema é que a Revolução Francesa está bastante positivada no espírito da nação, e isto impede que tais fatos sejam encarados com a devida seriedade.
Vamos lá.
O Globo fala de uma possível relação entre os atos de violência e o radicalismo islâmico, mas o faz de passagem e sem explicar ao leitor brasileiro que a periferia de Paris é praticamente um gueto de imigrantes muçulmanos não-integrados (vindos da Argélia, de Marrocos, da Costa do Marfim) cuja violência já é conhecida há tempos. Confira o trecho: "As autoridades dizem que os protestos noturnos e violentos são organizados pela internet e por telefone celular e que, provavelmente, contam com o apoio de traficantes e ativistas islâmicos." Atribuir a mesma cota de influência a "traficantes" e "ativistas islâmicos", ainda pondo "traficantes" em primeiro lugar, não me parece dar o relevo necessário à questão. E a reportagem termina com uma declaração de político culpando o governo pelos distúrbios. No todo, é superficial, mas tem pelo menos o mérito de mencionar o islamismo.
O JB on line, no portal do Terra, traz detalhes quantitativos, mas ignora por completo, com relação aos conflitos, qualquer participação ou influência cultural do islamismo. Limita-se a dizer que "segundo a polícia, estes incidentes são resultado de ações esporádicas de grupos que se deslocam constantemente". Muito preciso.
O site do msn (não confundir com MSM), que sempre traz notícias em sua primeira página, fala de Bush e Lula, mas silencia absolutamente sobre o levante na França. Seus responsáveis não devem ter achado a notícia relevante...
O Yahoo traz uma notícia razoavelmente grande, com informações detalhadas, listas de cidades atacadas etc., mas não associa os atos de violência dos jovens das periferias a qualquer nuance de radicalismo islâmico, deixando a impressão de uma gratuidade sem sentido ao mencionar o termo "febre dos subúrbios".
Sei que minha pesquisa se limita à internet, onde a grande mídia brasileira não costuma ser muito generosa. Pode ser também que tenha me escapado um ou outro link. No entanto, quis apenas me sentir como o brasileiro que, acostumado a buscar na rede notícias sobre o mundo, procura se atualizar com relação ao que está acontecendo em Paris. Pelo que vi, esse brasileiro sai de sua procura apenas levemente informado - um "verniz" de acontecimentos que não lhe permitem refletir sobre a real dimensão do que está ocorrendo lá. É significativa a omissão quanto à origem islâmica dos jovens, tanto aqui quanto na França: pelo jeito, a correção política quer que associações negativas sejam somente privilégio dos Estados Unidos. Gostaria de ver um especialista francês em Islã se pronunciar com propriedade sobre o assunto, tal como o americano Robert Spencer. Vou procurar mais um pouco e posto aqui o que achar - se achar.
Ainda não encontrei, em nenhum dos sites brasileiros que pesquisei, o relato dos fatos que mais chocaram a população francesa no início dos conflitos: um homem de meia-idade, parando seu carro para tirar uma foto na periferia de Paris, é atacado sem piedade por grupos de jovens, e morto a pauladas diante dos olhos estupefatos da família; uma pessoa deficiente é cercada em um ônibus, encharcada de gasolina e finalmente queimada viva. Os franceses começam a comparar esses dias com os dias da Bastilha. O problema é que a Revolução Francesa está bastante positivada no espírito da nação, e isto impede que tais fatos sejam encarados com a devida seriedade.
Vamos lá.
O Globo fala de uma possível relação entre os atos de violência e o radicalismo islâmico, mas o faz de passagem e sem explicar ao leitor brasileiro que a periferia de Paris é praticamente um gueto de imigrantes muçulmanos não-integrados (vindos da Argélia, de Marrocos, da Costa do Marfim) cuja violência já é conhecida há tempos. Confira o trecho: "As autoridades dizem que os protestos noturnos e violentos são organizados pela internet e por telefone celular e que, provavelmente, contam com o apoio de traficantes e ativistas islâmicos." Atribuir a mesma cota de influência a "traficantes" e "ativistas islâmicos", ainda pondo "traficantes" em primeiro lugar, não me parece dar o relevo necessário à questão. E a reportagem termina com uma declaração de político culpando o governo pelos distúrbios. No todo, é superficial, mas tem pelo menos o mérito de mencionar o islamismo.
O JB on line, no portal do Terra, traz detalhes quantitativos, mas ignora por completo, com relação aos conflitos, qualquer participação ou influência cultural do islamismo. Limita-se a dizer que "segundo a polícia, estes incidentes são resultado de ações esporádicas de grupos que se deslocam constantemente". Muito preciso.
O site do msn (não confundir com MSM), que sempre traz notícias em sua primeira página, fala de Bush e Lula, mas silencia absolutamente sobre o levante na França. Seus responsáveis não devem ter achado a notícia relevante...
O Yahoo traz uma notícia razoavelmente grande, com informações detalhadas, listas de cidades atacadas etc., mas não associa os atos de violência dos jovens das periferias a qualquer nuance de radicalismo islâmico, deixando a impressão de uma gratuidade sem sentido ao mencionar o termo "febre dos subúrbios".
Sei que minha pesquisa se limita à internet, onde a grande mídia brasileira não costuma ser muito generosa. Pode ser também que tenha me escapado um ou outro link. No entanto, quis apenas me sentir como o brasileiro que, acostumado a buscar na rede notícias sobre o mundo, procura se atualizar com relação ao que está acontecendo em Paris. Pelo que vi, esse brasileiro sai de sua procura apenas levemente informado - um "verniz" de acontecimentos que não lhe permitem refletir sobre a real dimensão do que está ocorrendo lá. É significativa a omissão quanto à origem islâmica dos jovens, tanto aqui quanto na França: pelo jeito, a correção política quer que associações negativas sejam somente privilégio dos Estados Unidos. Gostaria de ver um especialista francês em Islã se pronunciar com propriedade sobre o assunto, tal como o americano Robert Spencer. Vou procurar mais um pouco e posto aqui o que achar - se achar.
Terrorismo e polarização do mundo: Girard explica

Foto: Le Figaro, levante em Paris
O mundo parece estar se polarizando cada vez mais entre os que defendem a liberdade e os direitos civis, de um lado, e os que acreditam no estatismo e no totalitarismo como a solução para os males do mundo, de outro. No segundo lado, tudo indica que há mais gente: é onde muitos costumam defender, justificar ou minimizar a truculência do terrorismo, já que são contra o "grande vilão" Estados Unidos. É o mecanismo do totalitarismo da vítima em plena ação, percebido pelo antropólogo René Girard : quem se coloca no papel da "vítima" passa automaticamente a ter o direito legítimo de cometer atrocidades. No comunismo (que muitos dizem extinto), a intervenção brutal no livre-arbítrio das pessoas, com coação e mortes por parte das autoridades governamentais, ainda é legitimada - na China, na Coréia, em Cuba e, embrionariamente, na Venezuela - pelo argumento de que tudo é feito "pelos pobres". Girard enfatizou em entrevista que o comunismo é o regime que faz vítimas em nome de vítimas. Isso parece ter virado "moda", e até o mais pacífico dos cidadãos brasileiros pode vociferar e cuspir quando fala dos EUA, enquanto dá de ombros diante do 11 de setembro ou não se importa com o jugo que ditadores como Saddam Hussein impõem no Iraque ou no Kuwait. É como se praticamente o mundo inteiro estivesse gerando um ódio mortal sem precedentes contra os EUA e Israel, com base nesse mecanismo que se autoperpetua pela dificuldade de ser combatido: afinal, o pensamento politicamente correto sempre protege as "vítimas", façam o que fizerem. De minha parte, uma grande tristeza pela constatação de que o século XXI se anuncia como mais violento que o anterior. Não preciso me alongar para dizer por quê: Girard explica.
Violência em Paris (I)
Corbeil-Essonnes, FrançaFonte: Le Figaro
O boneco do McDonald parece apontar pateticamente para o que restou da lanchonete, primeiro arrasada pela passagem de um buldôzer (sim, buldôzer!), depois incendiada. Ah, se os jovens daqui fossem como os de lá, já imaginaram? Mas vejam o teor das manfestações anti-Bush de hoje em todo o Brasil: lançamento de ovos, queima de "judas", janelas de embaixada quebradas, prisões... Estamos chegando perto: daí para o buldôzer, é só uma questão de ousadia.
Aparentemente, tudo começou porque dois adolescentes de origem islâmica, Bouna e Zied, crendo-se perseguidos pela polícia, esconderam-se dentro de um transformador e, por acidente, foram eletrocutados. Esse foi o estopim para as depredações em massa que têm abalado os arredores de Paris por dias a fio, contabilizando hoje mais de mil veículos destruídos, além de um sem-número de prédios municipais, escolas e estabelecimentos incendiados.
Assusta a média de idade dos manifestantes, dezoito anos, mas não surpreende sua origem comum: há vinte anos os bairros pobres na periferia de Paris são as barricadas onde tem se desenvolvido sem freios o ódio separatista, oriundo de uma cultura de imigrantes que já chegam ao país estrangeiro recusando a integração. Os professores das escolas públicas têm lidado por muito tempo com um problema que parece sem solução, a extrema agressividade dos jovens das periferias. O especialista em Islã Robert Spencer (ver artigo em inglês) acertou na mosca ao declarar que "os revoltosos são parte de uma população que nunca se considerou verdadeiramente francesa", demonstrando o que a essa altura é impossível ignorar: longe de uma simples insatisfação juvenil contra a pobreza e a ausência de perspectivas, tamanha onda de violência tem associações estreitas com o mesmo sentimento que leva radicais islâmicos a se engajarem em uma "guerra santa", para a qual até crianças são convocadas. Porém, isso parece não ser compreendido pelas teimosas autoridades francesas, que insistem em justificar toda essa violência com as condições econômicas precárias da população das periferias. Não admira: mergulhado na atmosfera politicamente correta que cozinha a Europa há pelo menos quarenta anos, o povo francês está impedido, por escrúpulos socialistas, de perceber o outro lado das diferenças culturais, deixando de abrir os olhos para o poder crescente do terrorismo em todo o mundo - que não se faz sentir por persuasão apenas, mas pela força da espada. Casos como o de Theo Van Gogh não me deixam mentir.
03 novembro 2005
"A verdade não existe"

Depois de ouvir por anos a fio na academia a terrível frase "a verdade não existe", há um bom tempo tomei uma decisão de uma vez por todas: considerar nulidades intelectuais todas as elaborações teóricas ancoradas sobre tal afirmação. Independente da motivação de seus defensores, a frase revela tanto da desonestidade intelectual (consciente ou não) de quem a pronuncia, que sequer tenho mais paciência para me embrenhar em discussões intermináveis com o objetivo de me opor a ela. Ridicularizável em menos de dez segundos, "a verdade não existe" foi concebida para se alçar cinicamente a uma condição superior a todas as enunciações possíveis, pois se presentifica necessariamente como uma "verdade" ao mesmo tempo em que impede sua refutação. É portanto pura crueldade discursiva, terrorismo lingüístico passando-se por resultado de processo argumentativo, com o fim de paralisar a atividade mental do receptor. É, acima de tudo, o lema da indigência intelectual de nossa época - e, como lema, não precisa mesmo prestar tributo à coerência, assim como "é proibido proibir". Mas o que fazer, se a própria academia, que se quer instância "produtora" de conhecimentos por excelência, não se cobra maior razoabilidade? Em vez então de tentar afrontar essas "teorias", uma por uma, em pé de igualdade na arena dos debates intelectuais - e elas são tão numerosas quanto os Smith de Matrix II - , melhor simplesmente sair de perto e deixar que se explodam sozinhas em suas bombas pseudoconceituais. Mais sábio e eficaz é tentar desatar, nas profundezas, os nós cognitivos geradores dessas tautologias modernas - para prevenir o estudante de uma vez por todas de cair nas garras de mais um Smith da vida.
Se você duvida do que estou dizendo, imagine o seguinte diálogo:
- Blá blá blá blá blá, porque não há teoria mais verdadeira que a outra, porque tudo são construções humanas, porque a verdade não existe - declara um estudante, repetindo o que o professor falou.
- Mas criatura - rebate o outro - , você não percebe que, se eu acreditar em você, o que você diz agora também entra para o rol das "construções humanas" e das "verdades que não existem"? E isso desmente tudo o que você falou. Ou por que justamente as suas afirmações iam fugir da comprovação da sua teoria?
- . . .
Ou seja: essas afirmações não são sequer afirmáveis, apenas um curto-circuito mental. Não dá para levar a sério, dá?
02 novembro 2005
Uma leitura do Primeira Leitura
Na crítica política anti-esquerdista, além de escrever muito bem, Reinaldo Azevedo do Primeira Leitura conjuga qualidades de Olavo de Carvalho e Diogo Mainardi: do primeiro, a coragem de dar nomes aos bois e às bovinas perversões, com a linguagem forte que o assunto requer; do segundo, a capacidade de fazer uma verdadeira festa de humor irônico com as mancadas dos outros. Acompanhando seus textos há algum tempo, tenho para mim que se supera deliciosamente quando fala de Emir Sader. Vejam um parágrafo genial de seu artigo de ontem:
Um leitor me manda um e-mail informando que o professor Emir Sader, cuja notória produção intelectual é defender o PT, escreveu que "a Veja é a pior revista do Brasil". Acho uma terrível injustiça. Eu juro que a equipe de Primeira Leitura faz um esforço danado para ser considerada por ele a pior publicação da história. É verdade que, perto da gigante, a gente é quase nada — mas o que conta é a ruindade... Eu prometo ao leitor: até que Sader não nos veja como a coisa mais detestável da mídia, não descansaremos.
Hahaha! Essa deve ser a ambição de muita gente boa que conheço...
Um leitor me manda um e-mail informando que o professor Emir Sader, cuja notória produção intelectual é defender o PT, escreveu que "a Veja é a pior revista do Brasil". Acho uma terrível injustiça. Eu juro que a equipe de Primeira Leitura faz um esforço danado para ser considerada por ele a pior publicação da história. É verdade que, perto da gigante, a gente é quase nada — mas o que conta é a ruindade... Eu prometo ao leitor: até que Sader não nos veja como a coisa mais detestável da mídia, não descansaremos.
Hahaha! Essa deve ser a ambição de muita gente boa que conheço...
26 outubro 2005
O que os EUA me ensinaram

De minha viagem à Disney aos quinze anos, tenho algumas lembranças marcantes, e duas delas contrastam fortemente com a realidade que tinha até então experimentado no Brasil.
Uma delas foi na própria Disneyland, quando, por reflexo, joguei a embalagem de sorvete no chão do parque impecavelmente limpo. Olhei em torno e havia dúzias de lixeiras enormes ladeando toda a rua; olhei para baixo, e apenas o meu papelzinho era estrela solitária naquele céu liso, uma vergonha para mim. Depois de hesitar um pouco, abaixei-me resolutamente, catei o papel e o depositei em uma das latas. Desde esse dia, exatamente dezenove anos sem sair do Brasil, nunca mais joguei nada no chão – mesmo que isso significasse andar um bom tempo com algo levemente pegajoso na mão ou na bolsa. Foi uma experiência que me educou para sempre.
A outra foi em frente ao hotel onde estávamos, quando, depois de ter comprado alguns petiscos para comer no quarto, eu precisei atravessar uma imponente auto-estrada de mão dupla por onde carros passavam em alta velocidade. Já tinham me contado que ali não havia sinal, pois os carros parariam assim que alguém se posicionasse no meio-fio, esperando. Mas nada se compara à sensação de comprová-lo: eles pararam lindamente, um do ladinho do outro, só para que eu – eu! uma moleca de quinze anos – desfilasse com total tranqüilidade diante dos monstros resfolegantes, só faltando dar a eles um tchauzinho de alegria.
A primeira, uma experiência de responsabilidade. O Brasil não nos ensina isso: pelo contrário, a todo momento somos recompensados pela maleabilidade das regras quando as infringimos, ou punidos pela nossa insistência em cumpri-las. Um buzinar impaciente atrás do carro parado à noite em sinal vermelho, o perdão da bibliotecária amiga pelos meses de atraso na devolução dos livros, o riso alheio de escárnio quando contamos que perdemos a bolsa de estudos porque dissemos a verdade sobre um emprego novo.
A segunda, uma experiência de valor individual. A quase neutralidade na reação corrente aos maliciosos esquemas da política e até o menor exemplo de comportamento cotidiano mostram que se entranha cada vez mais profundamente no espírito do brasileiro que as instituições ou as coletividades são mais importantes que as pessoas. O corporativismo nas empresas e universidades públicas, a voracidade do Estado que inibe a iniciativa privada e incha com a quarta parte de nossos salários, o tapinha nas costas que substitui a crítica isenta só para que todo mundo continue "unido", a brutalidade com que somos conduzidos pelo motorista nos ônibus das grandes cidades – tudo no Brasil favorece um resignado ou cúmplice encolher de ombros perante a grande máquina que, estatal, coletivista ou mecânica, sempre envolta em fumaças de "cordialidade", representa um simulacro de transcendência que oprime e não ama, comprazendo-se em chacoalhar corpos e almas até que se indistingam uns dos outros em uma massa amorfa e inerte.
Quisera eu que não fosse assim. Mas tem sido. Ainda que se negue tudo o que no Brasil tem pisoteado nossa liberdade individual – a falta de solidez que impede qualquer plano para o futuro, a vigência de leis absurdas e modos ainda mais absurdos de contorná-las, o monocromatismo das idéias que se impõem sem permitir contestação, a deterioração não natural, mas sobrenatural, do que nos cerca – , mesmo a menor atenção prestada aos olhares apagados que se cruzam com os nossos no dia-a-dia será testemunha disso. Quisera eu que substituíssemos o cultivo ao ódio pelos Estados Unidos, quase obrigatório em círculos bem (mal) pensantes da intelectualidade (hein?) brasileira, por uma saudável reflexão acerca do que lá nos incomoda tanto, e do que afinal temos feito aqui, para transformar pouco a pouco este país em um verdadeiro inferno.
21 outubro 2005
O mal que sai da boca*

Enviei a amigos uma espécie de resumo dos meus posts sobre desarmamento. Um deles, um amigo leal que votará no "sim", resolveu disponibilizá-lo em sua lista de difusão para equilibrar o debate. O texto gerou polêmica entre participantes da lista, entre os quais um irmão que me contactou de forma amigável, dizendo-se pelo "sim" e expondo seus argumentos. Antes disso, porém, tendo recebido de outro participante uma verdadeira bomba textual, eu já nem queria mais tocar no assunto. Deixei a mensagem-bomba sem resposta, mas não faria o mesmo com a mensagem gentil. Escrevi:
Em primeiro lugar, obrigada por seus comentários polidos e respeitosos.
Tenho muitos amigos cristãos que votarão no "sim" e de vez em quando mando alguma mensagem a eles. A que você recebeu foi uma delas. Não pretendia criar polêmica com ela, já que foi escrita para pessoas que me conhecem, com argumentos bastante breves. Um amigo tomou a liberdade de divulgá-la em sua lista de difusão, o que isoladamente não me chatearia de modo algum; infelizmente, acabei sendo alvo de palavras muito duras e injustas por um dos participantes da lista, a quem sequer conheço pessoalmente. Ainda estou em estado de choque pela violência dessas palavras - se me permite a franqueza.
Estamos em tempos muito difíceis, em que muito se fala em pluralidade de opiniões, liberdade de expressão etc., mas existe uma espécie de vigilância quase policial quanto a determinadas idéias - e hoje essa questão do desarmamento tem suscitado muito ódio entre as pessoas, inclusive na igreja, descubro agora. Permita-me, por favor, simplesmente fazer isso: agradecer a polidez de suas palavras e abster-me de continuar argumentando. As palavras daquele participante me feriram, e eu prefiro agora ficar em silêncio e esperar que a vontade de Deus se manifeste em relação ao referendo.
Porém, se como irmã em Cristo eu puder lhe pedir algo, peço-lhe o seguinte: que não ecoem em seu comportamento palavras amargas para com quem votará no "não"; que por sua boca não seja atribuída, a nenhum outro cristão conhecido seu, a pecha de amante da violência ou de falso cristão, ou algo semelhante. Basta de sofrimento. Deixemos cada um com sua opinião, e Deus como juiz de todos.
Pela sua delicadeza demonstrada para comigo, sei que fará o que lhe peço.
Abraço fraterno,
Norma
Observação do dia seguinte: Hoje soube que o participante que enviou a "bomba" já foi político, tendo sido expulso de uma lista de discussão por suas posturas radicais. Não me surpreenderia se soubesse que ele ainda atua em uma dessas ongs a favor do desarmamento. Isso explicaria sua insistência em publicar no site do meu amigo suas palavras injuriosas contra mim. Como um exemplo do que Olavo sempre diz (e Girard demonstra), ele me acusou de "agredir" os leitores do site apenas para se justificar previamente e me agredir à vontade. No texto dele, acusa-me de leviandade e calúnia, insinua que não conheço minha fé nem a Bíblia, "desafia-me" a provar o que digo. Buscando me desmoralizar, usa e abusa do argumentum ad ignorantiam ("não estou sabendo de nada disso, logo é mentira"). Ora, se ele realmente não sabe, que vá se informar, que vá buscar no Google as fundações Ford e Rockefeller relacionadas a medidas desarmamentistas, que vá ler o Olavo e o Mídia sem Máscara! Não apresentei ali nenhuma novidade de informação que não possa ser checada pelos leitores. Porém, não tenho certeza se ele realmente não sabe do que estou falando. Afinal, refutar idéias apenas duvidando da integridade moral de seu autor - ou seja, bater em vez de argumentar - é um artifício que só põe em cheque as verdadeiras motivações de quem assim procede.
A pergunta que resta: Como pode alguém que fundamenta seu "sim" com brios pacifistas lançar mão de tanta violência verbal quando se trata de defender seus argumentos? E ele não é o único caso de que tenho notícia. Pessoas que vão votar pelo "não" têm sido alvejadas sem piedade, sendo questionadas em sua moralidade, em seu cristianismo, em seu amor pelo próximo - prova de que boa parte dos que votarão pelo "sim" não são tão pacifistas quanto gostam de demonstrar. Tenho mais que esboços de resposta a esta pergunta, mas deixo a reflexão para o leitor.
*Mateus 15:18
19 outubro 2005
Desarmamento: última pergunta

Uma última pergunta para quem vai votar a favor da proibição ao comércio de armas.
Suponhamos que você se encontra com um amigo na rua. Discorrendo longamente sobre a falta de segurança e a inaptidão do Estado em garanti-la, seu amigo declara que, após ter cumprido todas as medidas legais para a posse, está indo comprar uma arma. Você se escandaliza, pois seu amigo sempre havia sido um grande defensor da paz em quaisquer circunstâncias. Ele explica que continua sendo, mas que, diante dos casos de violência que tem presenciado, inclusive com parentes e amigos próximos, prefere se responsabilizar pessoalmente pela segurança de sua família, já que os aparelhos estatais estão se provando ineficientes. Você insiste em que ele não compre sua arma, pois o poder de destruição que ela tem sempre pode se voltar contra quem a possui, seja em acidentes em casa, seja no momento de usá-la contra algum bandido. Seu amigo responde que compreende esses perigos, mas acredita que são muito menores que o perigo de andar desprotegido ou deixar sua casa à mercê de invasores.
Nada convence seu amigo de que não deve comprar a arma. Você o acompanha até a loja. De qual das duas maneiras você se comporta?
1 - Assiste à compra da arma, chateado porque não conseguiu convencê-lo.
2 - Por algum meio a seu alcance, impede que ele compre a arma.
Se você adota o comportamento número 1, repense seu "sim" à proibição de compra de armas: a nova lei corresponderá exatamente ao segundo comportamento.
Se você adota o comportamento número 2, confirme seu "sim", mas reconheça que, votando pela proibição, estará impedindo o acesso legal às armas a todos que pensam como o amigo - ou seja, proibindo, e não convencendo.
Moral da história: você pode até votar "sim", mas precisa ser honesto o suficiente para reconhecer a arbitrariedade de seu gesto. Não é porque a proibição se tornará lei que ela será menos arbitrária. A história está cheia de episódios em que as leis militavam contra liberdades básicas da população. E, se um dia algum louco resolver tomar o poder à força no país, como fizeram tantos ditadores na história, você está pronto para assumir as conseqüências de votar uma proibição dessas?
Porém, caso vença o "sim" e mesmo que nada disso ocorra, seria salutar lembrar-se do seguinte: assim como a campanha pelo desarmamento responsabiliza o comércio de armas pelos acidentes, você poderá ser responsabilizado por todas as mortes, os estupros e os roubos que poderiam ter sido evitados pela presença de uma arma na mão da vítima.
15 outubro 2005
O silêncio de Deus

Uma vez, li que um pastor estava chateado porque Deus havia parado de falar com ele. Esse pastor havia tido experiências muito fortes com Deus - que se revelava quase audivelmente - e andava se sentindo um pouco abandonado. Então, foi para o monte e clamou a Ele, pedindo uma palavra, uma explicação, um sinal. Vieram-lhe à mente algumas verdades bíblicas sobre a imutabilidade de Deus, sobre a Sua graça - e o pastor entendeu naquele momento que, se Deus estava quieto, era porque tudo o que havia dito estava por ora suficiente, sobretudo a certeza inabálavel que ele agora possuía das maravilhosas implicações da obra de Cristo na cruz. Lembrou-se de toda essa riqueza que lhe tinha sido dada para sempre e, por gratidão, chorou.
Mal sabia eu que essa leitura me alimentaria para algo que seria de minha própria experiência alguns anos mais tarde: o silêncio de Deus. (Mal) acostumada, tal como uma criança que tem satisfeitas todas as suas vontades, eu me senti murchar quando, ao contrário do que acontecia antes, Deus parecia não me trazer nada à mente com a oração - palavras, versículos, insights, visões esclarecedoras, tudo isso agora parecia fazer definitivamente parte do passado. Agora, pensei eu, teria que costurar algumas impressões aqui e ali, de modo confuso, para ter alguma idéia do coração de Deus sobre o que eu havia posto diante Dele.
Foi quando a leitura da história do pastor sobre o silêncio de Deus me fez pensar. Por que não fala mais? Ou, por outra, por que não fala mais destes modos a que eu havia me acostumado? Sim, porque um dos modos (e justo o mais impactante para mim) permaneceu: a organização da mente a que Ele procede através das obras de autores não-comprometidos com o anticristianismo moderno, que não negam a verdade nem a transcendência mas as buscam como aquilo que há de mais importante (Olavo de Carvalho, René Girard, John M. Ellis, Glenn Hughes, Eric Voegelin, Louis Lavelle, Viktor Frankl). Sem essa ação sobre a mente, verdadeira "arrumação de Deus", reconheço, grata, que não poderia viver.
Não que viver sem as intervenções mais diretas (e miraculosas no sentido estrito) de Deus seja um mar de rosas. Mas tenho aprendido algo sobre esse silêncio: quando ele ocorre, é porque não há novidades em especial da parte Dele. Posso seguir em frente com tranqüilidade apenas lembrando-me de tudo que já me foi dito. É quando a exortação do salmista Davi parece ganhar força especial: "Bendize ó minha alma ao Senhor / e não te esqueças de nenhum de Seus benefícios." A memória é nossa grande aliada para trazer ao dia presente aquilo que, para Deus, continua valendo. Pois talvez uma das graças mais lindas que Deus pode nos conceder seja a capacidade de perceber o fio condutor que mantém alinhados a uma rede de sentido nossas ações, nossas decisões e nossos estados de alma. Reconhecer como estamos e entender o que Deus nos tem ensinado é condição sine qua non para a saúde emocional e espiritual do cristão verdadeiro e amoroso para com Deus. Porém, períodos particularmente confusos podem ser férteis, pois algumas questões antigas podem retornar para ganhar profundidade.
E, por causa da angústia, consigo reconhecer por fim que minha revolta com o silêncio de Deus vem do borbulho de um medo irracional: de que Ele tenha mudado com relação a mim; de que Ele não me ame mais; de que Ele tenha parado de perdoar os meus pecados. São momentos em que até o medo de não ser realmente salva pode se insinuar por entre esses pensamentos tortuosos: muda diante de Seu silêncio, penso, teria eu perdido o rumo do coração de Deus? Porém, a verdade é que Suas ovelhas não se perdem - não porque saibam trilhar retamente o caminho, mas porque, sempre que tendem para o lado, Deus as traz de volta. É essa a garantia que nós temos.
Em tempos de silêncio, posso então compreender que a grande revelação que Ele tem para todos nós o tempo todo, sempre nova porque maravilhosa, é: "Há perdão para você, não importa o que tenha feito ou o que ainda faça; há perdão para você em meus braços."
12 outubro 2005
Ainda desarmamento: Lula e o "sim"

Está no artigo do Reinaldo Azevedo (Primeira Leitura). Em texto publicado na Folha de domingo pela defesa do "sim" - não seria aliás pouco recomendável um Presidente da República manifestar-se tão abertamente por uma das opções, em vésperas de plebiscito? - , Lula parece reforçar o gosto petista pelo autoritarismo:
Agora, o Brasil tem a oportunidade de dar um passo além, com a realização do referendo popular que vai definir se a comercialização de armas deve ou não ser proibida no país. Contra a proibição, argumenta-se que o cidadão estará desarmado e que ele é o responsável pela sua vida. Esta, no entanto, não é uma responsabilidade individual, mas do Estado detentor do monopólio legítimo da violência e responsável pela segurança pública.
Detentor do monopólio legítimo da... violência? Entenderia se ele tivesse usado qualquer outro termo de "fumaças" mais positivas. Que estranho, usar uma palavra tão virulenta para defender a abolição das armas. De onde ele terá tirado isto? Irônico mas preciso, Azevedo garante que é ato falho - um tropeço inconsciente que, segundo Freud, expressa uma verdade à revelia do interlocutor.
Em uma pesquisa rápida pela internet, qualquer um encontra que "monopólio legítimo da violência" é expressão de Max Weber aplicada ao Estado, "uma associação política que reivindica com sucesso o monopólio legítimo da violência dentro dos limites de um território". Ou seja, o Estado concentra para si o privilégio de exercer coação, e isto o define. Porém, existe uma tradução bem melhor, que troca a palavra "violência" por "força", sem dúvida mais positiva. Essa variação também é abundante no espaço virtual. O ghost writer de Lula deveria, sabendo disso, ter trocado a palavra. Senão, nós, que entendemos várias iniciativas do governo Lula como verdadeiras violências - a ordem de expulsão daquele jornalista americano, a Ancinav, a Cartilha do Politicamente Correto, o caso Celso Daniel, a ocultação e os desígnios do Foro de São Paulo, a associação com as Farc, a amizade com Fidel e Chávez - , deitamos e rolamos com esse tipo de "ato falho".
Observação: Já que, como diz o texto, a responsabilidade pela vida não é individual, mas do Estado, o que acontece se o Estado brasileiro claramente não cumpre com sua responsabilidade - se até mesmo seus representantes não parecem padecer do mínimo constrangimento ou da mínima censura por terem pedido licença, desarmados, para subir a favela? Nesse caso, o que resta como alternativa ao brasileiro desarmado? Morrer?
06 outubro 2005
O Chávez é uma "pessoa maravilhosa"!

Depois da entrevista com o Hugo Chávez no programa Roda-Viva, cheguei à conclusão: o atual presidente da Venezuela é uma "pessoa maravilhosa"! Não na acepção comum, claro, mas segundo o epíteto que Olavo de Carvalho atribui aos esquerdistas high society - ou que eles mesmos se atribuem, mimando uns aos outros automaticamente apenas por pertencerem ao petit noyau de la gauche sophistiquée (no caso do Brasil, um petit bem grand...). Nesse sentido, Chávez é um revolucionário charmosão e simpaticão incensado pela classe artística brasileira, muito bem representada nas fileiras socialistas. Não havia um Duda Mendonça visível a quem se pudesse parabenizar pela boa impressão que ele dava na roda: além de responder a todos com sorrisos, por mais incisiva que fosse a pergunta, chegou a mandar beijos no ar com a mãozinha para a Beth Carvalho, que tinha feito a ele uma pergunta gravada em vídeo - ainda acrescentando que se lembrava bem "daquele passeio à Mangueira"! Nada protocolar, hein?
Em suma, mostrou-se muito bem adaptado ao estilo espontaneísta do esquerdismo chique. Ele se alinha menos com a figura de Fidel (truculento, feio, com aquele barbão e aquele charuto) e mais com a de Caetano, Gil, Chico e toda a galeritcha esquerdinha maravilhosa do Brasil. Encarna todo o espírito paz e amor do Politicamente Correto (tendo inclusive citado a "liberação das mulheres" como um dos aspectos da mobilização popular que está fomentando na América Latina). Falou maravilhas de Cuba mas desconversou lindamente, sem agressividade, quando um dos jornalistas mencionou a violenta censura que vigora na ilha. Todas as perguntas eram respondidas com a voz calma, mas com rapidez de raciocínio, com muitos dados numéricos e um toquezinho pessoal - um comentário engraçado, um gestual simpático. Parecia que havia ensaiado a resposta a cada uma delas, de tão bem dadas. (Será que não as recebeu antes?)
Só surgia uma truculência calculada no momento em que falava do imperialismo americano e das "oligarquias venezuelanas". Mas com isto os esquerdopatas brasileiros estão acostumadíssimos: o único momento obrigatório de revolta da "pessoa maravilhosa" é quando cospe impropérios contra a direita e os EUA. Fez questão, porém, de manifestar a esperança de que o "povo americano reflita bem na escolha de seu próximo dirigente"... De resto, afirmou tudo aquilo que já sabemos de sua "lenda pessoal": que se vê como um revolucionário, que admira Che Guevara e Jesus Cristo como revolucionários, que a saúde e a educação na Venezuela deram um salto em seu governo, que está investindo em armas por pura "defesa" - essa, Girard explica - contra uma possível guerra com os EUA (dando como exemplo a relação deste país com o Paraguai, "suspeita", segundo ele), que busca um "equilíbrio" do planeta com a união de países da América Latina, da Europa, da Ásia; negou relações com as FARC a não ser como tentativas de apaziguamento, relatou indignado que empresas de petróleo venezuelanas nos EUA não mandavam um centavo de lucro para a Venezuela e que isso acabou em seu governo, confirmou que o governo Lula é sim de esquerda e que está chegando "lá" e que Lula é um grande homem e dirigente... Tudo isso com muitos sorrisos e um tom agradável na voz. Terminou a entrevista com uma piada, ao ser perguntado sobre se acreditava em Deus: depois de explicar que o socialismo que eles queriam no continente é um "socialismo cristão", disse que Cristo havia sido o primeiro socialista da História, e Judas Iscariotes, o primeiro capitalista, por tê-lo vendido... todos riram e a entrevista acabou assim. Ponto para ele.
Fiquei impressionada com o quanto o presidente Chávez "cabe" direitinho na imagem de "líder maravilhoso" por que o brasileiro esquerdoca chique está ansiando na América Latina. Impressionada. E com medo. Esperava algo mais populacho, mais burralhão, mais sem glamour, mais... Lula. Só que o cara parece ter tomado lições de "maravilhosidade". Cruzes.
Em tempo: para desmascarar boa parte do que Chávez disse, leia o post de Graça Salgueiro sobre a entrevista, no blog Notalatina. Diante dos fatos, todo o glamour chavista desaparece num piscar de olhos.
03 outubro 2005
Desarmamento: vote NÃO (4)
Um comentário muito perspicaz do meu amigo Ted Mueller, de Las Vegas, enviado alguns minutos depois da mensagem em que eu lhe contei sobre o referendo do desarmamento no Brasil (alguns assuntos, quando se tem deles as informações históricas corretas, não demandam muito tempo de reflexão para um posicionamento contra ou a favor):
Sorry to hear that Brazil is trying to take away the guns. That's the first step in a totalitarian state - you're right. In America, I thank God we can own guns. It's in the constitution (Second Amendment). The Founding Fathers knew their history and wanted a population that could defend itself in case the government came after them. In other words, they wanted a government afraid of the population not the other way around. We have an expression here, "If guns are outlawed, only outlaws will have guns."
Tradução:
Que pena saber que o Brasil está tentando se livrar das armas. Este é o primeiro passo para um estado totalitário - você está certa. Nos EUA, graças a Deus, podemos possuir armas. Está na constituição (Segunda Emenda). Os pais fundadores conheciam sua própria história e queriam um povo que pudesse se defender caso o governo se voltasse contra ele. Em outras palavras, queriam um governo com medo do povo, em vez do contrário. Temos uma expressão para isso: "Se as armas estão fora da lei, somente o fora-da-lei as possuirá."
Sorry to hear that Brazil is trying to take away the guns. That's the first step in a totalitarian state - you're right. In America, I thank God we can own guns. It's in the constitution (Second Amendment). The Founding Fathers knew their history and wanted a population that could defend itself in case the government came after them. In other words, they wanted a government afraid of the population not the other way around. We have an expression here, "If guns are outlawed, only outlaws will have guns."
Tradução:
Que pena saber que o Brasil está tentando se livrar das armas. Este é o primeiro passo para um estado totalitário - você está certa. Nos EUA, graças a Deus, podemos possuir armas. Está na constituição (Segunda Emenda). Os pais fundadores conheciam sua própria história e queriam um povo que pudesse se defender caso o governo se voltasse contra ele. Em outras palavras, queriam um governo com medo do povo, em vez do contrário. Temos uma expressão para isso: "Se as armas estão fora da lei, somente o fora-da-lei as possuirá."
01 outubro 2005
Desarmamento: vote NÃO (3)

A medida vai muito além de uma simples vontade política de diminuir os crimes por armas de fogo (e, como vimos, para isso ela não funciona): está enraizada em uma mentalidade daninha, que atribui ao Estado poderes que ele não deveria ter. Não é à toa que o presidente Lula, sempre que fala do Estado, usa a palavra "pai" para descrevê-lo; mas, em vez de um pai que possibilita crescimento aos seus filhos, emancipando-os por fim, o "pai-Estado" das esquerdas, na melhor das hipóteses, é um pai que mantém para sempre o filho sob sua tutela - isto quando não o engole, tal como Saturno na mitologia grega... Em regimes brandos, ou pré-totalitários, o pai-Estado impede os "filhos" de tomarem iniciativas por conta própria (exemplo: impostos abusivos aos empresários; recompensas e melhores salários para o burocrata estatal), infantilizando a população. O desarmamento é mais uma evidência disto: proibindo o cidadão pacífico de comprar armas, o Estado o trata automaticamente de incapaz ou descontrolado. Por que não parece ser suficiente a adoção de medidas para garantir que o comprador de armas seja alguém emocionalmente seguro de seus atos e tecnicamente hábil em manejar uma arma? Na verdade, isso já é praticado no Brasil, onde para se obter uma arma é preciso ser maior de 25 anos, sem antecedentes criminais, com residência e emprego fixos, além de ter passado em exames psicológicos e de aptidão. As estatísticas mostram que os crimes por armas de fogo não atingem esse contingente, mas sim os menores envolvidos com tráfico de drogas. Por aí se vê que o desarmamento, além de abusivo, é sem sentido.
No Brasil, cuja população já tem sido tão infantilizada por décadas a fio não só pelo modo paternalista de governar, mas por uma educação insuficiente e por uma mídia de entretenimento cada vez mais fútil e centrada na sexualidade - hoje, até sorvete e refrigerante são vendidos por meio de apelos ao desejo sexual - , o desarmamento só reforça a tutela do Estado, que se disfarça em pai controlador (como se dissesse "só estou fazendo isso pelo seu bem") para cravar mais profundamente suas unhas nas costas do povo. Se aprovado, o desarmamento não mudará em nada o panorama da criminalidade, mas será apenas mais um item no progressivo controle estatal, com prometedoras visões de totalitarismo. Quem viver verá.
Desarmamento: vote NÃO (2)
De Thomas Jefferson, uma afirmação que resume bem o primeiro post:
"Leis que proíbem o cidadão de ter armas são leis que desarmam apenas aqueles que, na sua ampla maioria, não estão inclinados a cometer crimes. Estas leis tornam as coisas piores para as vítimas e melhores para os marginais, elas mais encorajam que previnem os crimes, pois enchem de confiança os assaltantes. A mais forte razão, em última análise, para um cidadão ter direito às armas, é para proteger-se contra a tirania de um governo."
"Leis que proíbem o cidadão de ter armas são leis que desarmam apenas aqueles que, na sua ampla maioria, não estão inclinados a cometer crimes. Estas leis tornam as coisas piores para as vítimas e melhores para os marginais, elas mais encorajam que previnem os crimes, pois enchem de confiança os assaltantes. A mais forte razão, em última análise, para um cidadão ter direito às armas, é para proteger-se contra a tirania de um governo."
Desarmamento: vote NÃO

Tenho conversado por alto com algumas pessoas sobre o referendo do desarmamento e muitas delas me dizem que vão votar pelo SIM, por motivos pacifistas.
Ora, eu também sou pacifista; eu também detesto armas e detesto o potencial de destruição que elas trazem. Mas mesmo o mais pacifista dos brasileiros deve pensar no seguinte: quais seriam as conseqüências da proibição do comércio LEGAL de armas no Brasil, tal como propõe o referendo?
A primeira delas é que os traficantes e bandidos - que conseguem suas armas no mercado negro e que, portanto, não serão atingidos pela medida - vão se sentir mais à vontade para praticar seus atos, sabendo que não mais haverá pessoas armadas. Um importante dado de inibição psicológica será retirado. Logo, em vez de intensificar o combate à criminalidade, o "sim" à proibição contribuirá para que a população brasileira fique mais vulnerável a ataques. Confiram os dados: a Inglaterra optou pelo desarmamento, e hoje Londres é considerada "a capital européia do crime"; a Austrália também passou pelo processo, e os índices de criminalidade triplicaram em cidades como Victoria; a Jamaica também se desarmou, e hoje é um dos países mais violentos da América. Por outro lado, nos EUA, os estados que permitem a compra de armas têm mantido a criminalidade sob controle, e na Suíça, um dos países mais armados do mundo, os crimes por armas são em número tão baixo que nem entram nas estatísticas. Essas informações estão na recente edição da Veja sobre o desarmamento.
A segunda é mais complexa e deve ser vista à luz dos fatos históricos: países que tiveram proibida a venda legal de armas pagaram caro por isso, pois a medida fazia parte de um processo arbitrário por parte de um governo comprometido com ideais de controle ditatorial. Desarmando a população, esses governos conseguiram facilmente impedir resistência a decisões abusivas. Para quem acredita que isto jamais aconteceria no Brasil, convém não esquecer a adesão explícita de políticos brasileiros a ideais comunistas ou socialistas, regimes totalitários por natureza. Também são reveladoras as relações bem próximas do governo com líderes ditatoriais como Fidel Castro e Hugo Chávez: Cuba é um país que nega a seus habitantes direitos básicos de liberdade, punindo-os com a morte caso desobedeçam, e a Venezuela, para quem não sabe, está indo pelo mesmo caminho. Nessa segunda hipótese, os exemplos de países tomados por regimes ditatoriais logo após uma campanha de desarmamento são muitos. Além dos próprios Fidel e Chávez, ninguém menos que Hitler (Alemanha), Stálin (URSS), Mao Tsé-tung (China) e Pol Pot (Camboja) desarmaram suas populações. Mas não foram os únicos. Vejam os dados que recebi de um amigo:
Em 1929, a União Soviética desarmou a população ordeira. De 1929 a 1953, cerca de 20 milhões de dissidentes, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1911, a Turquia desarmou a população ordeira. De 1915 a 1917, um milhão e meio de armênios, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1938, a Alemanha desarmou a população ordeira. De 1939 a 1945, 13 milhões de judeus e outros "não arianos", impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1935, a China desarmou a população ordeira. De 1948 a 1952, 20 milhões de dissidentes políticos, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1964, a Guatemala desarmou a população ordeira. De 1964 a 1981, 100.000 índios maias, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1970, Uganda desarmou a população ordeira. De 1971 a 1979, 300.000 cristãos, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1956, o Camboja desarmou a população ordeira. De 1975 a 1977, um milhão de pessoas "instruídas", impossibilitadas de se defenderem, foram caçadas e exterminadas. Pessoas indefesas caçadas e exterminadas nos países acima, no século XX, após o desarmamento da população ordeira, sem que pudessem se defender: 56 milhões.
Todos esses dados que postei aqui podem ser confirmados por uma pesquisa rápida pela internet. O problema é que o brasileiro não conhece nem a sua própria história, imagina a de outros países...
Aos mais pacifistas (entre os quais me incluo!): mesmo se você se sente mal já de pensar em segurar uma arma na mão, não permita que o Estado retire das pessoas o direito de se defenderem. Não faz sentido proibir o cidadão ordeiro de comprar uma arma - um fazendeiro que mora longe das delegacias, por exemplo - enquanto os criminosos têm acesso fácil a elas pelo mercado negro. Aliás, o líder do MST, Stédile, está louco para que o desarmamento vingue - assim, os vândalos do movimento podem atirar à vontade seus coquetéis molotov nas casas sem perigo algum...
Em suma: desarmamento = maior vulnerabilidade a bandidos + maior vulnerabilidade ao totalitarismo!
No dia 23 de outubro, seja esperto, vote "não"!
12 setembro 2005
Exílio involuntário
Esse texto é um comentário a um post no blog Nadando Contra a Maré... Vermelha, de Luís Afonso Assumpção.
Oi, LA! Ontem mesmo eu estava comentando com um amigo que passei a vida inteira, aqui no Brasil, procurando algo que hoje dolorosamente constato que não existe. O que é esse algo? Lendo seu post, algumas idéias me vêm à mente, mas todas elas remetem a uma só noção: solidez. Solidez de tradição, de cultura, de democracia (verdadeira). Mas, sobretudo, solidez intelectual - algo que só poderia se exprimir pela palavra identidade. Eu queria de todo jeito me apropriar de uma sólida herança intelectual de meu país, integrando-me nela e engrossando-a com minhas pesquisas, meus insights, meu sangue e meu suor, se necessário. Hoje vejo que tal é impossível, pois o que poderia se chamar "herança intelectual" não passa de uma sombra, um caldo indefinível agora diluído em um caldeirão de idéias prontas e forjadas nas fôrmas tóxicas do marxismo, do relativismo, do pensamento politicamente correto, abundantemente regadas e nuançadas de uma auto-indulgência e uma autovitimização que a história brasileira não logrou erradicar, apenas travestiu de ideologia e propaganda. Não, não fui ao desfile. Nem pensei no dia da independência, para falar a verdade. Apenas me lembrei do número de anos neste exílio involuntário, nesta procura inexata e dolorida que sempre fez parte de minha juventude, e reafirmei meu desejo de continuar buscando - em outro lugar.
Oi, LA! Ontem mesmo eu estava comentando com um amigo que passei a vida inteira, aqui no Brasil, procurando algo que hoje dolorosamente constato que não existe. O que é esse algo? Lendo seu post, algumas idéias me vêm à mente, mas todas elas remetem a uma só noção: solidez. Solidez de tradição, de cultura, de democracia (verdadeira). Mas, sobretudo, solidez intelectual - algo que só poderia se exprimir pela palavra identidade. Eu queria de todo jeito me apropriar de uma sólida herança intelectual de meu país, integrando-me nela e engrossando-a com minhas pesquisas, meus insights, meu sangue e meu suor, se necessário. Hoje vejo que tal é impossível, pois o que poderia se chamar "herança intelectual" não passa de uma sombra, um caldo indefinível agora diluído em um caldeirão de idéias prontas e forjadas nas fôrmas tóxicas do marxismo, do relativismo, do pensamento politicamente correto, abundantemente regadas e nuançadas de uma auto-indulgência e uma autovitimização que a história brasileira não logrou erradicar, apenas travestiu de ideologia e propaganda. Não, não fui ao desfile. Nem pensei no dia da independência, para falar a verdade. Apenas me lembrei do número de anos neste exílio involuntário, nesta procura inexata e dolorida que sempre fez parte de minha juventude, e reafirmei meu desejo de continuar buscando - em outro lugar.
06 setembro 2005
A fanfarronice da Caros Amigos
Hoje, passando em frente a uma banca de jornal, vi a capa toda preta da revista Caros Amigos, com os dizeres:
"Corrupção: Somos todos desonestos?"
Praguejei em voz alta. Não costumo fazer isso, mas desta vez a fanfarronice foi demais. Com que autoridade, com que prepotência os autores da revista querem jogar de volta para o leitor brasileiro - decerto, sempre pronto a acatar todas as culpas - a pecha de "corruptos" para aliviar o bandinho governamental e pró-governamental pego em flagrante? Senti-me ultrajada, vilipendiada. Eles que vão purgar as suas culpas, que a mim elas nada dizem respeito.
Ah... Mas talvez eu não tenha entendido bem. Talvez o "nós" da revista - abençoada ambigüidade da língua portuguesa - não se refira, de modo algum, à totalidade de leitores umbigais, muito menos ao povo brasileiro, mas a eles próprios, o grupinho reduzido dos escrevinhadores. Ah, sim. Mas por que nos perguntam se eles mesmos são desonestos? Será que, à força de tanto fazer a coisa, de tantas justificativas às vezes até auto-impingidas, coitados, terão eles esquecido a natureza corrupta de seus atos e palavras?
Como cristã, diante da pergunta que não me compete responder, só me resta então recomendar o aviso do Apóstolo Paulo: "Que cada um examine a si mesmo."
"Corrupção: Somos todos desonestos?"
Praguejei em voz alta. Não costumo fazer isso, mas desta vez a fanfarronice foi demais. Com que autoridade, com que prepotência os autores da revista querem jogar de volta para o leitor brasileiro - decerto, sempre pronto a acatar todas as culpas - a pecha de "corruptos" para aliviar o bandinho governamental e pró-governamental pego em flagrante? Senti-me ultrajada, vilipendiada. Eles que vão purgar as suas culpas, que a mim elas nada dizem respeito.
Ah... Mas talvez eu não tenha entendido bem. Talvez o "nós" da revista - abençoada ambigüidade da língua portuguesa - não se refira, de modo algum, à totalidade de leitores umbigais, muito menos ao povo brasileiro, mas a eles próprios, o grupinho reduzido dos escrevinhadores. Ah, sim. Mas por que nos perguntam se eles mesmos são desonestos? Será que, à força de tanto fazer a coisa, de tantas justificativas às vezes até auto-impingidas, coitados, terão eles esquecido a natureza corrupta de seus atos e palavras?
Como cristã, diante da pergunta que não me compete responder, só me resta então recomendar o aviso do Apóstolo Paulo: "Que cada um examine a si mesmo."
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