30 dezembro 2014

Rossini e Ray Conniff



Desconheço peças instrumentais tão engraçadas quanto as de Rossini ou Ray Conniff. Apesar das muitas características que os distinguem - época, estilo, o primeiro compositor e o segundo arranjador - , ambos são mestres em apresentar aos ouvintes o ridículo inerente à condição humana. (Aqui penso, sobretudo, na abertura de La Gazza Ladra - vídeo acima - e em Brazil.) Mas assinalo uma diferença fundamental: enquanto Rossini me emociona, Ray Conniff apenas me faz rir. E, à parte as qualidades musicais, talvez seja dessa natureza o abismo que os separa - o ridículo de Conniff, provavelmente inadvertido, resulta do contraste que há na abundância sentimentalista executada com perfeição formal; já o ridículo de Rossini é multifacetado como uma cosmovisão, com seus aspectos heroicos, trágicos, líricos, e subjaz às narrativas de todos nós.

Não poderia então deixar de desejar aos leitores um 2015 com menos Conniff e mais Rossini! :-) Feliz ano novo a todos!

24 dezembro 2014

Natal com Bach





Não pretendo afirmar que é errado comemorar o nascimento de Jesus. (...) Sim, dou graças a Deus pela época do Natal; graças a Deus pelo amolecimento que ela traz aos corações duros; graças a Deus pela identificação que proporciona às crianças pequenas a quem Jesus tomou em seus braços; graças a Deus, até mesmo, pela tristeza estranha e doce que nos traz, juntamente com suas alegrias, quando pensamos nos entes queridos que se foram. Sim, é assim que devemos celebrar o Natal, e que Deus nos dê sempre um coração de criança para que possamos celebrá-lo corretamente. Mas, sobretudo, meus amigos, não é o Natal o maior aniversário da igreja cristã. Não é tanto o nascimento de Jesus que a igreja comemora, mas sim, de modo principal, a sua morte.
Essa citação de Gresham Machen exprime perfeitamente bem meus sentimentos sobre o Natal. Faço um jantar especial e troco presentes, sim, mas tenho muito vívidas em meu coração as palavras de Jesus na última ceia (Lc 22.19-20) - mais um dos estranhos e lindos paradoxos da fé cristã, inserido no paradoxo maior que declara: só vivemos porque nos alimentamos de sua morte! Para ajudar você a refletir nisso, ofereço aqui o vídeo legendado de "A Paixão segundo São Mateus", do nosso irmão luterano Johann Sebastian Bach, que em sua música harmoniza como poucos verdade, bondade e beleza.

Feliz Natal!

10 dezembro 2014

Homeschooling: vote sim!

Há uma pesquisa no site do Senado que indaga:

"Você concorda com o projeto que prevê a possibilidade de a educação básica ser feita em casa?"

Se você está alarmado com a má qualidade da educação no Brasil e deseja que os pais brasileiros tenham um direito já garantido em vários outros países, vote SIM!

Na verdade, a proibição ao ensino em casa é ilegal, de acordo com Henrique Cunha de Lima, procurador do Ministério Público de Contas do Estado do Rio de Janeiro: o Brasil assinou tratados internacionais que são superiores ao ECA e à LDB (veja aqui). Mas precisamos de mais facilidade jurídica, pois muitos juízes não estão dispostos a abrir mão da ideia de que o Estado é o mais importante educador das crianças brasileiras - o que é um absurdo e deve ser tratado como tal. O que começou como direito não pode se transformar em obrigatoriedade!

Liberdade para homeschooling já!


02 dezembro 2014

Ódio à verdade

Eu sei que faz tempo, mas não dá para esquecer Jean Wyllys fantasiado de Che Guevara para uma foto. Consta que ele ficou bravo por ser criticado. Eis o que ele disse:

O argumento de que "Che Guevara era homofóbico" além de empobrecer uma rica biografia e de simplificar uma personalidade complexa – e só ignorantes são capazes desse reducionismo constrangedor – não leva em conta que em sociedades capitalistas como a nossa e dos EUA os homossexuais são vítimas não só de discursos de ódio, mas de homicídios numa proporção assustadora...

A coisa já começou mal: "O argumento de que ‘Che Guevara era homofóbico’..." Não se trata de um "argumento", mas sim de um fato, que não escaparia ao conhecimento de Wyllys caso ele fizesse questão de conhecer melhor a pessoa por trás do símbolo. O escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, em Mea Cuba (editado no Brasil pela Companhia das Letras), conta uma história que ilustra o ódio que Guevara nutria por homossexuais. Na década de 1960, em visita ao embaixador cubano na Argélia, Che viu na estante da biblioteca as Obras completas do poeta Virgilio Piñera e esbravejou "Como você pode ter o livro dessa bicha na embaixada?", jogando um volume contra a parede. Temeroso, o pobre embaixador jogou os livros no lixo.

Eu só fico pensando... Os militantes do lobby gay têm os cristãos como grandes inimigos, porque cristãos consideram a Bíblia sua base de fé e acreditam que o homossexualismo é pecado - um dos muitos pecados que fazem parte da natureza humana desde a queda. Trata-se de uma categoria TEOLÓGICA que tem sido objeto de muito malentendido por aí. Dizer que o homossexualismo é pecado não equivale a aprovar qualquer tipo de violência ou repressão contra os gays, pois sabemos muito bem que só Deus pode lidar satisfatoriamente com o pecado humano. Chamar o homossexualismo de "pecado" significa apresentar a possibilidade de perdão a pessoas que não estão felizes com suas pulsões homossexuais.

Dificilmente você vai encontrar um cristão esclarecido que aja como Guevara agiu. Pode perguntar a qualquer cristão que goste de literatura: você deixaria de ler Marcel Proust, Oscar Wilde e Tennessee Williams, por exemplo, só porque esses autores são gays? A resposta será um sonoro NÃO. 

No entanto, Jean Wyllys - sim, o aguerrido lobista LGBT Jean Wyllys - desculpa Che Guevara com as palavras "rica biografia", "personalidade complexa" e "reducionismo constrangedor", mesmo tendo ele feito algo que nenhum cristão digno de seu Mestre sonha em fazer: condenar um poeta gay à lata do lixo.

Dois pesos, duas medidas. Claro, porque o símbolo rende muitos dividendos ideológicos e deve ser preservado a qualquer custo. Sacrifique-se a verdade, por que não?

E ainda querem poder para legislar "crimes de ódio" no Brasil, inocentando um assassino que censura poetas e agride leitores, mas condenando um pastor inofensivo que pregue em Romanos 1 sobre pecado e perdão.