16 novembro 2005

A magia da lata

Quem não conhece está perdendo: fotos lindíssimas e em grande estilo, feitas através de um singelo instrumento - uma lata furada de leite Ninho. O blog da Lata Mágica mostra o trabalho dos fotógrafos William e Odilene, com belos e comoventes flagrantes das ruas de Recife. O blog é constantemente atualizado, valendo a visita freqüente. Confira!

Eu ia postar as duas fotos de que mais gosto aqui, mas o Blogger não deixou... Então, não seja preguiçoso e vá lá para ver as fotos!

Fé cega, faca amolada

Do meu amigo Cesar Miranda, do Pró-Tensão:

O socialista acredita tanto no socialismo que é capaz de sacrificar a própria vida dos outros pela causa. Quanto mais vida alheia sacrificar, mais admirado será no meio dos fiéis do socialismo. Aqui no Brasil, graças a Deus, eles ainda não tiveram coragem de efetuar um genocídio - como seus irmãos cubanos, russos e chineses fizeram - e preferem “apenas” fraudar, roubar, comprar deputados, assaltar banco, mentir sistematicamente aos eleitores, cometer toda sorte de trapaça, seqüestrar, se associar aos produtores e traficantes de droga etc. etc. etc., coisas que também são admiráveis aos olhos marxista-leninistas. Enquanto isto, o “deus” comunismo jamais deu uma única demonstração de que vale tanta vilania, mas os fiéis seguem com seu apoio. Fé é isto.

15 novembro 2005

O processo de islamização da Europa

Afirmações públicas reveladoras

"O Islã voltará à Europa como conquistador e vitorioso."
Sheik Yusuf al Qaradawi, um dos mais influentes clérigos sunitas

"Um dia, milhões irão deixar o hemisfério do sul e ir para o norte. E não o farão como amigos, mas para conquistar o território: através de seus filhos. Os úteros de nossas mulheres nos darão vitória."
Houari Boumedienne, ex-presidente da Argélia, em discurso na ONU (1974)


Fatos

- Os imigrantes islâmicos radicais começaram a chegar ao continente por volta de 1950, em maioria membros da Irmandade Islâmica fugindo da queda de regimes no Egito e na Síria (onde seriam perseguidos), em minoria estudantes para as universidades européias;
- Esses imigrantes fundaram mesquitas e instituições diversas ligadas ao islamismo - e todo esse movimento de expansão contou com o apoio financeiro maciço da Arábia Saudita e outros países abastados. Era um critério fundamental que os beneficiários do financiamento fossem, para esses países, não moderados, mas radicais, para espalhar o extremismo islâmico pela Europa;
- A generosidade das leis de imigração européia foi outro fator de atração: asilo, benefícios vários (seguro-desemprego, saúde, moradia), liberdade e possibilidades de expansão inexistentes nos países de origem;
- Depois do ataque às torres gêmeas e da evidente ação da al Qaeda no mundo, as autoridades passaram a dar mais atenção ao financiamento exterior e o dinheiro da Arábia Saudita começou a correr mais devagar. Hoje, a principal fonte que sustenta os radicais islâmicos na Europa é o crime, e alguns grupos, principalmente do norte da África, aliam-se a organizações criminosas internacionais, relacionados a contrabando de drogas e imigração ilegal para a Europa. É dessa forma que tais grupos conseguem milhões para a "causa";
- Os imigrantes do Oriente Médio ou do norte da África que chegam à Europa não são necessariamente ligados à religião muçulmana, mas são abraçados no novo continente por uma rede de propaganda e aliciamento que os leva para o extremismo. Aproveitam-se bastante do fato de que a cultura européia, hoje, encontra-se mergulhada em uma eterna e viciada autocrítica, em uma lógica relativista e suicida, principalmente desde os anos 60 - na França, os Foucault e Derrida da vida não me deixam mentir. Neste quadro, o imigrante não tem motivo significativo para se identificar com a cultura local, que considera "fraca", e sim com a "força" do radicalismo islâmico;
- Agências de inteligência locais afirmam que a nova face da al Qaeda na Europa é composta de europeus de nascimento: por exemplo, nos ataques de 4 homens-bomba em Londres, 3 tinham nacionalidade inglesa. É significativo, também, o fato de que grande parte do planejamento do ataque de 11 de setembro ao World Trade Center foi levada a cabo na Espanha e na Alemanha;
- A Europa já não é mais a mesma de trinta anos atrás. Nesse passo de imigração, em questão de poucas décadas a maioria da população européia será composta de descendentes de imigrantes, dos quais boa parte será muçulmana.

Fonte: FrontPage Magazine, entrevista de Jamie Glazov com Lorenzo Vidino, especialista do Investigative Project on Terrorism (Washington)

13 novembro 2005

Conheça René Girard


Somos chamados hoje, mais que nunca, a entender por que a violência parece chegar a níveis assustadores em todo o mundo. Tenho feito referências aqui a um dos autores mais importantes da atualidade, René Girard, cujo pensamento, fundado sobre princípios cristãos - Girard é católico - , faz algo que não é de costume em estudos de religião: lança uma luz rara sobre a história e as motivações humanas.
© 1995 Herlinde Koelbl/Munich
Entrevistas com Girard

- A quem tiver ouvidos (português)
- Sobre o desejo mimético hoje (inglês)
- Anthropoetics (inglês)
- Em francês (Des textes > Marie-Louise Martinez > entretien avec René Girard)
Observação: essa entrevista em francês é maravilhosa e tem o efeito de um verdadeiro curso sobre Girard. Prometo sua tradução para publicação aqui.
- Em italiano

Vídeos com aulas de Girard

Links variados

Trecho da entrevista do Estado de São Paulo - 15/05/2005

O cristianismo é superior às outras religiões? - Sim. Toda a minha obra tem sido um esforço para mostrar que o cristianismo é superior e não apenas mais uma mitologia. Na mitologia, uma multidão enfurecida se mobiliza contra bodes expiatórios responsabilizados por alguma crise enorme. O sacrifício da vítima culpada pela violência coletiva encerra a crise e funda uma nova ordem ordenada pelo divino. A violência e o uso de bodes expiatórios estão sempre presentes na definição mitológica do próprio divino. É verdade que a estrutura dos Evangelhos é semelhante à da mitologia, em que uma crise é resolvida por uma única vítima que une todos contra ela, reconciliando assim a comunidade. Como pensavam os gregos, o choque da morte da vítima provoca uma catarse que reconcilia. Ele extingue o apetite pela violência. Para os gregos, a morte trágica do herói permite a volta das pessoas comuns à sua vida pacata. Entretanto, nesse caso, a vítima é inocente e os "vitimizadores" são culpados. A violência coletiva contra o bode expiatório como ato fundador, sagrado, revela-se uma mentira. Cristo redime os "vitimizadores" ao suportar seu sofrimento, implorando a Deus para "perdoá-los porque eles não sabem o que fazem". Ele se recusa a pedir a Deus para vingar sua vitimação com uma violência recíproca. Prefere mostrar a outra face. A vitória da cruz é a vitória do amor contra o ciclo de violência do bode expiatório. Ela invalida a idéia de que o ódio é um dever sagrado. Os Evangelhos fazem tudo o que a Bíblia, no Velho Testamento, fez antes, reabilitando um profeta vítima, uma vítima erroneamente acusada. Mas eles também universalizam essa reabilitação. Eles mostram que, desde a fundação do mundo, as vítimas de todos os assassinos ao modo da Paixão foram vítimas do mesmo contágio de multidão, como Jesus. Os Evangelhos tornaram essa revelação completa porque dão à denúncia bíblica da idolatria uma demonstração concreta de como os falsos deuses e seus sistemas culturais violentos são gerados. Essa é a verdade que falta à mitologia, a verdade que subverte o sistema violento deste mundo. Essa revelação de violência coletiva como uma mentira é o marco do judaico-cristianismo. É isso que é único no judaico-cristianismo. E esse caráter único é verdadeiro.

Leia também: minhas ressalvas a Girard

12 novembro 2005

O secularismo e o Islã


No dia 2 de novembro o assassinato ritual de Theo Van Gogh fez um ano. Achei hoje por acaso duas entrevistas da deputada holandesa-somali Ayaan Hirsi Ali, que trabalhou junto com Van Gogh no filme que motivou o ódio dos radicais islâmicos e resultou na extensão da Fatwa de morte também a ela. Ela relembra o que sofreu nas mãos da família e da sociedade como mulher muçulmana, forçada a se submeter à ablação do clitóris e a se casar contra a vontade. Enfrentou isso tudo, fugiu e renunciou à religião, tornando-se hoje uma das maiores opositoras do Islã, praticamente a única mulher em evidência nessa situação.

Se os europeus a ouvissem...

Entrevista ao Der Spiegel (em português)

Entrevista ao Die Welt (em português de Portugal)

Coerente com o que passou, Ayaan compreende o perigo da mentalidade islâmica para a democracia, e eu fico muito contente que ela tenha conseguido se libertar do jugo de uma cultura sufocante para denunciar seus males à sociedade ocidental. Porém, é triste constatar que o único Deus que ela conheceu foi o impiedoso Alá do islamismo. Desejo de coração que ela possa reencontrar sua religiosidade perdida nas mãos amorosas - e nada machistas - do Pai de Jesus Cristo, que nos aceita como filhos.


Desejo isto sobretudo porque sei que, escorada apenas no liberalismo e no laicismo, a luta de Ayaan se torna praticamente inócua contra a fúria do autoritarismo islâmico. Como cristã, sei que só o Deus da Bíblia é páreo para Maomé - com o acréscimo da verdadeira liberdade interior, do espaço para a subjetividade que o cristianismo, ao contrário do islamismo, proporciona a quem crê em Jesus. Certamente, é pela consciência da fraqueza do laicismo que os analistas mais perspicazes já vêem a Europa como fadada a se islamizar por completo - a "satisfação", segundo o jornal Le Monde, do Ministro do Interior Nicolas Sarkozy com a instituição da Fatwa pela UOIF para acalmar os levantes em Paris, sem entender o que isso significa para o Estado e suas leis, denota o quanto os europeus estão cegos para com o processo de islamização que se acelera a olhos vistos: seja pela ocupação espacial (o número de descendentes de muçulmanos aumenta em progressão geométrica comparado ao dos europeus, uma população envelhecida que quase não tem filhos), seja pelas conversões crescentes que vêm ocupar o vazio deixado pelo abandono maciço do cristianismo, funcionando como um (falso) antídoto para o desespero de quem se sente esmagado sob o peso do relativismo e da ausência de sentido preconizados pela modernidade.

A Europa não soube entender nem preservar o imenso tesouro que tinha nas mãos... e agora caminha, em silêncio, cegamente, para uma prisão religiosa que, diante da aridez do secularismo, lhe parecerá confortável demais - tristemente confortável.

11 novembro 2005

Mentiras da esquerda e os Neos ao contrário

O jornalista americano David Horowitz escreve em seu blog:

A esquerda ainda está propagando as mentiras mortais de que Saddam 1) era um homem sem religião que não apoiava a al-Qaeda, 2) não participou dos ataques muçulmanos que se iniciaram nos EUA com a explosão do World Trade Center em 1993, 3) não providenciou proteção em solo iraquiano a terroristas islâmicos como Zarqawi, e 4) não teve seus planos frustrados pela guerra de março de 2003: fabricar armas de destruição em massa para uso contra os EUA e seus aliados. Todas essas mentiras da esquerda foram refutadas cuidadosamente, mas mesmo assim continuam a ser propagadas.

O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho nos informa em artigo recente:

Quem disse que não havia armas de destruição em massa no Iraque? (...) Os relatórios militares dizem que foram encontrados até agora: 1,77 toneladas métricas de urânio enriquecido; 1.500 galões de agentes químicos usados em armas; 17 ogivas químicas com ciclosarina, um agente venenoso cinco vezes mais mortal que o gás sarin; mil materiais radiativos em pó, prontos para dispersão sobre áreas populosas; bombas com gás de mostarda e gás sarin. Se essas coisas não são armas de destruição em massa, são o quê? Peças do estojo “O Pequeno Químico”? [As informações, revela ele, estão no livro do jornalista famoso Richard Miniter, Disinformation: 22 Media Myths That Undermine the War on Terror.]

O autor francês David Dawidowicz escreve no site Liberty Vox:

Entre os nomes dessas "testemunhas" [comunistas em geral, entre eles muitos judeus] que assinaram [um documento atestando a culpabilidade dos "Camisas Brancas", grupo de médicos, na maioria judeus, que teriam atentado contra a vida de Stálin em hospital na URSS], eu ainda me lembro do Dr. Leibovici, burguês abastado dos bairros chiques (...), que eu conhecia por ter me operado uma vez. Quando tive a oportunidade de lhe perguntar sobre a prova de que ele dispunha para afirmar que os "Camisas Brancas" eram culpados, ele me respondeu: "Não tenho! Mas confio no Partido. Qualquer dúvida só serviria aos objetivos imperialistas dos inimigos da URSS. Lembre que, sem a URSS, o mundo estaria hoje sob o domínio nazista e você reduzido a picadinho hoje."

O autor prossegue, discorrendo sobre os estranhos escrúpulos da esquerda militante:

Ela [a esquerda] jamais se manifestou em defesa das dezenas de milhões de vítimas do bolchevismo de Lênin, Trotski, Stálin, Mao Tsé-Tung ou Pol-Pot; jamais em defesa das centenas de milhares de chechenos vítimas da repressão assassina da ex-URSS, jamais pelas milhões de vítimas do racismo árabe do Sudão, nem pelos infelizes habitantes da Aceth, submetidos a chantagem e às aterrorizantes extorsões do exército indonésio. Ela nunca se manifestará em defesa das centenas de milhões de mulheres vítimas da brutalidade machista e obcecada do Islã, nunca pelos reféns assassinados pelos narcomarxistas da América do Sul, nunca em defesa das vítimas do totalitarismo castrista, jamais contra a colonização do Tibete pela China comunista. (...) Curiosamente, seu senso de humanidade só se manifesta de modo escandaloso quando o pretenso opressor é americano ou, principalmente, judeu.

Termina seu texto com um verso revelador de Louis Aragon, poeta do comunismo. Tradução livre:

Que nos enganem, que nos seduzam / Dando-nos o mal pelo bem / Aquele que de nada sabia / E que considera o mal como bem / Não é pelo bem que morre?
Isso tudo só evidencia que - pela revolução, pelo ideário, pela "causa" - mentiras já são parte fundamental da estratégia de ação das esquerdas, propagando-se tranqüilamente pela boca de professores, escritores, filósofos, religiosos, jornalistas... No entanto, em que bem isto pode resultar no longo prazo? E, perdidos entre tantas mentiras, sem conseguir nem querer mais distingui-las da verdade - releia o poema de Aragon - , os militantes de esquerda corrompem em primeiro lugar a própria consciência, em seguida a alheia, realizando um efeito dominó que permitiu e continuará permitindo, travestidas de lisura, as maiores torpezas, as maiores tragédias.

Infelizmente, o mundo ocidental está todo tomado pela ideologia de esquerda, politicamente correta, dona dos preconceitos, propagadora da positivação da inveja e do totalitarismo da vítima, que, ao justificar até assassinato, fomentam mais e mais violência. No Brasil, o movimento dos poucos que ousam desafiar esse estado de coisas ainda é pequeno. Resta perguntar: quando finalmente romperemos o cordão de isolamento esquerdista que impede o brasileiro de participar das discussões mundiais relevantes sem viés ideológico, com real acesso às recentes descobertas? Quando é que o brasileiro descobrirá que o mito tranqüilizador é mortal, enquanto a verdade, mesmo cruel, é libertadora? Às vezes tenho a impressão de que o Brasil é todo composto por Neos (personagem principal do filme "Matrix") ao contrário: todo mundo toma diariamente a pílula do esquecimento e da enganação, fornecida em doses maciças por outros enganadores e enganados. Só resta suspirar de alívio pelos gatos pingados que ainda constituem a lucidez do país.

10 novembro 2005

Paris 2005 = guerra civil do Líbano!

Comentário esclarecedor e comovente de um libanês, postado em destaque por um blog francês sobre a questão árabe

Tradução minha

"Uma palavrinha para dizer a vocês que no Líbano ninguém está surpreso com a situação atual na França. Todos aqui esperavam por isso e infelizmente nós acreditamos que será pior nos próximos anos. Os acontecimentos são parecidos com os dos anos de 1969-1970 quando os habitantes dos burgos - os palestinos - começaram a promover agitações, queimar carros, fazer reféns etc. E a reação da França é a mesma do Líbano de trinta anos atrás.

Os partidos de esquerda vêem a solução no social; viu-se no entanto que não pode ser assim: milhares foram gastos no Líbano, mas isso só reforçou as reivindicações dos revoltosos. Eu espero que as coisas se acalmem nos próximos dias, mas sei também que esses acontecimentos trazem as premissas de uma guerra civil nos próximos anos. Pois, diante de um Estado fraco que não envia suas tropas em campo (foi o caso do Líbano nos anos 70), os revoltosos se tornam mais confiantes e melhor equipados, e os habitantes acabam pegando em armas para se defender. O resultado é a criação de milícias e fracasso total. Esse cenário é "triste" mas infelizmente foi o que ocorreu aqui. Não vejo por que não ocorrerá na França, diante dos fatos:

1- Mais de 10 000 veículos [ver nota 1, lá embaixo] queimados em 10 dias. Esse número ultrapassa o de veículos queimados em 15 anos de guerra no Líbano!

2- As autoridades sunitas [nota 2] na França emitiram uma Fatwa [notas 3 e 4] para conclamar os revoltosos à calma. Isso é muito perigoso, pois a qualquer hora pode ser emitida uma Fatwa para levá-los a se manifestarem contra ou a favor qualquer um ou qualquer coisa. Dá a impressão de que se está no Irã ou na Arábia! Nem no Líbano isso aconteceu durante a guerra.

3- Igrejas e escolas foram atacadas. É preciso reconhecer a realidade de que não se trata de uma luta de classes, é bem mais perigoso que isso. Tudo o que está acontecendo me é doloroso, até porque conheço onde isso pode dar e e não queria que vocês vivessem o que eu já vivi.

Abraços,
C.C."
Nota 1: Os jornais franceses disseram que iam "parar de noticiar esse tipo de dado por causa de sensacionalismo", que em novilíngua significa "peneira tentando tapar sol". Você pode não achar esse número em lugar nenhum.

Nota 2: Trata-se da UOIF - União das Organizações Islâmicas da França. Você sabia que existia essa entidade?
Nota 3: Atenção, segundo os blogueiros, este fato não está saindo no noticiário nem na França, imagine aqui. Se eu achar em algum lugar além da web, será raridade.
Nota 4: Ordem dirigida a muçulmanos por autoridades do islã, que precisa ser obedecida em nome de Alá. Costuma ser usada também para decretar a morte de um "infiel". O escritor Salman Rushdie recebeu uma dessas em 1989, que vale até hoje. A análise do autor do comentário é pertinente, pois, se os muçulmanos devem seguir a ordem para a paz - sem que isso seja contrariado pelas autoridades francesas, com amplo respaldo social - , por que não a seguiriam, se fosse para a guerra ou o assassinato? Note, igualmente, que a maioria dos insurgentes é composta de descendentes de muçulmanos, e supõe-se que eles a cumpram. Isso significa uma segunda separação entre eles e o país: além de não se verem como franceses, não se sentem aptos a cumprir a lei francesa, mas a islâmica - como de fato muitos deles têm afirmado durante os conflitos.
A situação é mesmo feia. O Estado francês será clivado, a não ser por um milagre.

09 novembro 2005

Violência em Paris (VI) - blogs e islamização

Para o bem e para o mal, a internet tem um poder fantástico de organizar as pessoas fora do circuito fechado das instituições e da mídia de orientação cada vez mais uniforme. Uma prova do lado do mal: as conspirações em blogs para atacar Paris. O jornal alemão Spiegel (ok, eu não leio alemão, mas essa é uma versão do jornal em inglês, certo?) mostra as conversas dos jovens das periferias, com instruções precisas para os ataques, frases de encorajamento do tipo "Obrigado, Clichy, Montfermeil está contigo" logo depois de bombardeios, fotos das destruições, tudo isso recheado de palavras de ordem relacionadas ao islamismo.

Reproduzo aqui dois dos exemplos mais impressionantes:

Brahim diz:

"Bom trabalho, pessoal. A polícia está morrendo de medo da gente, tudo vai ter que queimar, começando na segunda-feira, Operação Sol da Meia-Noite agora, diga a todo mundo, encontro com Momo e Abdul na Zona 4 ... jihad Islamia Allah Akhbar."

"Jihad Islamia Allah Akhbar" fala por si, não?

Samir diz:

"Você acha mesmo que a gente vai parar agora? Tá doido? Vai continuar, non-stop. Ninguém vai desistir. Os franceses não vão fazer nada e logo logo a gente vira maioria aqui."

Como é que Samir sabe que "os franceses" - repare como eles não se sentem franceses, mesmo tendo nascido lá - não vão reagir? E por que a promessa de "virar maioria" é tão atraente? Isso mesmo: a consciência do politicamente correto que paralisa a França e o separatismo da cultura islâmica. Eles não estão reclamando por serem "excluídos", eles estão se insurgindo para se distinguirem cada vez mais do establishment liberal que os acolheu, constituírem suas próprias leis e "engolirem" por fim a sociedade francesa. É notório que, quando dizem "os franceses não vão fazer nada", estão bastante cientes da fraqueza de quem eles querem atingir.

O processo de islamização da Europa a que muitos analistas aludem (em português, Olavo de Carvalho e MSM; em inglês, Jihad Watch, FrontPage Magazine, por exemplo) não é brincadeira, mas uma realidade. Na Holanda mesmo, onde o cineasta Van Gogh foi assassinado, uma amiga que morou lá há quinze anos - há quinze anos! - me disse esses dias que os ônibus, metrôs e vias públicas em geral já traziam placas em holandês e em árabe. A islamização é galopante e acontece pelas duas vias: pacificamente ou não.

O próximo que vier me dizer que "a causa dos levantes é a pobreza" vai ouvir simplesmente "leia as notícias" - mas notícias de verdade, não esse negócio água-com-açúcar da grande mídia.

Violência em Paris (V) e a "Al Reuters"

Em um site, leio que no Cairo um sacerdote muslim egípcio, responsável por chamar os muçulmanos para as orações diárias, não suportou mais o peso de só ter filhas mulheres - uma humilhação para a cultura islâmica - e, depois de ter expulsado a mulher de casa, esfaqueou as sete no quarto enquanto dormiam, matando quatro. Alguém poderia argumentar que a lei islâmica não suporta assassinatos de crianças do sexo feminino, mas é fato que a misoginia, a violência e o senso de honra associados a filhos homens, aspectos da cultura de fundo islâmico, é determinante nessa história. A notícia em inglês está AQUI, e uma análise interessante do que ocorreu AQUI. Se você quiser ler a notícia em português, se for para o Terra terá a mesma carga de informação, mas se por azar acessar o Yahoo Notícias irá verificar que esse segundo site fez igualzinho a mídia francesa com relação aos levantes em Paris, distorcendo por completo a notícia: omitiu o cargo religioso do homem e o motivo do crime, enfatizando, em vez disso, ridículas discussões domésticas entre o homem e as mulheres da casa. Sorte minha (e dos leitores deste blog) que eu já tinha lido a nota completa antes de ler a versão adulterada em português. Mas não admira: enquanto o Terra usa a AFP como fonte, o Yahoo Notícias (e boa parte da mídia brasileira) reproduz as reportagens da Reuters, uma agência americana de notícias que já foi chamada ironicamente de "Al Reuters" por um dos blogs que pesquisei - ou seja, visivelmente comprometida em manter uma imagem lisa do islamismo no mundo. Comece a prestar atenção nas reportagens da Reuters, conferindo-as com outras, e com certeza você será testemunha de mais discrepâncias na mesma linha. Aproveite e poste-as aqui. Precisamos fazer isso porque com certeza há muito mais coisa de podre que possamos imaginar por baixo dos panos nessa relação entre esquerdismo (orientação da Reuters) e terrorismo islâmico...

Mais sobre o Egito, especificamente sobre a mudança de mentalidade que a conversão ao cristianismo proporciona a sacerdotes islâmicos, você encontra (em inglês) aqui.

Violência em Paris (IV) - BILAN


No blog Architecture and Morality, leio que um dos autores teve uma experiência muito ruim com alguns descendentes de imigrantes norteafricanos antes dos levantes de Paris. Episódios de violência gratuita são relatados por ele, como depredação de predios, ataques com pedras e tijolos a lugares públicos e um em especial testemunhado por ele: a agressividade explícita de um rapaz que recusou esperar seu lugar atrás dos outros em uma fila - agressividade finalmente recompensada com a desistência geral de protestar quando ao rapaz se junta um grupo anteriormente escondido e, pela força, eles conseguem passar à frente de todos. Vale a pena ler o texto. A foto de um dos conjuntos planejados, em Clichy, é desse interessantíssimo blog.

Mas vamos ao bilan (em francês, balanço geral de uma situação): quanto mais leio sobre os levantes em Paris, mais me convenço da impossibilidade de sustentar a tese da pobreza como causa de tanta violência. Os jovens em questão são descendentes de imigrantes da África do norte e subsaariana, em sua maioria de cultura islâmica; têm moradia subsidiada (prédios como esse da foto, de Clichy, com arquitetura planejada); têm saúde de graça e ainda recebem seguro-desemprego; costumam ser bem-vestidos (segundo testemunho de amigos que moraram perto dos subúrbios); os ataques à cidade têm sido organizados por celular e internet - o pobre que é pobre mesmo não tem isso. Em tudo, estão em condições infinitamente melhores que os pobres brasileiros. Afirmei isso a uma conhecida, que me respondeu: "Mas isso tudo, comparado com o padrão da França, é pouco."

Ah, sim. Mas então, esta é a justificativa para atos de violência: inveja. Parece-me bizarro que as pessoas estejam tão prontas a compreender que, em nome da inveja, sejam cometidas as maiores barbaridades. Essa é uma das conseqüências de se utilizar o materialismo marxista como chave de compreensão para todas as motivações humanas. As pessoas se tornam cegas para tudo o mais. Porém, se tal redução não é aceitável de forma geral, menos o é nesse caso específico.

O desemprego é real, mas o fato é que, na França de hoje, não há emprego para ninguém. A situação está difícil em toda a Europa. E o racismo remanescente na cultura européia é um dado a não ser desprezado, dificultando a integração desses filhos de imigrantes, que já são discriminados pelo nome árabe. No entanto, o que parece mesmo pairar acima de todas essas considerações, como uma dominante, é o fato de que, ao se rebelarem com tamanha fúria, os jovens não o fazem no vazio, mas usam a força destrutiva do radicalismo muçulmano - a mesma que sustenta ideologicamente a Jihad, ou seja, a guerra santa. Por mais politicamente corretos que os franceses queiram ser, precisam ter a coragem de reconhecer que há culturas no mundo que são mais difíceis de se integrar que outras. O islamismo tem se mantido estável por séculos. Os países islâmicos não passaram pelo processo ocidental de abertura para a diferença, de igualdade da mulher ou de liberação sexual. Nós temos um background cultural que eles não têm ou têm de viés, por influência paralela mas não significativa. Intoxicados de individualismo, temos a tendência de esquecer o quanto a cultura nos molda. Assim, se os esforços do governo para tornar franceses os descendentes de imigrantes parecem inúteis, não é uma crise de consciência socialista, mero mea culpa concentrado na questão econômica, que vai ajudar a França a enfrentar o problema.

Mas, a essas alturas, em um processo adiantado de decomposição dos valores franceses - cuja elite intelectual jogou fora a própria noção de "verdade" e se desembaraçou de seu cristianismo fundador em favor de uma laicidade porosa e estéril - , não sei mais o que a ajudará.

08 novembro 2005

Liberdade na internet ameaçada

Editorial do Estado de São Paulo - 07/11/05

Resumo (com as palavras do artigo)

A internet é gerida pela Icann (Corporação da Internet para a Designação de Nomes e Números), uma entidade privada, sem fins lucrativos, que funciona no Estado da Califórnia. Administrativamente, a Icann está vinculada ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Esse é um dos motivos pelos quais se atribui aos EUA a hegemonia sobre a internet. Na verdade, o governo americano sempre respeitou os termos do memorando de entendimento pelo qual cedeu a internet ao uso público, não se conhecendo um só caso de interferência sua nas decisões da Icann.

Há dias, numa reunião preparatória para a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, em Genebra, representantes de vários países lançaram uma ofensiva contra o que chamam de “hegemonia norte-americana sobre a internet”. Os países mais ativos desse grupo são o Brasil, a Arábia Saudita, o Irã e a China. Pretendem atribuir as decisões políticas da internet a um organismo intergovernamental – e dizem que, assim, reforçarão o multilateralismo, a transparência e a democracia. Desse grupo, no entanto, só o Brasil permite que seus cidadãos utilizem, sem restrições, a internet. Os demais proíbem o acesso ou impõem severas restrições ao uso da rede, submetendo seus súditos a pesadas penas, em caso de infração. Estão interessados em tudo – principalmente em exercer o controle político da internet, ou seja, poder censurar seus conteúdos –, menos em multilateralismo, transparência e democracia. O grupo que quer destituir os EUA do “controle” da internet é constituído por países sem vocação democrática – exceto o Brasil – e com forte vezo estatizante – e aí o governo brasileiro não é exceção. Daí quererem que a internet passe a ser administrada pela União Internacional de Telecomunicações, organismo da ONU que representa os interesses dos monopólios estatais – cuja existência é ameaçada pela própria internet. A sobrevivência de um sistema inovador e relativamente livre da interferência estatal está sendo seriamente ameaçada.

De fato, já tem gente por aí (como um certo professor da USP bastante badalado na mídia) falando a favor de uma "gestão multilateral da internet, transparente e democrática, com a plena participação dos governos, do setor privado e de organizações civis". Em Novilíngua (leia 1984 e desconfie cada vez que alguém de esquerda falar em "democracia"), isto significa controle, sobretudo estatal, sobre os conteúdos lidos. Quem não quer que a internet seja controlada pelo governo, tal como é na China, no Irã e na Arábia Saudita (o que o Brasil está fazendo no meio desse pessoal, meu Deus?), levante a mão e divulgue esse horror anunciado!

07 novembro 2005

Violência em Paris (III): evasivas de Villepin

Deu no Figaro:

À pergunta "Por trás disso tudo não está a mão dos islamismo?", o primeiro-ministro [Dominique de Villepin] respondeu: "Claro que há uma preocupação sobre isso, sobre o islamismo como uma influência radical. Mas não creio que seja o principal, ainda que não se possa deixar de levar em conta esse dado. É preciso considerar com cuidado o conjunto dessas ações, mas não é o principal", concluiu.

Então tá. Em sua grande maioria de origem islâmica, vindos de países como a Argélia, os jovens das periferias de Paris, sustentados pelo governo com o seguro social (sem nem precisar trabalhar), estariam fazendo tudo aquilo para chamar a atenção do país para sua desigualdade social? Ou por serem vítimas de racismo? Quer dizer que tamanho ódio - capaz de inspirar adolescentes a assassinar a pauladas um homem diante dos olhos da família, ou a jogar gasolina e tacar fogo em uma senhora aleijada olhando fixamente em seus olhos - deve-se a insatisfação com uma condição de vida precária? E por que a suposta falta de dinheiro não impediu a instalação de uma fábrica de bombas clandestina em um dos bairros de periferia - quase como nas favelas cariocas? Quem é capaz de explicar isso sustentando a tese da pobreza?

Incrível: o politicamente correto parece ter lobotomizado a França. Das duas, uma: ou as afirmações do primeiro-ministro são produções abobalhadas de uma mente doente ("não é o principal, não é o principal..."), ou ele tem contas a prestar ao mundo árabe - a quem o governo francês tem apoiado sistematicamente durante anos. Houve bastante coragem para vender armas a Saddam Hussein em pleno embargo da ONU, mas cadê a coragem para enfrentar a realidade sobre os levantes?

O pior é brasileiro acreditando nisso tudo... Leiam o Primeira Leitura! Leiam o MSM!

Artigo no MSM sobre a violência em Paris

Entenda a articulação que tanto a mídia brasileira quanto a francesa negarão até a morte: esquerdismo e terrorismo - não só em idéias, mas também em atos, sendo a França um país socialista que apóia a causa palestina, tendo inclusive vendido armas a Saddam Hussein em pleno embargo oil for food.

Quem fala disso no Brasil? Ninguém. Mas leia o Mídia sem Máscara e você vai ficar sabendo de muito mais. "Ah", você deve estar pensando, "mas o MSM é um reduto de paranóicos!" Bom, então leia não só o meu artigo, mas o artigo de Heitor de Paola, e rapidinho você mudará de idéia ao descobrir que todos esses escândalos do PT que estão estourando agora já eram matéria de especulação dos "paranóicos" há muito tempo. Confira!

Em tempo: o artigo de Nelson Ascher, da Folha de São Paulo, sobre os conflitos em Paris também está muito bom. Para quem não tem como ler, ponho aqui os dados relevantes apontados por ele, que ora confirmam, ora complementam o que escrevi:

- A condição econômica dos jovens insurgentes é melhor que a de 2/3 dos brasileiros, pois eles contam com o seguro do governo, podendo até mesmo deixar de trabalhar.
- Em maioria, eles são jovens muçulmanos do sexo masculino.
- A palavra de ordem do quebra-quebra é Allah Akbar (“Alá é grande”, em árabe).
- Os subúrbios de Paris têm estado cada vez mais perigosos, assim como as favelas daqui, um território com entrada vigiada e leis próprias.
- Mesmo com sua política sistematicamente pró-causa palestina e pró-árabe, bem como anti-americana e anti-israelense (igualzinho à esquerda brasileira), a França não garante sua segurança. Quem então garantirá?
- O Estado francês, com suas políticas “sociais”, vem vetando a discussão sobre o assunto. Resultado: os franceses não têm a menor idéia do que está lhes acontecendo. Como poderão lidar com o problema?


06 novembro 2005

A violência em Paris (II) e a mídia brasileira

Ciente de que os jornais franceses têm omitido, por ideologia politicamente correta, a origem islâmica dos jovens revoltosos nos subúrbios de Paris, reviro a internet brasileira para saber o que vem sendo divulgado por aqui. Resolvi bancar o brasileiro monolíngüe, com o objetivo de saber o quanto de informação estará perdida para quem não lê francês ou inglês.

Ainda não encontrei, em nenhum dos sites brasileiros que pesquisei, o relato dos fatos que mais chocaram a população francesa no início dos conflitos: um homem de meia-idade, parando seu carro para tirar uma foto na periferia de Paris, é atacado sem piedade por grupos de jovens, e morto a pauladas diante dos olhos estupefatos da família; uma pessoa deficiente é cercada em um ônibus, encharcada de gasolina e finalmente queimada viva. Os franceses começam a comparar esses dias com os dias da Bastilha. O problema é que a Revolução Francesa está bastante positivada no espírito da nação, e isto impede que tais fatos sejam encarados com a devida seriedade.

Vamos lá.

O Globo fala de uma possível relação entre os atos de violência e o radicalismo islâmico, mas o faz de passagem e sem explicar ao leitor brasileiro que a periferia de Paris é praticamente um gueto de imigrantes muçulmanos não-integrados (vindos da Argélia, de Marrocos, da Costa do Marfim) cuja violência já é conhecida há tempos. Confira o trecho: "As autoridades dizem que os protestos noturnos e violentos são organizados pela internet e por telefone celular e que, provavelmente, contam com o apoio de traficantes e ativistas islâmicos." Atribuir a mesma cota de influência a "traficantes" e "ativistas islâmicos", ainda pondo "traficantes" em primeiro lugar, não me parece dar o relevo necessário à questão. E a reportagem termina com uma declaração de político culpando o governo pelos distúrbios. No todo, é superficial, mas tem pelo menos o mérito de mencionar o islamismo.

O JB on line, no portal do Terra, traz detalhes quantitativos, mas ignora por completo, com relação aos conflitos, qualquer participação ou influência cultural do islamismo. Limita-se a dizer que "segundo a polícia, estes incidentes são resultado de ações esporádicas de grupos que se deslocam constantemente". Muito preciso.

O site do msn (não confundir com MSM), que sempre traz notícias em sua primeira página, fala de Bush e Lula, mas silencia absolutamente sobre o levante na França. Seus responsáveis não devem ter achado a notícia relevante...

O Yahoo traz uma notícia razoavelmente grande, com informações detalhadas, listas de cidades atacadas etc., mas não associa os atos de violência dos jovens das periferias a qualquer nuance de radicalismo islâmico, deixando a impressão de uma gratuidade sem sentido ao mencionar o termo "febre dos subúrbios".

Sei que minha pesquisa se limita à internet, onde a grande mídia brasileira não costuma ser muito generosa. Pode ser também que tenha me escapado um ou outro link. No entanto, quis apenas me sentir como o brasileiro que, acostumado a buscar na rede notícias sobre o mundo, procura se atualizar com relação ao que está acontecendo em Paris. Pelo que vi, esse brasileiro sai de sua procura apenas levemente informado - um "verniz" de acontecimentos que não lhe permitem refletir sobre a real dimensão do que está ocorrendo lá. É significativa a omissão quanto à origem islâmica dos jovens, tanto aqui quanto na França: pelo jeito, a correção política quer que associações negativas sejam somente privilégio dos Estados Unidos. Gostaria de ver um especialista francês em Islã se pronunciar com propriedade sobre o assunto, tal como o americano Robert Spencer. Vou procurar mais um pouco e posto aqui o que achar - se achar.

Terrorismo e polarização do mundo: Girard explica


Foto: Le Figaro, levante em Paris

O mundo parece estar se polarizando cada vez mais entre os que defendem a liberdade e os direitos civis, de um lado, e os que acreditam no estatismo e no totalitarismo como a solução para os males do mundo, de outro. No segundo lado, tudo indica que há mais gente: é onde muitos costumam defender, justificar ou minimizar a truculência do terrorismo, já que são contra o "grande vilão" Estados Unidos. É o mecanismo do totalitarismo da vítima em plena ação, percebido pelo antropólogo René Girard : quem se coloca no papel da "vítima" passa automaticamente a ter o direito legítimo de cometer atrocidades. No comunismo (que muitos dizem extinto), a intervenção brutal no livre-arbítrio das pessoas, com coação e mortes por parte das autoridades governamentais, ainda é legitimada - na China, na Coréia, em Cuba e, embrionariamente, na Venezuela - pelo argumento de que tudo é feito "pelos pobres". Girard enfatizou em entrevista que o comunismo é o regime que faz vítimas em nome de vítimas. Isso parece ter virado "moda", e até o mais pacífico dos cidadãos brasileiros pode vociferar e cuspir quando fala dos EUA, enquanto dá de ombros diante do 11 de setembro ou não se importa com o jugo que ditadores como Saddam Hussein impõem no Iraque ou no Kuwait. É como se praticamente o mundo inteiro estivesse gerando um ódio mortal sem precedentes contra os EUA e Israel, com base nesse mecanismo que se autoperpetua pela dificuldade de ser combatido: afinal, o pensamento politicamente correto sempre protege as "vítimas", façam o que fizerem. De minha parte, uma grande tristeza pela constatação de que o século XXI se anuncia como mais violento que o anterior. Não preciso me alongar para dizer por quê: Girard explica.

Violência em Paris (I)

Corbeil-Essonnes, França
Fonte: Le Figaro

O boneco do McDonald parece apontar pateticamente para o que restou da lanchonete, primeiro arrasada pela passagem de um buldôzer (sim, buldôzer!), depois incendiada. Ah, se os jovens daqui fossem como os de lá, já imaginaram? Mas vejam o teor das manfestações anti-Bush de hoje em todo o Brasil: lançamento de ovos, queima de "judas", janelas de embaixada quebradas, prisões... Estamos chegando perto: daí para o buldôzer, é só uma questão de ousadia.

Aparentemente, tudo começou porque dois adolescentes de origem islâmica, Bouna e Zied, crendo-se perseguidos pela polícia, esconderam-se dentro de um transformador e, por acidente, foram eletrocutados. Esse foi o estopim para as depredações em massa que têm abalado os arredores de Paris por dias a fio, contabilizando hoje mais de mil veículos destruídos, além de um sem-número de prédios municipais, escolas e estabelecimentos incendiados.

Assusta a média de idade dos manifestantes, dezoito anos, mas não surpreende sua origem comum: há vinte anos os bairros pobres na periferia de Paris são as barricadas onde tem se desenvolvido sem freios o ódio separatista, oriundo de uma cultura de imigrantes que já chegam ao país estrangeiro recusando a integração. Os professores das escolas públicas têm lidado por muito tempo com um problema que parece sem solução, a extrema agressividade dos jovens das periferias. O especialista em Islã Robert Spencer (ver artigo em inglês) acertou na mosca ao declarar que "os revoltosos são parte de uma população que nunca se considerou verdadeiramente francesa", demonstrando o que a essa altura é impossível ignorar: longe de uma simples insatisfação juvenil contra a pobreza e a ausência de perspectivas, tamanha onda de violência tem associações estreitas com o mesmo sentimento que leva radicais islâmicos a se engajarem em uma "guerra santa", para a qual até crianças são convocadas. Porém, isso parece não ser compreendido pelas teimosas autoridades francesas, que insistem em justificar toda essa violência com as condições econômicas precárias da população das periferias. Não admira: mergulhado na atmosfera politicamente correta que cozinha a Europa há pelo menos quarenta anos, o povo francês está impedido, por escrúpulos socialistas, de perceber o outro lado das diferenças culturais, deixando de abrir os olhos para o poder crescente do terrorismo em todo o mundo - que não se faz sentir por persuasão apenas, mas pela força da espada. Casos como o de Theo Van Gogh não me deixam mentir.

03 novembro 2005

"A verdade não existe"


Depois de ouvir por anos a fio na academia a terrível frase "a verdade não existe", há um bom tempo tomei uma decisão de uma vez por todas: considerar nulidades intelectuais todas as elaborações teóricas ancoradas sobre tal afirmação. Independente da motivação de seus defensores, a frase revela tanto da desonestidade intelectual (consciente ou não) de quem a pronuncia, que sequer tenho mais paciência para me embrenhar em discussões intermináveis com o objetivo de me opor a ela. Ridicularizável em menos de dez segundos, "a verdade não existe" foi concebida para se alçar cinicamente a uma condição superior a todas as enunciações possíveis, pois se presentifica necessariamente como uma "verdade" ao mesmo tempo em que impede sua refutação. É portanto pura crueldade discursiva, terrorismo lingüístico passando-se por resultado de processo argumentativo, com o fim de paralisar a atividade mental do receptor. É, acima de tudo, o lema da indigência intelectual de nossa época - e, como lema, não precisa mesmo prestar tributo à coerência, assim como "é proibido proibir". Mas o que fazer, se a própria academia, que se quer instância "produtora" de conhecimentos por excelência, não se cobra maior razoabilidade? Em vez então de tentar afrontar essas "teorias", uma por uma, em pé de igualdade na arena dos debates intelectuais - e elas são tão numerosas quanto os Smith de Matrix II - , melhor simplesmente sair de perto e deixar que se explodam sozinhas em suas bombas pseudoconceituais. Mais sábio e eficaz é tentar desatar, nas profundezas, os nós cognitivos geradores dessas tautologias modernas - para prevenir o estudante de uma vez por todas de cair nas garras de mais um Smith da vida.

Se você duvida do que estou dizendo, imagine o seguinte diálogo:

- Blá blá blá blá blá, porque não há teoria mais verdadeira que a outra, porque tudo são construções humanas, porque a verdade não existe - declara um estudante, repetindo o que o professor falou.

- Mas criatura - rebate o outro - , você não percebe que, se eu acreditar em você, o que você diz agora também entra para o rol das "construções humanas" e das "verdades que não existem"? E isso desmente tudo o que você falou. Ou por que justamente as suas afirmações iam fugir da comprovação da sua teoria?

- . . .

Ou seja: essas afirmações não são sequer afirmáveis, apenas um curto-circuito mental. Não dá para levar a sério, dá?

02 novembro 2005

Uma leitura do Primeira Leitura

Na crítica política anti-esquerdista, além de escrever muito bem, Reinaldo Azevedo do Primeira Leitura conjuga qualidades de Olavo de Carvalho e Diogo Mainardi: do primeiro, a coragem de dar nomes aos bois e às bovinas perversões, com a linguagem forte que o assunto requer; do segundo, a capacidade de fazer uma verdadeira festa de humor irônico com as mancadas dos outros. Acompanhando seus textos há algum tempo, tenho para mim que se supera deliciosamente quando fala de Emir Sader. Vejam um parágrafo genial de seu artigo de ontem:

Um leitor me manda um e-mail informando que o professor Emir Sader, cuja notória produção intelectual é defender o PT, escreveu que "a Veja é a pior revista do Brasil". Acho uma terrível injustiça. Eu juro que a equipe de Primeira Leitura faz um esforço danado para ser considerada por ele a pior publicação da história. É verdade que, perto da gigante, a gente é quase nada — mas o que conta é a ruindade... Eu prometo ao leitor: até que Sader não nos veja como a coisa mais detestável da mídia, não descansaremos.

Hahaha! Essa deve ser a ambição de muita gente boa que conheço...

26 outubro 2005

O que os EUA me ensinaram


De minha viagem à Disney aos quinze anos, tenho algumas lembranças marcantes, e duas delas contrastam fortemente com a realidade que tinha até então experimentado no Brasil.

Uma delas foi na própria Disneyland, quando, por reflexo, joguei a embalagem de sorvete no chão do parque impecavelmente limpo. Olhei em torno e havia dúzias de lixeiras enormes ladeando toda a rua; olhei para baixo, e apenas o meu papelzinho era estrela solitária naquele céu liso, uma vergonha para mim. Depois de hesitar um pouco, abaixei-me resolutamente, catei o papel e o depositei em uma das latas. Desde esse dia, exatamente dezenove anos sem sair do Brasil, nunca mais joguei nada no chão – mesmo que isso significasse andar um bom tempo com algo levemente pegajoso na mão ou na bolsa. Foi uma experiência que me educou para sempre.

A outra foi em frente ao hotel onde estávamos, quando, depois de ter comprado alguns petiscos para comer no quarto, eu precisei atravessar uma imponente auto-estrada de mão dupla por onde carros passavam em alta velocidade. Já tinham me contado que ali não havia sinal, pois os carros parariam assim que alguém se posicionasse no meio-fio, esperando. Mas nada se compara à sensação de comprová-lo: eles pararam lindamente, um do ladinho do outro, só para que eu – eu! uma moleca de quinze anos – desfilasse com total tranqüilidade diante dos monstros resfolegantes, só faltando dar a eles um tchauzinho de alegria.

A primeira, uma experiência de responsabilidade. O Brasil não nos ensina isso: pelo contrário, a todo momento somos recompensados pela maleabilidade das regras quando as infringimos, ou punidos pela nossa insistência em cumpri-las. Um buzinar impaciente atrás do carro parado à noite em sinal vermelho, o perdão da bibliotecária amiga pelos meses de atraso na devolução dos livros, o riso alheio de escárnio quando contamos que perdemos a bolsa de estudos porque dissemos a verdade sobre um emprego novo.

A segunda, uma experiência de valor individual. A quase neutralidade na reação corrente aos maliciosos esquemas da política e até o menor exemplo de comportamento cotidiano mostram que se entranha cada vez mais profundamente no espírito do brasileiro que as instituições ou as coletividades são mais importantes que as pessoas. O corporativismo nas empresas e universidades públicas, a voracidade do Estado que inibe a iniciativa privada e incha com a quarta parte de nossos salários, o tapinha nas costas que substitui a crítica isenta só para que todo mundo continue "unido", a brutalidade com que somos conduzidos pelo motorista nos ônibus das grandes cidades – tudo no Brasil favorece um resignado ou cúmplice encolher de ombros perante a grande máquina que, estatal, coletivista ou mecânica, sempre envolta em fumaças de "cordialidade", representa um simulacro de transcendência que oprime e não ama, comprazendo-se em chacoalhar corpos e almas até que se indistingam uns dos outros em uma massa amorfa e inerte.

Quisera eu que não fosse assim. Mas tem sido. Ainda que se negue tudo o que no Brasil tem pisoteado nossa liberdade individual – a falta de solidez que impede qualquer plano para o futuro, a vigência de leis absurdas e modos ainda mais absurdos de contorná-las, o monocromatismo das idéias que se impõem sem permitir contestação, a deterioração não natural, mas sobrenatural, do que nos cerca – , mesmo a menor atenção prestada aos olhares apagados que se cruzam com os nossos no dia-a-dia será testemunha disso. Quisera eu que substituíssemos o cultivo ao ódio pelos Estados Unidos, quase obrigatório em círculos bem (mal) pensantes da intelectualidade (hein?) brasileira, por uma saudável reflexão acerca do que lá nos incomoda tanto, e do que afinal temos feito aqui, para transformar pouco a pouco este país em um verdadeiro inferno.

21 outubro 2005

O mal que sai da boca*


Enviei a amigos uma espécie de resumo dos meus posts sobre desarmamento. Um deles, um amigo leal que votará no "sim", resolveu disponibilizá-lo em sua lista de difusão para equilibrar o debate. O texto gerou polêmica entre participantes da lista, entre os quais um irmão que me contactou de forma amigável, dizendo-se pelo "sim" e expondo seus argumentos. Antes disso, porém, tendo recebido de outro participante uma verdadeira bomba textual, eu já nem queria mais tocar no assunto. Deixei a mensagem-bomba sem resposta, mas não faria o mesmo com a mensagem gentil. Escrevi:

Em primeiro lugar, obrigada por seus comentários polidos e respeitosos.

Tenho muitos amigos cristãos que votarão no "sim" e de vez em quando mando alguma mensagem a eles. A que você recebeu foi uma delas. Não pretendia criar polêmica com ela, já que foi escrita para pessoas que me conhecem, com argumentos bastante breves. Um amigo tomou a liberdade de divulgá-la em sua lista de difusão, o que isoladamente não me chatearia de modo algum; infelizmente, acabei sendo alvo de palavras muito duras e injustas por um dos participantes da lista, a quem sequer conheço pessoalmente. Ainda estou em estado de choque pela violência dessas palavras - se me permite a franqueza.

Estamos em tempos muito difíceis, em que muito se fala em pluralidade de opiniões, liberdade de expressão etc., mas existe uma espécie de vigilância quase policial quanto a determinadas idéias - e hoje essa questão do desarmamento tem suscitado muito ódio entre as pessoas, inclusive na igreja, descubro agora. Permita-me, por favor, simplesmente fazer isso: agradecer a polidez de suas palavras e abster-me de continuar argumentando. As palavras daquele participante me feriram, e eu prefiro agora ficar em silêncio e esperar que a vontade de Deus se manifeste em relação ao referendo.

Porém, se como irmã em Cristo eu puder lhe pedir algo, peço-lhe o seguinte: que não ecoem em seu comportamento palavras amargas para com quem votará no "não"; que por sua boca não seja atribuída, a nenhum outro cristão conhecido seu, a pecha de amante da violência ou de falso cristão, ou algo semelhante. Basta de sofrimento. Deixemos cada um com sua opinião, e Deus como juiz de todos.

Pela sua delicadeza demonstrada para comigo, sei que fará o que lhe peço.

Abraço fraterno,

Norma


Observação do dia seguinte: Hoje soube que o participante que enviou a "bomba" já foi político, tendo sido expulso de uma lista de discussão por suas posturas radicais. Não me surpreenderia se soubesse que ele ainda atua em uma dessas ongs a favor do desarmamento. Isso explicaria sua insistência em publicar no site do meu amigo suas palavras injuriosas contra mim. Como um exemplo do que Olavo sempre diz (e Girard demonstra), ele me acusou de "agredir" os leitores do site apenas para se justificar previamente e me agredir à vontade. No texto dele, acusa-me de leviandade e calúnia, insinua que não conheço minha fé nem a Bíblia, "desafia-me" a provar o que digo. Buscando me desmoralizar, usa e abusa do argumentum ad ignorantiam ("não estou sabendo de nada disso, logo é mentira"). Ora, se ele realmente não sabe, que vá se informar, que vá buscar no Google as fundações Ford e Rockefeller relacionadas a medidas desarmamentistas, que vá ler o Olavo e o Mídia sem Máscara! Não apresentei ali nenhuma novidade de informação que não possa ser checada pelos leitores. Porém, não tenho certeza se ele realmente não sabe do que estou falando. Afinal, refutar idéias apenas duvidando da integridade moral de seu autor - ou seja, bater em vez de argumentar - é um artifício que só põe em cheque as verdadeiras motivações de quem assim procede.

A pergunta que resta: Como pode alguém que fundamenta seu "sim" com brios pacifistas lançar mão de tanta violência verbal quando se trata de defender seus argumentos? E ele não é o único caso de que tenho notícia. Pessoas que vão votar pelo "não" têm sido alvejadas sem piedade, sendo questionadas em sua moralidade, em seu cristianismo, em seu amor pelo próximo - prova de que boa parte dos que votarão pelo "sim" não são tão pacifistas quanto gostam de demonstrar. Tenho mais que esboços de resposta a esta pergunta, mas deixo a reflexão para o leitor.

*Mateus 15:18

19 outubro 2005

Desarmamento: última pergunta


Uma última pergunta para quem vai votar a favor da proibição ao comércio de armas.

Suponhamos que você se encontra com um amigo na rua. Discorrendo longamente sobre a falta de segurança e a inaptidão do Estado em garanti-la, seu amigo declara que, após ter cumprido todas as medidas legais para a posse, está indo comprar uma arma. Você se escandaliza, pois seu amigo sempre havia sido um grande defensor da paz em quaisquer circunstâncias. Ele explica que continua sendo, mas que, diante dos casos de violência que tem presenciado, inclusive com parentes e amigos próximos, prefere se responsabilizar pessoalmente pela segurança de sua família, já que os aparelhos estatais estão se provando ineficientes. Você insiste em que ele não compre sua arma, pois o poder de destruição que ela tem sempre pode se voltar contra quem a possui, seja em acidentes em casa, seja no momento de usá-la contra algum bandido. Seu amigo responde que compreende esses perigos, mas acredita que são muito menores que o perigo de andar desprotegido ou deixar sua casa à mercê de invasores.

Nada convence seu amigo de que não deve comprar a arma. Você o acompanha até a loja. De qual das duas maneiras você se comporta?

1 - Assiste à compra da arma, chateado porque não conseguiu convencê-lo.

2 - Por algum meio a seu alcance, impede que ele compre a arma.

Se você adota o comportamento número 1, repense seu "sim" à proibição de compra de armas: a nova lei corresponderá exatamente ao segundo comportamento.

Se você adota o comportamento número 2, confirme seu "sim", mas reconheça que, votando pela proibição, estará impedindo o acesso legal às armas a todos que pensam como o amigo - ou seja, proibindo, e não convencendo.


Moral da história: você pode até votar "sim", mas precisa ser honesto o suficiente para reconhecer a arbitrariedade de seu gesto. Não é porque a proibição se tornará lei que ela será menos arbitrária. A história está cheia de episódios em que as leis militavam contra liberdades básicas da população. E, se um dia algum louco resolver tomar o poder à força no país, como fizeram tantos ditadores na história, você está pronto para assumir as conseqüências de votar uma proibição dessas?

Porém, caso vença o "sim" e mesmo que nada disso ocorra, seria salutar lembrar-se do seguinte: assim como a campanha pelo desarmamento responsabiliza o comércio de armas pelos acidentes, você poderá ser responsabilizado por todas as mortes, os estupros e os roubos que poderiam ter sido evitados pela presença de uma arma na mão da vítima.

15 outubro 2005

O silêncio de Deus


Uma vez, li que um pastor estava chateado porque Deus havia parado de falar com ele. Esse pastor havia tido experiências muito fortes com Deus - que se revelava quase audivelmente - e andava se sentindo um pouco abandonado. Então, foi para o monte e clamou a Ele, pedindo uma palavra, uma explicação, um sinal. Vieram-lhe à mente algumas verdades bíblicas sobre a imutabilidade de Deus, sobre a Sua graça - e o pastor entendeu naquele momento que, se Deus estava quieto, era porque tudo o que havia dito estava por ora suficiente, sobretudo a certeza inabálavel que ele agora possuía das maravilhosas implicações da obra de Cristo na cruz. Lembrou-se de toda essa riqueza que lhe tinha sido dada para sempre e, por gratidão, chorou.

Mal sabia eu que essa leitura me alimentaria para algo que seria de minha própria experiência alguns anos mais tarde: o silêncio de Deus. (Mal) acostumada, tal como uma criança que tem satisfeitas todas as suas vontades, eu me senti murchar quando, ao contrário do que acontecia antes, Deus parecia não me trazer nada à mente com a oração - palavras, versículos, insights, visões esclarecedoras, tudo isso agora parecia fazer definitivamente parte do passado. Agora, pensei eu, teria que costurar algumas impressões aqui e ali, de modo confuso, para ter alguma idéia do coração de Deus sobre o que eu havia posto diante Dele.

Foi quando a leitura da história do pastor sobre o silêncio de Deus me fez pensar. Por que não fala mais? Ou, por outra, por que não fala mais destes modos a que eu havia me acostumado? Sim, porque um dos modos (e justo o mais impactante para mim) permaneceu: a organização da mente a que Ele procede através das obras de autores não-comprometidos com o anticristianismo moderno, que não negam a verdade nem a transcendência mas as buscam como aquilo que há de mais importante (Olavo de Carvalho, René Girard, John M. Ellis, Glenn Hughes, Eric Voegelin, Louis Lavelle, Viktor Frankl). Sem essa ação sobre a mente, verdadeira "arrumação de Deus", reconheço, grata, que não poderia viver.

Não que viver sem as intervenções mais diretas (e miraculosas no sentido estrito) de Deus seja um mar de rosas. Mas tenho aprendido algo sobre esse silêncio: quando ele ocorre, é porque não há novidades em especial da parte Dele. Posso seguir em frente com tranqüilidade apenas lembrando-me de tudo que já me foi dito. É quando a exortação do salmista Davi parece ganhar força especial: "Bendize ó minha alma ao Senhor / e não te esqueças de nenhum de Seus benefícios." A memória é nossa grande aliada para trazer ao dia presente aquilo que, para Deus, continua valendo. Pois talvez uma das graças mais lindas que Deus pode nos conceder seja a capacidade de perceber o fio condutor que mantém alinhados a uma rede de sentido nossas ações, nossas decisões e nossos estados de alma. Reconhecer como estamos e entender o que Deus nos tem ensinado é condição sine qua non para a saúde emocional e espiritual do cristão verdadeiro e amoroso para com Deus. Porém, períodos particularmente confusos podem ser férteis, pois algumas questões antigas podem retornar para ganhar profundidade.

E, por causa da angústia, consigo reconhecer por fim que minha revolta com o silêncio de Deus vem do borbulho de um medo irracional: de que Ele tenha mudado com relação a mim; de que Ele não me ame mais; de que Ele tenha parado de perdoar os meus pecados. São momentos em que até o medo de não ser realmente salva pode se insinuar por entre esses pensamentos tortuosos: muda diante de Seu silêncio, penso, teria eu perdido o rumo do coração de Deus? Porém, a verdade é que Suas ovelhas não se perdem - não porque saibam trilhar retamente o caminho, mas porque, sempre que tendem para o lado, Deus as traz de volta. É essa a garantia que nós temos.

Em tempos de silêncio, posso então compreender que a grande revelação que Ele tem para todos nós o tempo todo, sempre nova porque maravilhosa, é: "Há perdão para você, não importa o que tenha feito ou o que ainda faça; há perdão para você em meus braços."

12 outubro 2005

Ainda desarmamento: Lula e o "sim"



Está no artigo do Reinaldo Azevedo (Primeira Leitura). Em texto publicado na Folha de domingo pela defesa do "sim" - não seria aliás pouco recomendável um Presidente da República manifestar-se tão abertamente por uma das opções, em vésperas de plebiscito? - , Lula parece reforçar o gosto petista pelo autoritarismo:

Agora, o Brasil tem a oportunidade de dar um passo além, com a realização do referendo popular que vai definir se a comercialização de armas deve ou não ser proibida no país. Contra a proibição, argumenta-se que o cidadão estará desarmado e que ele é o responsável pela sua vida. Esta, no entanto, não é uma responsabilidade individual, mas do Estado detentor do monopólio legítimo da violência e responsável pela segurança pública.

Detentor do monopólio legítimo da... violência? Entenderia se ele tivesse usado qualquer outro termo de "fumaças" mais positivas. Que estranho, usar uma palavra tão virulenta para defender a abolição das armas. De onde ele terá tirado isto? Irônico mas preciso, Azevedo garante que é ato falho - um tropeço inconsciente que, segundo Freud, expressa uma verdade à revelia do interlocutor.

Em uma pesquisa rápida pela internet, qualquer um encontra que "monopólio legítimo da violência" é expressão de Max Weber aplicada ao Estado, "uma associação política que reivindica com sucesso o monopólio legítimo da violência dentro dos limites de um território". Ou seja, o Estado concentra para si o privilégio de exercer coação, e isto o define. Porém, existe uma tradução bem melhor, que troca a palavra "violência" por "força", sem dúvida mais positiva. Essa variação também é abundante no espaço virtual. O ghost writer de Lula deveria, sabendo disso, ter trocado a palavra. Senão, nós, que entendemos várias iniciativas do governo Lula como verdadeiras violências - a ordem de expulsão daquele jornalista americano, a Ancinav, a Cartilha do Politicamente Correto, o caso Celso Daniel, a ocultação e os desígnios do Foro de São Paulo, a associação com as Farc, a amizade com Fidel e Chávez - , deitamos e rolamos com esse tipo de "ato falho".

Observação: Já que, como diz o texto, a responsabilidade pela vida não é individual, mas do Estado, o que acontece se o Estado brasileiro claramente não cumpre com sua responsabilidade - se até mesmo seus representantes não parecem padecer do mínimo constrangimento ou da mínima censura por terem pedido licença, desarmados, para subir a favela? Nesse caso, o que resta como alternativa ao brasileiro desarmado? Morrer?

06 outubro 2005

O Chávez é uma "pessoa maravilhosa"!



Depois da entrevista com o Hugo Chávez no programa Roda-Viva, cheguei à conclusão: o atual presidente da Venezuela é uma "pessoa maravilhosa"! Não na acepção comum, claro, mas segundo o epíteto que Olavo de Carvalho atribui aos esquerdistas high society - ou que eles mesmos se atribuem, mimando uns aos outros automaticamente apenas por pertencerem ao petit noyau de la gauche sophistiquée (no caso do Brasil, um petit bem grand...). Nesse sentido, Chávez é um revolucionário charmosão e simpaticão incensado pela classe artística brasileira, muito bem representada nas fileiras socialistas. Não havia um Duda Mendonça visível a quem se pudesse parabenizar pela boa impressão que ele dava na roda: além de responder a todos com sorrisos, por mais incisiva que fosse a pergunta, chegou a mandar beijos no ar com a mãozinha para a Beth Carvalho, que tinha feito a ele uma pergunta gravada em vídeo - ainda acrescentando que se lembrava bem "daquele passeio à Mangueira"! Nada protocolar, hein?

Em suma, mostrou-se muito bem adaptado ao estilo espontaneísta do esquerdismo chique. Ele se alinha menos com a figura de Fidel (truculento, feio, com aquele barbão e aquele charuto) e mais com a de Caetano, Gil, Chico e toda a galeritcha esquerdinha maravilhosa do Brasil. Encarna todo o espírito paz e amor do Politicamente Correto (tendo inclusive citado a "liberação das mulheres" como um dos aspectos da mobilização popular que está fomentando na América Latina). Falou maravilhas de Cuba mas desconversou lindamente, sem agressividade, quando um dos jornalistas mencionou a violenta censura que vigora na ilha. Todas as perguntas eram respondidas com a voz calma, mas com rapidez de raciocínio, com muitos dados numéricos e um toquezinho pessoal - um comentário engraçado, um gestual simpático. Parecia que havia ensaiado a resposta a cada uma delas, de tão bem dadas. (Será que não as recebeu antes?)

Só surgia uma truculência calculada no momento em que falava do imperialismo americano e das "oligarquias venezuelanas". Mas com isto os esquerdopatas brasileiros estão acostumadíssimos: o único momento obrigatório de revolta da "pessoa maravilhosa" é quando cospe impropérios contra a direita e os EUA. Fez questão, porém, de manifestar a esperança de que o "povo americano reflita bem na escolha de seu próximo dirigente"... De resto, afirmou tudo aquilo que já sabemos de sua "lenda pessoal": que se vê como um revolucionário, que admira Che Guevara e Jesus Cristo como revolucionários, que a saúde e a educação na Venezuela deram um salto em seu governo, que está investindo em armas por pura "defesa" - essa, Girard explica - contra uma possível guerra com os EUA (dando como exemplo a relação deste país com o Paraguai, "suspeita", segundo ele), que busca um "equilíbrio" do planeta com a união de países da América Latina, da Europa, da Ásia; negou relações com as FARC a não ser como tentativas de apaziguamento, relatou indignado que empresas de petróleo venezuelanas nos EUA não mandavam um centavo de lucro para a Venezuela e que isso acabou em seu governo, confirmou que o governo Lula é sim de esquerda e que está chegando "lá" e que Lula é um grande homem e dirigente... Tudo isso com muitos sorrisos e um tom agradável na voz. Terminou a entrevista com uma piada, ao ser perguntado sobre se acreditava em Deus: depois de explicar que o socialismo que eles queriam no continente é um "socialismo cristão", disse que Cristo havia sido o primeiro socialista da História, e Judas Iscariotes, o primeiro capitalista, por tê-lo vendido... todos riram e a entrevista acabou assim. Ponto para ele.

Fiquei impressionada com o quanto o presidente Chávez "cabe" direitinho na imagem de "líder maravilhoso" por que o brasileiro esquerdoca chique está ansiando na América Latina. Impressionada. E com medo. Esperava algo mais populacho, mais burralhão, mais sem glamour, mais... Lula. Só que o cara parece ter tomado lições de "maravilhosidade". Cruzes.

Em tempo: para desmascarar boa parte do que Chávez disse, leia o post de Graça Salgueiro sobre a entrevista, no blog Notalatina. Diante dos fatos, todo o glamour chavista desaparece num piscar de olhos.

03 outubro 2005

Desarmamento: vote NÃO (4)

Um comentário muito perspicaz do meu amigo Ted Mueller, de Las Vegas, enviado alguns minutos depois da mensagem em que eu lhe contei sobre o referendo do desarmamento no Brasil (alguns assuntos, quando se tem deles as informações históricas corretas, não demandam muito tempo de reflexão para um posicionamento contra ou a favor):

Sorry to hear that Brazil is trying to take away the guns. That's the first step in a totalitarian state - you're right. In America, I thank God we can own guns. It's in the constitution (Second Amendment). The Founding Fathers knew their history and wanted a population that could defend itself in case the government came after them. In other words, they wanted a government afraid of the population not the other way around. We have an expression here, "If guns are outlawed, only outlaws will have guns."

Tradução:

Que pena saber que o Brasil está tentando se livrar das armas. Este é o primeiro passo para um estado totalitário - você está certa. Nos EUA, graças a Deus, podemos possuir armas. Está na constituição (Segunda Emenda). Os pais fundadores conheciam sua própria história e queriam um povo que pudesse se defender caso o governo se voltasse contra ele. Em outras palavras, queriam um governo com medo do povo, em vez do contrário. Temos uma expressão para isso: "Se as armas estão fora da lei, somente o fora-da-lei as possuirá."

01 outubro 2005

Desarmamento: vote NÃO (3)


A medida vai muito além de uma simples vontade política de diminuir os crimes por armas de fogo (e, como vimos, para isso ela não funciona): está enraizada em uma mentalidade daninha, que atribui ao Estado poderes que ele não deveria ter. Não é à toa que o presidente Lula, sempre que fala do Estado, usa a palavra "pai" para descrevê-lo; mas, em vez de um pai que possibilita crescimento aos seus filhos, emancipando-os por fim, o "pai-Estado" das esquerdas, na melhor das hipóteses, é um pai que mantém para sempre o filho sob sua tutela - isto quando não o engole, tal como Saturno na mitologia grega... Em regimes brandos, ou pré-totalitários, o pai-Estado impede os "filhos" de tomarem iniciativas por conta própria (exemplo: impostos abusivos aos empresários; recompensas e melhores salários para o burocrata estatal), infantilizando a população. O desarmamento é mais uma evidência disto: proibindo o cidadão pacífico de comprar armas, o Estado o trata automaticamente de incapaz ou descontrolado. Por que não parece ser suficiente a adoção de medidas para garantir que o comprador de armas seja alguém emocionalmente seguro de seus atos e tecnicamente hábil em manejar uma arma? Na verdade, isso já é praticado no Brasil, onde para se obter uma arma é preciso ser maior de 25 anos, sem antecedentes criminais, com residência e emprego fixos, além de ter passado em exames psicológicos e de aptidão. As estatísticas mostram que os crimes por armas de fogo não atingem esse contingente, mas sim os menores envolvidos com tráfico de drogas. Por aí se vê que o desarmamento, além de abusivo, é sem sentido.

No Brasil, cuja população já tem sido tão infantilizada por décadas a fio não só pelo modo paternalista de governar, mas por uma educação insuficiente e por uma mídia de entretenimento cada vez mais fútil e centrada na sexualidade - hoje, até sorvete e refrigerante são vendidos por meio de apelos ao desejo sexual - , o desarmamento só reforça a tutela do Estado, que se disfarça em pai controlador (como se dissesse "só estou fazendo isso pelo seu bem") para cravar mais profundamente suas unhas nas costas do povo. Se aprovado, o desarmamento não mudará em nada o panorama da criminalidade, mas será apenas mais um item no progressivo controle estatal, com prometedoras visões de totalitarismo. Quem viver verá.

Desarmamento: vote NÃO (2)

De Thomas Jefferson, uma afirmação que resume bem o primeiro post:

"Leis que proíbem o cidadão de ter armas são leis que desarmam apenas aqueles que, na sua ampla maioria, não estão inclinados a cometer crimes. Estas leis tornam as coisas piores para as vítimas e melhores para os marginais, elas mais encorajam que previnem os crimes, pois enchem de confiança os assaltantes. A mais forte razão, em última análise, para um cidadão ter direito às armas, é para proteger-se contra a tirania de um governo."

Desarmamento: vote NÃO


Tenho conversado por alto com algumas pessoas sobre o referendo do desarmamento e muitas delas me dizem que vão votar pelo SIM, por motivos pacifistas.

Ora, eu também sou pacifista; eu também detesto armas e detesto o potencial de destruição que elas trazem. Mas mesmo o mais pacifista dos brasileiros deve pensar no seguinte: quais seriam as conseqüências da proibição do comércio LEGAL de armas no Brasil, tal como propõe o referendo?

A primeira delas é que os traficantes e bandidos - que conseguem suas armas no mercado negro e que, portanto, não serão atingidos pela medida - vão se sentir mais à vontade para praticar seus atos, sabendo que não mais haverá pessoas armadas. Um importante dado de inibição psicológica será retirado. Logo, em vez de intensificar o combate à criminalidade, o "sim" à proibição contribuirá para que a população brasileira fique mais vulnerável a ataques. Confiram os dados: a Inglaterra optou pelo desarmamento, e hoje Londres é considerada "a capital européia do crime"; a Austrália também passou pelo processo, e os índices de criminalidade triplicaram em cidades como Victoria; a Jamaica também se desarmou, e hoje é um dos países mais violentos da América. Por outro lado, nos EUA, os estados que permitem a compra de armas têm mantido a criminalidade sob controle, e na Suíça, um dos países mais armados do mundo, os crimes por armas são em número tão baixo que nem entram nas estatísticas. Essas informações estão na recente edição da Veja sobre o desarmamento.

A segunda é mais complexa e deve ser vista à luz dos fatos históricos: países que tiveram proibida a venda legal de armas pagaram caro por isso, pois a medida fazia parte de um processo arbitrário por parte de um governo comprometido com ideais de controle ditatorial. Desarmando a população, esses governos conseguiram facilmente impedir resistência a decisões abusivas. Para quem acredita que isto jamais aconteceria no Brasil, convém não esquecer a adesão explícita de políticos brasileiros a ideais comunistas ou socialistas, regimes totalitários por natureza. Também são reveladoras as relações bem próximas do governo com líderes ditatoriais como Fidel Castro e Hugo Chávez: Cuba é um país que nega a seus habitantes direitos básicos de liberdade, punindo-os com a morte caso desobedeçam, e a Venezuela, para quem não sabe, está indo pelo mesmo caminho. Nessa segunda hipótese, os exemplos de países tomados por regimes ditatoriais logo após uma campanha de desarmamento são muitos. Além dos próprios Fidel e Chávez, ninguém menos que Hitler (Alemanha), Stálin (URSS), Mao Tsé-tung (China) e Pol Pot (Camboja) desarmaram suas populações. Mas não foram os únicos. Vejam os dados que recebi de um amigo:


Em 1929, a União Soviética desarmou a população ordeira. De 1929 a 1953, cerca de 20 milhões de dissidentes, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1911, a Turquia desarmou a população ordeira. De 1915 a 1917, um milhão e meio de armênios, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1938, a Alemanha desarmou a população ordeira. De 1939 a 1945, 13 milhões de judeus e outros "não arianos", impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1935, a China desarmou a população ordeira. De 1948 a 1952, 20 milhões de dissidentes políticos, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1964, a Guatemala desarmou a população ordeira. De 1964 a 1981, 100.000 índios maias, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1970, Uganda desarmou a população ordeira. De 1971 a 1979, 300.000 cristãos, impossibilitados de se defenderem, foram caçados e exterminados. Em 1956, o Camboja desarmou a população ordeira. De 1975 a 1977, um milhão de pessoas "instruídas", impossibilitadas de se defenderem, foram caçadas e exterminadas. Pessoas indefesas caçadas e exterminadas nos países acima, no século XX, após o desarmamento da população ordeira, sem que pudessem se defender: 56 milhões.

Todos esses dados que postei aqui podem ser confirmados por uma pesquisa rápida pela internet. O problema é que o brasileiro não conhece nem a sua própria história, imagina a de outros países...

Aos mais pacifistas (entre os quais me incluo!): mesmo se você se sente mal já de pensar em segurar uma arma na mão, não permita que o Estado retire das pessoas o direito de se defenderem. Não faz sentido proibir o cidadão ordeiro de comprar uma arma - um fazendeiro que mora longe das delegacias, por exemplo - enquanto os criminosos têm acesso fácil a elas pelo mercado negro. Aliás, o líder do MST, Stédile, está louco para que o desarmamento vingue - assim, os vândalos do movimento podem atirar à vontade seus coquetéis molotov nas casas sem perigo algum...


Em suma: desarmamento = maior vulnerabilidade a bandidos + maior vulnerabilidade ao totalitarismo!

No dia 23 de outubro, seja esperto, vote "não"!

12 setembro 2005

Exílio involuntário

Esse texto é um comentário a um post no blog Nadando Contra a Maré... Vermelha, de Luís Afonso Assumpção.

Oi, LA! Ontem mesmo eu estava comentando com um amigo que passei a vida inteira, aqui no Brasil, procurando algo que hoje dolorosamente constato que não existe. O que é esse algo? Lendo seu post, algumas idéias me vêm à mente, mas todas elas remetem a uma só noção: solidez. Solidez de tradição, de cultura, de democracia (verdadeira). Mas, sobretudo, solidez intelectual - algo que só poderia se exprimir pela palavra identidade. Eu queria de todo jeito me apropriar de uma sólida herança intelectual de meu país, integrando-me nela e engrossando-a com minhas pesquisas, meus insights, meu sangue e meu suor, se necessário. Hoje vejo que tal é impossível, pois o que poderia se chamar "herança intelectual" não passa de uma sombra, um caldo indefinível agora diluído em um caldeirão de idéias prontas e forjadas nas fôrmas tóxicas do marxismo, do relativismo, do pensamento politicamente correto, abundantemente regadas e nuançadas de uma auto-indulgência e uma autovitimização que a história brasileira não logrou erradicar, apenas travestiu de ideologia e propaganda. Não, não fui ao desfile. Nem pensei no dia da independência, para falar a verdade. Apenas me lembrei do número de anos neste exílio involuntário, nesta procura inexata e dolorida que sempre fez parte de minha juventude, e reafirmei meu desejo de continuar buscando - em outro lugar.

06 setembro 2005

A fanfarronice da Caros Amigos

Hoje, passando em frente a uma banca de jornal, vi a capa toda preta da revista Caros Amigos, com os dizeres:

"Corrupção: Somos todos desonestos?"

Praguejei em voz alta. Não costumo fazer isso, mas desta vez a fanfarronice foi demais. Com que autoridade, com que prepotência os autores da revista querem jogar de volta para o leitor brasileiro - decerto, sempre pronto a acatar todas as culpas - a pecha de "corruptos" para aliviar o bandinho governamental e pró-governamental pego em flagrante? Senti-me ultrajada, vilipendiada. Eles que vão purgar as suas culpas, que a mim elas nada dizem respeito.

Ah... Mas talvez eu não tenha entendido bem. Talvez o "nós" da revista - abençoada ambigüidade da língua portuguesa - não se refira, de modo algum, à totalidade de leitores umbigais, muito menos ao povo brasileiro, mas a eles próprios, o grupinho reduzido dos escrevinhadores. Ah, sim. Mas por que nos perguntam se eles mesmos são desonestos? Será que, à força de tanto fazer a coisa, de tantas justificativas às vezes até auto-impingidas, coitados, terão eles esquecido a natureza corrupta de seus atos e palavras?

Como cristã, diante da pergunta que não me compete responder, só me resta então recomendar o aviso do Apóstolo Paulo: "Que cada um examine a si mesmo."

27 agosto 2005

Amenidades 2: Mel, vulgo Gatolino


Não poderia deixar de postar aqui essa linda surpresa: eu achei que tivesse perdido para sempre a oportunidade de registrar o meu gatico Mel Brooks ainda pequenininho, quando descobri que a Steh havia tirado uma foto dele, no dia em que foi resgatado das ruas de Curitiba. A foto é linda! O olhinho assustado é por conta não da festa enorme em torno dele - todos querendo pegar no colo essa fofura de gato-e-sapato, nunca vi mais mimado e derretido - , mas da algazarra que o cachorrão oficial da casa estava fazendo. Nós nos distraímos, o Mel acabou ganhando umas sacudidas a dente do Robin, foi salvo pelo Pedro (graças a Deus) e hoje vive pacificamente, deleitosamente, aqui em casa, com direito a uma ração diária de muitos carinhos, muitos "eu te amo" e muitos beijinhos na barriga. (Detalhe: Mel é por conta da Steh, já que no início achamos que ele era "ela", e Brooks foi batismo posterior da Inês - para justificar o Mel masculino e, segundo ela, porque fica mais engraçado que "Mel Gibson".)

Amenidades, para variar: foto nova


Essa fotinha foi tirada pelo Dudu, irmão da Jackitz, em janeiro deste ano, e foi editada e colorida pela Inezinha. Olha só, quanta gente cuidando da minha imagem! Gostei tanto que queria colocar no profile. Não deu: o Blogger achou muito grande. Paciência. Pelo menos, fica por aqui.

24 agosto 2005

O marxismo e a teoria girardiana do bode expiatório (3)

Esse é o mesmo Lênin que as esquerdas moderninhas gostam de citar, um excelente exemplo de uma mente estragada pela belicosidade do bode expiatório:

"Lênin odiava a essência da democracia e encarava seus contornos apenas como um meio de legitimar a violência e a opressão. Em 1917, ano em que tomou o poder, definiu o Estado democrático como 'uma organização para o uso sistemático da violência de uma classe contra a outra, de uma parte da população contra a outra' (O Estado e a revolução, 1917). Quem para quem? era o seu critério supremo. Quem estava fazendo o que a quem? Quem estava oprimindo quem; explorando ou matando quem? Um homem que pensava assim e que não imaginava que se pudesse pensar de outra forma, como conseguiria vislumbrar um conjunto de medidas políticas que não fosse o despotismo, conduzido por uma autocracia e governado pela violência?"

Fonte: Tempos modernos, Paul Johnson

O marxismo e a teoria girardiana do bode expiatório (2)

No marxismo, um exame detalhado sobre a teoria de classes – em que uma explora e a outra é a explorada – bastaria para desbancar toda a doutrina. Não posso fazê-lo aqui, mas sei de alguns de seus furos. O filósofo Olavo de Carvalho chama a atenção para o fato de que, embora Marx tivesse atrelado a identidade individual à classe de origem, afirmando categoricamente que só o proletário poderia fazer a revolução, tal idéia básica de sua doutrina não se aplica a ele mesmo, que apesar de oriundo da burguesia teria "percebido" a opressão de uma classe sobre a outra. Esse tipo de alienação da realidade, em que o teórico não consegue nem enxergar a discrepância entre suas teorias e o que acontece em sua própria vida, é típica dos filósofos do século XX. Não é à toa que se trata do século pródigo em teorias atéias ou predominantemente anticristãs, filhotes de um processo em curso desde o Iluminismo. Nessas correntes, a enfática negação do cristianismo acaba funcionando como uma apologia ao mecanismo do bode expiatório – vide os exemplos de Maquiavel, que defendia a condenação à morte de antigos aliados assim que o Príncipe chegasse ao poder (sugestão fielmente seguida por líderes comunistas como Fidel e Lênin), e Nietzsche, que via nos "fracos" o mal da sociedade, em contraposição ao "super-homem". Todos eles, de uma forma ou de outra, são fabricantes de culpados, ao pregar que a eliminação do mal está não no sacrifício do inocente Jesus, mas na condenação de segmentos inteiros da sociedade, sejam eles representados pelos inimigos do poder, pelos judeus ou pela tal "classe dominante". É por isso que não há exagero em dizer que, assim como o nazismo, o marxismo levado às últimas conseqüências sempre gera assassinatos em massa, como forma de "purgar o mal" no melhor estilo do mecanismo do bode expiatório. Rússia, Cuba e China não me deixam mentir.

O marxismo e a teoria girardiana do bode expiatório (1)

René Girard é um dos autores que mais admiro no mundo. Ele é um dos raros pensadores cristãos da atualidade cuja fé não é acessória em suas teorias, mas central, atestando o quanto está mergulhado de mente, corpo e alma naquilo em que acredita. Seu conceito de “mecanismo do bode expiatório” é um verdadeiro tesouro para quem quer que sinta a necessidade de compreender tanta matança, tanto ódio justificado racionalmente, em pleno século XX, o século de duas guerras mundiais.

Segundo Girard, todos nós sabemos da existência do mal e sentimos a urgência de uma solução para ele. Para os cristãos, Jesus trouxe essa solução, ao levar embora nossos pecados sacrificando-se Ele mesmo por nós – fazendo-se "maldito" em nosso lugar, como nos diz o apóstolo Paulo. Foi o sacrifício de um inocente, e nós, que cremos nele, é que nos declaramos culpados (o arrependimento cristão é nada menos que isso). Porém, para quem não crê, o problema do mal resta irresolvido, e a solução social que todos encontram – todos, sem exceção, segundo Girard, que pesquisou muitas civilizações antigas e o comprovou – é o "mecanismo do bode expiatório": fazer com que alguém encarne o mal e acreditar de verdade que esse alguém é culpado, eliminando-o em seguida. Tal processo funciona como apaziguador temporário, já que se trata de um falso fator de união entre os demais - em ódio, não em amor. Enquanto a Bíblia enfatiza que o sacrifício de Jesus é eterno, nas sociedades que expiam o mal por si mesmas é necessária a instauração contínua de novos bodes, em uma cadeia de sacrifícios sem fim.

Isso se verifica facilmente nas grandes tragédias do século. O povo judeu foi o bode expiatório da Alemanha de Hitler, e durante todo o regime nazista o ódio aos judeus fez parte, sem contradições aparentes, de um só projeto nacionalista e unificador. Do mesmo modo, o vago conceito de "classe dominante" tem servido como base para a condenação de levas inteiras de bodes expiatórios nos países comunistas e nas organizações de esquerda em geral, que querem enxergar na extinção de classes um ideal de paz. No cristianismo, há a compreensão de que não há quem possa particularmente encarnar o mal, pois todos o reconhecem, de forma estrutural, em si mesmos ("todos pecamos, todos carecemos da glória de Deus", afirma o apóstolo); em Jesus, o cristão encontra ainda a resposta única e definitiva para o problema do mal. Já a sociedade que sustenta seus valores sobre o mecanismo do bode expiatório é sempre uma sociedade polarizada, que fornece subsídios ao infinito para a hostilidade entre seus membros, apresentando em seguida como solução dos conflitos o fim dos que representam o mal – por morte social ou física. Ao endossar a tal “luta de classes”, quem colabora com isso ajuda a perpetuar um ciclo verdadeiramente diabólico, pois não há sacrifícios que cheguem para a sanha dos que pensam combater o mal dessa maneira.